As primeiras máscaras foram costuradas a mão. Depois de lavadas algumas vezes, percebi que não sou boa costureira. Agnes e Luis foram na costureira na rua de baixo (ela atende pela janela) e puderam escolher tecido, modelo e até cor do elástico.
Luis comprou um kit com 10 máscaras, das quais 6 servem em mim e só 4 servem nele. Quando novas, os elásticos machucam as orelhas. Quando velhas, é preciso dar nó no elástico.
Percebo que o meu comportamento muda quando uso máscara. Quando me dou conta de que a outra pessoa não vê 2 terços do meu rosto, penso (inconscientemente) que ela não ouve minha voz e gesticulo muito mais que o normal. Minha tendência é falar menos - e quando falar, gritar.
Mas a visão também é influenciada. Me sinto um camaleão - com o diferencial que o olho do camaleão se move, ao passo que é a minha cabeça que se move como o olho do camaleão. No supermercado, tenho a impressão de que as outras pessoas de máscara também enxergam menos e quase-trombadas são mais frequentes - apesar da recomendação de distanciamento - que antes da pandemia.
quinta-feira, 30 de julho de 2020
sábado, 18 de julho de 2020
Candidatos à Reitoria
Em novembro se encerra o mandato de Ari Ott e agora, dia 06 de agosto, teremos eleições (via sistema) a reitor. Depois da Gloriosa Greve de 2011 (que derrubou o Reitor por corrupção e levou a Fundação RioMar à falência), tivemos 5 candidatos à Reitoria. Na época, eu me espantei um pouco: a Reitoria tinha sido ocupada por meses pelos estudantes, contratos e convênios estavam um caos, as contas uma incógnita, ou seja, estava praticamente tudo de pernas pro ar... e ainda tinha tanta gente disputando o cargo?
Durante a greve - que foi longa e representou pra mim uma escola - construímos a candidatura da Berenice. Pra desgosto dela, eu saí logo que ela assumiu a reitoria: fui aprovada no concurso em Santa Maria. Mas voltei depois de um ano, casada com o Novoa e à frente do PIBID (impossibilitada, portanto, de assumir qualquer cargo ligado à Reitoria).
Berenice foi elogiada pelo trabalho de saneamento que fez em sua gestão. Ari, que foi seu Pró-reitor de Pesquisa e Pós, assumiu depois dela e manteve o projeto (e muitos professores no mesmo cargo ligado à reitoria, inclusive o vice, porque as eleições a vice estão descompassadas com as de Reitor desde a greve, quando a vice assumiu - e se candidatou a Reitora).
Agora estamos com 5 candidatos de novo, sendo que um renunciou (denunciando outro candidato, que começou a fazer campanha antes do tempo. Só que ... fazer campanha sem dizer o nome do candidato é campanha?). São eles:
o último vice, Vergotti,
a atual Pró-Reitora de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis, Marcele,
o professor de Direito, Delson (o acusado de fazer propaganda eleitoral sem seu nome antes do tempo regulamentar)
o professor de Engenharia, Santini
o professor de Medicina, Ferrari.
O que vai acontecer no dia 06 de agosto não se chama eleição, mas consulta. A comunidade acadêmica tem a chance de manifestar seu interesse de ser regida por quatro anos por um dos professores candidatos. O voto não é universal: o voto dos professores vale mais que o dos técnicos que vale mais que o dos alunos. É de praxe que os três primeiros colocados na consulta integrem a lista tríplice - que é enviada ao Presidente da República, que nomeia o novo Reitor. Quem elabora a lista tríplice é o COSUN (o Conselho geral - acadêmico e administrativo - da universidade). São caminhos tortos que permitem muitos desvios, por isso a preocupação durante a campanha é que quem tiver a maioria dos votos na consulta seja de fato empossado.
Ontem ocorreu o primeiro debate entre os candidatos e pudemos conhecer cada um mais de perto. Santini falou em botar o projeto embaixo do braço, ir a Brasília e bater em qualquer porta que se abra.
Perguntaram ao Vergotti o que ele achava dos cachorros e gatos abandonados no campus e eu acho que foi pegadinha, já que ele trabalhava na Reitoria (que fica no centro da cidade, longe do campus).
Vergotti perguntou ao Ferrari, que é médico, o que ele achava, enquanto médico, do alto percentual de professores da UNIR afastados com atestado médico de depressão. Como Ferrari não é psiquiatra nem psicólogo ou psicanalista, ele falou (minuto 58) que 20% das alunas de Medicina sofrem de depressão e que ele já adquiriu a capacidade de perceber quais das mulheres na sala de aula estão menstruadas. Eu fiquei pensando se ele confunde a sala de aula com um harém, pra que serve o diagnóstico dele e como ele usa essa informação: fazendo piadinhas? Ferrari foi quem mais surpreendeu. Além dessa fuga dos docentes da UNIR para as alunas de Medicina, da depressão para os humores da menstruação, quando se apresentou, ele disse que ama essa terra, que quando dizem a ele que Rondônia é longe, ele responde que é perto de Miami.
Quando perguntaram ao Delson se ele apoia o Future-se, ele saiu pela tangente dizendo que apoia qualquer projeto que seja bom para a universidade. Em outro momento, quando o tempo já estava estourado e ele gritava, ponderou que queria PARCERIAS com um monte de empresas privadas.
Enquanto Santini falava do curso de Engenharia, Delson do curso de Direito e Ferrari do curso de Medicina, Marcele e Vergotti demonstraram tino para a administração da universidade toda.
No ponto aulas remotas ou Ensino à Distância, os candidatos divergiram bastante: Santini dizia que aulas práticas como laboratório são impensáveis de modo não presencial. Delson comparou a UNIR com outras universidades federais e acha que não temos motivos para esperar mais. Vergotti, antenado no movimento atual, defendeu que cada departamento deve decidir se faz e como. Marcele rebateu dizendo que a universidade precisa dar uma resposta clara quanto a essa questão e conduzir com firmeza todo o corpo que a integra. Enquanto o MEC não oferece diretrizes, concordo com ela.
Durante a greve - que foi longa e representou pra mim uma escola - construímos a candidatura da Berenice. Pra desgosto dela, eu saí logo que ela assumiu a reitoria: fui aprovada no concurso em Santa Maria. Mas voltei depois de um ano, casada com o Novoa e à frente do PIBID (impossibilitada, portanto, de assumir qualquer cargo ligado à Reitoria).
Berenice foi elogiada pelo trabalho de saneamento que fez em sua gestão. Ari, que foi seu Pró-reitor de Pesquisa e Pós, assumiu depois dela e manteve o projeto (e muitos professores no mesmo cargo ligado à reitoria, inclusive o vice, porque as eleições a vice estão descompassadas com as de Reitor desde a greve, quando a vice assumiu - e se candidatou a Reitora).
Agora estamos com 5 candidatos de novo, sendo que um renunciou (denunciando outro candidato, que começou a fazer campanha antes do tempo. Só que ... fazer campanha sem dizer o nome do candidato é campanha?). São eles:
o último vice, Vergotti,
a atual Pró-Reitora de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis, Marcele,
o professor de Direito, Delson (o acusado de fazer propaganda eleitoral sem seu nome antes do tempo regulamentar)
o professor de Engenharia, Santini
o professor de Medicina, Ferrari.
O que vai acontecer no dia 06 de agosto não se chama eleição, mas consulta. A comunidade acadêmica tem a chance de manifestar seu interesse de ser regida por quatro anos por um dos professores candidatos. O voto não é universal: o voto dos professores vale mais que o dos técnicos que vale mais que o dos alunos. É de praxe que os três primeiros colocados na consulta integrem a lista tríplice - que é enviada ao Presidente da República, que nomeia o novo Reitor. Quem elabora a lista tríplice é o COSUN (o Conselho geral - acadêmico e administrativo - da universidade). São caminhos tortos que permitem muitos desvios, por isso a preocupação durante a campanha é que quem tiver a maioria dos votos na consulta seja de fato empossado.
Ontem ocorreu o primeiro debate entre os candidatos e pudemos conhecer cada um mais de perto. Santini falou em botar o projeto embaixo do braço, ir a Brasília e bater em qualquer porta que se abra.
Perguntaram ao Vergotti o que ele achava dos cachorros e gatos abandonados no campus e eu acho que foi pegadinha, já que ele trabalhava na Reitoria (que fica no centro da cidade, longe do campus).
Vergotti perguntou ao Ferrari, que é médico, o que ele achava, enquanto médico, do alto percentual de professores da UNIR afastados com atestado médico de depressão. Como Ferrari não é psiquiatra nem psicólogo ou psicanalista, ele falou (minuto 58) que 20% das alunas de Medicina sofrem de depressão e que ele já adquiriu a capacidade de perceber quais das mulheres na sala de aula estão menstruadas. Eu fiquei pensando se ele confunde a sala de aula com um harém, pra que serve o diagnóstico dele e como ele usa essa informação: fazendo piadinhas? Ferrari foi quem mais surpreendeu. Além dessa fuga dos docentes da UNIR para as alunas de Medicina, da depressão para os humores da menstruação, quando se apresentou, ele disse que ama essa terra, que quando dizem a ele que Rondônia é longe, ele responde que é perto de Miami.
Quando perguntaram ao Delson se ele apoia o Future-se, ele saiu pela tangente dizendo que apoia qualquer projeto que seja bom para a universidade. Em outro momento, quando o tempo já estava estourado e ele gritava, ponderou que queria PARCERIAS com um monte de empresas privadas.
Enquanto Santini falava do curso de Engenharia, Delson do curso de Direito e Ferrari do curso de Medicina, Marcele e Vergotti demonstraram tino para a administração da universidade toda.
No ponto aulas remotas ou Ensino à Distância, os candidatos divergiram bastante: Santini dizia que aulas práticas como laboratório são impensáveis de modo não presencial. Delson comparou a UNIR com outras universidades federais e acha que não temos motivos para esperar mais. Vergotti, antenado no movimento atual, defendeu que cada departamento deve decidir se faz e como. Marcele rebateu dizendo que a universidade precisa dar uma resposta clara quanto a essa questão e conduzir com firmeza todo o corpo que a integra. Enquanto o MEC não oferece diretrizes, concordo com ela.
quinta-feira, 16 de julho de 2020
Onde tem fumaça...
A Filosofia da Linguagem veio antes da Linguística e não tinha interesse focado no signo, como é o caso de Saussure (significante & significado). Contudo, determinar as unidades básicas é prática corrente em qualquer ciência ou teoria, então herdamos da Filosofia da Linguagem os conceitos de
ícone
índice e
símbolo
Ícone (conhecemos ícones da informática, da religião etc.) é a representação de algo através de uma imagem. O que Agnes desenhou não é uma tartaruga, mas a representação de uma tartaruga - e mesmo com todas as imprecisões e simplificações possíveis de serem detectadas no desenho dela, entendemos imediatamente que se trata de uma tortuga. Não precisamos da linguagem para compreender ícones.
Índices são pistas que seguimos e que nos levam a conclusões. Aqui dentro de casa, eu percebo que estão acontecendo queimadas lá fora porque a toalha estendida perto da janela tem cheiro de fumaça, porque a fuligem que dança pelos ares se deposita na cama, no chão. O Jairo tomou outro dado como indicador de queimadas: depois de jantar com o vizinho, Damián, Jairo voltou para a sua casa munido de uma lanterna. Quando apontava a lanterna para o chão, via a estrada. Quando a apontava para o alto, via uma infinidade de olhos olhando para ele. Se tem tanto bicho aqui, é porque estão sendo acuados em outro lugar... pelo fogo. O índice não é necessariamente linguístico, mas para se chegar à conclusão do que ele indica, percorremos um certo raciocínio através da linguagem.
O símbolo é culturalmente e linguisticamente convencionado. A Justiça cega segurando a balança é um símbolo prototípico pra nós, mas que pode não fazer sentido para outras culturas. Na Amazônia, queimadas são símbolo de posse: quanto mais interferência na Natureza, mais direito à terra a pessoa tem. Quanto mais roçado, queimado, domesticado for, tanto mais a pessoa tem direito de ocupar aquela terra.
ícone
índice e
símbolo
Ícone (conhecemos ícones da informática, da religião etc.) é a representação de algo através de uma imagem. O que Agnes desenhou não é uma tartaruga, mas a representação de uma tartaruga - e mesmo com todas as imprecisões e simplificações possíveis de serem detectadas no desenho dela, entendemos imediatamente que se trata de uma tortuga. Não precisamos da linguagem para compreender ícones.
Índices são pistas que seguimos e que nos levam a conclusões. Aqui dentro de casa, eu percebo que estão acontecendo queimadas lá fora porque a toalha estendida perto da janela tem cheiro de fumaça, porque a fuligem que dança pelos ares se deposita na cama, no chão. O Jairo tomou outro dado como indicador de queimadas: depois de jantar com o vizinho, Damián, Jairo voltou para a sua casa munido de uma lanterna. Quando apontava a lanterna para o chão, via a estrada. Quando a apontava para o alto, via uma infinidade de olhos olhando para ele. Se tem tanto bicho aqui, é porque estão sendo acuados em outro lugar... pelo fogo. O índice não é necessariamente linguístico, mas para se chegar à conclusão do que ele indica, percorremos um certo raciocínio através da linguagem.
O símbolo é culturalmente e linguisticamente convencionado. A Justiça cega segurando a balança é um símbolo prototípico pra nós, mas que pode não fazer sentido para outras culturas. Na Amazônia, queimadas são símbolo de posse: quanto mais interferência na Natureza, mais direito à terra a pessoa tem. Quanto mais roçado, queimado, domesticado for, tanto mais a pessoa tem direito de ocupar aquela terra.
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Sinais ortográficos, é?
Tenho aqui dois livros que tratam os sinais de pontuação como se fossem sinais ortográficos. Um deles se chama Divertimento com sinais ortográficos, do poeta Alexandre O'Neill
e o outro se chama Contos ortográficos, da ilustradora Marilda Castanha.
Nos dois livros, os sinais de pontuação são protagonistas, contracenando com sinais que incidem sobre a palavra, como acentos, apóstrofe e hífen. Nos contos ortográficos, a reforma ortográfica está em evidência e os textos nos ensinam a aceitar (com humor?) o novo acordo ortográfico.
Ora, as reformas regulamentam a grafia da palavra - e não da sentença ou do texto, que é onde atuam os sinais de pontuação. Verónique Dahlet (2006: as (man)obras da pontuação, referência para quem estuda os sinais de pontuação) classifica os sinais de pontuação de várias maneiras, dentre elas, distinguindo sinais de frase, de texto dos sinais de palavra. Para a autora, o ponto abreviativo, hífen e apóstrofe incidem sobre a palavra - mas, segundo ela, isso são questões de ortografia.
Orthós, do grego, significa reto, correto, direito, justo, normal etc. e funciona como prefixo em ortopedia, ortodontia, ortodoxo, ortografia. E como são ensinados os sinais de pontuação? Através de exercícios em que se demanda do aluno que pontue corretamente frases avulsas:
Bom dia
O gato caiu do telhado
Onde foi parar a chave
Se as frases estão fora de contexto, pontuar corretamente significa exercer o poder de telepatia, já que é possível imaginar contextos para
- Bom dia?
Bom dia...
Bom dia!
Bom dia.
"Bom" dia :-[
O gato caiu do telhado...
O gato caiu do telhado?!
O gato "caiu" do telhado.
Onde foi parar "a" chave?
Onde foi parar a chave!!!!
Onde foi parar a chave...
Eu entendo por que os sinais de pontuação - que incidem sobre a sentença e o texto - são em geral entendidos como sinais ortográficos: foram aprendidos no contexto da gramática normativa que separa o certo do errado e prevê apenas um modo possível de pontuar corretamente.
e o outro se chama Contos ortográficos, da ilustradora Marilda Castanha.
Nos dois livros, os sinais de pontuação são protagonistas, contracenando com sinais que incidem sobre a palavra, como acentos, apóstrofe e hífen. Nos contos ortográficos, a reforma ortográfica está em evidência e os textos nos ensinam a aceitar (com humor?) o novo acordo ortográfico.
Ora, as reformas regulamentam a grafia da palavra - e não da sentença ou do texto, que é onde atuam os sinais de pontuação. Verónique Dahlet (2006: as (man)obras da pontuação, referência para quem estuda os sinais de pontuação) classifica os sinais de pontuação de várias maneiras, dentre elas, distinguindo sinais de frase, de texto dos sinais de palavra. Para a autora, o ponto abreviativo, hífen e apóstrofe incidem sobre a palavra - mas, segundo ela, isso são questões de ortografia.
Orthós, do grego, significa reto, correto, direito, justo, normal etc. e funciona como prefixo em ortopedia, ortodontia, ortodoxo, ortografia. E como são ensinados os sinais de pontuação? Através de exercícios em que se demanda do aluno que pontue corretamente frases avulsas:
Bom dia
O gato caiu do telhado
Onde foi parar a chave
Se as frases estão fora de contexto, pontuar corretamente significa exercer o poder de telepatia, já que é possível imaginar contextos para
- Bom dia?
Bom dia...
Bom dia!
Bom dia.
"Bom" dia :-[
O gato caiu do telhado...
O gato caiu do telhado?!
O gato "caiu" do telhado.
Onde foi parar "a" chave?
Onde foi parar a chave!!!!
Onde foi parar a chave...
Eu entendo por que os sinais de pontuação - que incidem sobre a sentença e o texto - são em geral entendidos como sinais ortográficos: foram aprendidos no contexto da gramática normativa que separa o certo do errado e prevê apenas um modo possível de pontuar corretamente.
segunda-feira, 13 de julho de 2020
Autonomia dos sinais de pontuação
Estou mantendo um perfil no Instagram sobre sinais de pontuação. Das 121 postagens feitas, 3 não são sinais de pontuação - mas (1) a foto do perfil, (2) a capa do meu livro sobre sinais de pontuação e (3) a chamada pra live no Instagram da Editora da Unicamp. As outras 118 postagens têm como protagonista um dos 11 sinais de pontuação (ou uma combinação deles). Eu considero que sejam 11 sinais de pontuação.
De todas essas postagens, 39 foram colhidas da internet, 29 foram colhidas de livros sobre sinais de pontuação (inclusive o meu) e 50 foram montadas/desenhadas por mim mesma. Vamos aos exemplos e fontes:
Internet:
Livros usados como fonte:
BRODY, Jennifer De Vere. Punctuation: art, politics and play. Duke University Press, 2008.
COWELL, Philip; HILDEBRAND, Caz. This is me, period. The art, pleasures and playfulness of punctuation. New York: Clarkson Potter Publishers, 2017.
KLEPPA, Lou-Ann. Onze sinais em jogo. Campinas: Editora Unicamp, 2019.
NONHOFF, Björn; OTT, Lucia. Punkt: eine Gescichte vom Satzzeichen das auszog, um seine Freiheit zu finden. (Selfpublished, sem data).
O'NEILL, Alexandre. Divertimento com sinais ortográficos. Editora Bruaá, 2015. (São 28 postais, não tem ficha catalográfica...)
Exemplos colhidos dos livros:
Por fim, exemplos de sinais que eu fiz:
Fiquei pensando muito na autonomia desses sinais. Será que eles significam por si mesmos? Será que dá pra representar esse significado? Achei imagens para todos os sinais, inclusive a alínea, o espaço em branco (mas esses fui eu que fiz). O que me chama atenção é que o Google não achou nenhuma imagem de alínea e que também não achou nenhuma imagem (legal) do travessão sozinho. A combinação de dois sinais aconteceu com todos os sinais - exceto alínea, vírgula e aspas. Em termos de frequência, o Google oferece (imagens em que há 1 ou 2 sinais de pontuação):
9 8 5 4 4 3 3 2 2 1 0
? ! . ... "" ; ( ) , : - alínea
Se interrogação e exclamação aparecem com tanta frequência em imagens, é possível pensar que sejam sinais mais pragmático-discursivos que sintáticos. Eles representam gestos enunciativos (pergunta, asserção enfática), por isso podem ser graficamente explorados com mais facilidade em diversas situações. Alínea, por outro lado, é um sinal que organiza porções de texto: demarca os parágrafos. Como se trata de um sinal textual, não é facilmente representável graficamente em situações desvinculadas do texto. Apesar de vírgula e travessão exercerem várias funções (separar, delimitar e marcar), essas funções são ligadas à sentença.
Quanto mais concreto, menos produtivo em diferentes contextos. Quanto mais abstrato, mais possível em contextos diversos - porque mais esvaziado de sentido.
Olhando para as minhas contribuições extra-Google, as frequências de imagens em que aparecem no máx. 2 sinais de pontuação são parecidas, o que reforça a hipótese de que interrogação e exclamação têm mais força simbólica (inventei, tá, mas acho que dá pra entender) que os outros sinais.
10 8 7 7 7 5 4 4 4 3 3
? ... ! ( ) . , "" ; : - alínea
De todas essas postagens, 39 foram colhidas da internet, 29 foram colhidas de livros sobre sinais de pontuação (inclusive o meu) e 50 foram montadas/desenhadas por mim mesma. Vamos aos exemplos e fontes:
Internet:
![]() |
| exclamação e interrogação |
![]() |
| aspas |
![]() |
| period |
BRODY, Jennifer De Vere. Punctuation: art, politics and play. Duke University Press, 2008.
COWELL, Philip; HILDEBRAND, Caz. This is me, period. The art, pleasures and playfulness of punctuation. New York: Clarkson Potter Publishers, 2017.
KLEPPA, Lou-Ann. Onze sinais em jogo. Campinas: Editora Unicamp, 2019.
NONHOFF, Björn; OTT, Lucia. Punkt: eine Gescichte vom Satzzeichen das auszog, um seine Freiheit zu finden. (Selfpublished, sem data).
O'NEILL, Alexandre. Divertimento com sinais ortográficos. Editora Bruaá, 2015. (São 28 postais, não tem ficha catalográfica...)
Exemplos colhidos dos livros:
![]() |
| Punkt |
![]() |
| emoticon com mais de 2 sinais |
![]() |
| interrogação: a dúvida |
![]() |
| alínea |
![]() |
| aspas |
9 8 5 4 4 3 3 2 2 1 0
? ! . ... "" ; ( ) , : - alínea
Se interrogação e exclamação aparecem com tanta frequência em imagens, é possível pensar que sejam sinais mais pragmático-discursivos que sintáticos. Eles representam gestos enunciativos (pergunta, asserção enfática), por isso podem ser graficamente explorados com mais facilidade em diversas situações. Alínea, por outro lado, é um sinal que organiza porções de texto: demarca os parágrafos. Como se trata de um sinal textual, não é facilmente representável graficamente em situações desvinculadas do texto. Apesar de vírgula e travessão exercerem várias funções (separar, delimitar e marcar), essas funções são ligadas à sentença.
Quanto mais concreto, menos produtivo em diferentes contextos. Quanto mais abstrato, mais possível em contextos diversos - porque mais esvaziado de sentido.
Olhando para as minhas contribuições extra-Google, as frequências de imagens em que aparecem no máx. 2 sinais de pontuação são parecidas, o que reforça a hipótese de que interrogação e exclamação têm mais força simbólica (inventei, tá, mas acho que dá pra entender) que os outros sinais.
10 8 7 7 7 5 4 4 4 3 3
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Condições para o trabalho remoto
| O painel é de Karin Rosenbaum (quando ela era Kleppa e eu ainda não tinha nascido) e está no Jardim de Infância na Casa da Juventude em Gramado/RS |
Aprender é uma experiência.
Conhecimento não é mercadoria.
Ensinar é trabalho.
Ensinar não garante aprendizado.
Por vários motivos:
Tempo (possibilidade de concentração)
Espaço (escola, universidade, laboratório)
Pessoa (em geral, aprendemos com pessoas)
Aprendizado não equivale a conteúdo memorizado.
Aprender se aproxima de assimilar formas de pensamento.
Estamos acostumados a compartimentalizar nossas atividades: em casa, o que é da esfera do privado. Fora de casa, o trabalho, o estudo. Estamos acostumados a alocar atividades de ensino-aprendizagem num espaço fora da nossa casa: a escola, a universidade, a biblioteca; num tempo definido, com pessoas específicas.
Nessa quarentena, home office e trabalho remoto funcionam para quem não é absorvido pela casa e suas atividades (fazer comida, manter a casa limpa - louça, roupa, chão: um trabalho infinito -, acompanhar crianças, cuidar de doentes etc.). Pesquisas (UnB, questionário sobre ensino remoto) mostram que metade dos alunos não conseguiriam acompanhar aulas a partir de casa, porque a casa não oferece condições para concentração nos estudos.
Uma solução seria criar polos de trabalho e estudo espalhados na cidade. Lugares abertos, amplos, que tivessem energia e internet gratuita, que oferecessem condições para as pessoas poderem trabalhar e estudar (remotamente, sim, mas não em casa!).
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Despedida da Madá
Luis sempre diz que se o pai dele não tivesse partido tão cedo, teria gostado muito da Agnes. Madá, segunda esposa do pai do Luis, pode acompanhar um pouco da vida da Agnes. Na última vez que a vimos, estava fraca: a quimio lhe tirava o paladar e o apetite. No começo do câncer, se admirava como estava bem durante a terapia. Mais pro fim, as perdas se impunham. Faleceu ontem, depois de duas semanas internada na UTI.
Deixa saudades. E a família diminui. Que descansem em paz, que olhem por nós.
Em paralelo
Jairo ligou ontem de manhã, dizendo que estava com febre. Tínhamos deixado um termômetro (daqueles antigos de mercúrio mesmo, sem pilha) com o Damián faz um tempo e pedimos pra ele medir a febre. Tava quebrado aquele, mas conseguiu outro e deu 39º. Jairo falava em malária, acrescentava que estava com calafrios, mas nós pensamos que podia ser coronavírus.
Luis decidiu que iria buscá-lo no Maravilha, mas levar para onde? Era domingo e os laboratórios estavam fechados. Posto de saúde? Jairo queria ir ao Hospital da Unimed pra fazer exame, mas ele não tem convênio. Pagar pra fazer exame? Foram ao Cemetron, hospital de doenças tropicais que, na pandemia, serviu de referência para covid.
Enquanto esperavam pelo resultado do exame, tocou o telefone do Luis. Era a tia de Minas Gerais, aflita com o estado de saúde de Madá e com estado de espírito do neto, Rafael, que estava sozinho com ela no hospital. Madá tinha sido internada na UTI em decorrência de uma crise em resposta ao tratamento do câncer em 21 de junho. Desde então, não tínhamos mais tido notícias.
O resultado para malária deu positivo. Luis e Jairo comemoraram que não era covid. Impulsionado, Luis decidiu viajar a Cachoeiro de Itapemirim (ES), pra se despedir da madrasta e dar suporte ao sobrinho.
Depois de avisar que estava procurando passagem (partir de PVH de avião não é fácil), chegou a notícia de que Madá tinha falecido.
Luis decidiu que iria buscá-lo no Maravilha, mas levar para onde? Era domingo e os laboratórios estavam fechados. Posto de saúde? Jairo queria ir ao Hospital da Unimed pra fazer exame, mas ele não tem convênio. Pagar pra fazer exame? Foram ao Cemetron, hospital de doenças tropicais que, na pandemia, serviu de referência para covid.
Enquanto esperavam pelo resultado do exame, tocou o telefone do Luis. Era a tia de Minas Gerais, aflita com o estado de saúde de Madá e com estado de espírito do neto, Rafael, que estava sozinho com ela no hospital. Madá tinha sido internada na UTI em decorrência de uma crise em resposta ao tratamento do câncer em 21 de junho. Desde então, não tínhamos mais tido notícias.
O resultado para malária deu positivo. Luis e Jairo comemoraram que não era covid. Impulsionado, Luis decidiu viajar a Cachoeiro de Itapemirim (ES), pra se despedir da madrasta e dar suporte ao sobrinho.
Depois de avisar que estava procurando passagem (partir de PVH de avião não é fácil), chegou a notícia de que Madá tinha falecido.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Pontos de aproximação: como se encaixam as peças
Jerusalém chegou em casa primeiro. Luis comprou, começou a ler, me contou partes e viajou. Na ausência dele, peguei o livro de Gonçalo Tavares e ultrapassei a leitura dele. No livro, passaram a conviver dois marcadores. O meu foi ficando no mesmo lugar, o dele foi avançando até o final. Mudamos de casa e terminei a leitura do livro aqui.
Luis comprou mais uns cinco livros dele, enquanto eu entendia que Jerusalém encerrava uma tetralogia: O Reino. Procurei pelos outros três e me surpreendi que nenhum deles estivesse disponível em formato digital e em português. No primeiro mês da quarentena, não pedimos nada que viesse de moto ou carteiro. Em formato kindle, achei o segundo livro da tetralogia, A Máquina de Joseph Walser - em alemão. Li muito rapidamente, especialmente quando botava Agnes para dormir. Achei ótimo poder ler no escuro, mas senti que a menina tinha um sono intranquilo enquanto eu lia. Mais pro final, um personagem (o assassino) em Jerusalém entra em cena e ajuda Joseph Walser a tirar o cinto de um morto na rua: era Hinnerk Obst. Fiquei imaginando se todos os personagens transitariam pelas obras da tetralogia.
Os outros livros dO Reino, Aprender a rezar na era da técnica (3º) e Um homem: Klaus Klump (1º) vieram pelo Correio e demoraram muito pra chegar. Mesmo quando chegaram, não consegui começar nenhum deles, porque eu intuía que Joseph Walser tinha algum grau de parentesco com os personagens de Kafka. Joseph Walser é um operário de fábrica que se afina mais com a máquina que opera que com qualquer pessoa. Ele tem uma esposa, um superior muito interessado nele, depois tem até uma amante, mas sua devoção é pela técnica, pela neutralidade da máquina. Quando a máquina lhe come o indicador da mão direita, é removido do salão de máquinas para o escritório. Sua indiferença em relação às pessoas e à guerra lá fora só aumenta, mas ele mantém sua dedicação à coleção de peças metálicas (todas mais ou menos do mesmo tamanho) que expõe num cômodo da casa reservado para abrigar apenas a coleção.
Com efeito, percebe-se que a técnica desumanizou-o, fazendo-o agir como máquina, porém como uma máquina em disfunção e inferior, que busca incessantemente pela peça metálica perfeita, como que para consertar o que ele sente que está errado e preencher o seu vazio. (Yamakawa, 2019)In der Strafkolonie de Kafka foi uma leitura surpreendente em si mesma - e me mostrou pontos de aproximação com Gonçalo Tavares, especialmente A máquina de Joseph Walser. O viajante (cujo ponto de vista é adotado no conto), indiferente no início, acompanha uma execução na colônia penal. Quando o oficial (que se esmera ao descrever a máquina que executa os condenados) explica que o condenado não conhece sua sentença e não pode se defender, o viajante é fisgado pela máquina e pelo fascínio que ela exerce sobre o oficial. Com agulhas, a máquina inscreve no corpo do condenado o mandamento que ele infringiu. O suplício dura 12 horas e exatamente no meio do processo, na sexta hora, o condenado é capaz de decifrar as palavras que a máquina escreve. Toda a conversa se dá em francês - de modo que nem o condenado nem o soldado que os acompanham compreendem o funcionamento e propósito da máquina. Enquanto instalam o condenado na máquina, o oficial confere ao viajante, muito reconhecido pelo alto comando da colônia penal, a função de auxiliá-lo a defender a continuidade da máquina - que representa o antigo comandante. Desde que um novo comandante assumiu, a máquina deixou de atrair público, deixou de ter suas peças trocadas. O viajante se recusa a interceder e se dá a reviravolta: o comandante liberta o condenado. Salvo engano, essa é a única vez que o comandante se dirige ao condenado: "Du bist frei". O comandante, que acredita na neutralidade, imparcialidade e portanto justiça da máquina, programa a máquina para escrever "seja justo" e se submete a ela. As peças da máquina começam a trincar, cair, a máquina não escreve, mas enfia suas agulhas na carne, matando o oficial. O viajante se dá conta de que isso não é tortura, mas execução (!) e se apressa para tirar o comandante da máquina, mas é tarde demais. Com o último defensor da máquina, morre a própria máquina que matava arbitrariamente.
A hierarquia, o estado de exceção, a máquina como promessa de eficiência, a tecnologia como justiça e a possibilidade de se manter funcionando como máquina através de peças de reposição são alguns dos pontos de aproximação que vislumbro aqui. Se Joseph Walser pudesse trocar seu indicador por outro, como se troca peças de uma máquina, talvez a máquina não rendesse sua história.
Por fim:
Aí está a mais clara relação entre as criações de Kafka e de Chaplin: o emprego da máquina como símbolo do poder e da opressão, como instrumento moderno de negação da liberdade humana. Em NA COLÔNIA PENAL, a máquina é uma versão automática do poder político, enquanto em TEMPOS MODERNOS é do poder econômico que se trata. São perturbadoras as semelhanças entre a máquina de execução de Kafka e a máquina alimentadora testada no operário Carlitos na 1a. parte do filme. Em ambas, a vítima, ignorante, inerte, passiva, é simples objeto da ação, conduzida mecanicamente em nome de valores transcendentes: a ordem na colônia e a produtividade na fábrica. (Sundfeld)
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Palavras conhecidas
Quando as pessoas diziam (porque não dizem mais, já que cheque é coisa do passado) que iam assustar o cheque, usavam uma palavra conhecida, 'assustar', ao invés de 'sustar', que não fazia parte do seu vocabulário. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a antena paranoica, açúcar mascado ou ainda açúcar mais caro e palavras de baixo escalão: 'parabólica', 'mascavo' e 'calão' não fazem parte do vocabulário ativo de muitas pessoas.
Pra Agnes, 'predador' é pegador. Quando ela conta a história do polvo gigante, ela fala do peixe pegador. Quando eu escovo os dentes dela, ela reclama que dói a gengibra. Quando assistimos "Ursos sem curso", Agnes se identifica com o Pardo (eu seria o Polar e papai o Panda). Acho que isso explica em parte que Agnes reconheça, dentre os felinos, o tigre, o leão e o leãopardo.
Atualização: No universo jurássico, T-rex é tio rex e velociraptor é velocirápido :]
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Os números representam pessoas
Participamos hoje do cortejo fúnebre da professora do Departamento de Educação, Ana Maria de Lima Souza. Talvez não seja o primeiro caso de docente da UNIR vítima fatal da covid 19, mas foi o caso que acompanhamos mais de perto. Tanto ela como o marido dela estavam internados. Ele continua no hospital.
Porto Velho foi afrouxando as regras de distanciamento físico e teve que impor lockdown por uma semana no início de junho. Mas, como nunca houve fiscalização nem barreiras na cidade, agora voltamos à fase 1: mais duas semanas de restrição do comércio.
Na comunidade Maravilha já há casos de covid confirmados. Os números de casos - que antes eram abstratos - agora ganham corpo: referem a pessoas que conhecemos.
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| Painel Covid 19 Rondônia |
Porto Velho foi afrouxando as regras de distanciamento físico e teve que impor lockdown por uma semana no início de junho. Mas, como nunca houve fiscalização nem barreiras na cidade, agora voltamos à fase 1: mais duas semanas de restrição do comércio.
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| Painel Covid 19 Rondônia |
Na comunidade Maravilha já há casos de covid confirmados. Os números de casos - que antes eram abstratos - agora ganham corpo: referem a pessoas que conhecemos.
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