domingo, 28 de fevereiro de 2021

R e L(h)

Quando Agnes dorme pouco, tem olheiras. Mas pra ela, oLHeiras não fazem sentido, então ela diz que tem oRElhas.

Hoje, no carro, ela tava falando da goleira. 

Que fica no gol? 

Não, mãe: go-lê-ra. 

Nada a ver com futebol? 

Macaco, mãe! 

... momento telepatia... Ah, go RI la? 

Isso. 

Go Lei ra > go Ri la.

O LHei ra < o Re lha.

Atualização: Agnes não tem medo de malária, só de marália; e não gosta da Cinderela, só da Cindelera.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Formas e combinações

Brincando com a Agnes, me dei conta que o losango só forma losangos (pensando em formas simples: dá pra formar flores ou a folha de plátano com losangos, mas não consegui fazer quadrados ou triângulos com losangos).

Quadrados formam quadrados e retângulos (mas não triângulos e losangos).
Quanto mais simples a forma, mais formas simples ela forma.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Homogeneização

 

Estamos na segunda onda da covid-19 e ela se manifesta de maneiras próprias em diferentes lugares. No Rio Grande Sul, estão com bandeira preta. Em Rondônia, a situação é que está preta - e ninguém fala sobre isso. Todos nós já temos, no nosso círculo de parentes, amigos e conhecidos, pessoas que foram vítimas do novo coronavírus. Outro dia fui comprar máscaras de pano na porta do supermercado e a vendedora disse que não tinha maquininha (pra cartão) nem troco, porque estava vendendo pouco.

No Amazonas, parece que a segunda onda está sendo muito mais mortal que a primeira - há que se considerar a nova variante: um tsunami.


No Nordeste, em geral, parece que a segunda onda só faz marola. O que explica essas variantes regionais? As pessoas se comportam de maneiras diferentes? O clima? Alguma informação de ordem genética? A estrutura de hospitais e atendimento médico em geral?

Pela forma dos gráficos que representam o cenário de diferentes regiões do Brasil, dá pra concluir que o impacto não é o mesmo, não dá pra homogeneizar. A generalização nada mais é que uma média.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Imagens e palavras

 

Repare na moldura que a folhagem faz na imagem: é o Madeira que corre ali

Galinha d'angola

Canoa do Damián e a balsa

Buritis: sempre na água

Luz da tarde iluminando o teto de palha por baixo. Oficina sem paredes

Eu vejo uma interrogação desmaiada aí. Mas isso sou eu vendo coisas...

Descobertas coloridas

Piquiá: agora falta cozinhar no arroz pra confirmar se é mesmo o fruto amazônico mais saboroso

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Popularização da Linguística

Ainda não está claro pra mim o que é e como se faz popularização da Linguística - que considero muito importante: somos todos falantes, mas nem todos estudamos a língua. Trabalhos de divulgação científica como esses (de popularização) pretendem aproximar as pessoas do fazer científico, dos resultados de pesquisa e das conclusões a que chegam os linguistas. Aí não se trata de alfabetizar, catequizar, instruir o público não-especializado, mas de seduzir o público amplo.

Story of your life, um conto de 39 páginas escrito por Ted Chiang e publicado em 2000 é (pra mim, até agora) o melhor exemplo de popularização da Linguística. A imagem que eu usaria para representar o conto é de um zíper se fechando. Os parágrafos intercalam (i) o cenário do acampamento militar em que a  linguista em diálogo com um físico tentam decifrar a língua de alienígenas com (ii) memórias da filha (no tempo verbal do futuro). Não são duas histórias paralelas, porque há uma sequência aqui que o contista nos apresenta em forma de simultaneidade. O ato de ler o conto é como puxar o zíper e as bandas da esquerda e da direita vão se encaixando, alternadamente.

Fiquei pensando muito nessa coisa de alienígenas: coisa de americano mesmo, só podia. Mas voltando a Chomsky, o argumento mais convincente que ele tem no Managua Lectures é do alienígena tentando aprender (uma das) nossa(s) língua(s) humana(s). Nesse conto, é a linguista que precisa aprender tanto a fala como escrita dos alienígenas - do zero: não se trata de tradução, mas de pura investigação e descrição. E nessa aventura, ela ensina ao leitor sobre escrita, linearidade, tempo, simultaneidade, informação e performatividade da língua. Uma das sacadas dela tem a ver com experimentos paralelos que o físico executa. No diálogo entre as ciências, surgem novos pontos de vista. Os alienígenas acabam não aprendendo muito inglês, porque os militares temem que todo conhecimento dos aliens sobre os humanos seja usado para o mal.

A outra banda, que vai intercalando com essa conforme a leitura progride, são memórias da filha: da morte dela, da adolescência, da infância, dos cuidados, da relação umbilical. A filha é resultado dela, mas não só. Tem o pai e tem o mundo todo que molda a personalidade. Enquanto a linguista decifra a língua dos alienígenas, a mãe decifra a relação dela com a filha. 

Mas essa é a forma de apresentação intercalada. Se pegássemos a sequência temporal toda, ela teria que ser dobrada no meio (o ponto de chegada do zíper). O fio verde (estou usando a imagem acima para fins didáticos) começa com a convocação para decifrar a língua dos aliens e termina na dobra, onde o fio fica vermelho - e volta, entrando nos espaços deixados pelo fio verde. Isso explica por que as memórias da filha estão no futuro (em relação ao acampamento). Louise se ocupa da escrita dos aliens, se apaixona pelo físico e tem com ele uma filha que precisa ser decifrada e que morre aos 25 anos de idade. Por ter passado pela experiência da escrita semasiográfica, a memória da narradora que conta a história da filha (e dela) vem em blocos em que passado, presente e futuro se misturam.

Em 2016, foi lançado o filme Arrival (disponível na Netflix), baseado nesse conto, Story of your life. Como toda adaptação, ela fixa numa determinada sequência de imagens todas as interpretações possíveis; e acrescenta explicações, fundamentações e convencimentos que o conto não fornecia - porque isso tudo fica por conta do leitor. O leitor não apenas recebe o texto, como o espectador de um filme: ele cria junto com o autor, porque a palavra oferece essa liberdade.

Queria mais exemplos de popularização da linguística pela via estética: o leitor aprende linguística enquanto é fisgado por uma história e uma forma específica de contá-la.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Engenharia reversa

 

Desmontar é mais fácil que montar. Agnes faz essa engenharia reversa numa boa.

Montar é mais fácil que alinhar as cores do cubo mágico. Reconstituir o brinquedo (encontrando todas as peças e como se encaixam) é um esforço cognitivo menor que cumprir o desafio do brinquedo.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Hoje pode demorar, tá?

 

Agnes está bem contente de voltar para a escola (outra escola) depois de longos meses sem interagir com outras crianças. Na escola anterior, ela acompanhava uma turma mais velha que ela (o corte de idade é 31 de março. Ela faz aniversário em 16 de abril. Por 16 dias de diferença, convencemos a escola que mesmo só completando 4 anos depois de todo mundo, ela acompanhasse a turma de 4). O resultado é que chamavam ela de bebê e ela detestava. Como ela não foi alfabetizada em casa (não conseguimos nem ler os livros da Magda Soares que encomendei) durante a pandemia, ela voltou para a turma de 4 na nova escola. Está bem satisfeita de ser a mais velha. Até ensinou uma colega como se brinca de amarelinha (e isso não é estranho: numa ida ao parquinho, entendi que Agnes não sabia como se brinca de pega-pega).

Dadas as condições impostas pela pandemia, somente 30% da capacidade da turma pode ter aula presencial. Isso significa que Agnes tem entre 3 e 4 colegas em sala e que os outros acompanham as aulas presenciais através do Meet de maneira remota. Agnes já entendeu isso e foi na frente do computador e se apresentou para as crianças em casa: oi, eu sou a Agnes! O horário das aulas é reduzido devido às condições impostas: das 8h às 11h.

Hoje é dia de carnaval na escola. Agnes está desde ontem em estado de frisson: vai ter festa! Quando deixei ela na escola, ela se despediu de mim dizendo que hoje pode demorar pra buscar.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Dialético

 

Borboleta: leve, livre, efêmera, colorida, em movimento.

Cadeado e corrente: pesado, seguro, tranca, enferrujado.

A borboleta bate as asas, tenta se desvencilhar da pessoa que quer capturar sua imagem, mas sempre volta para o mesmo lugar. Tanto lugar pra ir, mas ela retorna aos grilhões.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Boas e mais notícias

Agnes aterrissou na cozinha toda empolgada:

- Mamãe, tenho boas e mais notícias!

- É? Quais são as boas notícias?

- A fêmea comeu o espinafre que eu dei pra ela!!!! 

- Ah, que bom, Agnes.

- E as mais notícias é que o macho quase deu uma cambalhota.

- Isso é ruim?

- Não, é mais uma notícia dos periquitos.

- Ufa, eu tava esperando más notícias, notícias ruins.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Pensamento maquínico

Gostamos de máquinas. Máquinas foram criadas por nós. Sabemos montar e desmontar máquinas, sabemos simplificar e complexificar mecanismos, gostamos de prever movimentos. Temos controle sobre máquinas. 

Mas não temos controle sobre a vida, nem a língua que falamos, nem a receptividade do outro. 

A medicina vê nosso corpo como uma máquina que apresenta componentes que reagem a outros componentes. Os primeiros estudos sobre o cérebro consideravam o volume cerebral um fator de suma importância: quanto maior a massa encefálica, mais inteligente era seu portador. Não é à toa que até hoje os alienígenas que desenhamos têm um cabeção. Em seguida, os estudos do cérebro passaram a mapear funções cognitivas, emocionais, sociais etc. (somente hoje se tem convicção de que nenhuma parte do cérebro é responsável pela linguagem sozinha). Na sequência, o cérebro foi interpretado em analogia ao computador. Hoje o cérebro é entendido como um complexo sistema de substâncias químicas: a indústria farmacêutica desenvolve cápsulas para dormir, para acordar, para ficar maleável. Mas transplantar um cérebro é a mesma coisa que transplantar um rim ou coração?

*

A linguística oferece pelo menos três correntes teóricas aos cientistas da linguagem humana: estruturalismo, funcionalismo e gerativismo. Tanto os estruturalistas como os gerativistas são formalistas, ou seja, encaram a língua como um sistema, uma forma, um produto, um mecanismo. Como não gerativista, eu tenho a sensação de ler engenharia linguística quando me deparo com árvores sintáticas e projeções acima do verbo. O meu cérebro seria outro se eu falasse outra língua? Minha língua é só o que eu falo, escrevo e entendo ou inclui também os gestos que uso quando falo, penso, entendo?

*

Best-sellers são fenômenos intensos de venda, mas não perduram ao longo do tempo (isso se aplica aos clássicos). Autores de best-sellers vendem muito até logo depois do lançamento. Depois disso, são esquecidos ou cobrados: onde está o próximo? Para manter-se sob os holofotes, esses autores precisam se transformar em máquinas de best-sellers. Conheço gente que leu todos os livros de Paulo Coelho e não é capaz de diferenciá-los. A receita para escrever best-sellers não é segredo. Todo autor é escritor? Todo autor é criador? O que cria um autor de best-sellers?