Primeiro evento da ABRALIN sobre popularização da Linguística. Dias 17, 18 e 19 de novembro, manhã, tarde e noite. Teremos oficinas de manhã (será preciso se inscrever - e pagar), rodas de conversa de tarde, apresentações de case de tarde e bate-papos à noite com celebridades da popularização. Exceto as oficinas, tudo será transmitido ao vivo pelo canal do Youtube da ABRALIN. Eu estarei lá, entrevistando tanto Arika Okrent como Kory Stamper.
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
domingo, 24 de outubro de 2021
In the land of invented languages
Em 2009, Arika Okrent publicou um livro muito simpático de popularização da Linguística partindo das 900 e tantas línguas inventadas. É como entrar pela porta de trás da Linguística (que torce o nariz pras línguas artificiais e se concentra nas línguas naturais). Essa abordagem inusitada acaba mostrando ao leitor algumas características das línguas naturais que passam batido: são coletivas (não levam a assinatura de ninguém em específico - que depois lamenta as mudanças da "sua" língua feitas pelos usuários), são usadas (a grande maioria das línguas inventadas não teve adeptos), na maior parte, são nascidas na oralidade (e não na escrita) e altamente irregulares ("Highly irregular" é o título do segundo livro da autora).
Muitos inventores de línguas foram motivados a criar suas línguas pela necessidade de impor lógica, regularidade e racionalidade à língua. Outros eram movidos pelo desejo de comunicação internacional (Esperanto é a mais conhecida). E claro, há espaço para extravagâncias como Blissymbolics, Láadan (a língua feminina), Klingon e outras línguas para a ficção.
Agnes e eu nos divertimos com os símbolos. Esses, que tomam ˜ como símbolo para água, ela conseguiu adivinhar. Deu risada no símbolo "cuspir", porque ela mesma chegou à conclusão. Mas o que vale ser dito sobre Blissymbolics, é que os símbolos serviram como ponte para a língua materna de crianças com necessidades especiais que não tinham acesso à língua. A história, porém, é cheia de rancores e sentimentos de posse da língua inventada. Quem é o dono de uma língua? Diante das exceções, meus alunos de alemão ficavam se perguntando por que tinham inventado aquilo. Não foi planejado. Essa é a graça. Pra Franchi, língua é atividade que nos faz - e que nós fazemos.
Nem todas as línguas inventadas representam fracassos. São mais ou menos 900 e você provavelmente só ouviu falar de duas ou três em toda a sua vida. Existem mais de 7 mil línguas naturais - todas diferentes, que nos ensinam sobre o mundo, as pessoas, como as pessoas interpretam o mundo e como funciona a mente humana. "Ambiguidades e falta de precisão permitem que as línguas sejam usadas como instrumentos de formulação de pensamento, experimentação e descobertas." (p. 256) Vagueza e imprecisão da língua oferecem a oportunidade de negociar sentidos. Línguas universais que se pretendem autoexplicativas ignoram uma parte importante das línguas naturais: a convenção. Convenções arbitrárias são aprendidas e estão ligadas a irregularidades, senso comum, conhecimento de mundo compartilhado - ou seja, cultura.
"Nossas línguas naturais são repletas de inconsistências e irregularidades porque são usadas por nós [...]." (p. 260) Nossas línguas atravessam gerações - e mudam! Porque as leituras de mundo mudam com o tempo. Aprendemos nossas línguas porque estamos imersos nelas (Claudia Lemos não acredita em aquisição de linguagem - ativa, em fases, construindo um vocabulário -, mas em ser capturado pela linguagem). Não escolhemos aprender línguas inventadas porque são mais lógicas ou universais. Aprendemos línguas estrangeiras porque precisamos comunicar com pessoas que falam essa língua, precisamos/escolhemos morar no lugar em que essa língua é falada etc.
Passeando entre línguas inventadas, Arika Okrent nos mostra de que são feitas as línguas naturais. Maravilhados com as anedotas dos inventores de línguas, somos levados a pensar sobre as relações entre línguas e pessoas/comunidades.
sábado, 23 de outubro de 2021
Sem celular
Eu estava de férias, Luis e Agnes não. Pra Agnes, não fez muita diferença viajar, porque apareceram dois casos de covid na escola, então decidiram migrar pro online. Mas pro Luis fez muita diferença estar conosco fora de casa - mesmo que em home office. Aconteceu que fomos roubados. Levaram minha mochila (tão organizada, contendo 50 máscaras pff2, carteira, celular, óculos e livros) e o computador do Luis. Daí home office sem computador fica quase inviável.
O problema de terem levado o celular é que lá tinha tudo, inclusive o endereço da casa que tínhamos alugado. E qualquer email ou aplicativo que eu tentasse acessar mandava um código de verificação pra esse celular furtado. Passamos a tarde na delegacia, na companhia de policiais convencidos que o iPhone tem um sistema de rastreio impecável - exceto quando o telefone está desligado, o que era o caso.
Na casa (alugada) de Marcão e Kika, consegui entrar no Aibnb e perguntar o endereço da casa que tínhamos alugado. Fiquei observando os filhos adolescentes de Marcão e Kika imersos no celular, tablet, tela de tv. Alternavam entre jogo e um passeio rápido por tiktok, instagram, whatsapp e facebook. Quando vieram nos visitar num dia de sol, churrasco e piscina, ficaram no sofá, capturados pela tela.
O celular não é apenas um telefone. É um GPS: o tablet da Agnes (que me salvou) não tem conectividade longe de um roteador, nem me fala as direções enquanto dirijo. O celular é o banco, são as conversas assíncronas, a previsão do tempo, o relógio, uma máquina fotográfica, filmadora e ilha de edição, a passagem de avião, a reserva do carro, a carteira de motorista.
No litoral, o atendente da Claro não tinha condições de me vender um chip com o mesmo número do chip que tava no celular roubado, porque ele só tinha acesso a DDD 11 a 19... longe de 69. Em Campinas, consegui comprar um chip de mesmo número na Claro, mas não o aparelho de celular, porque eles vinculam o aparelho a uma linha - e eles não poderiam me vender uma linha com DDD de outro estado. Comecei a baixar os aplicativos todos. Verifiquei o que havia de backup pela conta Google. No whatsapp, eu tinha os contatos dos grupos e de quem tinha escrito pra mim. Todo o resto se perdeu. Nas fotos, tinha quatro vídeos de Agnes bebê. Túnel do tempo total.
Antes eu achava super legal a ligação entre computador e iPhone. Só que tinha o excesso: toda imagem que chegava pelo whats era automaticamente armazenada no álbum de fotos no computador. Era muito lixo pra limpar - especialmente porque o iCloud vivia mandando mensagem de que a nuvem estava quase cheia e que era preciso comprar espaço. Agora, que não tenho mais iPhone, faço fotos meio tremidas que eu nem sei como mover para álbum de fotos no computador. Pelo visto, o Google vai passar a organizar minha vida mais que eu imaginava.
![]() |
| Agnes e Ruy depois do passeio no Parque Ecológico de Campinas |
![]() |
| Abaporu |
![]() |
| Circo dos Sonhos |
![]() |
| Praça do Coco |
sábado, 2 de outubro de 2021
O Madeira verde
O rio está baixo, como atestam os pilares da ponte e as ilhas (praias, bancos de areia) que aparecem aqui e acolá. Novidade é que não está tendo correnteza.
E o rio Madeira, sempre tão escuro, não está mais carregando matéria orgânica nem troncos de madeira. Damián conta que enxerga até 1m pela água adentro e fica observando peixes mordiscando a canoa.
A água do Madeira está verde. De tempos em tempos, isso acontece: o rio muda de cor.










