Liguei na academia de judô perguntando sobre horários e se o grupo era só de meninos. A pessoa que me atendeu disse que "hoje em dia não tem mais isso não, é tudo mesclado, tem meninas fazendo judô, sim." Em seguida, ele me perguntou por que eu queria levar a minha filha de 5 anos pra fazer judô. Pra ela aprender a cair, respondi. "Aprender a cair, e depois levantar!" ele completou.

Fomos lá, Agnes e eu, para uma aula-teste. Agnes não era a única novata e havia duas outras meninas além dela (contra uns 10 meninos). Todos os pais e mães assistiam à aula (aqueles que conseguiam não olhar para o celular. O próprio sensei olhava o celular de vez em quando). Notei que o sensei tinha consciência de que era ouvido pelos pais quando reparei nas concordâncias sibilantes e no esforço de falar de acordo com o padrão culto. O sensei impunha respeito gritando e anunciando avanços individuais. A competitividade estava posta nos troféus, nos golpes, na conduta. Nem o sensei nem as crianças usavam máscara, adultos treinavam judô ao lado, os pais faziam torcida pelos filhos: "pega ele!"
Luis recebeu da Paula (carateca) uma indicação de um instrutor que dava aula de judô como atividade extracurricular num colégio. Aproveitamos pra conhecer o colégio, já que Agnes ainda não está matriculada em escola alguma.
Os alunos de judô foram entrando na sala aos poucos. Todos usavam máscara, inclusive o instrutor, que era chamado de "tio". O ar condicionado não foi ligado e os pais (menos nós - só tinha 2 cadeiras) ficaram do lado de fora, vendo a aula pela porta aberta. Todos os alunos exceto Agnes eram meninos e estavam matriculados no colégio. Alguns meninos eram bem levados (cada um à sua maneira).
O instrutor fazia os exercícios junto, conversava (com autoridade e razão) ao invés de gritar, dialogava com todos e tinha muita paciência. Não ensinou golpes, mas a incorporar estratégias: deu essa bola de rugby para um menino proteger. O menino deitou em cima. Como tirar a bola? Virando o menino, como se fosse uma tartaruga! Pra criança, perceber que o outro pode ser movido é um enorme passo. Em vez de prometer faixas, macarrão, medalhas e sucesso olímpico, o instrutor observava e comentava questões de ordem com as crianças, questões corporais com os pais.
Não é nessa escola que Agnes vai passar as tardes, mas é lá que vai fazer judô.