terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Onomatopeias são universais?

Onomatopeias são palavras que procuram representar os sons que ouvimos: tic tac do relógio, miau do gato, tchibum na água. Acreditamos que haja uma iconicidade aí: a onomatopeia traduz numa palavra o som que ouvimos. A questão é: ouvimos todos a mesma coisa?

Procurei em histórias em quadrinhos pelos efeitos sonoros. Efeitos sonoros são anotados ou dentro de um balão de fala (para expressar dor, o personagem grita sons provavelmente não dicionarizados), balão de pensamento (risadinhas contidas), na cena (normalmente com pelo menos um sinal de exclamação no final) ou numa moldura estilizada - pontuda - que não tem a raiz (cauda?) apontando nem para a boca nem para a cabeça de ninguém, que contém sequências como PAFF!, BANG! e BOING!
Reparei que os efeitos sonoros vindos de seres inanimados, tipo a pedra caindo, metal batendo, algo girando em alta velocidade etc. costumam ser bastante parecidos através das línguas que examinei: às vezes muda só a grafia BOUM! (fr), BUMM! (de), BOOM! (en), BUM! (pt), às vezes PIFF!, PAFF!, BIFF!, CLING!, ZING! e BONG! são equivalentes. Achei curiosos os sons de coisas grandes desabando, que não me parecem ser padronizados ainda nas respectivas línguas (não sei): CHPLONK! (fr), SCHPLONK! (de), KERPLONK! (en) e CATCHAPUM! (pt).

A diferença maior está nos balões de diálogo, naquilo que as pessoas vocalizam - porque isso é atravessado pela cultura. Gritos de dor são bastante variáveis: 

OUAP! e HOULÀ HOULÀ! (fr), AUAAA! e AUTSCH! (de), OUCH! e OW! (en), AI! e UH! (pt). 

Risadas também variam muito entre HA HA!, HI HI!, HO HO! e AH AH!

Mais padronizados nas línguas são 

os sons de susto: OUAPP!!! (fr), HUCH!! (de), OOPS! (en) e UAP!!! (pt europeu, acho que PT BR seria diferente...);  

estalar de língua do tipo nem vem, que não tem: TSK! TSK! TSK! (fr), DZ! DZ! DZ! (de), TUT! TUT! TUT! (en) e NÃ, NÃ, NÃ, NÃ! (pt); 

o som de cachorro ganindo: KAï KAï KAï (fr), KLÄFF! KLÄFF! (de), YELP! YELP! YELP! (en) e CAIN CAIN CAIN (pt).

Resumindo: efeitos sonoros não são universais. As línguas dispõem de sons diferentes pra representar os barulhos que ouvimos/fazemos. Além disso, os sons culturalmente acumulados não conflitam com palavras já existentes na língua. Em português, a gente grita AI quando dói. Em alemão, a grafia pra representar esse som seria EI - que significa ovo. Nenhum alemão - mesmo que viva há anos no Brasil - consegue gritar OVO! quando dói. Ele não vai dizer AI, mas AU.

Adendo: trata-se aqui de traduções. Francês é o original, o que explica alguns efeitos sonoros em português (europeu) que foram mantidos e não adaptados. É preciso dizer que os desenhos não mudam - são os mesmos 450 quadros em todas as versões, os mesmos desenhos. Só as palavras é que foram traduzidas. Nos quadrinhos em alemão, foram inseridos efeitos sonoros ambiente (escritos soltos na cena, perto da fonte do som) em três lugares: Obelix lambendo os beiços (SCHMATZ! MJAM MJAM), Asterix bebendo a poção mágica (GLUCK GLUCK! GLUCK! GLUCK! GLUCK! GLUCK!) e os romanos lambendo os restos do caldeirão (SCHLÜRF SCHLÜRF SCHLÜRF!). Achei curioso que o tradutor alemão tenha sentido necessidade de complementar essa informação que nem o original nem as traduções têm.

Sim, e os sinais de pontuação? A regra é que todos os efeitos sonoros nesse Asterix sejam pontuados com pelo menos uma exclamação ao final. Exceção são CLANG, AIE, ZWWT (fr) vindos de fontes inanimadas e ZZZZZ e GLOU GLOU GLOU FRRRP (fr) vindos de fontes animadas (dormindo e bebendo até engasgar). Veja: o original não tinha exclamação nesses efeitos sonoros. Só a tradução portuguesa acompanhou AIE, ZWWT, ZZZZZ e GLU GLU GLU PRRRP. As traduções alemã e inglesa pontuaram tudo. A quantidade e distribuição de exclamações nos efeitos sonoros variou: HOULÀ HOULÀ HOULÀ!!! (fr), HULA HULA! HULA!!! (de), OW! OW! OW! (en) e AI! AI! AI!!! (pt), também nos sons de susto, como vimos antes e OUAPP! (fr), AUAAA! (de), OUCH! (en) e AI!!! (pt). Imagino que essas três últimas exclamações tenham relação com o espaço que AI ocupa.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

É carnaval...

 

... e seguimos!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Interrupções vindas de fora

Quando eu era estudante, acontecia de alguém de fora da turma bater na porta da sala de aula e pedir pra professora um minuto da atenção dos alunos pra dar um recado. Era comum que fosse alguém do movimento estudantil anunciando chapas para DCE, recados de professores sobre alguma coisa que interessava à comunidade acadêmica, um gato entrando na sala e procurando lugar.

Lembro de uma vez alguém bater na porta pra pedir dinheiro e que a professora procurou um trocado na carteira e deu. 

Depois que virei professora, eu abri a porta pra gente que vinha para dar recados internos à comunidade acadêmica e também pra gente que pedia dinheiro.

Hoje bateram na porta da sala de aula no curso de Enfermagem. A disciplina era de Leitura e Produção de Textos e estávamos no Bloco de Libras, porque a Enfermagem (ainda) não tem lugar próprio na universidade. Eram quatro jovens sorridentes, achei que fosse o pessoal da Libras. Entraram e um deles começou a falar de projeto na zona Leste, peça de teatro e a dificuldade de se viver da cultura. Apontou para uma moça que tinha um QR-code pra vender rifa a R$ 10,00 e disse que enquanto ela passaria pela turma, os dois rapazes cantariam um louvor. Perguntou ainda se tudo bem cantar louvor e contou que em outra turma uma moça do candomblé tinha pedido pra não tocarem a música.

Quer mais imposição que isso? Eu fiquei constrangida. Não sei quanto tempo eles ficaram na sala (não foi pouco), mas percebi que mudou completamente o clima. O que mais me surpreendeu foi a adesão dos alunos que bateram palmas e pediram pra pagar a rifa. Não é à toa que no Norte se comemora o dia do evangélico (18/jun).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

O evento internacional e a publicação

Pessoa se inscreve em evento internacional de divulgação científica, tem seu trabalho aprovado e apresenta o trabalho no dia do evento em inglês, "a língua da ciência". Os organizadores do evento enviam comunicado informando que é possível enviar trabalho completo (referente ao trabalho apresentado durante o congresso) ou para uma revista acadêmica, ou para uma revista de divulgação científica. Pessoa prefere divulgação, escreve seu texto de quatro páginas em inglês e manda pra revista.

Editor da revista recebe o texto em inglês e confere as normas de publicação: "obrigatoriamente em português, opcionalmente em inglês". Editor informa Pessoa que originais em inglês apenas não são aceitos. A revista faz o movimento de internacionalização (por uma questão de acesso), mas é nacional. Pessoa responde no ato: não sei português nem conheço quem saiba. Alguém aí da equipe editorial não poderia traduzir o meu texto para o português?

Editor se pergunta: como é que Pessoa se informou acerca das diretrizes da revista, se a língua é opaca para Pessoa? Pessoa estaria disposta a pagar pela tradução? Porque tradução é trabalho. Considerando o cenário em que o texto fosse traduzido, Pessoa não seria capaz de ler os pareceres em português. Pessoa pagaria pela tradução dos pareceres? Considerando o cenário em que o texto fosse aceito por dois pareceristas como está, Pessoa não saberia ler o seu próprio texto. Considerando o cenário em que ao menos um dos dois pareceristas sugerisse alterações, quem faria as alterações? O tradutor?

Moral da história: participe de eventos internacionais, mas não espere publicações internacionais na sua língua materna - mesmo que ela seja a língua mais prestigiada no universo científico.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Com que língua que eu vou?

No LingComm23, um dos painelistas (Logan Kearsley) fez uma provocação: por que será que as pessoas aderem facilmente a línguas inventadas que aparecem em obras de ficção (Klingon, por exemplo, as línguas élficas no Senhor dos Anéis ou Na'vi), mas não se interessam lá muito por línguas minoritárias que aparecem em obras de ficção (o exemplo que ele deu foi Dakota, em Dança com lobos - lembra desse filme?).

Ele não respondeu a pergunta, mas tenho a intuição de que línguas inventadas têm seu apelo justamente pela pretensa perfeição que não temos nas línguas naturais: reclamamos da ortografia, das exceções, ambiguidades e imprecisões de nossas línguas maternas. Observar invenções linguísticas parece ser divertido: é como decifrar códigos. 

Outra questão é a relação língua & cultura. Aprender uma língua falada por seres alienígenas nos transporta para uma realidade completamente diferente da nossa. Nesse sentido, o poder de sedução de línguas criadas para a ficção é maior que o de línguas naturais que lutam para sobreviver. 

Essa edição do evento contou com sessões beyond anglosphere: duas em português e uma em alemão. Participei da sessão em alemão (imagem acima) em que se discutia se alemão (ou holandês e tcheco) eram "boas línguas" para se fazer popularização da Linguística. As estatísticas de quem tentou, mostram que não. Por ser a língua da ciência, inglês tem um alcance maior quando se trata de divulgação científica, segundo o rapaz que faz popularização da Linguística para linguistas (pois é, o campo é tão diverso, que algumas áreas são Novo Mundo pra muita gente). O outro rapaz falou em alemão sobre um projeto de popularização da Linguística na Finlândia (em finlandês). Por fim, a moderadora relatou que agrega podcasts de popularização da Linguística em várias línguas - e lembrou do Babel podcast, brasileiro, em português sobre línguas minoritárias.

Na sessão em português estava (praticamente) todo mundo que está na comissão de popularização da Linguística da ABRALIN. Aí as nossas questões (somos professores e acadêmicos) são mais voltadas à própria atividade de popularização que não é reconhecida como atividade de extensão, nem pesquisa, nem ensino. 

Com que língua que eu fui? As três que entendo. Em que língua faço popularização? Português. Em que língua consumo popularização? Naquelas que eu consigo acompanhar, uai.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

LingComm23

Esse ano, o evento que congrega popularizadores da Linguística acontece em fevereiro. Mais uma vez o encontro virtual acontece no Gather (onde aprendemos que a tecla Z nos faz dançar, mesmo que estejamos sentados), um lugar muito parecido com um cenário de videogame. Movimentamos nossos avatares pelas salas e corredores e quando alguém chega perto, a pessoa aparece na nossa tela.

Como se trata da segunda edição do evento, acho que é natural que as questões abordadas em 2023 sejam menos genéricas que em 2021. Poplinguistics & arte, por exemplo, era o título de uma sessão, ativismo na popularização era outro, Linguística no Museu, outro. Não estou conseguindo acompanhar toda a programação porque a vida (buscar criança na escola, dar aula) não permite, mas estou feliz em rever pessoas e conhecer autores/atores/ativistas novos.
É preciso dizer que os brasileiros estão se fazendo notar: uma sessão hoje foi em português, por exemplo, e tanto Miguel Oliveira Jr. como Raquel Freitag moderaram rodas de conversa. Achei engraçado quando fui no poster do Ricardo Joseh Lima sobre o chatGPT. Como estávamos só nós, ele falou sobre o tema em português. Apareceu a Gretchen McCulloch na tela, ele mudou pro inglês no meio da frase. E quando ela se foi, voltamos ao português.