Dia 14 de maio embarquei pra Porto Alegre, pra participar da 32º Reunião anual da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). A ABEU conta com 122 associadas e desde 2018 a EDUFRO voltou a fazer parte deste grupo. Como da outra vez eu conheci os editores da Região Norte (e seguimos em contato através de grupo no whats), dessa vez foi como rever amigos. E por coincidência, toda a ABEU Norte - exceto sua diretora, Maristela (UEA), estava hospedada no mesmo hotel.
A abertura do evento seria de noite, mas eu cheguei de manhã. Aluguei um carro e fui a São Leopoldo, levar o Harro numa consulta com o neurologista. A conversa com Dr. Athos Torres durou uma hora e descartamos Alzheimer, já que Harro acompanha bem as conversas, só está suspenso no tempo e espaço. Como eu precisava do meu celular funcionando pra me guiar até o hotel, conectei o celular no rádio do carro pra recarregar a energia. Aí a voz do GPS parava de falar. Liguei o rádio do carro e passei a ouvir as instruções. Tentei transpor a tela do celular pra tela do rádio do carro, mas acabei ligando o GPS do carro, que me dava outras instruções, com outra voz. Daí a esquizofrenia se instalou. Uma voz conhecida dizia: vire à esquerda. Uma voz desconhecida dizia: dobre à direita. E eu, que entro em pânico quando ouço qualquer uma dessas instruções, porque sei que demoro a decidir de que lado ficam direita e esquerda, fui atravessando pontes e duvidando da rota, passando por baixo de viadutos em construção... Consegui desligar o GPS do carro e cheguei no hotel. Deu tempo de tomar banho e fui a pé até o Centro Cultural da UFRGS, pra abertura.

Velhos desafios, novas adversidades. A crise do livro, da leitura, da gestão da comercialização dos livros, nossa especificidade: o livro acadêmico. Todas as rodas de conversa giraram em torno desses temas.
 |
| Em sentido horário a partir de mim: Chris (EDUFRA), Jamerson e Martistela (Editora UEA), Cynthia (EDUFT) e Sérgio (Editora UFAM) |
Foram discutidas muitas coisas. Grandes editoras universitárias começam a se perguntar se devem mesmo vender seus livros, editoras universitárias de médio porte ensinam o caminho das pedras pra instaurar uma práxis altamente burocrática e morosa (3 anos) no começo, mas que funciona depois, e eu percebi que há muito mais editoras que eu imaginava que não comercializam seus livros. Muitas delas têm sérios problemas de estoque e ouvimos atentos as várias experiências de doação de estoque (pra presídios, calouros, bibliotecas).
 |
| Maristela, Chris, eu, banner, Jamerson, Sérgio, Cynthia |
A questão jurídica foi assunto de uma roda de conversa e o representante da Procuradoria da UESC (Ilhéus, BA), casado com a editora da Editus, teve uma longa fala sobre conhecer as leis e proteger o servidor. Jurídico tem escopo sobre a venda de livros dentro de uma universidade pública - como fazer - e a lei do direito autoral.
Outra roda de conversa foi sobre o que publicamos e como isso é avaliado por exemplo pela CAPES. Um coordenador de área da CAPES veio dar notícia do sistema de avaliação de livros para os programas de pós-graduação.
Alexandre Martins Fontes, filho do Waldir Martins Fontes explicou a crise do livro (modelo de vendas que inclui descontos insustentáveis, consignação a perder de vista e abundância de lançamentos) e apresentou a editora (afetada pela crise) e a livraria (prosperando e se transformando no que foi a Livraria Cultura da Paulista nos anos 2005). Pra fechar, Castilho lembrou de outras crises na história (eu mesma, que estou lendo a biografia de Max Perkins, lembrei da crise de 29 que afetou todo e qualquer comércio) e concluiu que esta crise do livro é uma crise de gestão de sua comercialização.
No dia 15 estava marcada a mega manifestação gigante contra os cortes anunciados na Educação. Quando saímos da sala em que estávamos, mergulhamos nas palavras de ordem, barulho de helicóptero sobrevoando, trânsito parado, gente caminhando, corking de mãos dadas, cartazes e muita gente nas ruas. Fiquei emocionada de ver tanta gente jovem nas ruas. Agnes saiu na mídia também, segurando um cartaz que ela mesma desenhou. A interpretação foi bonita: Bolsonaro e sua política são inomináveis. Conversando hoje com Damián no telefone, ele me perguntou o que tinha sido aquela manifestação enorme que ele viu pela primeira vez em Porto Velho. Foi no Brasil todo!
 |
| No Cisne Branco |
Na última noite, o carro estacionado na garagem voltou a ser útil: ele nos levou ao Cisne Branco, atracado ao lado do Gasômetro. Mas antes passamos por uma barreira policial. Como não tinha outra alma ali naquela hora, fomos parados. Ele perguntou se eu estaria disposta a fazer o teste do bafômetro, eu não hesitei em sair do carro, assoprar no bico descartável e constatar o óbvio: 0,0.
O barco fez longa viagem noturna no Guaíba. Quando subimos no convés, vimos o Beira-Rio, todo iluminado de vermelho (do Inter). Depois da volta, o barco atracou de novo e nada mudou dentro do barco: as pessoas continuavam conversando nas mesas, no andar de baixo a discoteca continuava emitindo músicas que todo mundo cantava junto. Já era tarde, nós saímos e voltamos pro hotel, o resto ficou pra trás.
 |
| No topo do barco. Sérgio, Jamerson, eu, Rosy (EDUFT) e Glauco (Passo Fundo) |
 |
| Diretoria eleita |
No último dia ainda teve roda de conversa de manhã, mas muita gente chegou atrasada/ saiu antes por causa do retorno pra casa. Eu fiquei muito grata de ter conseguido participar de tudo e ainda ver Harro em São Leopoldo. Levei uns livros da editora
Lote 42, que eu tinha comprado por metade do preço na Feira do livro da UFRGS e ele achou bacana essa sacada do livro enquanto objeto.
Cheguei em casa de madrugada. De manhã, desfiz a mala. Quando achei que tinha tirado tudo da mala, uma gatinha fez dela sua casa.