sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Fechando o ano com publicações

Eu tinha submetido um texto parecido com outro em 2020. Hoje em dia não se fala mais em autoplágio, mas de reciclagem, porque existe uma lógica (manter a coerência consigo mesmo) nisso. Os dois textos compartilhavam o mesmo corpus, mas propunham análises diferentes. O corpus era formado de construções de tópico-comentário recolhidas no Jornal Nacional. No primeiro texto, publicado na CadLin, analisei principalmente as formas sintáticas das construções de tópico e vinculei cada forma a um tipo de falante no Jornal Nacional.

apresentadores - anacoluto

repórteres - topicalização e anacoluto

entrevistados - deslocamento à esquerda com pronome-cópia

Os apresentadores são aqueles que leem o teleprompter. Nessa fala lida, não foram encontradas construções de tópico, mas eles entrevistaram, por exemplo, os candidatos a presidente e conversaram entre si. Na fala deles, apareceram construções como (tópico em negrito):  

Pergunta. O senhor pretende levar para o Brasil inteiro esse modelo de concessão de estradas estaduais de São Paulo?

Os repórteres produziam muitos anacolutos, mas também topicalização, em que o tópico poderia ser inserido no comentário tranquilamente:  

Botar Messi na roda. Muita gente já tentou *, mas até agora o resultado foi esse (imagem de Messi comemorando).

Os entrevistados produziram, em sua maioria, deslocamentos (o sujeito sai da sentença, é movido pra posição de tópico e um pronome é gerado no lugar do sujeito - uma abordagem bem gerativista):  

A convenção de Haia, ela tem exceções.

O outro texto, que submeti em 2020 na Revista Investigações, pretendia fazer a relação entre as formas das construções de tópico (anacoluto, topicalização e deslocamento à esquerda) com as funções que o tópico estabelece em relação ao comentário. Quem faz esse tipo de coisa? Funcionalista acredita no pareamento entre forma e função.

O texto submetido na Investigações foi avaliado por pareceristas que leram o meu texto na CadLin e pediram que as partes iguais fossem alteradas. A editora da Revista Investigações me deu a chance de reformular o texto e então eu tomei o texto da CadLin como referência pra desdobrar a análise da forma e função. A nova versão, submetida em 2021, foi reavaliada e aceita pelos pareceristas. No final de 2021 a editora avisou que o texto não caberia mais na edição daquele ano, que o texto sairia em 2022. Saiu anteontem. 28 de dezembro.

* * *

Outra publicação no final de 2022 foi a entrevista com a Kory Stamper, que saiu hoje. Eu já tinha publicado a entrevista com a Arika Okrent na mesma revista, então o processo todo se deu de maneira muito mais acelerada (11 dias entre submissão e publicação, e isso com 3 avaliações!!!).

Uau, hein? Duas publicações na reta final do ano...

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Avatar 2

Vimos Avatar: o caminho da água dublado e em 2D (porque alguéns não curte os óculos de 3D). Quando o filme terminou, Agnes disse em alto e bom som no cinema lotado: "gostei mais do 1". 

Pois é...

A história do 1 era sobre a humanidade, sobre a ganância de uns poucos e a comunhão com Gaia pela maioria. Havia ali soluções inusitadas para o enredo. Nesse filme 2, a história é menos importante que a imersão nas imagens. E é imersão mesmo, por causa da tecnologia de filmar na água.

Isso é o que me surpreende: são 3 horas e 12 minutos de filme em que os nossos sentidos (visuais) são chamados à flor da pele. A história, em contraposição à do 1, recua do coletivo para o individual, familiar. Se antes era Pandora como um todo que estava em risco, agora o alvo é um indivíduo que é caçado por motivos pessoais (traição). Esse indivíduo (o protagonista do 1) agora tem uma família e decide fugir com os seus. O alvo se move, muda o cenário, mas Hollywood com sua violência estetizada segue no encalço. Flechas contra armas de fogo. Mira certeira contra tiros abundantes ao léu.

Cinema é tecnologia, sim, mas não só. Os temas da família e paternidade estão na moda, sim, mas tudo se dá dentro dos padrões. Moving pictures talvez seja uma definição justa: imagens que se movem. Avatar 2 parece um quadro em movimento. A história que o quadro conta é altamente previsível e americana (self-made man).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Amazonizar-se

Quando terminei de ler o último livro da Eliane Brum (2021),  apareceu outro dela (2014) na minha escrivaninha (Meus desacontecimentos). Agora preciso dar um tempo de tanta emoção à flor da página.

Eliane Brum, descendente de italianos, gaúcha e moradora de São Paulo se sente chamada pela Amazônia e resolve mudar-se pra Altamira. A cidade mais violenta, a cidade com estrias de expansão acelerada por causa das obras de Belo Monte, a cidade que devora a floresta. Quem mora em cidades consolidadas tem a impressão de que a cidade sempre foi assim, só mudam as lojas. Quem vai pra Altamira percebe que onde é cimento antes era floresta: "uma cidade moderna é, por definição, uma ruína da natureza" (p. 210). Onde havia indígenas, agora há pobres de periferia, refugiados em seu próprio país.

A partir do olhar de Greta Thunberg, Eliane Brum presta atenção nas crianças e nos jovens, filhos desses deflorestados, desterritorializados que perderam seu modo de vida e seu futuro. Que futuro terão os filhos desses adultos? 

Na análise da jornalista, Trump e Bolsonaro não têm um futuro para oferecer, porque o futuro é colapso climático - que eles se esforçam para negar, já que esse futuro é ruim. Vendem então um passado que nunca existiu.

"Òkòtó é um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pião. A cada revolução, amplia-se 'mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito'." (p. 338) Pois é, assim como no outro livro, a definição do título aparece lá pro final do livro...

Achei bom passar por essa imersão, mas não sei identificar a escritora. 

O texto é uma construção. Percebo na jornalista a compulsão pela escrita, mas não enxergo engenhosidade na forma do texto. É um jornalismo diferente, que contém a sensibilidade da escuta, a relação de quem escuta com quem lê e a mediação entre mundos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Curtinho

Cheguei no salão com o cabelo preso num coque. O cabeleireiro perguntou, com ar zombeteiro, se eu queria cortar curtinho. Eu disse que sim e mostrei uma foto de mim mesma com cabelo curto. Ele tirou a piranha do meu cabelo e teve dó de cortá-lo: seu cabelo é bonito, por que quer cortar?

Lavou o cabelo, secou, botou o pano em volta do meu pescoço e perguntou se eu não queria um corte chanel. Não. Mas eu vou só te mostrar como ficaria, ok? Não gostei. Resignado, cortou mais. Quase fiquei com medo que ficasse curto demais.

No fim, ele disse que tinha ficado melhor curto mesmo. Ficou curioso em relação às raízes brancas. Isso eu resolvo em casa. Mas o que você usa? Henna. Ficou chocado: ainda existe? Tem que pedir pelo correio, mas existe, uai.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Variantes regionais

Na prova de Morfologia desse ano, uma das questões envolvia perceber conjuntos. Vou mostrar:

casarão       livrinho           coxinha              boiada

salão           copinho          canetinha           macacada

roupão        golfinho          camisinha          bananada

cartão          moedinha       borrachinha       meninada

quentão       florzinha         quentinha          martelada

No primeiro conjunto, 'casarão' era a única palavra que estava simplesmente no aumentativo. É a única palavra em que a soma das partes (casa + aumentativo) resulta de uma lógica interna (casarão = casa grande). Salão não é necessariamente uma sala grande, remete antes a um lugar em que se corta cabelo, pinta unhas etc. O roupão também não é uma roupa grande, ou seja, é uma palavra nova (também ela remete a uma peça de vestuário). O cartão não é uma carta grande, mas um objeto talvez até menor que uma carta. Por fim, o quentão não é um quente grande (vai saber...), mas uma bebida. Ou seja, todos os elementos na lista (exceto casarão) são não composicionais (1+1 dá uma terceira coisa, uma nova palavra).

Na segunda coluna, o 'golfinho' não é diminutivo, como as outras palavras. Até aqui tudo bem. 

O drama começa com as competições entre variantes. Especialmente na coluna da 'coxinha', um monte de gente não sabia se a palavra que não se encaixava no padrão das demais (mais um caso de lexicalização, só que dessa vez a estratégia é o diminutivo não-composicional) era a 'borrachinha' (que parecia ser um nome de alguma coisa) ou a 'canetinha' (que é só uma caneta pequena). Eu perguntei pra eles como chama aquilo que vem na lista de papelaria (olha eu antecipando gastos no início do ano) que as escolas mandam. Silêncio. Aquilo que tem tinta e é colorido. Hidrocor, professora. Não é 'canetinha'? 

Lembrei imediatamente da minha defesa de tese, em que uma das arguidoras (Ester Scarpa, a mãe de R, a criança cuja fala estudei) apontou para uma transcrição de dado: Raquel não fala chiclé. No dialeto dela é chiclete. De onde surgiu esse chiclé? Nem sei... terei sido eu transportada pra minha infância?

Na última coluna, mais uma surpresa. Todas as palavras terminam com o mesmo sufixo, mas -ada não tem o mesmo valor em todas elas. Mais de uma pessoa marcou 'boiada' porque entendeu a palavra como adjetivo ou verbo no particípio: ela não entendeu nada, ficou boiada. Mas a pessoa não fica 'boiando'? Não, professora, fica 'rodada', 'boiada'. E eu achando que a 'martelada' era tão óbvia... não contava com essa variedade de expressões.

Conclusão: na hora da prova, tanto o professor como os alunos são postos à prova: o que é universal? O que posso testar? O que aprendi?

sábado, 17 de dezembro de 2022

Apresentação de teatro

Ontem teve ensaio geral. Decidiram que precisava de mais um ensaio, então hoje, no dia da apresentação, teve ensaio de manhã e apresentação de noite.

A peça era uma adaptação do filme Divertida Mente, em que as emoções de uma menina são personagens importantes. Agnes, a extrovertida, ficou com o papel de Tristeza e Luiza, tímida, ficou com o papel de Alegria. 

Em inglês, há uma associação entre blue e tristeza, então Agnes tinha que ficar Avatar (ou Smurfete).

A apresentação foi bem melhor que os ensaios (ufa!)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Pesadelo

Essa noite, os três tiveram pesadelos. Eu tive o meu, Agnes deu voz aos dela e Luis deu movimento aos dele. No meu sonho entrecortado por gritos que vinham de um lado e braçadas que desciam do outro lado, eu empilhava caixas vazias. Eu tinha medo que fossem derrubadas, eu sabia que eram só aparência, eu temia que as pilhas não fossem estáveis.

Ontem matriculamos Agnes no 1º ano do Fundamental numa escola tradicional. Mesmo que a escolinha em que ela está (que não continua para além do 1º ano) tenha dito que ela está apta para cursar o 2º ano, percebemos que a alfabetização foi um processo muito instável e entrecortado.

Mesmo convicta de que tomamos a melhor decisão pela educação escolar dela, meu inconsciente compara a formação que eu recebi à que eu estou conseguindo oferecer a ela.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Bodas de cerâmica

Meus pais é que lembraram que hoje Luis e eu completamos 9 anos de casados.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Inteligência prática

Quando quis sair do carro, depois de chegar na garagem de casa, a porta não abria. Apertei o botão das trancas do carro, tentei abrir de novo, apertei mais uma vez, mas não consegui abrir a porta de dentro. Como sair do carro? Com ginástica e contorcionismo, saí pela porta do passageiro. Dei a volta no carro, abri a porta do motorista, entrei, mas não abria por dentro. Mais contorcionismo pra sair pelo lado do passageiro.

Depois de conversar com o Luis, decidimos que esse problema tinha que ser resolvido prontamente. Fui na autoelétrica que resolve a maioria dos nossos problemas. Estacionei, fiz ginástica pra sair pela porta do passageiro e me disseram que não tinham essa peça. Indicou duas oficinas.

Fui na primeira, estacionei no fim da fila, contorcionei o corpo pro assento do passageiro e saí pela porta de lá. Tem, sim, mas só faz o favor de estacionar o carro na outra ponta ali. Entrei no carro, fiz o retorno na avenida, vi o rapaz acenando pra mim na esquina e estacionei. Até tentei abrir a porta por dentro, mas não funcionou. Os dois atendentes - que já sabiam que eu não conseguia abrir a porta - estavam do lado do motorista, esperando eu sair. E eu saí com agilidade adquirida pela porta do passageiro.

- Que ano que é o carro? Ih, não vai ter a peça igual, essa aqui é mais fosca, a tua é mais brilhosa. 

- Cara, eu quero poder sair por essa porta e não pela outra. Se essa for a única diferença, então pode trocar. 

- Tá, só vou colocar o carro um pouco mais pra frente. 

Ele entrou no carro, fechou a porta, subiu as rodas nos trilhos, avançou e parou. Eu fiquei esperando ele sair pela porta do passageiro, confesso. Só que ele abriu a janela, esticou a mão, abriu a porta por fora e saiu. 

Eu dei risada. Como é que eu não pensei nisso? Tava chovendo, a senhora ia molhar.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Eu - a língua - o outro

Rosa Attié Fiqgueira (2001) explora a fala da criança à luz da teorização de Claudia Lemos, de acordo com a qual a criança não "se apropria da língua", não a "domina", mas se relaciona com ela. Essa relação se dá de três maneiras diferentes, não cronologicamente determinadas: relação com a fala do outro, relação com a língua e relação com a própria fala. Nesse artigo, sobre marcas insólitas de gênero, Rosa analisa principalmente dados em que a criança reflete sobre a língua. Por exemplo, a mãe diz: "você é um barato!" e a menina corrige: "barata, mãe, barata." No outro dado, o apresentador na TV diz Bom dia, ao que a menina responde "Bom dio" - e a irmã explica: "Bom dia é pra mulher e bom dio é pra homem." Em outro, a mãe lamenta que formou um galo e a menina retruca: "não é galo, é galinha". Em todos esses episódios, a criança ajusta o gênero gramatical ao seu sexo: eu sou menina e pequena, então tudo que me descreve tem que terminar em -a ou -inha (e não importa que a barata e a galinha sejam outra coisa no mundo ou que dio não exista). A criança, em processo de subjetivação, ajusta a língua à sua identidade. Não surpreende que a língua não-binária pretende fazer esse ajuste identitário também.

*

O real é o que é. A verdade é o que dizemos do real, ou seja, um recorte do que conseguimos perceber. Nosso acesso ao real é mediado pela língua. Pós-verdade tem a ver com a percepção de que a verdade é construída. Para Cesarino,

[...] à medida que o storytelling começa a passar cada vez mais pela infraestrutura acelerada e não-linear das novas mídias e sua economia de atenção, a linearização das narrativas coletivas, propiciada pela estabilidade dos metaenquadramentos e da confiança social a ela associada [ciência, imprensa profissional], vai se desfazendo. Intensifica-se, com isso, o colapso de contextos entre fato e ficção e as pessoas passam a entender e explicar fenômenos da "vida real" cada vez mais por meio de narrativas absorvidas nessas mídias. [...] quem vende melhor suas estórias, consegue levar seus fatos mais longe." (Cesarino, 2022, p. 225)

*

Quando fui jurada do Prêmio ABEU 2022, me deram a tarefa de avaliar 38 livros e escolher os dois melhores. Eu e mais dois jurados concordamos em uníssono com o primeiro lugar, mas o outro teve que ser negociado (e a menção honrosa também). De todos os livros avaliados, o que mais me ocupou - segui lendo mesmo depois de termos definido os vencedores, era uma tese adaptada ao formato de livro sobre a escrita fantástica feminina (O fantástico e suas vertentes na Literatura de autoria feminina no Brasil e em Portugal). Poucas mulheres se aventuraram na escrita fantástica em português, pouco se entende (ou sou só eu?) sobre escrita feminina. A pesquisadora escolheu quatro autoras portuguesas e quatro autoras brasileiras. Como a escrita feminina se diferencia da escrita não-feminia? Não é pela linguagem, afirma Ana Paula Martins, mas pelas temáticas ligadas ao cotidiano, à casa. Além de adotarem a narrativa fantástica, todas as autoras estudadas se lamentam da parca fortuna crítica. Escritoras há anos, são pouco reconhecidas nacionalmente - o olhar do outro atribui valor, construindo identidade. Eu sou eu em função do outro.