Depois da aula de morfologia, em que estudamos processos de formação de palavras, pedi que os alunos resolvessem exercícios. Nesses exercícios, eu queria que eles chegassem à formulação de regras. No entanto, antes de chegar nas regras, era preciso experimentar com as palavras.
Montei paradigmas com lacunas:
objeto pessoa estabelecimento
pipoca
pipoqueiro pipocaria
jornal
jornaleiro jornaleiria/ jornalismo
Mesmo nunca tendo ouvido ou visto as palavras
pipocaria ou
jornaleiria, quase todos preencheram a lacuna.
Menos unânime foi a resposta para o reverso de
tossir e
espirrar. A grande maioria se esforçou muito para achar a resposta certa e acabou deixando a lacuna em branco. Dois responderam
não tossir e
não espirrar e dois intrépidos responderam que é
destossir e
desespirrar. Depois dessas exceções, vinha a pergunta: existe uma regra geral?
Existe, foi a resposta da maioria.
Eu esperava que os alunos chegassem à conclusão que o processo de derivação não é homogêneo, linear. E esperava que eles percebessem que o processo de flexão, ao contrário, obedecia a paradigmas claros. Tão evidentes, que eu poderia conjugar nomes (eu detergent
o, tu detergent
as, ele detergent
a etc.), já que as terminações de um paradigma sempre seriam as mesmas - nos verbos regulares. Inventei três palavras, uma para cada conjugação:
felecar, soler e
talir. Eu esperava que eles tomassem como modelo as terminações de verbos como
cantar, comer e
partir. Uma única pessoa acertou as três tabelas de verbos: uma estrangeira.
Perguntei se estavam seguindo alguma regra. A resposta mais surpreendente foi:
Não, segui meu estinto! (Com ponto de exclamação mesmo).
Por fim, pedi que dessem três exemplos de palavras terminadas em diferentes sufixos (-ção, -vel, -izar, -ice, -ada). E não é que me aparecem, por exemplo,
lição, piada, criável, musicalizar, difíce e calvice?
Fada foi foda, porque eles não perceberam que um sufixo se junta a uma unidade de sentido; e
f- não faz sentido.
Acho que os exercícios romperam barreiras linguísticas na cabeça dos meus alunos: se a professora pode inventar palavras que ela chama de
logatomas, então agora pode tudo.