domingo, 30 de março de 2025

Rolezinho pop

A Olimpíada Brasileira de Linguística compreende algumas fases antes da prova propriamente dita. A pedido, dei uma aula online sobre palavras (morfologia, tecnicamente) daquele jeito que foram as aulas durante a pandemia: professora em modo monólogo, câmeras fechadas, mas bastante interação pelo chat. Apesar de o público não ser de universitários (eram de todos os anos do ensino médio), fiz questão de tratar de morfema zero - que deu nó na cabeça deles, mas revelou como opera o linguista. Com essa introdução, quero dizer que eu já era conhecida do pessoal quando começou o Rolezinho.

Esse ano o Rolezinho foi diferente dos outros no seguinte sentido: havia um único tema para todos os grupos. A proposta era coletar dados escritos ou falados referentes à formação do futuro. Em português, o futuro do presente pode ser expresso no verbo ou fora dele, de diferentes maneiras:

futuro do presente no indicativo - forma sintética: farei

perífrase - forma composta: irei fazer ou vou fazer/vou estar fazendo

presente do indicativo + adjunto de tempo: faço amanhã

formas subjuntivas: talvez eu faça, se eu fizer

modais: posso fazer/vou poder fazer, quero fazer/vou querer fazer

O que eu achei desafiador era que o tema era fixo, os grupos eram fixos, mas os orientadores podiam variar. Minha experiência pessoal de orientação é acompanhar uma pessoa ou grupo do começo ao fim e supervisionar o desenvolvimento da pesquisa. Éramos mais orientadores que grupos e cada orientador informava dois horários ao longo da semana em que estaria disponível. Cada grupo tinha 4 (mais ou menos) integrantes e eles podiam nos (orientadores) escolher conforme a curiosidade, disponibilidade de horário ou outro critério. 

No primeiro encontro, eles já tinham definido onde buscariam seus dados: 3 sets de 50 dados de um mesmo meio (havia quatro meios possíveis: 1 escrito formal, 2 escrito informal, 3 oral formal, 4 oral informal). Os sets podiam ser divididos por idade (jovem, adulto, idoso), período (anos 80, anos 2000, última década), gênero textual (discurso de posse, promessa de campanha, entrevista no Roda Viva). Quando acertamos os ponteiros, eu disse: quero ver vocês de novo! E pronto, fui adotada por esse grupo. Ainda bem (!) porque o esforço cognitivo de entrar toda vez num novo projeto seria grande.

Foram três semanas de orientação e de histórias de outras pesquisas pra ajudar nessa. Os alunos do ensino médio puderam interagir com uma pessoa que faz pesquisa, descobre coisas por acaso, desconfia dos dados coletados pelos alunos, percebe estruturas no sistema, ajuda a interpretar os resultados e acha a Linguística uma aventura muito legal.

Mais que uma orientação de pesquisa, considero que o que aconteceu ali durante três semanas foi popularização da Linguística.

sábado, 15 de março de 2025

Politizar as palavras

O texto do colunista Jamil Chade publicado no UOL dia 13 de março desse ano começa assim:

Nesta semana, uma discussão como qualquer outra no pátio de uma escola primária em Nova York terminou com uma frase incomum para crianças de dez ou onze anos. Após um estranhamento entre vários alunos, uma das meninas se virou a um garoto e lançou:

"Tomara que você seja deportado".

Ele analisa esse discurso de ódio que ganhou novas formas de agredir os outros depois da ascensão da extrema direita nos EUA. O diferente vira inimigo e é preciso proteger as fronteiras do país, do bairro, da escola, da classe social. Só fica dentro quem merece. Faço o paralelo com o que eu sofri no grupo de WhatsApp de pais dos alunos do 3 ano Fundamental:

"Então saia do grupo, melhor pra todos nós". Emoji de joinha.

"Não adianta gente, existem pessoas que não querem ajuda, querem confusão essa é a verdade. Vamos manter o grupo como saudável como sempre foi." Dois emojis de coração.

Sigo lendo o texto do Jamil Chade e copiando trechos pro caso de você não ter acesso por não ser assinante do portal:

Ao chegar em casa, depois do incidente, liguei a televisão e, num canal que serve de braço armado do trumpismo, a apresentadora insistia sobre a necessidade de que a deportação não acontecesse apenas com os imigrantes que estariam de forma irregular no país.

"É hora de debater quem merece estar aqui".

Tínhamos superado o nosso "Ame-o ou deixe-o", slogan da ditadura militar que ainda persistiu para além dos anos de chumbo em adesivos colados em carros-fortes. O homem que usou o imperativo me instando a sair do grupo de pais não percebe que seu discurso é ideológico. Ideologia e sotaque a gente só percebe nos outros.

*

"Lou me desculpe mas discordo que consenso tenha que ser unânime." Emoji de joinha.

"As definições que vocês apresentam de CONSENSO e DEMOCRACIA não estão no dicionário, gente." Emoji de cocô.

Assim como nos EUA a extrema direita profere seu ódio mandando deportar quem é diferente, no Brasil, depois de Bolsonaro, alguns conceitos ganharam novos sentidos para a extrema direita. Só que eles ainda não conseguiram mudar o significado das palavras para todos os falantes da língua.

"[...] mas a democracia tb se refere a Liberdade. em que cada um pode fazer o que quer."

*

"Mineração sustentável" só existe no nível do discurso. Imagine que descobrem que uma substância que produzimos no nosso cérebro vale muito dinheiro. 

Você vai deixar abrir seu crânio? Mas você certamente precisa de muito dinheiro. Então autorize que a gente abra a cabeça de quem não pode se defender. Aí você fica com uma parte do dinheiro.

Mas esses que não podem se defender são meus parentes. O rio é meu pai e a terra é minha mãe. Os povos indígenas não possuem terras: eles pertencem ao território. Por que violá-lo? Por dinheiro? Não dá pra comer dinheiro.

Acho muito sábia a simplicidade que emana do discurso da Ministra Sonia Guajajara:

Os povos indígenas não acreditam no desenvolvimento. O que precisamos é de envolvimento.

É pelas palavras - seus usos e suas definições - que percebemos discursos ideológicos. Afinal, pra repetir o bordão da Jana Viscardi, "como nos comunicamos importa".

quarta-feira, 12 de março de 2025

Bullying

Eu não tenho condições de seguir com um grupo em que adultos colocam o emoji do cocozinho no que eu escrevo. Não me sinto à vontade de continuar num grupo em que um homem me escreve com todas as letras que eu devo sair do grupo, que é melhor para todos. Não me faz bem seguir convivendo com quem me recomenda que eu procure um psicólogo porque eu não reagi ao audio fofo que ela me mandou no privado.

Sério, eu tenho medo de ser agredida fisicamente por esses pais dos coleguinhas da minha filha que não têm vergonha de se comportar como crianças mais novas que os filhos deles. Sério, eu chorei diante da tela hoje de manhã no MPI. Os outros devem ter pensado que minhas lágrimas eram pelo parente pataxó que foi assassinado anteontem. 

Agnes não vai sair da escola porque a mãe dela sofreu bullying no grupo de whatsapp de pais. Ela vai sair porque ela vinha sendo excluída, porque reclamava que as professoras não tinham autoridade sobre as crianças. Essa não é a primeira vez que este grupo de pais expele uma família. 

Na Escola da Árvore, a Letícia, diretora da escola, me disse: aqui tem 3 filtros. O primeiro é a estrada de terra até aqui. O segundo é aquela placa de rua em homenagem a Marielle Franco. O terceiro sou eu. E mesmo assim o consumismo exacerbado e a atitude de alternativo ostentação dos pais me incomodava. No Colégio Seriös não percebemos logo que o filtro é outro. Tem que tratar os funcionários da escola como se fossem seus empregados que cuidam dos seus filhos, consenso não tem nada a ver com unanimidade, democracia é sinônimo de liberdade, indivíduos são respeitados, o grupo e a discussão não existem. Pede pra sair. Sério?

terça-feira, 11 de março de 2025

Carnificina

Hoje o grupo WhatsApp de pais das crianças que estão na mesma turma teve um de seus dias mais ativos e as emoções subiram e desceram numa montanha russa. Uma mãe perguntou se topávamos dar um presentinho para as professoras na páscoa. Outra foi no shopping e encheu os nossos celulares de fotos de produtos Lindt, Kopenhagen e Cacau Show. Muitas opções, muitas cores, muito apelativo. Outra foi em outra loja, fotografar outras coisas, a animação ia crescendo. Eu estava diante de uma tela com o projeto de lei sobre conhecimentos tradicionais e expressões culturais tradicionais e direito à propriedade intelectual para povos indígenas e a outra tela exalando doce, colorido, caro, importado.

Ficaram pensando se dariam presentinhos para as duas professoras que ficam em sala ou se dariam presentinhos para todos os professores que têm contato com as nossas crianças (artes, educação física, inglês...). Algumas pessoas lembraram que ano passado tinham contribuído com R$ 89,00 cada um pra esse presentinho coletivo. Eu lá, na repartição justa e equitativa de benefícios, pensando: essas mulheres não trabalham? Fiquei alarmada com o valor e escrevi que eu não concordava e achava mais interessante cada um contribuir com R$ 30 para comprarmos um presente para as duas professoras.

Veio um audio gravado todo sorridente de uma mãe me explicando fora do grupo, só pra mim, que talvez eu não tenha entendido direito e que sempre foi assim, mas se eu não quisesse participar da vaquinha, tudo bem. Protocolos comunitários, anuência, decisões coletivas. Cada um no grupo escolhia uma postura para apoiar, e foram se multiplicando os mal-entendidos: então é um presente de R$ 15 para cada professora? Mixaria! Luis entrou na conversa e afirmou que estávamos dispostos a pagar o valor que eles estipulassem, era só dizer pra quem transferir o dinheiro. Pela primeira vez, outro homem respondeu no grupo: acho que você não entendeu. Consentimento livre, prévio e esclarecido, contrato e exploração comercial por tempo determinado. Não precisa participar, é voluntário.

Saí do MPI e fui buscar Agnes na escola. Ela estava brava e triste, pedindo pra gente tirar ela dessa escola em que não tem amigos. No grupo, alguém achou que dar presentinho pra 14 professores deixava de fora pessoas importantes, como o bedel que chama as crianças na hora da saída. Luis extrapolou: então vamos dar presentes também pras cozinheiras, faxineiras, guardas. Dádivas, pessoal. Aí reclamaram. Não era pra politizar, que se quiséssemos, podíamos criar um grupo WhatsApp só pra discutir política e minorias. Eu respondi que começava a entender por que a minha filha não se enturmava na escola. Veio gente latindo pra cima de nós, dizendo que se Agnes não se adaptava, "a responsabilidade nunca é de apenas uma das partes. E vcs mal nos conhecem ou aos nossos filhos." Carnificina. Luis saiu do grupo e comemoraram a saída dele. Eu avisei que eu ainda estava lá. A cena da Jodie Foster e John Reilly com Kate Winslet e Christoph Waltz na sala representava o que Luis e eu sentíamos diante da tela. Uma das mães montou uma enquete para votarmos com qual valor queríamos contribuir. Outra repetia que ninguém era obrigado a participar do presente coletivo, se alguém quisesse dar o seu presente por fora, tudo bem, eram democráticos. Deus da Carnificina. Eu perguntei se excluir quem pensava diferente era democrático. Veio uma definição perolar de "democracia": "Democracia é cada um fazer o q quer. Se quiser participar no grupo, ótimo. Não quer, tem a liberdade de fazer à sua maneira". Carnage (2012) do Roman Polanski. Os pais de dois meninos que se agrediram na escola passam a se agredir.

Uma das mães que não tinha se manifestado até então disse que preferia não dar presente na Páscoa, porque, na visão dela, fazia mais sentido dar presente no dia do professor. A recusa individual foi acolhida, mas o grupo não conseguiu chegar a um consenso sobre o presente. Começaram, aos poucos, depoimentos de mães que entendem o sofrimento das crianças que não são acolhidas num grupo escolar e que empatia precisa ser ensinada. Vieram moções de apoio, depoimento longo de outra mãe de menina que ainda não se encaixou e apostava muito na Agnes como amiga da filha seguida de comentários assombrados de gente que não sabia que havia crianças à deriva na classe. No final, muitas mensagens em formato de coração e mensagens apagadas. 

Acho que muita gente se viu no espelho hoje. Ou não, só ficaram felizes que o grupo perdeu uma voz crítica.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Homenagem pra juntar todo mundo

 

As mulheres que trabalham no MPI (exceto a ministra, que tava em outra agenda)
 

No fim do expediente, organizaram uma homenagem às mulheres no MPI. O bom foi juntar todo mundo no mesmo lugar, fazer a dança circular guiada pelo baniwa, ouvir o canto guarani, ver a liderança sateré-mawé fazendo a liga.