quinta-feira, 27 de abril de 2023

O calendário das chuvas

Outro dia, a Rose voltou da sala com um pano de chão sujo e anunciou que tinha começado a época da poeira. Eu sabia que a prefeitura está asfaltando ruas aqui perto e deduzi que a poeira que ela recolhia da sala vinha dessa atividade. Mesmo assim, brinquei: será que vai parar de chover? 

Os ribeirinhos (e provavelmente o setor de infraestrutura viária da prefeitura também) contam com a tradição de que o tempo vira na Semana Santa. É a partir da Páscoa que começa a estiar e que os rios começam a secar.

Mas não parou de chover e o Rio Madeira continua entrando nos igarapés e não deu pra chegar por terra na comunidade Maravilha. Os ribeirinhos ainda têm canoa? Esse senhor foi empurrando a bicicleta. Quando chegou na metade, um desequilíbrio fez com que a caixa amarrada na garupa contendo pães caísse na água. Imagina empurrar uma bicicleta nessa água escura sem ver o chão...

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Capturada pela História sem fim

Nas últimas férias, pra tirar Agnes do tablet, inventei de ler pra ela um livro. Tinha que ser uma história comprida, pra seguir lendo durante a viagem e para além dela. Pensei no clássico da literatura alemã, que eu leria na sua versão traduzida. A capa do livro agradou, mas distraía. Mostrei que o livro estava escrito em tinta vermelha em alguns trechos e tinta verde em outros, mas isso não a comoveu. Bastian Baltasar Bux também não inspirou simpatia.

Senti que Agnes foi fisgada pelo livro quando li para ela o trecho em que Artax, o cavalo de Atreiu, atravessa o Pântano da Tristeza e morre. Ela ficou intrigada quando observou que eu chorava enquanto lia. Como pode, um livro - ou melhor, as palavras escritas num livro - fazer uma pessoa chorar?

Agnes foi capturada pela história quando Atreiu estava em perigo e Bastian, lendo a história de Atreiu, soltou um grito de desespero - que Atreiu escutou. Agnes pediu pra fechar o livro, já que o personagem da história que Bastian lia podia ouvir seu leitor: como nós estávamos lendo a história de Bastian, ele também podia ... nos ouvir? O livro era uma janela aberta?

Depois que Bastian entra em Fantasia, Agnes se desinteressou pelo herói que só precisa desejar coisas para que elas aconteçam. E com o passar do tempo, Bastian deixa de ser ele mesmo e deixamos de gostar dele. Eu precisei convencer a menina muitas vezes a prosseguir com a leitura: você não quer saber como continua? Ela abriu o livro nas páginas finais, constatou que estavam escritas em tinta vermelha e concluiu que vai ficar tudo bem, Bastian vai conseguir voltar ao mundo dos humanos.

Sim, mas como isso se dá? Faltam poucos capítulos para o final e quem quer continuar lendo o livro sou eu.

domingo, 16 de abril de 2023

7 anos

Dez dias depois do meu aniversário, nasceu Agnes Maria - isso foi 7 anos atrás. Hoje, domingo, não teve festa, vela, brincadeira, mas Agnes teve seu dia de rainha: pode determinar tudo que queria. 

Andou de patinete em casa pra conhecer o brinquedo novo; escolheu o restaurante pra almoçar; deu a volta todinha no skatepark e ajudou a fazer bolo de chocolate.

Quando tirei as rodinhas da bicicleta dela, ela desistiu da bicicleta. Como estimular o equilíbrio dela sem passar perrengue na bicicleta? Eu queria que ela gostasse de pedalar. Aí um dia, nas férias, numa loja Decathlon, ela apareceu andando de patinete pela loja.
Quando ela completou 3 anos, eu dei a ela uma balance bike, sem pedais, mas ela não se adaptou. Espero que o patinete seja um trampolim de volta para a bicicleta (dessa vez, sem rodinhas).
Parabéns para a menina linda que cresce e se desenvolve diante dos nossos olhos!

terça-feira, 11 de abril de 2023

Dor Fantasma

Rafael Gallo venceu o Prêmio José Saramago com Dor Fantasma - que foi publicado tanto pela Porto Editora (portuguesa) como pela Editora Globo (selo Biblioteca Azul). Li o livro muito rápido: 4 dias para as 350 páginas e breve consulta na Wikipédia. 

Eu gostei de ter lido, mas algo que eu não sei bem dizer o que é continua me incomodando. Vou tentar entender aqui, por escrito, por que não consigo aderir totalmente ao romance. 


Dor fantasma
tem a seguinte epígrafe de Amós Oz: 

"Você é o cavaleiro louco que matou o dragão,

depois matou também a donzela e 

por fim destroçou também a si mesmo.

Na realidade, você é o dragão."

que já nos dá a chave de leitura. Reler a epígrafe depois de ter lido o romance até o fim faz sentido e tranquiliza: só podia mesmo ter terminado assim.

O livro é dividido em quatro partes: Coda, Exposição, Desenvolvimento e Cadenza. Os títulos das partes encaixam bem com a caracterização do personagem, que é um pianista virtuoso. Começamos pelo anúncio do fim: o intérprete de Liszt ensaia o seu repertório para a primeira turnê na Europa em que pretende executar "pela primeira vez" a peça intocável de Liszt, Rondeau Fantastique. O pianista levanta da cama, se isola na sala de estudos à prova de som e toca primeiro essa peça que tantos outros pianistas já desistiram de tocar para o público. Os dedos dele tocam a peça porque foram treinados por anos. O autor constrói seu personagem, suas relações com alunos, universidade e família.

A última cena desse ato é o atropelamento e a vertigem ao conferir que a mão direita não está mais lá. As frases curtas, as perguntas (Morrer é isso?), as frases amputadas dão materialidade à reviravolta. Achei geniais as sentenças terminadas em vírgula mas ponto: , mas.


Na segunda parte, estamos diante de um personagem perplexo com a destruição. Sem a mão direita, não há mais piano, turnê, nome inscrito na história. Sem a mão direita, há dor de não ser mais pianista. Dor de perder o sentido. Aqui aparece o primeiro erro que não consegui perdoar ao autor, quando escreve: 

"Rômulo consegue pronunciar a palavra que, felizmente, demanda apenas um fonema, uma única manobra dos lábios: "Mãos." Pois é. Eu sou linguista e sei que fonema corresponde a som e que a palavra "mãos" pode ser articulada com os seguintes fonemas: [ˈmɐ̃w̃s ]. O revisor do livro não era formado em Letras? A outra falha era um dativo (lhe) trocado por um acusativo (o), algo como João o agradeceu (perdão, eu não lembro mais onde era, devia ter anotado). Outra falta do revisor.(

Depois que todos ficam sabendo que o pianista está amputado, a ex-namorada entra em contato e lhe informa que Rondeau Fantastique já foi apresentado ao público e está gravado no Youtube faz dez anos. Imediatamente lembrei do romance de Bernhard Schlink em que um quadro de René Dalmann é descrito em detalhes. Quando quis ver o quadro, descobri que não era real e fiquei assombrada com o efeito que a descrição do quadro teve sobre mim. Por isso fui na Wikipédia, ver qual é a desse Rondeau Fantastique. O roteiro do Dor Fantasma estava lá, na Wikipédia. Talvez por isso o incômodo: trata-se de contar uma história? É a sequência das ações? Qual o peso do modo como a história é contada? A fragmentação da escrita estava marcada na primeira parte, mas não é consistente ao longo da obra.

Na terceira parte, lembrei do Coetzee, mais especificamente do romance Disgrace. O Desenvolvimento é um encadeamento de desgraças não antevistas, não calculadas, fora de controle. Porque o pianista se considera acima dos outros, melhor que o que colocam em seu lugar. Ele teve boa formação, se preparou, entendeu. O passado e o futuro são dois antípodas. Enquanto o personagem de Coetzee percebe o que está em jogo, o pianista se agarra ao seu passado distante para se defender. Aderimos ao professor universitário de Coetzee com mais facilidade porque o compreendemos. Já o pianista não é acessível, porque elitista. Muito pouco o preenche - e não sabemos o que é esse pouco.

Dor Fantasma é contado a partir do ponto de vista do pianista. Acompanhamos uma história que se desenrola tanto factualmente como em pensamento. Há uma cena em que ele coloca a aluna na posição em que será atropelada por um carro - mas, como essa aluna aparece depois na porta da catedral, entendemos que a cena de atropelamento é um desejo do personagem, não um fato. A última cena de violência narrada na penúltima parte corresponde ao nosso desejo de não ser um fato. Mas, conforme lemos a última parte, entendemos que acontece mesmo: fora da cabeça do pianista.

Essa pouca distância entre pensamento e ação causa um efeito de estranhamento. No filme Cama de Gato (2002), Caio Blat e outros atores encenam as bobagens que alguns jovens bêbados encadeiam. O efeito é de falta de verossimilhança. O pianista amputado está sozinho diante do tratamento, da escolha de usar ou não uma prótese e se sim, qual, por qual valor? Se ele tem família, por que ele decide se arruinar financeiramente sem que percebamos os outros envolvidos? Como ele consegue ignorar o filho dentro de casa?

Cadenza corresponde, na música, a um solo que antecede a coda. Não se trata, no entanto, de emendar as duas partes (artifício usado em alguns romances). O fim está presente no livro desde antes do começo: o título remete ao membro fantasma, a mão amputada; a epígrafe revela a fórmula.

No filme que ganhou vários prêmios no Oscar, Everything Everywhere All at Once, você tem metaverso e saltos em dimensões paralelas, mas o centro da história gira em torno da relação entre mãe e filha adolescente. Pirotecnia abundante para um lugar comum. O personagem de Dor Fantasma precisa ser o maior intérprete de Liszt pra ser isolado, monotemático, conservador, colonizador, elitista, rigoroso e alheio ao mundo ao redor? Não sei.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

45

De repente me dei conta

    que o tempo passa

        o tempo todo

                .

            Mesmo

         que eu não

  faça nada importante