sexta-feira, 29 de maio de 2020

Por isso a política


Marcos Nobre encerrou sua fala no Congresso Virtual da UFBA 2020 com uma citação de João Cabral de Melo Neto (Morte e vida severina): ""é difícil defender, só com palavras, a vida" - por isso temos a política."

Temos, no Brasil, a crise sanitária ocasionada pelo corona vírus. Temos a crise econômica, que já estava instalada antes das eleições de 2018. E temos - com esse presidente - uma crise política.

Bolsonaro reclama: "deixa o governo trabalhar!" Quando temos um vislumbre de como o governo trabalha, através do vídeo da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril e divulgada depois de muita pressão, percebemos que não existe um plano, um projeto, um tema, ao menos, que envolvesse todos. Penso que o combate ao vírus, por exemplo, ou estratégias para aumentar a adesão da população à quarentena seriam preocupações interessantes para os ministros do país que vê a curva de contágio aumentando sem fim. Naquela reunião, não vi nem mesmo diálogos. Cada um externava suas opiniões e crenças - sem receber ao menos eco dos outros.

Não lembro de ter ouvido o então Ministro da Saúde (Nelson Teich) se manifestando nessa reunião. Lembro de seus olhares assustados ao ouvir o que diziam os outros ministros. A pauta de Bolsonaro era a Polícia Federal. O controle da Segurança parecia um travessão entalado na garganta dele. Dias depois, aconteceram trocas, nomeações foram barradas e novas soluções foram encontradas por parte do presidente. Quando foi que Teich saiu, deixando vago (--) o cargo de Ministro da Saúde? Duas semanas atrás. Cadê o novo Ministro da Saúde? Bem, quem aceitaria ser Ministro da Saúde sob Bolsonaro? Tem lá um travessão, que ocupa o lugar - pra não ficar vazio.

Nobre defende que Bolsonaro - que sempre teve um discurso antissistema - para ser coerente, não pode governar, não pode gerir o sistema, não pode se apropriar do sistema para enfrentar a crise sanitária. O que ele faz? Provoca uma crise política.

O travessão marca diálogos. O travessão (duplo) delimita elaborações - e separa adendos. Eu sinto a dor de cabeça dessa crise como um travessão de chumbo na testa.
Gedankenstrich


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Escolinha

Agnes não manifesta que sente falta da escolinha ou dos colegas. O modo como ela se mostra insatisfeita com a condição do isolamento é dizendo que quer ir pra praia.

Eu sinto falta das manhãs de silêncio, do tempo para trabalhar. Porque o trabalho continua, apesar das aulas terem sido suspensas.

Durante os dois meses de confinamento, Agnes não teve nenhuma virose, nenhuma febre: em suma, não precisou tomar remédio. Tem tido brotoejas em dias quentes. Precisamos sempre ficar alertas e trocar logo roupas suadas, senão ombros, costas e colo pipocam de bolinhas vermelhas. Teve um dia que eu disse pra Agnes que eu nem sabia qual pomada tinha que passar nas bolinhas vermelhas e ela respondeu que era aquela que tem cheiro esquisito (antialérgica).

No mês de abril, os livros e apostilas da escolinha ainda estavam ao alcance e ocasionalmente fazíamos atividades com a Agnes. Agora os materiais didáticos oficiais foram parar no armário e jogamos dados e Uno (Mau-mau) para treinar os números, usamos pregadores pra contar pernas de joaninha, massinha pra modelar os "sinais de apontação" e desenhamos letras no quadro.


domingo, 24 de maio de 2020

Em que pessoa?

Durante a pandemia houve, no Brasil, uma clara polarização entre os que tentaram se preparar para a chegada do vírus e os que esperaram pra ver qual é; os que ficaram ansiosos, aflitos e atônitos com a inatividade dos que decidem e os nega(ra)m o problema.

Se antes da pandemia os jornais se esforçavam para não revelar sua posição política, fingindo que veiculavam a notícia da maneira mais isenta possível (os fatos), a pandemia mostrou os dentes por trás das máscaras. Ao atacar o governo (principalmente o presidente), o Jornal Nacional se colocava na segunda pessoa: a que acusa.

O Jornal Nacional claramente criticou Bolsonaro e seus sinistros ministros até o dia em que o presidente vetou, no contexto do auxílio aos estados e municípios, aumentos e novas contratações de servidores. Rifar o funcionalismo público se tornou condição para liberar recurso federal para os estados e municípios. Quem não acredita no funcionalismo público? Os mercados, o ultraneoliberalismo, o privatismo. E os editores do JN.

No dia em que foi noticiada a reunião de Bolsonaro com os governadores, toda a edição do JN foi harmoniosa, light. O tom do jornal é que dizia em que pessoa as notícias eram narradas: a que se beneficia. Bolsa subindo, dólar caindo e mercados tranquilos.

A literatura (literária) está escrita predominantemente em terceira pessoa: ele, aquele que não participa do diálogo entre eu (1. pessoa) e tu (2. pessoa). Mas é tão autobiográfica e ao mesmo tempo o "eu" é tão esvaziado na terceira pessoa que talvez faça sentido pensar que a literatura universal é escrita em quarta pessoa.

O tempo passa o tempo todo

"Hoje" não existe no vocabulário da Agnes. Por mais que a gente insista que é hoje, ela confirma se será "nesse dia".
"Amanhã" também não consta na fala dela. Se prometemos algo para amanhã ou o futuro, ela confirma que será "no outro dia".

sábado, 23 de maio de 2020

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Não é igual

Por que a letalidade é mais que o dobro em indígenas que no resto da população brasileira?

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Abralin ao vivo

Consigo sentar no computador quando Agnes dorme. Normalmente, ela dorme de tarde e frequentemente de tarde eu estou às voltas com tarefas domésticas, portanto é mais comum que eu só chegue no computador de noite. Nessa hora, minha vista está mais cansada que o meu corpo e sinto agonia ao ver as letras embaçadas.

A ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística), em conjunto com outras associações nacionais e internacionais está promovendo uma série de palestras e mesas redondas online que ficam gravadas no Youtube. Abralin ao vivo tem sido minha companheira noturna.

Liderança

Temos o SUS que garante acesso universal (gratuito) aos serviços de saúde em todo território. Significa que temos estrutura robusta para enfrentar a pandemia.

Temos cursos universitários reconhecidos e concorridos de Medicina, Enfermagem e terapias (fisio, fono, ocupacional etc.). Significa que temos profissionais competentes atuando.

Temos Secretarias de Saúde (municipais e estaduais) gerindo postos de saúde, Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) e hospitais. Significa que temos burocracia funcionando de maneira integrada.

Temos tradição de escolher para cargos executivos perfis mais politicamente orientados que tecnicamente definidos. Significa que os gestores da Saúde nem sempre entendem de saúde pública.

Na sua última entrevista, Atila Iamarino conversou com Drauzio Varela sobre o SUS. Me chamou atenção o dado trazido pelo Dr. Varela de que nos últimos 10 anos (isso extrapola as gestões de Bolsonaro e Temer - que assumiu em 2016) o Ministério da Saúde teve 13 ministros.

Temos um presidente impenetrável a evidências científicas, que fez do ataque ideológico a estratégia preferida para reagir a qualquer aperto, que não governa e não trabalha em equipe. Significa que o STF delegou aos estados e municípios a gestão da pandemia.

Na base, o SUS é elogiado como maior programa de acesso universal aos serviços de saúde do mundo, porque a saúde é entendida como um direito do cidadão e dever do estado. Na Piauí tem um texto ótimo sobre o papel do SUS na pandemia. No topo, os Ministros são políticos e os secretários são mais da confiança do governador e prefeito que dos profissionais de saúde ou do povo.

"Infelizmente, é no campo da liderança que reside o principal problema do Brasil. As divergências entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro [...], que culminaram com a demissão do ministro, somam-se aos embates que o presidente promove contra governadores – e tudo isso ameaça comprometer a resposta à epidemia. Os resultados alcançados até agora decorrem de um conjunto de ações entre os vários níveis de atenção à saúde, entre o SUS e o sistema privado, entre o Ministério da Saúde, os estados e municípios – e que estão concentrados exatamente naquilo que o Brasil está mais bem preparado para fazer: a prevenção de novos casos e a contenção da epidemia. A politização da doença e seu uso para a obtenção de dividendos eleitorais são uma ameaça contra esse equilíbrio, pois comprometem a confiança das pessoas nas políticas e decisões do governo. O maior problema é que as falhas na liderança afetam principalmente a prevenção, pois ameaçam as estratégias para reduzir a exposição ao vírus, colocando em risco desnecessário a vida de milhares de brasileiros." (Marina Socal: A peça-chave. Piauí, maio de 2020).

No momento, não temos Ministro da Saúde. O interino, Eduardo Pazuello, é militar e nomeou 9 militares para cargos no Ministério da Saúde. Nenhum técnico. Liderança? À deriva...

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Zamia

Quando morávamos na Vila da Eletronorte, cultivávamos um jardim com plantas coletadas (aqui nas redondezas e nas nossas viagens). Luis tinha trazido da casa do Jairo uma planta que parecia um misto de palmeira e pinheiro, mas que não mudava muito ao longo do tempo. Nos quatro anos que moramos naquela casa, só víamos duas folhas. Mesmo sem prometer grandes novidades, trouxemos a planta pro apartamento e Luis a acomodou na janela.
Eis que brotou esse "milho". Postei a foto no Instagram e meu amigo Narcísio, botânico que está terminando o doutorado em Piracicaba, ficou encantado. Ele nunca tinha visto uma zamia fértil. Eles tinham plantado uma nativa lá na UNIR e nunca tinha acontecido nada. O que se seguiu foi tipo ensino à distância:

Quando eu comentei com o Jairo a alegria do Narcísio, ele repsondeu que na casa dele também tinha brotado uma. Uau, que coincidência, pensei. E avisei ao botânico que eu tinha notícia de mais uma dessas plantas de rara florada em plena atividade. Narcísio explicou que essa é uma estratégia das plantas: florar ao mesmo tempo, para aumentar as chances de polinização - já que a do Jairo, por exemplo, é fêmea (e a nossa deve ser macho, suponho).
Por fim, Jairo disse que em Florianópolis, a esposa dele percebeu frutos na ora-pro-nobis deles - o que também é bem raro.

sábado, 16 de maio de 2020

Contrabandista, garimpeiro e terrorista


Morreu hoje o autor da biografia militar de Jair Bolsonaro (O cadete e o capitão), o jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Pedro Bial o tinha convidado no seu programa em setembro do ano passado e quem tem Globoplay pode recuperar o episódio de 16/09/2019 em que Maklouf e a advogada que defendeu Bolsonaro no episódio de terrorismo estão sentados lado a lado.

Já baixamos o livro aqui e vamos dividir o kindle pra acompanhar a biografia elaborada com base em documentos e autos de processo. Já sabemos, via Bial, que Bolsonaro foi - enquanto militar - aluno mediano, contrabandista na fronteira do Brasil com o Paraguay, garimpeiro na Bahia e quase terrorista. Foi absolvido pelo Tribunal Militar, mas saiu do exército em seguida e entrou na política.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

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Mais um Ministro da Saúde sai durante a pandemia. Nem Mandetta nem Teich foram capazes de convencer o presidente de que distanciamento social (físico) faz sentido e que (hidroxi)cloroquina não é remédio para covid-19. Quem será o próximo? De que servirá o/a próximo/a ministro/a se não concordar com as crenças do presidente?

São tantos os números de contaminados, internados e mortos que não sabemos mais que não são números com o que estamos lidando, mas pessoas. São tantos os mortos e tantas as famílias que não podem se despedir de seus mortos, que penso nos traumas e tabus que virão.

Empregados que fizeram acordo com seus patrões de redução de jornada e salário só tiveram resposta 30 dias depois do contrato formalizado. Até o pagamento efetivado pelo governo, nem empregados nem patrões sabiam se a proposta do governo daria certo.

O discurso de que o trabalho dignifica, de que a riqueza só vem através do trabalho etc. adotado pelas elites econômicas para justificar sua posição social faz eco nas classes pobres: só dá pra sobreviver (na pandemia) trabalhando, já que não são amparados pelo Estado. Se auxílio-desemprego, Bolsa-família, aposentadoria e benefícios continuados fossem suficientes, ficar em casa seria mais digno.

Lockdown em alguns estados teve taxa de isolamento inferior a 50%, ou seja, se a quarentena tinha como meta uma taxa de isolamento de 70%, o lockdown é uma quarentena relaxada. Para o povo, mudou o nome, mas não o cotidiano.

As propagandas de banco têm alta carga emotiva: mostram pessoas de perto, gerentes amigos, que confiam incondicionalmente na capacidade de cada um (que pede empréstimo) de se reinventar no futuro para quitar a dívida. Além dos bancos, outras empresas que não são bancos oferecem crédito - e não é por solidariedade, mas por um senso de oportunidade de lucro.

Academia (de ginástica), barbearia/cabeleireiro e manicure foram considerados pelo presidente como serviços essenciais. Mas quem determina o que é essencial são estados e municípios.

O presidente declarou guerra aos governadores e prefeitos numa reunião com empresários. O que entendíamos sobre o funcionamento do Estado e da Política não se aplica ao Brasil. Temos um presidente sem partido político cujos aliados são empresários.

"Se você pode ficar em casa" dá a entender que nem todos conseguem cumprir a recomendação do isolamento físico. Os motivos são vários: não ter comida em casa, ou água; ser profissional da saúde; ter um posto num estabelecimento que oferece serviços considerados essenciais. Todos os motivos independem da vontade do indivíduo, são pré-condições dadas antes da instalação da pandemia. Ou dependem do que é considerado serviço essencial. E conforme aumenta a lista dos essenciais, mais supérfluos são os últimos incluídos.

Já entendemos que a normalidade - como a conhecíamos - ficou no passado. Mas ainda não sabemos como serão as salas de aula, como será o nosso regime de trabalho, como estarão nossos alunos. Por enquanto estamos esperando a tormenta passar, mas já poderíamos começar a visualizar cenários de retomada das atividades.

Cada vez mais percebo como é difícil descansar. O sono não vem porque a cabeça continua girando, os pensamentos maratonam em círculos, o corpo se sente moído. Não conseguimos organizar nosso tempo, dividir tarefas e funções. O trabalho remoto não rende, a linha de raciocínio é interrompida pelo mundo desorganizado, o espetáculo caótico que o noticiário nos apresenta é um desafio maior para o nosso entendimento que nossa vida acadêmica. A desorganização do país parece mais nociva que o vírus.

É difícil concentrar, é difícil produzir e organizar. A abundância de informações (desencontradas) exige um esforço cognitivo enorme. Entender a realidade é condição para agir. Não agir é novidade. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Replantando tomates

Jairo e Damián tinham me dado terra e cinzas
Agnes e eu replantamos os tomatinhos que brotaram no vaso da lágrima de cristo

Foto: Agnes

Foto: Agnes
Jardim de apartamento

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Estado por estado

O Nexo publicou, em 27 ensaios, um retrato de como cada estado está lidando com o coronavírus. São cientistas políticos que escrevem textos curtos sobre a situação de seu estado. Luis é coautor do texto sobre Rondônia.

domingo, 10 de maio de 2020

E se

E se um dia Bolsonaro chegasse naquele cercadinho e não houvesse jornalistas ali para registrar sua fala e imagem? Imagine um dia sem notícias do Bolsonaro.

E se houvesse uma fila única nos hospitais: a rede privada atende o mesmo público que a rede pública. Imagine menos gente morrendo por indisponibilidade de hospital.

E se o Brasil não tivesse que pagar a dívida - que é interna, paga aos bancos que o Jornal Nacional afetuosamente apresenta no quadro Solidariedade SA como doadores generosos? Imagine uma auditoria na dívida que limita o orçamento brasileiro e não permite que o Ministério da Saúde de Teich invista em hospitais de campanha em Manaus, por exemplo.

E se o Ministério da Saúde fosse gerido por quem entende de saúde pública? Imagine como seriam tratados os profissionais da saúde depois da pandemia.

E se as pessoas tivessem condições de cumprir o isolamento físico (social) e essa curva parasse de subir? Imagina o resto do mundo não tendo que ter medo do Brasil.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A marcha de cada um

Marcha, soldado/ cabeça de papel
A notícia bombástica de hoje foi que Bolsonaro, alguns ministros e empresários industriais marcharam hoje de manhã do Palácio do Planalto até o Supremo Tribunal Federal (STF), completando um percurso de aproximadamente 500 m.

Quem não marchar direito/ vai preso no quartel
O presidente, os ministros e empresários  representantes das indústrias de máquinas, brinquedos, energia, eletroeletrônica, farmacêutica, química, plástico, têxtil, cimento, construção e calçados foram reclamar que a iniciativa privada está perdendo dinheiro com a pandemia e que é preciso retomar a economia.

O quartel pegou fogo/ a polícia deu sinal
Bateram na porta errada, avaliaram alguns, já que a decisão sobre o isolamento social e a retomada das atividades econômicas não depende de Dias Tóffoli, mas dos estados e municípios. Alguns empresários se defenderam do vexame: estavam reunidos com o presidente, tinham outra pauta e foram convocados a acompanhá-lo até o STF.

Acode, acode, acode/ a bandeira nacional
Bolsonaro gravou sua performance, constrangeu o presidente do STF porque a reunião não estava agendada e repetiu praticamente tudo que já disse tantas vezes. Manteve sua postura de ataque e continua alheio à gravidade da pandemia que ele próprio ajudou a disseminar.
Acho que nem consigo enumerar todos os cortes sofridos na Educação [dentro da Educação, na formação (e dentro da formação, nas Humanidades)] e por profissionais de Educação nos últimos anos. A SBPC organizou o que chama de Marcha virtual pela ciência, que consiste numa vasta programação descentralizada acontecendo nas redes sociais. Muitas palestras, mesas redondas e debates aconteceram em torno das respostas que a ciência pode dar ao novo coronavírus. Essa marcha não virou notícia (hoje).

Em Morfologia, alguns autores trabalham com dois construtos teóricos que explicariam fenômenos complexos: morfema vazio e morfema zero. Morfema vazio corresponde a uma forma sem sentido, como em café> cafezal (e temos dificuldade para explicar o -z- que não se observa em batata> batatal). Morfema zero corresponde a um significado sem forma, como em casaØ> casas (em que -s significa plural e Ø significa singular).

Morfema vazio, por analogia, seria a marcha de 500m de Bolsonaro e companhia: muito barulho por nada. Morfema zero, por sua vez, faria analogia à marcha virtual (0m percorridos, mas esperança no investimento em Ciência e Tecnologia, na valorização da ciência por parte dos brasileiros).

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dire times

Desde a gestação da Agnes, eu desenvolvi uma relação estranha com a música: eu não conseguia ouvir música sem chorar. Depois que Agnes nasceu, continuei chorando ao ouvir música por anos. Agora que Agnes tem 4 anos, já consigo apreciar música e cantar junto, até mexer o corpo, mas o choro continua brotando muito facilmente quando vejo outras pessoas chorando. Ou quando vejo o Jornal Nacional.

Resolvi tirar o atraso e ver o Atila Iamarino. Putz, a sensação de ansiedade, frustração e decepção é grande. Se ver obrigado a falar sobre a pandemia no Brasil continuamente deve ser exaustivo. William Bonner usa uma máscara, mas suas pausas e ênfases são suficientes para interpretarmos como ele avalia a notícia que veicula. Já Atila me lembra Cassandra, cujo castigo é prever o futuro e ninguém levar a sério.

Rondônia está longe dos focos de contágio, apresentando uma distribuição radial de contaminação a partir de Porto Velho (a porção superior em roxo no mapa. Repare como o município de PVH é imenso). As cidades se organizam em volta da rodovia (BR 364) que atravessa o estado na diagonal. Porto Velho tem hoje 710 casos oficialmente reportados e 23 óbitos. Seguindo em direção sudeste, Ariquemes (outra porção roxa) tem 94 casos, 0 óbitos. Seguindo, Ji-Paraná (violeta) conta 39 casos, 3 óbitos. Cacoal, Espigão, Rolim de Moura, Pimenta Bueno e Vilhena não registram nenhum óbito e poucos casos.

Segundo Atila, já não faz mais sentido se pautar pelo número de casos ou mortes, por causa da subnotificação. Greg News tem um episódio todo dedicado a subnotificação. Em tempos de paranoia, me pergunto se a subnotificação, a falta de testagem são de alguma forma intencionais ou se é inépcia mesmo...
Quando os números de casos e mortes - que seguem crescendo no Brasil todo - não nos dizem mais nada, devemos olhar para o número de leitos disponíveis.

O que encontro são dados sobre Rondônia, (não sobre as cidades): Cemetron (hospital de referência para doenças tropicais), Cosme e Damião (pediátrico), HB e João Paulo II são públicos e estão na capital. Os hospitais particulares não entram na contagem. Entendo que não se deve contabilizar o que não é de acesso geral, mas acho que simplesmente não quantificar os leitos de hospitais particulares faz a estatística parecer desfavorável. O modo como os dados são coletados e apresentados não ajuda a estimar a capacidade do estado e de cada cidade. O que eu sei é que quase 40% dos infectados em RO são profissionais da saúde, sendo 220 só do HB. Com que coragem a pessoa vai pro hospital?

A ex-escolinha da Agnes (já cancelamos o contrato, mas eles continuam mandando mensagens), que se orienta religiosamente pelos decretos do governador amigo de Bolsonaro, anunciou que a volta às aulas foi postergada para o dia 18 de maio. Como se o isolamento estivesse chegando ao fim, como se fosse seguro retomar as atividades. É de chorar.

São tempos difíceis. E vai piorar. Porque tudo é incerto.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Metonímia radical

Agnes queria tirar um pedacinho de papel de dentro da boca de um peixe de plástico. Me pediu ajuda, mas eu estava ocupada. Soprei dentro da boca do peixe, pra ver se o papelzinho saía, mas não funcionou. Peguei uma pinça, mostrei como se usa e desejei boa sorte.
Em seguida, ela voltou: tinha conseguido tirar o papelzinho com a pinça.
Mais tarde, me avisou:
- Mamãe, deixei as suas sobrancelhas em cima da cama.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Entre aspas: autoria e autoridade

O "presidente" disse que era só uma gripezinha, um resfriadinho.
Eu fiquei me perguntando quando o diminutivo é -inho e quando é -zinho, ou seja, por que não dizemos "gripinha" e "resfriadozinho".
Perguntaram ao Átila Iamarino no Roda Viva qual era o efeito do Bolsonaro não levar a pandemia a sério. "Não importa", ele disse. Só que não. Não mais.

Um presidente que não se importa com o número de mortos que o vírus deixou, que, ao invés de planejar ações para conter o contágio - e óbito de seus concidadãos - que retruca que não é coveiro, que não faz milagre, só merece aparecer entre aspas. As aspas no "presidente" nos obrigam a suspender a interpretação comum do termo e procurar no contexto por outro sentido da palavra.

"Gripinha" e "resfriadozinho" não são usados em língua portuguesa e estão entre aspas porque são tentativas minhas de chegar a regras sobre o funcionamento do diminutivo. Através das aspas, chamo atenção para as palavras com as quais quero experimentar. Cheguei a esboçar uma regra: em geral, palavras terminadas em -a ou -o aceitam o diminutivo -inho: casa> casinha; carro> carrinho; resfriado> resfriadinho. Mas palavras terminadas em -e não aceitam todas o mesmo sufixo: alegre> alegrinho; filete> filetezinho. Percebi uma diferença entre nomes e adjetivos: forte> fortezinho na beira da praia; forte> fortinho de tanto treinar. E percebi também que palavras com mais de três sílabas fogem à regra: capacete> capacetinho.

O prefeito de Manaus deu entrevista à CNN. Os repórteres perguntavam como ele receberia o Ministro da Saúde, Nelson Teich, que foi a Manaus para entender o que significa o colapso do sistema de saúde e do sistema funerário. O prefeito dizia que não fazia nenhum sentido na cabeça dele o presidente pedir ao povo que volte ao trabalho e o Ministro da Saúde visitar uma das capitais mais atingidas pela calamidade. São movimentos opostos.

Agora o que o "presidente" diz a gente coloca entre aspas - não porque se trata de lhe atribuir autoria, mas porque o dito pede que seu significado seja desautorizado, interpretado de outra maneira. O "presidente" ameaça? O "presidente" mostra que está preparado para reagir?

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Poder

O que ouvimos do presidente são (auto)afirmações como:
O presidente sou eu, pô!
Eu sou o presidente
Quem manda sou eu

Não deve haver dúvida de que, enquanto perde popularidade, o presidente esteja, de todas as formas, pensando em se manter no poder. Um golpe não está descartado.

Para o presidente, o poder é substantivo, é uma coisa que ele não quer perder.

E o que nós podemos fazer? Não podemos ir às ruas. Não podemos marchar de cara pintada. Não podemos sair de casa, porque a nossa sobrevivência está em risco. No entanto, podemos nos articular através de Observatórios da covid-19 e Comitês técnico-científicos.

Para nós, o poder é ação, é possibilidade de sair do papel de espectador.