quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Emogesto

12/07/2013

:) 18:00

            ;] 18:01

Quando não estavam juntos, eles tinham estabelecido o ritual de enviar um ícone que expressasse o que estavam sentido - sempre às 18:00.

01/10/2014

:o 18:00

            ˆ-ˆ Ué, o que foi? 18:00

Usavam sinais de pontuação e outros sinais gráficos para formar emoticons. Acreditavam que os ícones pudessem representar suas emoções.

29/05/2015

               😍 18:00

😘 18:01

Os celulares mudaram e eles passaram a usar os emojis disponíveis. Deixaram de usar os sinais de pontuação e se perguntaram se os emojis eram uma evolução dos emoticons.

13/09/2016

😴 18:01 Tive que botar o despertador

            😬 18:01 

Os emoticons eram feitos de sinais de pontuação, mas não funcionavam como vírgulas, aspas, parênteses ou dois pontos. Podiam, no máximo, aparecer como exclamações.

02/11/2017

            💋18:00

💞18:00

Havia um menu de emojis e lá era possível escolher entre muitas imagens prontas.

14/03/2018

            💦 Chuva 18:00

😓 Esqueceu o guarda-chuva? 18:01

            🙏 Fecha as janelas 18:02

😂 18:03

As imagens, contudo, não eram muito eficientes na comunicação. Entenderam que os emojis não eram como a linguagem: por mais que haja mal-entendidos durante a comunicação verbal, é sempre possível chegar ao entendimento mútuo através da linguagem. Os emojis não eram autossuficientes, era preciso recorrer à linguagem para explicar, descomplicar, desimplicar.

27/04/2019

😁 18:00

            😋😌😎😏😑😠😝😜😰😱😻🙈🙉🙊🙀😳💥💝😙 18:02

🙋 Oi, filha! 18:03

Qual era a função dos emojis? Para crianças, eram divertidos. Mas os adultos também usavam emojis e não era só por diversão.

20/08/2020

😷18:00

            😉 Sim, eu trouxe máscara reserva. 18:01

Se não eram sinais de pontuação nem linguagem, mas participavam de maneira frequente nas trocas de mensagens, tinham que exercer alguma função relacionada à comunicação.

01/10/2021

            😡 18:00

😤18:00

Os emojis representavam um outro tipo de sentido: gestos. Enquanto falamos, usamos gestos variados (que variam de acordo com a autonomia: podem ser usados sem a linguagem 👍 porque significam algo, com a linguagem 😉 para ratificar o que foi dito ou ainda ser movimentos sem muito significado que fazemos enquanto falamos👐). Não é à toa que recorremos mais frequentemente aos emojis de carinha e mãozinha: é como fazemos gestos na fala.

22/02/2022

😍 18:00

            😘18:00

Para saber mais:

McCULLOCH, Gretchen. Because internet: understanding the new rules of language. New York: Riverhead Books, 2019.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Automonitoramento

 

Agnes instalou na cama dela um medidor de tamanho. Quando ela fica parada ali, ela entende que está quase no vermelho (só que quando eu meço, já está bem uns dois dedos dentro do vermelho). Perguntei o que acontece quando ela chegar no vermelho.Vou ficar adulta, ué.

Pra ela, as fases da vida são: bebê, criança e adulto.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Lorem ipsum

Talvez você já tenha reparado nesse Lorem ipsum em páginas-modelo do Powerpoint ou outro tipo de template. Trata-se de um extrato de um texto latino que exerce a função de coringa. 

No design gráfico, os profissionais têm um superpoder incrível que é conseguir ver um texto sem lê-lo. Designers e diagramadores são treinados para ver formas, espaços e planejar a página. O texto, as palavras, pouco importam: o texto é encarado como uma mancha textual. Então recorrem ao lorem ipsum para ter uma noção do que seria um texto normal, com parágrafos standard e palavras de tamanhos variáveis. Com esse lorem ipsum, podem experimentar fontes diferentes, explorar o tamanho das letras e a disposição das partes na página. O conteúdo do texto não importa. Importa a forma, a materialidade.

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Eu fui formada em Letras e não consigo não ler as letras. Como editora, tenho acesso aos comentários que a revisora dos livros da EDUFRO faz aos autores. Um dos autores, formado em Jornalismo e Comunicação, usou um lorem ipsum de uma página e meia para segurar o lugar do prefácio - que, na ocasião em que enviou a versão final do livro, ainda lhe faltava. A revisora anotou: traduzir o prefácio!

Eu repassei a revisão ao autor e pedi para introduzir o prefácio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Escrever e coletar cogumelos

Li o Ensaio sobre o louco por cogumelos com muita agilidade: o livro é pequeno, a página tem dimensões menores que os livros acadêmicos, o texto é organizado em blocos. No começo, me diverti com a ideia de que esses blocos poderiam estar dispostos lado a lado - já que a linearidade do texto estava quebrada mesmo. Depois entendi que a ordenação dos blocos não é tão aleatória assim. A linguagem (é uma tradução - do alemão!!! Não fui eu quem comprou o livro, mas como eu tinha lido o Sheldrake, me animei a ler esse) é repetitiva, circular, se move em espiral.

O livro é narrado em terceira pessoa sobre um amigo de infância que saiu de um vilarejo em que, depois dos bombardeios, as pessoas se acostumaram a coletar cogumelos para vender. Sempre os mesmos cogumelos amarelos. Esse amigo vira gente grande, se destaca profissionalmente e um dia, caminhando na floresta, vê um cogumelo porcino na altura dos olhos. A partir desse momento, sua vida passa a girar mais e mais em torno dos cogumelos. Passa todo o tempo livre nas florestas: cavocando, procurando, revirando, seguindo pegadas, memórias, o instinto. Vira especialista em cogumelos e passa a participar de eventos acadêmicos sobre cogumelos. Não come nem vende, apenas coleciona cogumelos.

O que esse amigo não consegue fazer é escrever sobre aquilo que tanto lhe ocupa a mente e o corpo. Então o narrador assume essa tarefa e escreve o livro que o leitor tem nas mãos. A história é sobre cogumelos, mas a metáfora é sobre o próprio ato de escrever. A escrita convoca o escritor. Escrever é sair, entrar na floresta, se perder e encontrar pequenos tesouros. Revirar a terra, olhar onde outros deixaram rastros, acompanhar o tempo das estações, intuir onde e quando brotarão. Escrever é caminhar nas próprias pegadas, voltar aos mesmos lugares e encontrar ali novas possibilidades. Escrever é se aventurar. Tanto o personagem como o ato de escrever são solitários, mas o acúmulo, o resultado deve ser público: de que adianta guardar cogumelos?



 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Bicicleta em desenhos

Será que não temos quadrinhos em português sobre bicicleta? Quadrinhos mesmo: pode ser charge, tirinha, graphic novel etc. que não seja instrucional, que não declame as regras de trânsito e os artigos do Código Brasileiro de Trânsito. Quadrinhos que sejam divertidos e sobre bicicleta. Em português, tem?

Em inglês, temos o Yehuda Moon, lançado em 2008 como webcomics (tirinhas diárias no site) que ganhou 6 volumes impressos. Praticamente todas as culturas da bicicleta ganham espaço no Yehuda: Sister Sprocket anda numa fixa, joga polo de bike e participa de alleycats.

Tem o Joe King, todo lycra, velocímetro e corridas que só pedala para o trabalho quando as condições meteorológicas forem favoráveis e tem o Yehuda Moon, ciclistoativista urbano que pedala para todos o lugares em qualquer condição. Por fim, tem Thistle, a ajudante que usa uma cargueira para transportar a filha, compras e o que for. Tem uma história de fundo, mas tem muito do dia-a-dia, das estações do ano, do trânsito, das pessoas que pedalam e o que as pessoas que não pedalam pensam sobre as pessoas que pedalam.

 
Como o cenário é uma loja e mecânica de bicicletas, aparecem também os que pedalam reclináveis, tandems, bicicletas altas, mountain bikes, road bikes, aqueles que têm dúvidas, curiosidade e os que compram acessórios, mas não pedalam. A ghost bike, a bicicleta branca em homenagem ao ciclista atropelado, morto no trânsito, também está presente nesse universo.
Acho interessante a solução que Rick Smith e Brian Griggs (os autores) deram à militância do Yehuda. Como ciclista urbano, Yehuda não defende roupas de ciclismo, mas roupas adequadas ao destino. Para ele, a bicicleta é só um meio de transporte. Assim como não se usa roupas de carro ou roupas de ônibus, roupas de bicicleta não fazem sentido. Capacete também não. E como o ativismo não coaduna com o senso comum, os autores nunca deixam o Yehuda ter a última palavra: os colegas reclamam do cheiro, os clientes sugerem campanhas de punição a quem não usa capacete.



Em japonês eu descobri uma série de anime chamada Yowamushi Pedal. A primeira temporada tem 38 episódios e como cenário 4 competições. Sim, trata-se exclusivamente de ciclismo esportivo de estrada. O personagem principal, Onoda, aprende (e nós junto com ele) sobre a técnica do ciclismo de estrada nos treinos, desafios e competições. Depois do fim de cada episódio tem um rabinho de menos de um minuto de cenas da vida prosaica dos personagens. O foco é a competição, a bicicleta, o uniforme do time. O último episódio da primeira temporada termina a 5 km da linha de chegada do segundo dia da competição de 3 dias. Esses últimos quilômetros são resolvidos em três episódios da temporada 2 - pra se ter uma ideia de como as fases, técnicas e biografias envolvidas no ciclismo são exploradas. Acho que vou ter que ver mais uns 30 episódios pra saber quem ganhou a corrida no fim do terceiro dia dessa competição...

Nunca acompanhei corridas, nunca experienciei pelotão ou treino. Não consigo me convencer a tirar a poeira da minha bicicleta pra fazer ginástica. Eu me identifico muito mais com Yehuda (bicicleta é transporte), mas estou me divertindo com os ciclistas japoneses.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Da janela, com zoom

Da janela eu vi a preparação para a visita do Bolsonaro a Porto Velho. 9h da manhã o povo se aglomerando para ver o homem passar pontualmente às 13h58.

Da janela eu meço a altura do rio Madeira. Os pilares da ponte são a referência.

Do lado de dentro, fotografo o lado de fora.