sexta-feira, 24 de maio de 2019

Nona


Agnes e eu fomos até o sítio 3 dias depois que a estrada da beira abriu. Damián tinha dito que a estrada tava um tapete, porque esperaram dar a frigem pra passar a máquina. O que ele não sabia é que tinha água na estrada (as usinas operam o rio, não há dúvida) e o meu coração foi acelerando conforme o carro ia afundando ali na boca do Maravilha, onde os dois lados do igarapé se juntam na estrada; e mais adiante, numa curva submersa (e a agonia maior era de não ver o fim da gigante poça).

Além de visitar o Damián, queríamos pelo menos dois animais: um filhote do Taurus com a Luna e uma companhia pra nossa galinha caipira.

A galinha caipira estava muito sozinha depois que a mucura matou a Nagasaki. Íris não tinha galinha, mas tinha galo "rupiado". Levei o galo e uma pintinha. Luis brigou muito comigo. Na primeira manhã aqui em casa, o galo não cantou. Mas na madrugada seguinte, Luis me jogou pra fora da cama às 2 da madrugada pra ir lá conversar com o galo cantador. Nesse mesmo dia, Luis conseguiu, depois de muita ginástica, capturar o galo e trocar por uma galinha. Essa nova galinha só faz barulho na hora de empoleirar quando escurece, porque ela ainda não definiu bem o lugar dela.

Luna tinha parido muitos filhotes, e como Preto e Íris já têm muitos cachorros, estavam dando filhotes. Como gostamos muito do Taurus, pensamos que podíamos pegar um. Preto já tinha decidido que o único macho da ninhada seria dele. Escolhemos uma fêmea de patas claras e pontinha branca no rabo. Barriguda (cheia de verme), cheia de pulga (tomou três banhos de água e dois de talco contra pulga) e bicho de pé (passei pomada por quatro dias e as patas desincharam).

As aves foram numa caixa grande no assento do passageiro, a cachorrinha foi numa caixa pequena - e aberta - atrás do banco do motorista.

- Mamãe, ela saiu da caixa.
- Tudo bem, Agnes.
- Mamãe, ela quer me lamber!
- Empurra ela com cuidado, Agnes.
- Sai, Nona, senta Nona!

Foi assim que Nona ganhou seu nome. Eu sei que Agnes ainda não conta consistentemente até 9, mas podia ser nossa nona bichinha: 1 galinha, 6 porquinhos da índia, 1 hamster, Nona, o galo e a pintinha. Mas talvez também fosse Nonna (Agnes ainda não sabe escrever), tipo Oma em italiano. Agnes Maria deve seu nome às nossas avós (Marie Agnes e Maria).

Seja como for, Nona agora está sem pulgas, sem dor nas patas, barriga desinchando. Ainda não entendeu que ração é comida e água é bebida, mas estamos trabalhando nisso.


domingo, 19 de maio de 2019

32º Reunião anual da ABEU

Dia 14 de maio embarquei pra Porto Alegre, pra participar da 32º Reunião anual da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). A ABEU conta com 122 associadas e desde 2018 a EDUFRO voltou a fazer parte deste grupo. Como da outra vez eu conheci os editores da Região Norte (e seguimos em contato através de grupo no whats), dessa vez foi como rever amigos. E por coincidência, toda a ABEU Norte - exceto sua diretora, Maristela (UEA), estava hospedada no mesmo hotel.

A abertura do evento seria de noite, mas eu cheguei de manhã. Aluguei um carro e fui a São Leopoldo, levar o Harro numa consulta com o neurologista. A conversa com Dr. Athos Torres durou uma hora e descartamos Alzheimer, já que Harro acompanha bem as conversas, só está suspenso no tempo e espaço. Como eu precisava do meu celular funcionando pra me guiar até o hotel, conectei o celular no rádio do carro pra recarregar a energia. Aí a voz do GPS parava de falar. Liguei o rádio do carro e passei a ouvir as instruções. Tentei transpor a tela do celular pra tela do rádio do carro, mas acabei ligando o GPS do carro, que me dava outras instruções, com outra voz. Daí a esquizofrenia se instalou. Uma voz conhecida dizia: vire à esquerda. Uma voz desconhecida dizia: dobre à direita. E eu, que entro em pânico quando ouço qualquer uma dessas instruções, porque sei que demoro a decidir de que lado ficam direita e esquerda, fui atravessando pontes e duvidando da rota, passando por baixo de viadutos em construção... Consegui desligar o GPS do carro e cheguei no hotel. Deu tempo de tomar banho e fui a pé até o Centro Cultural da UFRGS, pra abertura.

Velhos desafios, novas adversidades. A crise do livro, da leitura, da gestão da comercialização dos livros, nossa especificidade: o livro acadêmico. Todas as rodas de conversa giraram em torno desses temas.
Em sentido horário a partir de mim: Chris (EDUFRA), Jamerson e Martistela (Editora UEA), Cynthia (EDUFT) e Sérgio (Editora UFAM)
Foram discutidas muitas coisas. Grandes editoras universitárias começam a se perguntar se devem mesmo vender seus livros, editoras universitárias de médio porte ensinam o caminho das pedras pra instaurar uma práxis altamente burocrática e morosa (3 anos) no começo, mas que funciona depois, e eu percebi que há muito mais editoras que eu imaginava que não comercializam seus livros. Muitas delas têm sérios problemas de estoque e ouvimos atentos as várias experiências de doação de estoque (pra presídios, calouros, bibliotecas).
Maristela, Chris, eu, banner, Jamerson, Sérgio, Cynthia
A questão jurídica foi assunto de uma roda de conversa e o representante da Procuradoria da UESC (Ilhéus, BA), casado com a editora da Editus, teve uma longa fala sobre conhecer as leis e proteger o servidor. Jurídico tem escopo sobre a venda de livros dentro de uma universidade pública - como fazer - e a lei do direito autoral.
Outra roda de conversa foi sobre o que publicamos e como isso é avaliado por exemplo pela CAPES. Um coordenador de área da CAPES veio dar notícia do sistema de avaliação de livros para os programas de pós-graduação.
Alexandre Martins Fontes, filho do Waldir Martins Fontes explicou a crise do livro (modelo de vendas que inclui descontos insustentáveis, consignação a perder de vista e abundância de lançamentos) e apresentou a editora (afetada pela crise) e a livraria (prosperando e se transformando no que foi a Livraria Cultura da Paulista nos anos 2005). Pra fechar, Castilho lembrou de outras crises na história (eu mesma, que estou lendo a biografia de Max Perkins, lembrei da crise de 29 que afetou todo e qualquer comércio) e concluiu que esta crise do livro é uma crise de gestão de sua comercialização.

No dia 15 estava marcada a mega manifestação gigante contra os cortes anunciados na Educação. Quando saímos da sala em que estávamos, mergulhamos nas palavras de ordem, barulho de helicóptero sobrevoando, trânsito parado, gente caminhando, corking de mãos dadas, cartazes e muita gente nas ruas. Fiquei emocionada de ver tanta gente jovem nas ruas. Agnes saiu na mídia também, segurando um cartaz que ela mesma desenhou. A interpretação foi bonita: Bolsonaro e sua política são inomináveis. Conversando hoje com Damián no telefone, ele me perguntou o que tinha sido aquela manifestação enorme que ele viu pela primeira vez em Porto Velho. Foi no Brasil todo!

No Cisne Branco
Na última noite, o carro estacionado na garagem voltou a ser útil: ele nos levou ao Cisne Branco, atracado ao lado do Gasômetro. Mas antes passamos por uma barreira policial. Como não tinha outra alma ali naquela hora, fomos parados. Ele perguntou se eu estaria disposta a fazer o teste do bafômetro, eu não hesitei em sair do carro, assoprar no bico descartável e constatar o óbvio: 0,0.

O barco fez longa viagem noturna no Guaíba. Quando subimos no convés, vimos o Beira-Rio, todo iluminado de vermelho (do Inter). Depois da volta, o barco atracou de novo e nada mudou dentro do barco: as pessoas continuavam conversando nas mesas, no andar de baixo a discoteca continuava emitindo músicas que todo mundo cantava junto. Já era tarde, nós saímos e voltamos pro hotel, o resto ficou pra trás.
No topo do barco. Sérgio, Jamerson, eu, Rosy (EDUFT) e Glauco (Passo Fundo)
Diretoria eleita
No último dia ainda teve roda de conversa de manhã, mas muita gente chegou atrasada/ saiu antes por causa do retorno pra casa. Eu fiquei muito grata de ter conseguido participar de tudo e ainda ver Harro em São Leopoldo. Levei uns livros da editora Lote 42, que eu tinha comprado por metade do preço na Feira do livro da UFRGS e ele achou bacana essa sacada do livro enquanto objeto.

Cheguei em casa de madrugada. De manhã, desfiz a mala. Quando achei que tinha tirado tudo da mala, uma gatinha fez dela sua casa.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Abralin 50 - terceiro dia

Este seria pra mim o último dia (8), porque eu não pretendia participar da Balada Abralin, prevista para o dia 9. Fiz minha própria happy hour na praia de manhã: caminhei por duas horas na areia e dei um mergulho no mar salgado, de ondas fortes e altas.
De tarde, tinha mesa redonda intitulada Linguística e Resistência. Fiquei surpresa com a criatividade dos palestrantes para nos mostrar como os linguistas podem resistir aos tempos sombrios que vêm por aí. Anna Bentes falou das redes sociais, de comunicar aos leigos com clareza o que fazemos e como somos importantes para a sociedade. Eleonora Albano falou (entre outras coisas) do amor que devemos devotar aos nossos alunos e nossas pesquisas. Nosso amor à profissão nos legitima perante a sociedade. Marcus Maia falou de eye-trackers que mostram ao aluno como está lendo, de modo que ele possa ser protagonista do seu aprendizado. Pablo Arantes, do meu lado, comentou que isso literalmente é Linguística Aplicada. Marcus Maia ainda falou de um projeto que está desenvolvendo chamado Viva Língua Viva, de incentivo à descrição de línguas indígenas. Por fim, Rodrigo Oliveira Fonseca dissecou formas e funções do fascismo e encaixou o atual governo no modelo. Muito elucidativo.

A última conferência do dia foi dada por Daniel Everett, que começou por uma longa homenagem a Marcelo Dascal (filósofo e linguista que faleceu em 15 de abril deste ano). Apresentou slides em inglês, mas falou fluentemente em português. Apresentou suas próprias pesquisas sobre as relações entre cultura, gramática e cognição. Ofereceu muitos exemplos em pirahã e contou a aventura que foi conhecer a língua e como ele precisou reformular hipóteses a cada vez que o que eles diziam não correspondia às suas expectativas.
Daniel Everett é uma figura rodeada de polêmica: foi viver entre os pirahã com a família (três filhos pequenos e esposa) na função de missionário. Com base na SIL (Summer Institute of Linguistics) em Porto Velho, sua missão era aprender pirahã para traduzir a bíblia para a língua indígena. Com a convivência com os pirahã e a impossibilidade de convertê-los, Everett virou ateu. Além disso, virou linguista. Como o que o pessoal da SIL faz é religiosamente orientado, seus trabalhos linguísticos (descrição de línguas indígenas) não têm valor para a comunidade linguística. Porque missionários têm uma visão de mundo própria, não compartilhada pelos indígenas, por exemplo. Cultura, gramática e cognição estão imbricados: Deus e o Diabo podem aparecer no relato dos missionários sobre a língua que não conhece nem Deus nem o Diabo, porque quem tem a voz são os missionários, que projetam o seu ponto de vista sobre a língua. Everett mesmo faz isso no livro Don't sleep: there are snakes, quando enfatiza que pirahã não tem uma infinidade de coisas (números, recursividade, casas duráveis, noção do que é infância etc.), ao invés de se ater a descrever a língua e cultura.

Everett se doutorou na Unicamp como linguista e voltou aos Estados Unidos pra esfregar na cara de Chomsky que nem todas as línguas têm recursividade. E a tal da recursividade (possibilidade de aumentar uma sentença infinitamente através do encaixamento de orações) foi debatida por anos: tudo bem, não tem recursividade gramatical, mas tem recursividade semântica etc. No final da conferência, Everett falou da recursividade e lembrou da conferência de Geoffrey Pullum, que dizia que as teorias não deveriam se interessar pela contagem de sentenças, mas deveriam se concentrar na sua descrição.

Eis que Tom Roeper fez uma pergunta (que não era pergunta, era um comentário que pretendia ensinar) em inglês sobre recursividade. Everett respondeu parte em inglês, parte em português. Mencionou textos e resenhas de textos sobre a famigerada recursividade. Tom Roeper retomou a palavra, avisou que não tinha entendido a explicação em português e quis falar mais sobre as resenhas e textos que ele escreveu sobre recursividade. Everett ficou furioso: this is my talk! e não deixou ele terminar a tréplica, explicou ao público que são praticamente vizinhos e que aquela era a primeira vez que Tom Roeper lhe dirigia a palavra. Depois ficou se vangloriando que era a pessoa que mais amava o Brasil e os pirahã, que não devemos ter racismo linguístico etc.

Quando foi que vi tanta emoção num debate linguístico?

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Abralin 50 - segundo dia

De manhã fui acompanhar um simpósio temático sobre Linguística Funcional centrada no uso. Confirmaram pra mim que fenômenos de gramaticalização agora estão sendo analisados como construções. A última pessoa a apresentar foi uma orientanda de pós-doc do Ataliba sobre preposições introdutoras de verbos (comecei a fazer/ terminei de fazer/ dá pra fazer). Percebi grande esforço por parte dela de estabelecer os graus de gramaticalização das preposições e fiquei com muita vontade de dizer pra ela que eu já fiz isso na minha dissertação, depois na tese e também no capítulo da preposição que saiu na Gramática do português falado. Mas como dizer isso sem admitir minha vaidade? Fiquei quieta.

Neste congresso, calculo que entre 85% e 90% das pessoas que apresentam seus trabalhos são alunos (de pós-graduação, mas sob orientação de outro professor). Neste simpósio não foi diferente: uma professora apresentou juntamente com a orientanda, todos os outros estavam na condição de estudantes. Mas na parte que sucedeu as apresentações, pessoas do público como Marcos Bagno, Lilian Ferrari e Sebastião Votre fizeram comentários valiosíssimos e perguntas interessantes para cada trabalho. Fiquei grata de ver como eles lidaram com os estudantes.
Ataliba, o apresentador e Jaime Pinsky

Na parte da tarde, Ataliba e Pinsky, o editor da Contexto, compuseram uma mesa redonda sobre o papel da Contexto nesses últimos 32 anos na difusão do conhecimento produzido pela Linguística. Quando entrei na sala, Ataliba conversava justamente com a orientanda de pós-doc. Sentei do lado deles e Ataliba nos apresentou: a Lou sempre estudou preposições, veja que coincidência!

Depois dessa mesa redonda, havia uma hora de intervalo até a conferência seguinte. Abrindo caminho por entre os pôsteres, dei de cara com Ataliba que me chamou. E seguimos conversando até o início da conferência. E como Ataliba é Ataliba, fomos interrompidos milhares de vezes, tirei um montão de fotos do Ataliba com alunos, apareci em outro montão de fotos, acompanhei conversas e vidas de pessoas que vinham conversar com ele. Num caso, até dei uma solução prum problema cabeludo, pelo qual eu mesma já passei (prestação de contas para CAPES ... 3 anos depois de encerrado o projeto!).

A conferência de encerramento do dia era sobre a ineficiência do gerativismo para descrever dados de linguagem humana. Ótimo para descrever e prever linguagem lógica, computacional, mas inaplicável para a linguagem humana. Alguns argumentos me convenceram: para os gerativistas, não há gradiência de agramaticalidade, ou seja, se algo é agramatical, não é possível na língua, não pode ser analisado. Ora, dados como "estou na esquina, eu" aparecem na fala e são estigmatizados. Não tanto como "bicicréta", no entanto não são tão agramaticais como "na eu esquina estou". Outro argumento é que o que não é da língua, não pode entrar nela. Ora, temos um vocabulário virtual que nos dá pistas de como podem ser as palavras de nossa língua materna. O último (dentre vários outros) que me pareceu cristalino como uma revelação - diz respeito à aquisição. Pra Chomsky, não há aquisição, porque a língua já está em nós: a gramática universal. No entanto - e eu observo isso na Agnes - a aquisição é gradual, com hipergeneralizações e deformações. Exemplo de hipergeneralização: nossa vizinha se chama Júlia (5 anos). Quando fomos a Gramado, Agnes chamava a Helena (filha do meu primo) de Júlia. Agnes adotou "Helena", mas recentemente falou da "outra Júlia", referindo-se à Helena. Exemplo de deformações: arroti, puli, fazi, pegui etc. Alguém no público lembrou que, para as crianças em fase de aquisição, muitas e muitas palavras são mistérios por muito tempo (o tal vocabulário virtual), e no entanto, com tempo, são assimiladas. Por fim, Geoffrey Pullum apresentou a sua MTS (Model Theoretic Syntax) e criticou a postura do gerativismo de medir o tamanho das línguas: capacidade de gerar infinitas sentenças a partir de um número finito de regras; porque a finitude não pode ser verificada. Claro que Daniel Everett e o caso da não recursividade do pirahã foi mencionada, entre outros exemplos de línguas que não dispõem dos mecanismos previstos pela sintaxe gerativa e que deveriam ser universais.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Abralin 50

Estou em Maceió (AL), participando do Congresso comemorativo dos 50 anos da Associação Brasileira de Linguística. O hotel em que estou hospedada fica de frente pro mar. O hotel em que acontece o evento também. Mas não vejo ninguém na praia, nem espaço na curta faixa de areia. Cheguei ontem de noite, depois de muitas horas em aeroportos vários. Por causa de um atraso na saída de PVH, perdi uma conexão em CNF para um voo direto e fui parar em Recife, onde terminei de preparar os meus slides. Só depois segui a Maceió. Quando cheguei, tinha perdido a abertura do evento.

Hoje de manhã cedo fui logo procurar a central de mídia, porque tinham avisado que todos os slides que apresentássemos tinham que ser levados à central de mídia que mandaria o arquivo pros lugares certos. Cheguei lá e disseram que como minha apresentação era no quarto, eu tinha que inserir o pendrive no computador do quarto. E era quarto mesmo. O evento acontece no Ritz Lagoa da Anta. Fui ao apartamento 238. Fechado. Avisaram que tinha mudado pra 237. Cadeiras ocupavam o lugar destinado à cama. E foi chegando gente e eu comecei a falar e de repente a única cadeira livre era aquela em que estava a minha bolsa.

Apresentei sobre construções de tópico-comentário no Jornal Nacional. Tomei como base o TCC de um orientando meu, mas quando vi que os dados dele estavam furados, coletei dados novos - e cheguei a outras conclusões. Ou seja: a minha proposta inicial era pegar carona no trabalho do orientando; e agora que os dados mudaram, ele está pegando carona comigo. A pesquisa é outra, fiz até uma descoberta (categorização nova).

Achei bem legal apresentar pra quem acena com a cabeça, mostrando que está entendendo. O tempo de 15 minutos é muito curto, mas como a pessoa que apresentaria depois de mim não veio, pude invadir um pouco o tempo dela. No final, depois que todos apresentaram, vieram as perguntas e comentários. Me dei conta que eu estava rodeada de gerativistas que falavam em movimento na estrutura e violação de princípio. Dei minha contribuição como pesquisadora da Neurolinguística e ofereci formas (novas pra eles) de pensar alguns problemas.

Fui ver uma conferência intitulada O sim, o não, o talvez, o nem tanto na gramática da língua. Maria Helena Moura Neves analisou cada um desses advérbios. Faraco e Marcos Bagno fizeram falas políticas, apelando para projetos coletivos de linguistas que cheguem nas escolas e no senso comum. Os linguistas têm como missão descrever a língua, então por que as gramáticas continuam colonizando as escolas e disseminando o preconceito de que quem não fala bem, não pensa bem? As gramáticas da língua portuguesa (do Brasil) são todas de autor, não há autoridade que chancele as gramáticas.
Em seguida, Chomsky deu uma videoconferência. O som falhava, eu me perdi na engenharia das construções, acabei prestando mais atenção na Ronice Müller Quadros interpretando e pensando: putz, só ela mesmo pra interpretar, porque é preciso entender tanto o idioma como o conteúdo do discurso pra poder interpretar. Eu falharia no segundo ponto.
Neste evento, um aplicativo coloniza nossas atenções. Os participantes do evento - e são muitos! - constantemente tiram fotos de si mesmos e postam no aplicativo. A programação está no aplicativo, os avisos de mudança de sala também, as reclamações de pouco espaço, denúncias de motorista de Uber mal intencionado, registros de alunos orgulhosos de estarem aqui.

Na vida real, encontrei o Pablo Arantes e tudo é como 10 anos atrás. Revi também o Élcio Fragoso, colega de departamento afastado pra pós-doc em Santa Maria. Ele entrou na UNIR quando eu estava na UFSM. Revi a Dudu e percebi que ela envelheceu, mas o modo de falar, responder e conduzir sua pesquisa não mudaram uma vírgula. Anna Bentes tava ao lado dela e parece que as duas conseguiram casar Neurolinguística com Linguística Textual. Queria acompanhar Lilian Ferrari, da Linguística Cognitiva, mas haverá dois outros eventos simultâneos, um deles com o Ataliba sobre a editora Contexto e a Linguística. Como editora da Edufro, me sinto chamada. Em 2015, Ataliba levou o jornalismo da TV Globo ao Gel. Agora é a Contexto. Mas isso é amanhã.