sábado, 27 de maio de 2023

Pela estrada afora

... eu vou bem contente até chegar no fim da linha. Seguimos pela estrada do 4,5 (que está em plena expansão) até Niterói. Ali havia escolhas a fazer: preferimos seguir em paralelo ao rio Madeira. A estrada foi estreitando, grama foi aparecendo entre as marcas das rodas dos carros até que uma porteira atravessando a estrada nos deu um limite claro.

Seguimos por uma estrada que alimenta outras estradas, mas não necessariamente dá em algum lugar público. Abrir estrada na Amazônia é abrir caminho pra especulação.
Agnes fazendo os seus registros

Encontramos a nossa placa! Depois que a água das poças de lama secou, apareceu a nossa e tantas outras. Como o Jairo já tinha mandado fazer uma placa reserva e essa tava difícil de tirar do prego, deixamos a nossa aí, de decoração.
Luis aproveitou pra limpar o mato em volta da placa da terra do Jairo. Mesmo que não dê pra ler a placa, dá pra adivinhar que alguém é responsável por ela.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Ar fresco e quase líquido

Feriado municipal e nós na mata.

Tive dúvidas se era um maracujá porque a flor saía de um cipó, mas Narcísio confirmou que é uma passiflora.

Na casa do Jairo.

domingo, 21 de maio de 2023

Quando tem que soletrar

Fui no posto de saúde, tomar a vacina bivalente. A moça do cadastro digitou o meu número do SUS no sistema e informou que eu não estava cadastrada naquela unidade. Perguntei se eu tinha que ir lá na curva da Jatuarana e ela respondeu que ela podia simplesmente me cadastrar.

- Qual seu nome?

- Vou soletrar. [...]

- Nome da mãe?

- Vou soletrar também. [...] O sobrenome dela é igual o meu. 

Em vez de digitar, ela foi lá, marcou e copiou o sobrenome. 

- Mais seguro. 

Quando eu achei que vinha o nome do pai, que eu teria que soletrar também, ela marcou uma caixinha em que dizia que o pai era desconhecido. Respondendo à minha cara de interrogação, ela disse:

- Esse item não é obrigatório na ficha e eu aposto que o nome do seu pai tem que soletrar também.


sábado, 20 de maio de 2023

Desenterrar o tempo

Outubro de 2021

Dá pra reconhecer a locomotiva em maio de 2023?

O Cemitério da Candelária virou sítio arqueológico. A maior parte dos homens que trabalharam na construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré morreu de malária e foi enterrada nesse cemitério. A estrada foi desativada, os trilhos foram engolidos pela vegetação e esquecimento. O cemitério foi abandonado e agora só mesmo o trabalho arqueológico vai recuperar essa história.

Na trilha havia muitos cogumelos diversos.
Dessa experiência de mata, resgate da história como trabalho lento e paciente, fomos almoçar num restaurante cheio de gente (conhecida) disputando um lugar perto do ventilador, música sertaneja, peixe gorduroso e um mar de carros. Que contraste...
Estamos aqui há muito tempo e observamos como o tempo enterra o tradicional.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Eu achava que tinha palavra pra tudo

A maioria das línguas indígenas faladas no Brasil estão ameaçadas de desaparecimento/silenciamento. Acompanhando iniciativas de revitalização de línguas indígenas, percebo que adultos que não receberam a língua indígena de seus pais (só falavam português) aprenderam a língua de seus anciãos para ensiná-la às crianças.

Um dos desafios é pensar estratégias de inserir a língua em todos os lugares: a criança que aprende a língua indígena na escola precisa falar a língua fora da escola, com os pais.

Nós, que nascemos pra dentro da língua portuguesa, temos a impressão de que a língua é maior que nós (porque já existia antes de nós e sobreviverá depois de nós). Temos a impressão de que existe palavra pra tudo, nós é que não sabemos bem as palavras que existem. Acontece que também fazemos a língua: inventamos palavras novas, mudamos a ordem das palavras pra dar destaque ao que dizemos, criamos textos infinitos. Por isso o português de hoje é diferente do português de 100 anos atrás.

Revitalizar uma língua significa recuperar uma língua silenciada que só sobrevive em poucos falantes (anciãos) e fazer essa língua no coletivo.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

A aventura de ler

Eu estava comparando o texto do conto How to talk to girls at parties do Neil Gaiman com a adaptação para os quadrinhos dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Olhava os diálogos no conto e procurava o mesmo texto (traduzido) nos balões de fala. Agnes se interessou pelos quadrinhos e pela curiosidade dos garotos em relação às garotas: eles precisam aprender a falar com garotas?

Reparei que a sequência não era bem linear e apontei que a fala "São só garotas, não são de outro planeta!" não estava nos quadrinhos. Agnes levou a HQ embora e voltou depois de um tempo: "Achei! Tá aqui a fala 'Elas não vêm de outro planeta!', tava na outra página."

Achei legal a atitude dela de ler sozinha, mas como eu não lembrava do conteúdo, fiquei um pouco receosa: olha, Agnes, esses garotos não são da sua idade. Acho que essa história ainda não é pra você.

De noite teve a briga de sempre pra escovar dentes, botar pijama etc. e declarei que eu só leria com ela depois que tivesse escovado os dentes e colocado pijama. Ouvi Agnes lendo em voz alta no quarto dela. Decodificava as letras pronunciando tudo como está no alfabeto, depois lia tudo de novo, com os sons encaixados nas palavras. Essa segunda leitura combinava melhor com as imagens nos quadrinhos. Foi avançando na leitura, até que "MÃE! (pausa) es- (pausa) MÃE! est- MÃE! estrangeiro". Achei legal que ela tenha conseguido ler sozinha a palavra grande que causava dificuldade. Ela veio ao meu quarto depois, pra resolver a dúvida quanto à pronúncia do W.

Ler livros proibidos é bem mais legal que ler os livros da escola, né...

domingo, 7 de maio de 2023

Lago Maravilha

Hoje cedo teve Roda de Conversa do 29. Grito dos Excluídos e Excluídas no Lago Maravilha. O setor chacareiro, a ocupação Miraflores e quem mora nos arredores do Lago se reuniu pra conversar sobre experiências de invisibilidade.

Eu levei minha máquina fotográfica e achei ótimo conseguir chegar perto dos objetos com a lente.


O céu limpou e a conversa fluiu.






Agnes conseguiu se equilibrar bem entre a roda de adultos e o terreno todo pra explorar.