Hoje algumas cidades tiveram o segundo turno. Em Porto Velho, a disputa era entre o atual prefeito, aliado do agronegócio, e uma evangélica que defende a Escola sem Partido. Como escolher? Um em cada três eleitores não foi votar. Um terço da população (mais precisamente 34,2%) decidiu não contribuir para a decisão de quem seria o/a prefeito/a em Porto Velho. A esse contingente se somam os votos nulos (5,2%) e brancos (2,7%). Total: mais de 40% da população não contribuiu para a escolha entre a direita do empresariado e a direita ideológica. No final das contas, o número de eleitores que não foi votar foi maior que o número de eleitores que reelegeram o prefeito.
domingo, 29 de novembro de 2020
Abstenções, nulos e brancos
A ciência e a verdade
Daniel Everett foi missionário entre os indígenas em Rondônia e Amazonas e fez parte da SIL, que tem como objetivo a tradução da Bíblia para todas as línguas, independentemente da cultura e religião de quem receber "a palavra". No convívio com os pirahã, Everett virou ateu (lembrando: ateu não é a pessoa que não acredita em Deus, mas a pessoa
que acredita que Deus não existe) e passou a criticar sua própria atitude enquanto missionário – mas se calou em relação aos missionários que seguem convertendo indígenas e à SIL que assumiu a tarefa de inventariar e catalogar as línguas do mundo. O doutorado de Everett foi orientado por Charlotte Galves, notória pesquisadora na Unicamp – no quadro teórico do gerativismo. A recursividade – que Everett não encontrou em pirahã – foi o primeiro (e infinito) embate com Chomsky, porque, para Chomsky, a recursividade é constitutiva da linguagem humana. Esta é a segunda conversão de Everett – dessa vez, de cunho teórico.
Não é preciso passar pelas experiências de Everett para refutar o gerativismo. O formalismo de Chomsky não é a única opção em Linguística (há várias formas de funcionalismo, inclusive diferentes escolas funcionalistas atuando no Brasil). Chomsky não equivale a sintaxe à língua, apenas defende sua centralidade numa concepção modular da linguagem humana. São opções teóricas, tais como encontramos na Física, quando Einstein postula, na Teoria Quântica, que o Universo é estático (sendo que o big-bang seria a refutação disso). Teorias não correspondem “à verdade”, mas recortam, descrevem e explicam fenômenos.
Chomsky e Everett seguiram caminhos distintos, por isso suas hipóteses acerca da linguagem são incompatíveis. Everett não é o primeiro nem o último a criticar os pressupostos do gerativismo, nem o único a inaugurar um modelo teórico próprio. O fazer científico é baseado no diálogo – não na aniquilação ou conversão de “inimigos”.
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Laços
Antes, eu não tinha medo de morrer: tinha pena de quem recebesse a notícia da minha morte.
Quando conheci o amor da minha vida, tive medo que ele morresse. A notícia de sua perda seria só a primeira agulhada da dor infinita e da ausência de sentido. Como sobreviver? Minha existência está ligada à dele. Tua palavra é luz para o meu caminho. Com a luz, veio a sombra.
Nasceu a minha filha e entendi que eu não posso morrer enquanto ela depender de mim. Com tanta morte à volta, é difícil ignorar essa sombra que nos acompanha.
domingo, 22 de novembro de 2020
Mercúrio
Estávamos as duas no carro, voltando do parquinho. Agnes tinha ralado o joelho e estava se sentindo miserável: "Está doendo! E a amiga não estava de máscara! Eu vou pegar o vírus!"
Tentei acalmar: "Quando chegar em casa, você vai tomar banho e papai vai passar mertiolate ou outra coisa."
"O que é mertiolate?"
"Aquela coisa que arde, mas limpa o ferimento. Ou ele vai passar mercúrio."
Aí ela desatou a rir. A risada tomou o lugar da dor: "Mercúrio é um PLANETA, mamãe!"
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
O passado e o futuro
| Troche: Bagagem. |
Meu passado caminha com o seu futuro. O que me define, além de caminhar ao teu lado, é o meu passado; o que te define, além de caminhar ao meu lado, é a potencialidade do teu futuro. Foi nisso que pensei quando vi essa imagem no livro Bagagem do uruguaio Troche. Pensei na Agnes e em mim, já que na imagem parece haver uma relação do mesmo tipo (os dois caminhantes são bem parecidos, só que de tamanhos diferentes).
Mas dá pra pensar nos assassinatos de George Floyd e João Alberto Silveira Freitas e seus desdobramentos. Ambos foram homens negros na faixa dos 40 anos de idade asfixiados por policiais. Ambos foram mortos na saída de mercados. A morte de ambos gerou protestos no resto do país. Depois da morte de George Floyd, Trump não se reelegeu. No Brasil, 44% das cadeiras de vereadores nas Câmaras Municipais serão ocupadas por negros.
A morte de João Alberto Silveira Freitas é o assunto do dia da Consciência Negra (20 de novembro). Foi espancado e morto por seguranças terceirizados do Carrefour. Segundo matéria da Folha, a empresa de segurança tinha milicianos na formação de seu pessoal e no topo de sua estrutura hierárquica:
O Grupo Vector, responsável pela segurança terceirizada da loja do Carrefour em Porto Alegre, onde João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado e morto por dois seguranças na noite desta quinta-feira (19), tem em seu quadro societário dois policiais militares e um policial civil e atende outras varejistas, como Extra, Atacadão e BIG (Walmart).
Outra notícia veiculada na Folha aponta para o problema que isso representa:
A Constituição Federal proíbe funcionários públicos, como policiais, de acumularem cargos remunerados, como a chefia de companhias de segurança privada.
Algumas delas são empresas de formação de seguranças, outras executam o serviço na ponta e podem contratar policiais em seus dias de folga, o que também é ilegal. A fiscalização do setor fica a cargo da Polícia Federal, que tem falhado nessa tarefa.
Esse é o nosso passado acumulado. Que o respeito pela vida do outro seja maior que a defesa do mercado, que a cultura da terceirização mude, que a responsabilidade pelo serviço terceirizado seja incorporada pelo contratante, que homens negros saiam da mira da violência policial e do encarceramento, que Boulos (SP) e Manuela (POA) cresçam no segundo turno: é isso que eu desejo que aconteça no futuro.
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
Marcele Reitora!
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Deadline
Ele entrou no projeto sabendo dos prazos e entendeu que precisaria se organizar para cumpri-los. Montou uma equipe, delegou tarefas, compilou dados, agendou e conduziu entrevistas. Na equipe, um montou mapas, outro fez os gráficos, outro transcreveu as entrevistas. O esforço de interpretar os dados era equivalente ao da tese. Um universo inteiro se abria: a vontade de teorizar vinha antes da disposição para analisar os dados coletados.
Pediu que a família compreendesse que precisava de tempo para se dedicar ao projeto. Ficava esgotado depois das reuniões, das entrevistas, de pensar diante da tela. Chegou a se isolar num hotel, mas como tinha levado o celular, as notícias urgentes e cobranças do mundo ao redor logo o alcançaram.
O prazo foi adiado e ele passou dois dias resolvendo pendências acumuladas. Quando retomou o projeto, viu que o tempo concedido era pouco para o que faltava fazer. Havia dois limites que se impunham: o tempo do relógio e o número de páginas. Precisava coordenar o volume de escrita com o tempo que ainda lhe restava. Contagem regressiva no calendário, número de páginas escritas aumentando.
Mudou a rotina de toda uma rede de pessoas. Os membros do grupo passaram a se reunir alta noite, a família passou a sair mais de casa para deixá-los trabalhar. A hora do fim do prazo se aproximava. Não havia texto quando o dia chegou. Havia um esqueleto, uma ideia, uma intenção, um plano. Mas não havia texto.
Pediu mais prazo. Como ele é conhecido e reconhecido na academia, apostaram na qualidade do trabalho e concederam uma semana a mais de prazo. Ele se sentia como quem engana a Morte e posterga a sua hora. Juntou material produzido por um, por outro, escreveu em cima, teorizou e se surpreendeu com a riqueza do material que tinham à disposição. Quando atingiu metade da meta do número de páginas, entendeu que as outras seções não poderiam ser tão extensas. Ao invés de escrever, passou a cortar, reduzir, resumir. E o calendário mostrava que o seu tempo ia minguando.
Perdeu o prazo, que era uma sexta-feira. Com o argumento de que ninguém abre email depois da meia-noite de sexta-feira, teve esperança de conseguir finalizar na madrugada de sexta para sábado. Percebia que o que estava na sua cabeça era toda uma tese articulada de aproximadamente 200 páginas. Lutou para condensar isso tudo em 30 páginas. A cabeça girava, o corpo moído pela cadeira, as pontas dos dedos adormecidas, mas ele tinha sido dominado pelo projeto e precisava entregar um texto respeitável. Sábado passou, entrou domingo e a forma do texto ia ganhando corpo. Na noite de domingo, chegou a cogitar que tinha alcançado a metade do texto. Faltava a outra metade.
Na segunda, o ultimato: aguardamos o texto hoje. Pediu à companheira que revisasse o texto assim que estivesse pronto. As seções estavam definidas, havia texto escrito, mas essa história de escrever um texto a muitas mãos dá um caráter meio esquizofrênico ao todo, já que cada autor tem seu estilo, suas fórmulas, seu tempo de exposição. Um jogava pílulas concentradas - quase enigmáticas, outro se demorava nos passos que levariam à conclusão. Era preciso homogeneizar a escrita. Passou a noite trabalhando. A companheira entrou em ação de madrugada. Enquanto ela revisava a primeira parte, ele lapidava a segunda.
Na manhã de terça, ele declarou que tinha alcançado dois terços do texto. A companheira tinha chegado nas referências bibliográficas e se deu conta de que a ABNT não é universal. Em outras línguas, os sinais de pontuação exercem outras funções ao organizar a informação contida na referência. Faltavam quatro referências que haviam sido citadas no corpo do texto. Ela perguntava se Nascimento e Castro não era o livro que estava no banheiro. Ele respondia que Castro não era a Edna, mas outra pessoa (mas era a Edna Castro). As notas de rodapé se mostraram um problema: numa versão do texto, as notas tinham sido colocadas no rodapé da página, por isso não foram copiadas com o resto do texto. A revisora teve que inserir (e formatar) cada uma das notas na versão final. Quando chegou a segunda metade do texto, ela notou que várias partes da primeira metade estavam marcadas e precisavam ser inseridas na versão final. Ou seja: não se progride por seções cumpridas, mas por assuntos resolvidos por escrito - e isso envolve forma e conteúdo.
Antes de almoçar (depois do meio-dia), todas as seções estavam completas, mapas e gráficos no lugar, notas inseridas, referências citadas e o texto revisado. Poderia ficar melhor, não fossem esses prazos - que são de matar. Quando a pessoa finalmente cruza a linha de chegada, está morta de cansaço.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Brincar sem brinquedo
Agnes brinca sozinha com brinquedos quando são novidade. Com outra pessoa, ela brinca com brinquedos numa boa, mas o que ela mais gosta é de brincar com outras crianças. E aí não precisa de nada além de espaço.
Em plena ascensão da segunda onda do corona vírus, o parquinho ainda é a melhor opção. Ela corre com Mathias e brinca com os amigos do Mathias - que são todos os frequentadores do parquinho de mais ou menos 1m de altura.
domingo, 15 de novembro de 2020
Como foi o ensino remoto
O ensino remoto foi abreviado. Antes da pandemia, cheguei a dar 4 aulas (encontros de 1 hora e meia). Quando a universidade admitiu que os cursos poderiam seguir de forma remota, tanto alunos como professores puderam escolher se seguiriam no modo remoto. Eu decidi seguir com a disciplina eletiva, Neurolinguística, e abortar a disciplina curricular, Morfologia. O problema era que estávamos decidindo isso em outubro pra começar o ensino remoto em meados de outubro. Foram feitos cálculos em que aulas síncronas e assíncronas foram computadas de maneira desigual: 2 horas de aula presencial para 6 horas de leitura e estudos por conta própria. Pelo cálculo, quem dava disciplinas de 40h, como era o meu caso, só daria 4 aulas e meia (cada uma de 1 hora e meia). Considerando que o curso tinha iniciado em fevereiro e que as aulas ministradas antes da pandemia correspondiam a 25% das aulas do curso (ou seja, 4 aulas presenciais equivalem a 25% do curso), eu tinha que abater uma aula e ministrar 3 aulas e meia no modo remoto (ou seja, 3 aulas e meia corresponde a 75% do curso). Maluco, né?
A turma tem hoje, no sistema, 45 alunos. Alguns deles entraram na turma só durante a pandemia, outros trancaram. Os professores receberam uma lista com email de todos os alunos matriculados no curso. Nessa lista, apenas 4 alunos declararam que não seguiriam pelo modo remoto por não terem condições (tecnológicas) de acompanhar as aulas. Mas... nota e presença só 25 alunos conseguiram alcançar ao fim do curso.
O curso era sobre Neurolinguística, mais especificamente sobre a semiologia das afasias. Falamos de dislexia e de autismo porque choveu de perguntas sobre esses distúrbios, já que as pessoas têm contato com pessoas diagnosticadas. Os seminários estavam previstos no curso presencial e foram mantidos no remoto: editei vídeos de 4 minutos em média que podiam servir de base para estudos de caso de agramatismo, jargonafasia, anomia e estereotipia. Sobre confabulação eu não tinha material audiovisual, mas tinha textos.
Pedi aos alunos que relatassem como foi a experiência do ensino remoto. Todos encararam o seminário como um grande desafio: botar slides a partir do celular, fazer um vídeo rodar e falar com tranquilidade não foi fácil. Todos relataram que o que os motivou mais foi o conteúdo do curso: distúrbios de linguagem era o desconhecido, mesmo que tivessem alguém com algum distúrbio de linguagem na família. Aprender então sobre discurso na esquizofrenia, autismo, anosognosia (como pode alguém não ter consciência das suas dificuldades?), confabulação e memória foi decifrar alguém conhecido. E assim a Neurolinguística entrou na vida cotidiana, no caso concreto.
Só que essa turma é de primeiro semestre. Eles ainda nem entenderam o que é Linguística, quais são as disciplinas, como se pronuncia léxico, sintaxe, apraxia e prosódia. Ficaram confusos com as teorias linguísticas assim, no plural (não é uma verdade só? são diferentes teorias?).
E aí eles se sentiram sozinhos, sem foco. A cada leitura de texto, eles precisavam procurar explicações para palavras e conceitos em outros textos. Tiveram que fazer anotações, resumos e fichamentos por conta própria para entender o texto que seria usado no seminário. Tiveram que aprender a pesquisar informação. Uma aluna (talvez ela seja exceção) relatou que leu todos os textos dos seminários. Isso quase nunca acontece: cada aluno lê apenas o texto que vai apresentar e absorve do seminário dos colegas o conteúdo dos outros textos. A carga de leitura foi a mesma que seria no presencial, mas entendi, pelos relatos deles, que eles leram mais no modo remoto que leriam no modo presencial. Leitura não garante aprendizado. Mas é um bom começo.
A grande maioria relatou dificuldades para se adaptar ao modo remoto. Havia barulho na casa, distratores, concentração era um problema, participar das aulas pelo celular foi um desafio, o sinal de internet nem sempre era bom, a conexão caía. Quem tocou nesse assunto, reportou que compreendia o conteúdo melhor no modo presencial. Em alguns casos, o bloqueio parecia não ser só de ordem técnica. Entendi que comunicar não é só falar: os gestos, a postura, as brincadeiras, a polidez que fazem parte da interação face a face não estavam na tela. Uma pessoa relatou que a turma se ajuda bastante - mas que presencialmente, na convivência, as afinidades faziam fluir melhor o estudo e o trabalho colaborativo.
A tese central do documentário Ivory Tower (Torre de marfim) de 2014 é que a universidade oferece 3 coisas: ensino/educação; redes de relações; certificado. As redes de relações são tão importantes quanto o ensino e o certificado. O modo remoto falha ao deixar o aluno sozinho, sem relação com o professor e com os colegas.
Com essa segunda onda de corona vírus, parece que ano que vem continuaremos no modo remoto. Precisamos aprender a interagir com os alunos nessa modalidade - sabendo das dificuldades deles.
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
III Congresso Métodos Fronteiriços
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| Marcadores de livro desenhados pela Leidijane Rolim |
Fui convidada pela organização do III Congresso Métodos Fronteiriços a falar sobre "vozes e edições amazônicas" numa mesa com o editor da Revista equatoriana Kipus e moderação do Miguel Nenevé, ele mesmo editor da Revista Igarapé. Duas revistas que publicam estudos culturais, decolonialidade e suas respectivas articulações de conhecimento. E eu, editora da EDUFRO.
A organizadora e eu pensamos juntas o que eu poderia falar nessa mesa e chegamos ao lema da editora: Pensar por escrito. Depois da minha fala, deu vontade de escrever sobre Flusser, o processo de escrita, o produto da escrita, editoras, leitores e tudo junto e misturado: o autor que é leitor e edita seu texto.
Os slides não andaram como eu via na minha tela, Luis tentou me avisar depois que todos tentaram me avisar por escrito (email, celular), mas eu estava tão concentrada na fala, que não consegui ouvir os avisos.
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
Menos plástico
| Isto é um brócolis |
Agnes eu eu saímos de casa pra ir na cabeleireira, mas o salão estava fechado. E agora? Tomar sorvete! Fomos lá, tomar sorvete. E agora? Parquinho! Fomos, mas no caminho tinha uma feira. Achei surpreendente uma feira de tarde, tão perto de casa. Descemos do carro e fomos explorar. Vi uma banca com fraldas ecológicas, coisas em bambu e cheguei mais perto. Me interessei por toalhas com cera de abelha que funcionam como filme plástico.
| Isto é um queijo |
Achei tão bacana essa ideia de usar menos plástico, que levei um kit com 3 tamanhos diferentes. A toalha é moldada pelo calor da mão e fica nessa forma na geladeira. Dura um ano e pode ser lavada. Fui procurar isso na internet e achei tutorais que ensinam a fazer esse pano (se não quiser comprar, dá pra fazer - contanto que se tenha cera de abelha).
Agora temos só o desafio de lembrar o que está dentro dos panos de cera ;]
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Museu do Parque Ecológico
Os parques foram reabertos há pouco tempo. Agnes e eu fomos no Parque Ecológico e não conseguimos fazer a trilha, porque a manutenção ainda não trocou todas as tábuas apodrecidas. Quando estávamos saindo da trilha, um homem segurando uma haste com um gancho na ponta passou por nós. Entendi que era um funcionário do Parque, mas não saquei logo o que ela aquele bastão.
Sem trilha, sugeri que visitássemos o museu (que eu não conhecia). O cheiro de naftalina foi a primeira impressão que nos saudou no interior do museu, junto com o frio do ar condicionado em modo polar que abraçava nossa pele molhada.
Os animais empalhados na vitrine central e os insetos mortos eu achei normais e Agnes saltava de um olha aqui! pra outro mamãe, vem ver!
Só que daí me dei conta de que TODOS os animais expostos estavam mortos. Com algodão nas órbitas dos olhos. Com ovinhos de naftalina nos cantos. Teriam morrido nas redondezas? Museu taxidermista...
Entramos numa sala em que havia cobras, sapos e peixes em potes de vidro sortidos. Entendi ali que o bastão que o sujeito na trilha segurava era pra pegar cobra.
Lembrei da greve de 2011 na UNIR, quando Carolina Doria dizia pra câmera que ela trabalhava no barracão, todo de madeira e sem um extintor de incêndio, em que toda a coleção de peixes estava guardada em vidros com álcool. Os vidros do museu igualmente parecem ter saído da cozinha.
domingo, 8 de novembro de 2020
Pé-frio
Não lembro exatamente o ano, mas imagino que deve ter sido entre 1995 e 1998. Éramos todos cabeludos e adolescentes, eu viajava com Wernher e Leo para Itatiaia com certa frequência e namorava o Fernando. Wernher e eu frequentávamos a mesma escola (entrei na USP em 1996), mas ele era um ano mais novo que eu. A mãe dele só autorizava as viagens com o Leo porque a Lou ia junto - e a minha mãe só deixava eu ir com eles porque o "Wermi" ia junto. O Leo era estudante de Física na USP, tocava um laboratório de identificação de componentes químicos através de fios de cabelo e escalava. As viagens pra montanha eram pra compensar as horas de escalada em academia (principalmente do Leo). Foi em Itatiaia que conhecemos o Everal (esgrimista) que se juntou ao grupo e me apresentou a Linguística: ele estudava na USP e me convenceu a escolher Linguística ao invés de Português.
| Everal |
Em 2007, quando eu estava fazendo doutorado-sanduíche na Holanda e era bolsista Alßan, fui a Grenoble, apresentar o meu trabalho. Como a Europa é pequena, resolvi aproveitar a saída e conhecer a Itália. Me apaixonei pela língua, me atirei às hipóteses sobre construções e conversei com desconhecidos que riam na minha cara. No final do giro, fiquei hospedada na casa da Manoela, (então) namorada do Everal. No dia da minha partida, uma nova palavra me impôs restrições: sciopero. Greve de aeroportuários por algumas horas e eu tive que voltar de alguns trens e ônibus em muito mais horas que o planejado. Fiquei pensando: será que eu sou pé-frio? Eu viajo e...
Em novembro de 2008, participei de um Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura que aconteceu em Camboriú, SC. Ficamos a maior parte do tempo no hotel, porque choveu muito: tanto, que a cidade alagou, pessoas foram desalojadas e cedemos camas para cidadãos que vieram procurar abrigo no hotel. O grupo passou por uma experiência de forte união - não pelo pedal, mas pela tragédia em volta. Quando o tempo de hospedagem no hotel acabou, a água começou a baixar, mas ainda havia barreiras nas estradas, de modo que fui com um grupo de pessoas prum apartamento vazio em Balneário Camboriú, onde esperamos a situação regularizar. Pensei: olha eu entrando pro clube de cicloturismo e lá vêm as chuvas catastróficas de Santa Catarina.
Em fevereiro de 2014, Luis e eu retornamos (casados) a Porto Velho, RO, para as nossas vagas na UNIR. Em março foi o pico da cheia histórica do rio Madeira. Fizemos um filme sobre a cheia do Madeira e o vazio de responsabilidade pela tragédia - que venceu prêmio no Fest Cine Amazônia. Fiquei pensando que eu nunca mais poderia mudar de lugar, porque não é seguro para a cidade em que eu for me instalar.
Agnes teve a primeira infância numa casa grande, com um jardim cujos limites eram difíceis de definir. Em 2019, o proprietário decidiu vender a casa e nós não conseguimos comprar. Mudamos para um apartamento e poucos meses depois a pandemia se instalou. Essa não é a primeira mudança de casa em Porto Velho (é a minha sexta moradia nessa cidade desde 2009), mas é associada a outra situação de emergência.Sou eu que sou pé-frio ou é o mundo que gera tragédias (de várias naturezas)? Em tempos em que os americanos sentem necessidade de ir às ruas para comemorar a eleição de um conservador, acho que eu sou irrelevante. Toda a esquerda comemora muito mais a não reeleição de Trump do que a vitória (apertada) de Biden. O discurso dele foi morno, protocolar e cheio de sorrisos tortos. Já o discurso da vice dele, Kamala Harris, foi ponta-firme, anti-Trump. As tragédias que por coincidência acompanhei de perto têm, em alguma medida, relação com o modo como o mundo é conduzido (explorado, revirado e pavimentado).
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Meet all day long
Todos os gestores de órgãos ligados à Reitoria foram convocados a participar de uma reunião virtual de transição que durou o dia inteiro. A equipe que trabalhou na gestão de Ari Ott apresentou seu setor, dificuldades, avanços e legado para a reitora eleita (mas ainda não nomeada e empossada), Marcele Pereira.
A internet oscilava, vieram eletricistas (pra trocar lâmpadas!) que desligaram a chave geral do apartamento todo, fiquei sem internet no computador e sem energia pra carregar o celular, desci pro saguão do prédio, botei o celular na tomada, o barulho na avenida invadia a reunião, vi os eletricistas indo embora, subi de novo, voltei ao computador, apresentei a EDUFRO, passou do meio-dia e os trabalhos da manhã foram encerrados. Quando saí da reunião, não tinha ninguém em casa. Luis e Agnes tinham saído e o almoço estava pronto.
Entrei uma hora atrasada na reunião da tarde porque almoço, louça e roupa no varal me tomaram esse tempo. Depois que Agnes acordou da soneca da tarde, levamos o Luis pro hotel, porque ele precisa se isolar pra terminar um projeto. E a reunião seguia pelo celular. Quando Agnes e eu chegamos em casa, a reunião seguiu pelo computador.
Adivinha o que tem na programação de hoje. Reunião de Departamento pelo Meet. Provavelmente a manhã inteira.
Home office que é mais home do que office.
domingo, 1 de novembro de 2020
Letra U de fantasma
Ouvi os gritos finos e assustados da Agnes vindo do quarto. A soneca da tarde tinha acabado. Depositei o livro na mesa, o marca-texto em cima, tirei os óculos e entrei no quarto.
Breu profundo, exceto por uma luzinha verde. Agnes segurava um monstrinho (que tem luz na barriga) como se fosse um farol. Deitei do lado dela e ela deu a ideia de desenharmos letras no ar com a luz. Adivinhou umas, fez outras e quando a luz voltou para a minha mão, ela pediu que eu fizesse a letra U de fantasma.
Ela não viu a minha cara de interrogação porque estava escuro demais, mas entendeu minhas reticências e explicou: o barulhinho que o fantasma faz: UUUUUU






