Ainda não está claro pra mim o que é e como se faz popularização da Linguística - que considero muito importante: somos todos falantes, mas nem todos estudamos a língua. Trabalhos de divulgação científica como esses (de popularização) pretendem aproximar as pessoas do fazer científico, dos resultados de pesquisa e das conclusões a que chegam os linguistas. Aí não se trata de alfabetizar, catequizar, instruir o público não-especializado, mas de seduzir o público amplo.
Story of your life, um conto de 39 páginas escrito por Ted Chiang e publicado em 2000 é (pra mim, até agora) o melhor exemplo de popularização da Linguística. A imagem que eu usaria para representar o conto é de um zíper se fechando. Os parágrafos intercalam (i) o cenário do acampamento militar em que a linguista em diálogo com um físico tentam decifrar a língua de alienígenas com (ii) memórias da filha (no tempo verbal do futuro). Não são duas histórias paralelas, porque há uma sequência aqui que o contista nos apresenta em forma de simultaneidade. O ato de ler o conto é como puxar o zíper e as bandas da esquerda e da direita vão se encaixando, alternadamente.

Fiquei pensando muito nessa coisa de alienígenas: coisa de americano mesmo, só podia. Mas voltando a Chomsky, o argumento mais convincente que ele tem no Managua Lectures é do alienígena tentando aprender (uma das) nossa(s) língua(s) humana(s). Nesse conto, é a linguista que precisa aprender tanto a fala como escrita dos alienígenas - do zero: não se trata de tradução, mas de pura investigação e descrição. E nessa aventura, ela ensina ao leitor sobre escrita, linearidade, tempo, simultaneidade, informação e performatividade da língua. Uma das sacadas dela tem a ver com experimentos paralelos que o físico executa. No diálogo entre as ciências, surgem novos pontos de vista. Os alienígenas acabam não aprendendo muito inglês, porque os militares temem que todo conhecimento dos aliens sobre os humanos seja usado para o mal.
A outra banda, que vai intercalando com essa conforme a leitura progride, são memórias da filha: da morte dela, da adolescência, da infância, dos cuidados, da relação umbilical. A filha é resultado dela, mas não só. Tem o pai e tem o mundo todo que molda a personalidade. Enquanto a linguista decifra a língua dos alienígenas, a mãe decifra a relação dela com a filha.
Mas essa é a forma de apresentação intercalada. Se pegássemos a sequência temporal toda, ela teria que ser dobrada no meio (o ponto de chegada do zíper). O fio verde (estou usando a imagem acima para fins didáticos) começa com a convocação para decifrar a língua dos aliens e termina na dobra, onde o fio fica vermelho - e volta, entrando nos espaços deixados pelo fio verde. Isso explica por que as memórias da filha estão no futuro (em relação ao acampamento). Louise se ocupa da escrita dos aliens, se apaixona pelo físico e tem com ele uma filha que precisa ser decifrada e que morre aos 25 anos de idade. Por ter passado pela experiência da escrita semasiográfica, a memória da narradora que conta a história da filha (e dela) vem em blocos em que passado, presente e futuro se misturam.
Em 2016, foi lançado o filme Arrival (disponível na Netflix), baseado nesse conto, Story of your life. Como toda adaptação, ela fixa numa determinada sequência de imagens todas as interpretações possíveis; e acrescenta explicações, fundamentações e convencimentos que o conto não fornecia - porque isso tudo fica por conta do leitor. O leitor não apenas recebe o texto, como o espectador de um filme: ele cria junto com o autor, porque a palavra oferece essa liberdade.
Queria mais exemplos de popularização da linguística pela via estética: o leitor aprende linguística enquanto é fisgado por uma história e uma forma específica de contá-la.