Os bolsonaristas seguem acampados na frente da Brigada Militar em Porto Velho. Os cheiros de picanha e banheiro químico se misturam.
Enquanto fenônemo fractal, o bolsonarismo não imprimiu uma substância política unificada e programática às demandas de seus seguidores. Como o populismo, a plataformização e o "estalinismo de mercado" (Fischer, 2020), esse movimento é ao mesmo tempo vazio de conteúdo e altamente performativo. (p. 151)
Trata-se um líder digital, que atua(va) com alta assiduidade nas redes sociais e as usa(va) como instrumento de comunicação com seus seguidores. Os seguidores preenchem as palavras de ordem (liberdade, família, pátria) como podem: os significados não são dados por Bolsonaro.
A autora faz uma analogia entre ritos de passagem - que são manifestações culturais que se dão em momentos específicos de forma sequenciada e controlada para superar uma crise na comunidade - com o movimento bolsonarista. Nos ritos de passagem, ocorre a suspensão de convenções (meninos são retirados da condição de meninos), identidades horizontais são produzidas (filhos do chefe e de mãe solteira passam a ter o mesmo valor), o núcleo cultural é discursivamente trabalhado (eles estão se preparando para serem homens), os sujeitos são colocados em estado de heteronomia (o mais velho guia o processo dos meninos que obedecem a ele) e prevalecem processos de mímese e inversão estrutural (todos os meninos fazem o mesmo - que é exceção para todos). Ao olhar para o movimento bolsonarista, a autora nota:
[...] não havia ali um indivíduo (oficiante) que orientasse diretamente os noviços, incutisse o núcleo cultural e galvanizasse sua entrega a uma força superior. Esse trabalho era feito pelo "todo" que se individuou entre usuários comuns, influenciadores (explícitos ou camuflados) e o próprio líder carismático (Cesarino, 2019). Além disso, diferente dos noviços ndembo, os usuários não reconheciam sua situação como sendo de heteronomia, ou entrega à influência oficiante. Pelo contrário, se apegavam obsessivamente a uma experiência de liberdade e escolha individual, rechaçando qualquer acusação de manipulação e devolvendo-a prontamente ao "inimigo".
Nesse caso, a heteronomia não leva à reitegração dos "noviços" ao corpo social. Não havendo etapa de reintegração, ela produziu seu oposto: uma bifurcação similar à dos ecossistemas conspiratórios [...]. (p. 137)
Resumindo, os bolsonaristas ainda acampados em frente à Brigada Militar ultrapassaram um limiar e não conseguem voltar (pra casa, pro trabalho, pras suas funções rotineiras) porque aqueles comunicados de poucos minutos que Bolsonaro deu (e que foram recebidos via vídeo) não foram suficientes. O primeiro era confuso, o segundo mandava pra casa, mas não reconhecia a derrota nas urnas.
Vazios de conteúdo, resta-lhes serem performáticos.














