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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Preconceito

Esse semestre estou dando aula na Química, na Enfermagem e nas Ciências Contábeis. Dei a mesma disciplina nas três turmas, mas saíram muito diferentes, por causa das características próprias das turmas. A proposta do curso - explorar gêneros textuais diferentes e focar nos gêneros acadêmicos - foi a mesma, mas os textos que serviram de base para as avaliações foram direcionados para cada turma.

Para fazer o fichamento,

a turma de Química leu um texto sugerido por uma amiga minha, professora de Química (sobre o conceito de densidade em Química);
a turma de Enfermagem leu um texto do Mecacci (Conhecendo o cérebro, 1987) sobre os dois hemisférios cerebrais;
a turma de Contábeis ... bem, eu não pude contar com a ajuda de amigos professores de Contábeis, nem aproveitar qualquer convergência entre o que eles estudam e o que eu estudo. Como às vezes, durante aulas de sintaxe, por exemplo, havia atrito com um rapaz craque em gramática tradicional, a quem não consegui explicar a contento que a Linguística é uma ciência que toma por objeto a linguagem e que a gramática tradicional não é uma ciência, mas um modelo de uma língua idealizada, decidi oferecer como texto para fichamento o primeiro trecho do primeiro capítulo do Preconceito linguístico do Marcos Bagno. Todos, inclusive esse rapaz, souberam aproveitar bem o texto. Desse modo, o preconceito linguístico, muito disseminado na nossa cultura e expresso por esse rapaz mais de uma vez, se tornou ao menos visível.

Para fazer o resumo,

a turma de Química leu o conto A última pergunta, de Isaac Asimov (eles tinham feito textos argumentativos sobre fake news e se esforçaram para entender o tema. A última pergunta foi um prêmio);
a turma de Enfermagem leu o capítulo Crítica às ideologias do cérebro de Nildo Viana, sobre o determinismo cerebral, em que a separação do cérebro em dois hemisférios é criticada como sendo apenas uma ideologia (dentre outras, por exemplo, de que o volume cerebral informa sobre inteligência; de que é possível mapear  comportamentos, sentimentos e dons no cérebro; de que o cérebro é fluido e tudo não passa de relações químicas; do paralelismo psicofisiológico etc.);
a turma de Contábeis leu o conto Um general na biblioteca de Ítalo Calvino. E eu escolhi esse texto porque acompanho o grupo de whatsapp deles (pois é) e as discussões entre eleitores de Bolsonaro e não Bolsonaro foram intensas. Tive acesso a muitas fake news através desse grupo, em que muitas pessoas replicavam desinformação e se agrediam com emoticons😏.

Adotei como estratégia didática estabelecer a data de entrega pra depois da aula. Como sempre recebo trabalhos antes da aula, tenho tempo de ler, perceber tendências, comentar em sala de aula e evitar mal-entendidos. Quase todos que tinham entregado antes do prazo acabam refazendo seus textos com base nos comentários em sala de aula.

Os primeiros resumos de Um general na biblioteca me assustaram: toda a dinâmica dos militares acampando na biblioteca com a missão de censurar livros que "fossem contrários ao prestígio militar" foi descrita - os carimbos, as patentes, os relatórios, a divisão de tarefas. Depois há um salto para o  período de silêncio na biblioteca, que conduziu a base militar a decidir encerrar a missão. Em seguida, o general encarregado da missão apresentou seu relatório - que não agradou - e foi aposentado.

Fiquei pensando nO evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago. No romance, Saramago fez uma opção de não transcender a morte de Jesus. A história acaba com a morte do homem. Não há ressurreição - tão significativa para os cristãos. Saramago, enquanto ateu, acreditava que Deus não existe, portanto o Reino de Deus não é uma promessa. Os alunos que leram Um general na biblioteca e produziram resumos como descrito acima, fizeram uma opção por silenciar a transformação que aconteceu com os militares na biblioteca sob orientação do senhor Crispino, o bibliotecário? Eles não acreditam que o conhecimento transforma as pessoas, que convicções podem ser desconstruídas através do diálogo e do argumento?

Ou será que eles não entenderam o conto? Um deles confessou que não tinha entendido o conto nem na segunda leitura. Mas como ele tinha a tarefa de resumir o conto, procurou na internet. Achou um vídeo no Youtube e o entendimento assentou. Percebi grande resistência ao texto escrito. O audiovisual - ver e ouvir uma pessoa falando - fez toda a diferença. Decidi nunca mais fazer a brincadeirinha "gente, eu fiz Letras, não Números", porque parece que a recíproca é verdadeira - e preocupante, a meu ver.

Tentei comparar o conto com uma parábola. As parábolas de Jesus são, por exemplo, sobre sementes jogadas em lugares diferentes; não sobre pessoas que compreendem ou não uma mensagem. No meu entendimento, Um general na biblioteca é sobre militares que decidem censurar livros que não corroborem suas opiniões formadas; não sobre preconceito (pré-julgamento; Vorurteil; nas palavras de Bagno: "resultado da ignorância, da intolerância ou da manipulação ideológica"). Os militares acampados na biblioteca foram confrontados com uma complexidade que seus preconceitos simplificavam. Não conseguiram articular toda a complexidade recém apreendida no ato de apresentar relatório - e os seus superiores, que esperavam uma simples lista de livros permitidos e outra de livros proibidos, não souberam lidar com a desconstrução explícita de seus próprios preconceitos.

"Eu nem leio esse tipo de texto que desconstrói as minhas crenças, professora" disse o rapaz que afirmou que só em Portugal eles falam o português correto, mas fez um fichamento pertinente do início do Preconceito linguístico. Pois é. Escola sem partido é isso, não permitir que visões de mundo diferentes daquelas adotadas pela família (eles chamam de ideologia) sejam apresentadas na escola - e, se Bolsonaro conseguir, na universidade. Escola sem partido chama tudo que é de fora/desconhecido de ideologia, mas está inserido numa ideologia: o conservadorismo, a não abertura.

Retorno mais uma vez a Bagno: "A função da escola é, em todo e qualquer campo de conhecimento, levar a pessoa a conhecer e dominar coisas que ela não sabe [...]."

E já que estamos fazendo pontes entre ideologia e preconceito, complexo e confortável, recomendo A gigantesca barba do mal, grata surpresa do universo dos quadrinhos.

sábado, 21 de julho de 2012

Gafanhotos

O jardineiro chegou afobado, tropeçando e derrubando coisas. Naquela semana em que ele não tinha ido ao jardim, a terra tinha secado e rachado. As folhas de muitas plantas estavam amareladas, havia frutas podres esturricando nos pés. A vida no jardim se arrastava, minguando.

Tratou logo de regar tudo. Quando o cheiro de terra molhada invadiu suas narinas, conseguiu se acalmar. Quando o sentimento de culpa pela negligência do jardim foi lavado pela mangueira que segurava na mão, começou a organizar o discurso que faria.

Depois que as plantas tinham se saciado e as borboletas todas tinham mudado de lugar, o jardineiro começou a explicar onde tinha estado naquela semana. Tinha ido a outro jardim, muito mais moderno e desenvolvido. Relatou as maravilhas que as máquinas podiam fazer. Falou do cansaço que sentia, da dor nas costas que o trabalho automatizado poderia lhe poupar. Cantou números, prometeu progresso, contabilizou facilidades, contou piadas de mau gosto.

Todos os passarinhos silenciaram. Todos os insetos se aglomeraram aos pés do jardineiro. Como girassóis, todas as folhas e flores se voltaram na direção do homem que sonhava em voz alta com o conforto individual. Todos os seres viventes no jardim observaram que um inseto feio e desconhecido pousou no ombro do jardineiro. À medida que ele chacoalhava o corpo, rindo das próprias piadas, mais e mais gafanhotos pousavam em seus ombros.

Os gafanhotos olhavam para o jardim e seus habitantes. Seus olhos erráticos e inescrutáveis calculavam populações, anteviam pavimentos, vozes mecanizadas, fontes automatizadas e sombras artificiais. O jardineiro já estava inebriado, e em seu torpor, não via mais o jardim nem aqueles que foram seus companheiros durante anos. Pediu às flores que perfumassem o ambiente para impressionar as visitas, ordenou às abelhas que polenizassem as flores às pressas, mandou as árvores se balançarem sem vento.

Os passarinhos foram os primeiros a sair do estado de choque. Avançaram sobre os gafanhotos, mas logo perceberam que suas carapaças eram escudos e suas patas ágeis eram espadas. Queriam arrancar o jardineiro das garras dos gafanhotos, mas ele se sentiu atacado pelos pássaros.

As árvores mais altas viram que no horizonte se formava uma nuvem densa. Alertaram os outros no jardim, mas ninguém se mexeu. A nuvem crescia, ofuscando o sol nascente. As plantas não podiam se desenraizar. Os animais se confundiam tanto com a terra e as plantas - que eram suas moradias - que todos circundaram o jardineiro e esperaram a nuvem de gafanhotos devastar o lugar.


sábado, 14 de abril de 2012

Virtualmente

Posso assumir qualquer identidade:
posso me apresentar como homem ou mulher
posso me dar uma outra idade
posso me dar outro nome
posso me esconder no anonimato.

Virtualmente
posso me disfarçar através da linguagem.
Posso minimizar o uso dos sinais de pontuação
posso abreviar palavras de maneira pouco comum
posso subverter a ortografia das palavras
posso adotar estruturas frasais pouco ortodoxas.

Mas
quem não tiver domínio da língua escrita
não consegue esconder sua identidade na internet.
Porque a esmagadora maioria do que se faz nesse espaço
virtual
vem por escrito.
A escrita se aprende na escola
e se pratica ao longo da vida.

E aí a liberdade virtual
se choca com a realidade escolar.
No espaço virtual
só tem liberdade quem estiver bem ancorado na escrita.

(Lendo Marcuschi de dia e Flusser de noite)
Foto roubada de algum lugar da internet

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Igual

Não estourava pneu desde a greve.
Não parei logo porque
Não tinha sombra a
Não ser no portão da casa com o cachorro. Os moradores
Não se incomodaram comigo: olhavam de longe.
Não demorei pra trocar a câmara, mas
Não entendi por que a válvula saiu na minha mão.
Não acertei logo encaixar a roda, sempre a roda de trás.
Não me importei com as mãos pretas, mas quando cheguei
Não tinha sabonete no banheiro.
Não mudou muita coisa desde a greve.

domingo, 4 de setembro de 2011

Depois de acordar


Sonhei que eu fazia parte da tua vida
Sonhei que eu me reconhecia nas tuas coisas
Sonhei que você fazia as contas de quanto devíamos um ao outro
Sonhei que essa estória estava mal contada

sábado, 30 de julho de 2011

Pântano numérico

7:00 h o despertador toca.
1 iogurte, 2 fatias de pão, 1 xícara de Nescau (1 mês sem café).
40 minutos ele demorou para achar a casa.
40 reais me cobrou para cortar a grama seca e me dizer que plantas tenho no jardim.
1 pé de cacau, 1 de graviola, 2 araçá-boi.
3 noni em 1 litro de vinho fermentando por 15 dias para curar doenças respiratórias.

Quantos desvios da ortografia posso encontrar em 102 redações?
Quantas classificações posso ter para essas grafias desviantes?
Quantos problemas de concordância há nesses textos?
Quantas possibilidades eles têm para não concordar?

2 batatas, 1 abóbora, 3 filés de frango.
12 músicas para fazer digestão.
1 gato dentro de casa, 1 gata miando no telhado.
36° C lá fora.

Quantos sujeitos uma frase pode ter?
Quantos pronomes reflexivos um sujeito pode suportar?

15° pra direita a faxineira deixou o relógio de parede.
1 ventilador apenas.
30 minutos de pausa para regar o jardim.
3° banho.
1 gato dormindo no colo, outro dormindo no forro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

E o futuro


Temo que o tempo me tome tudo:
Tudo que guardei no futuro.
Espero ainda ter tempo de fazer meus planos
quando o futuro chegar.
Pode ser que futuro e passado se misturem,
mas o presente me foi dado por quem não me conhece.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O tempo virou

Os dias amanheciam nublados em março.
O pretérito imperfeito indica a repetição do evento.
Nada de vento pra espantar as nuvens,
pouco sol pra evaporá-las.
A chuva se apossou do gerúndio: está chovendo.
O sol ficou nos planos futuros.

sábado, 2 de abril de 2011

Tempo ambíguo

Ele pediu um tempo.
Ela olhou pras nuvens,
pensou um minuto
e sugeriu: que tal o futuro do presente?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pensando bem

É melhor que as minhas palavras disfarcem a adrenalina
que a gramática organize as ideias
que eu escolha o que você pode saber.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Linguagem e pensamento

Eu queria que você fosse capaz de ler os meus pensamentos
porque aí eu não precisaria te dizer nada
nem lutar com a escolha das palavras certas.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dança das cadeiras

Num certo momento, as pessoas na festa conversavam, bebiam e comiam. Falavam sobre seus bens de comsumo e consumiam o que o anfitrião oferecia. Nesse tempo, o governo era liberal, mas o acesso aos cargos públicos na educação não estava liberado. Universidades de renome viam o seu corpo docente minguando porque não havia quem preenchesse as vagas dos aposentados e falecidos. Os novos contratos eram para substitutos, eventuais e provisórios. Efetivo mesmo, só quem já estava dentro.

Mudou o anfitrião, azul-amarelo virou vermelho, mudou a conversa. Daí alguém foi lá e apertou o botão que liga o som. Abriram espaço na pista de dança e enfileiraram algumas cadeiras. Nesse tempo, surgiram novas universidades federais e, através de um programa chamado REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), foram contratados milhares de docentes novos. Durante aproximadamente três anos, houve grande oferta de concursos para docentes nas universidades brasileiras.

O anfitrião saiu de cena e colocou uma pessoa de sua confiança no lugar. O governo era o mesmo, mas a euforia estava superaquecida. Os convidados dançavam em volta das cadeiras, avaliavam assentos diferentes, sonhavam com possibilidades, faziam planos. Eis que, para controlar a economia, a anfitriã apertou o botão que pára a música. Cortes orçamentários. Não haveria mais nomeações nem contratações de docentes, e concursos por vir foram suspensos. Quem tinha uma cadeira em vista, sentou-se. Quem, no conforto de sua cadeira, sonhava com outras, sentiu-se preso.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a chuva cai

Assim como o amor, as chuvas amazônicas são variadas: tem aquela que despenca de tarde, aquela que sussurra de noite e aquela que traumatiza. 

Ontem despencou uma chuva que levou ao chão meio jambeiro e muita manga. Eu, meus alunos e a Cynthia e seus alunos, todos vimos a árvore caindo e depois a galera juntando as mangas. Alguns amores são assim: invadem, depois se esvaem. Só é ruim quando se está trocando o telhado: a casa alaga, mas o casamento continua.

Quando a chuva sussurra de noite, normalmente estamos abrigados. A chuva cai em paralelo com as nossas atividades, não afeta diretamente. Um amor assim é um amor à distância. Cada qual tem a sua autonomia e não precisa nem mesmo haver reciprocidade.

Desde o meu terceiro alagamento de casa, sou traumatizada com chuvas torrenciais. Mudei de uma casa que alaga pruma casa que tem goteiras. O elemento traumático não é a chuva em si, mas o estrago que ela causa. E o estrago só acontece porque a estrutura que deveria resistir à chuva é frágil. Na Rua Venezuela, a fragilidade era do sistema de esgoto e escoamento de água. Aqui, na Eletronorte, as telhas é que são o problema. Nos amores traumáticos, o que sobra é a frustração, a decepção, a incompreensão. A intensidade do amor vivenciado é lembrada para justificar os estragos. Tentamos prever a chuva, construímos estruturas que sejam capazes de resisitir a chuvas fortes, temos a escolha de nos proteger dela ou mergulhar nela. O amor vem. Quando vai, não alivia.
Chuva é vida: alimenta o solo, faz crescer as plantas, limpa o ar, lava a alma. Amor também é vida: faz flutuar, oferece amparo, presentifica o futuro e transforma o momento num presente. Depois de uma boa chuva, agradecemos. Depois de um grande amor, padecemos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pequeno dicionário dos esfarelados

Com a palavra em lascas: lascado.
Com o coração em pandarecos: abandonado.
Com o corpo em frangalhos: coitado.
Com os restos: sobrando.
Com a memória aos pedaços: desencontrado.
Com a auto-estima em migalhas: esmigalhado.
Com a personalidade em cacos: doido.
Com a vida em retalhos: desalinhado.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O trabalho

O trabalho me comeu um dia inteiro
O trabalho me comeu a produtividade
O trabalho me comeu o almoço

O trabalho me comeu a alegria de trabalhar
O trabalho me comeu o cérebro
O trabalho me consumiu.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Triste vida de revisora

Revisar os textos dos outros é entrar em contato imediato com o PIORtuguês.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ajuntando o espírito

a boa notícia de ontem
era que hoje ia chover
não choveu

a má notícia de hoje
é que amanhã é segunda-feira
inevitavelmente.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Passou

Brasil perdeu
a empolgação 
com a nação 
passou

Tem gente 
que se espanta
que a Copa continue
Brasil não perdeu?
Passou

Aula acabou
Fizeram a temida
prova repositiva
quase todos passaram

Espero ter passado
a mensagem 
de que plágio é feio
de que são capazes de escrever por si

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Faroeste

Era uma vez uma equipe de cientistas. Todos eram ligados à mesma instituição e estudavam coisas diferentes. Cada um trabalhava por conta própria, admitindo aprendizes que receberiam bolsas para serem iniciados na pesquisa. Para formalizar a admissão desses aprendizes, era preciso escrever um projeto e aprová-lo em reunião.

Um cientista escreveu dois projetos de exploração de Saturno. Os projetos eram para os aprendizes. Um aprendiz estudaria arco-íris em Saturno, o outro estudaria aurora boreal em Saturno. O treinamento que os aprendizes receberiam era em Cromatologia.

Uma das cientistas recebeu os projetos de noite em sua casa, dois dias antes da reunião. Foi-lhe pedido que fizesse um parecer. Ela logo percebeu que, apesar dos projetos abordarem temas diferentes, eram iguais. A parecerista também atentou para o fato de que o transporte a Saturno não estava garantido, nem o fato de que os aprendizes encontrariam qualquer coisa relevante se chegassem lá. O projeto não partia dos dados, não formulava hipóteses (digamos que haja arco-íris e aurora boreal em Saturno. E daí?) e não fornecia ferramentas suficientes para os aprendizes identificarem arco-íris e auroras boreais em Saturno.

Antes da reunião, a parecerista se consultou com colegas, para saber se seria politicamente desaconselhado reprovar o projeto. Foi avisada que ganharia um inimigo para o resto da vida se vetasse o projeto. Durante a reunião, a parecerista mencionou que tinha ressalvas a fazer em relação ao projeto. Uns quiseram ouvir as tais ressalvas, outros insistiram para que as ressalvas fossem transmitidas por escrito exclusivamente para o autor do projeto. 

Depois da reunião, parecerista e autor se sentaram à mesa e discutiram o projeto. O autor reparou que a parecerista tinha feito anotações a lápis no projeto, agradeceu pelos direcionamentos e disse que melhoraria o projeto. Na semana seguinte, o autor e a parecerista se encontraram por acaso. O autor tinha acabado de encontrar uma borracha branca e estava apagando os comentários que a parecerista tinha escrito no projeto. Quando o autor percebeu o olhar da parecerista sobre o papel, explicou que o projeto não podia ser submetido com 'rasuras'. 

Percebendo que o seu trabalho tinha sido em vão, a parecerista perguntou: "vai mesmo submeter esse projeto, sem mudar o que discutimos?" Com a maior seriedade do mundo, o autor respondeu: "vou, porque o projeto já foi aprovado".

sábado, 1 de maio de 2010

Classificações

O acupunturista me disse que eu sou frango.
O horóscopo chinês me diz que eu sou cavalo.
O horóscopo do jornal me diz que eu sou áries.
O meu tipo de sangue diz que eu sou agricultora.

Eu me vejo mais como um ser humano mesmo.