A porta de entrada foi um livro, claro. Um livro escrito ao longo de cinco anos por uma jornalista. No livro, a jornalista procura ver as ondas de diversos pontos de vista. Susan Casey escreveu
A onda (
The wave: In pursuit of the rogues, freaks and giants of the ocean) depois de entrevistar executivos que trabalham em seguradoras de navios, capitães de navio, físicos que estudam o comportamento caótico das ondas, meteorologistas, cinegrafistas, fotógrafos e surfistas. Que ela puxa a sardinha pra brasa dos surfistas é evidente, tanto é que ela os acompanha a alguns lugares do globo em que quebram ondas gigantes.
Susan não é uma
escritora, mas seu livro foi
bem traduzido. O trabalho de Casey não é com o "poder criativo" das palavras, mas com a informação. Sua preocupação não é a relação entre significado e significante, mas a explicação do que são as ondas. Tampouco é uma narradora, no sentido de Walter Benjamin. Não vivencia a adrenalina do surf para chegar a uma moral, conselho ou transmissão de conhecimento prático. Escreve para compartilhar o que aprendeu sobre as ondas. Escreve como uma jornalista: usando uma vasta paleta de cores para despertar sensações.
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| Foto: Clark Little |
Acima de tudo, fica evidente que quem escreveu o livro é uma mulher. Ela descreve os surfistas em detalhes (cor de cabelos, olhos, bermudas, altura, brancura do sorriso e cicatrizes no corpo) e guarda os momentos poéticos para Laird Hamilton, o guru do surf de ondas gigantes. Quando a autora foi a um congresso sobre ondas, contou que ficou surpresa ao ver tantas mulheres como homens no congresso. Mas só entrevistou os homens e os descreveu fisicamente (cor de olhos, cabelo, sorriso, roupa). No livro inteiro, Susan Casey só deu voz a duas mulheres: duas pesquisadoras de ondas que foram pegas de surpresa por uma tormenta em alto mar. Ah, desculpa! Tem uma vez que ela dá voz à esposa de Hamilton, deixando-a dizer: "Ele é assim mesmo".
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| Foto: Don King |
Susan Casey faz o leitor leigo acreditar que Laird Hamilton é 'o cara'. O cara que é grande, forte, habilidoso e louco o suficiente para surfar as maiores ondas do planeta. O cara que, junto com seus parceiros, desenvolveu uma nova técnica de chegar na onda:
tow-in. (Deitado em cima de uma prancha e remando, não dá pra pegar ondas de mais de dez metros, por causa da velocidade dessas ondas gigantes. O surfista é rebocado até a onda em alto mar por um jet ski. Como muita coisa pode dar errado, o parceiro do jet ski é o resgate, portanto rebocador e surfista formam uma equipe. Assim, o surfe de ondas grandes não é um esporte individual, mas de dupla.) Laird Hamilton é o cara que pensa o treino de surf, inovando com a técnica
stand-up (o surfista fica em pé no pranchão com um remo na mão) e a prancha
hydrofoil, em que o contato da prancha com a superfície da água é quase zero.
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| Foto: Tony Harrington |
Como eu sou leiga nessas águas e não era capaz de mobilizar a minha imaginação para visualizar ondas de 30 metros,
tow-in, stand-up, hydrofoil e a fúria das ondas, recorri às imagens. Vi o filme
Billabong Odissey. Bill Sharp, idealizador da competição chamada
Billabong XXL, que prometia - de início - um prêmio de 500 mil dólares a quem surfasse (e pudesse prová-lo) a maior onda da Terra, é o narrador do filme. O filme documenta a competição e mostra que o primeiro vencedor (Mike Parsons) recebeu só 60 mil dólares. Pra minha surpresa, Laird Hamilton não foi mencionado nem mostrado durante o filme. Eu já tinha entendido que o heroi da Casey era avesso às competições, que era um surfista quase zen, integrado com a Natureza, mas esperava que fosse ao menos mencionado quando Bill Sharp descreveu a evolução do surf.
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| Foto: Tom Servais |
As estórias de surfadas históricas, a importância dos interpretadores climáticos, a relevância dos cinegrafistas e fotógrafos, a ausência de uma teoria que forneça instrumentos matemáticos para que os físicos calculem ondas e todas as tonalidades de azul da paleta de Casey me conduziram ao fim do livro. Pra comemorar, vi o filme brasileiro
Surf Adventures 2 (eu já tinha visto o 1 alguns anos atrás porque os surfistas sempre me encantaram). Gostei bem mais do 2 do que do 1. Entendi tudo (!) e até reconheci o jeito de filmar de Mike Prickett (descrito pela Susan Casey) e dois figurões do surf (Carlos Burle e Kelly Slater). Estacionada na Amazônia, me apaixonei pelo surf.