A Olimpíada Brasileira de Linguística compreende algumas fases antes da prova propriamente dita. A pedido, dei uma aula online sobre palavras (morfologia, tecnicamente) daquele jeito que foram as aulas durante a pandemia: professora em modo monólogo, câmeras fechadas, mas bastante interação pelo chat. Apesar de o público não ser de universitários (eram de todos os anos do ensino médio), fiz questão de tratar de morfema zero - que deu nó na cabeça deles, mas revelou como opera o linguista. Com essa introdução, quero dizer que eu já era conhecida do pessoal quando começou o Rolezinho.
Esse ano o Rolezinho foi diferente dos outros no seguinte sentido: havia um único tema para todos os grupos. A proposta era coletar dados escritos ou falados referentes à formação do futuro. Em português, o futuro do presente pode ser expresso no verbo ou fora dele, de diferentes maneiras:
futuro do presente no indicativo - forma sintética: farei
perífrase - forma composta: irei fazer ou vou fazer/vou estar fazendo
presente do indicativo + adjunto de tempo: faço amanhã
formas subjuntivas: talvez eu faça, se eu fizer
modais: posso fazer/vou poder fazer, quero fazer/vou querer fazer
O que eu achei desafiador era que o tema era fixo, os grupos eram fixos, mas os orientadores podiam variar. Minha experiência pessoal de orientação é acompanhar uma pessoa ou grupo do começo ao fim e supervisionar o desenvolvimento da pesquisa. Éramos mais orientadores que grupos e cada orientador informava dois horários ao longo da semana em que estaria disponível. Cada grupo tinha 4 (mais ou menos) integrantes e eles podiam nos (orientadores) escolher conforme a curiosidade, disponibilidade de horário ou outro critério.
No primeiro encontro, eles já tinham definido onde buscariam seus dados: 3 sets de 50 dados de um mesmo meio (havia quatro meios possíveis: 1 escrito formal, 2 escrito informal, 3 oral formal, 4 oral informal). Os sets podiam ser divididos por idade (jovem, adulto, idoso), período (anos 80, anos 2000, última década), gênero textual (discurso de posse, promessa de campanha, entrevista no Roda Viva). Quando acertamos os ponteiros, eu disse: quero ver vocês de novo! E pronto, fui adotada por esse grupo. Ainda bem (!) porque o esforço cognitivo de entrar toda vez num novo projeto seria grande.
Foram três semanas de orientação e de histórias de outras pesquisas pra ajudar nessa. Os alunos do ensino médio puderam interagir com uma pessoa que faz pesquisa, descobre coisas por acaso, desconfia dos dados coletados pelos alunos, percebe estruturas no sistema, ajuda a interpretar os resultados e acha a Linguística uma aventura muito legal.
Mais que uma orientação de pesquisa, considero que o que aconteceu ali durante três semanas foi popularização da Linguística.
