Estou em Novo Hamburgo (RS) para visitar o meu pai. Avisei o pessoal da casa de repouso que viria, então elas tiveram tempo para preparar o Harro pra surpresa.
Quando cheguei, ele logo me reconheceu: "como foi que você chegou aqui?" Mas será que ele sabia quem eu era? Em outras vezes, eu tinha a sensação de ele oscilar entre me classificar como filha ou esposa. Daniele chegou pra ele e perguntou à queima-roupa se ele sabia quem eu era: "claro que eu sei!" Insistiu: "Então quem é?" Ele deu olé: "Tu não sabe quem é ela? Como é que tu deixa gente estranha entrar aqui?" Daniele cresceu pra cima dele: "O que ela é tua?" Ele se espremeu: "Minha amiga, ela vem me visitar."

Se perguntasse pra ele o meu nome (Rumpelstilzchen!), ele não saberia dizer. "Filhos? Tenho alguns por aí..." Mostrei foto do Philip: longa pausa. "Ele tá diferente". Mostrei foto do Luis, que ele sempre reconhecia de imediato, mas não veio nada. Mostrei foto da Agnes e ele começou a calcular: "Quanto tempo estou aqui? Quantos anos eu tenho?" Ficou chocado com a idade. O salto, no entanto, não é aleatório: ele lembrou da Agnes de anos atrás e percebeu que agora ela cresceu - o tempo passou.

Reparei que ele tinha um discurso vago: "Agora estou trabalhando mais do que antes. Agora que cheguei na minha meta, estou conseguindo desenvolver bem. Antes eu precisava de muitas pausas, precisava caminhar para pensar em boas soluções, agora está tudo mais automático." Assim como sumiu o meu nome ou o tipo de vínculo que tenho com ele, sumiram a casa, o trabalho, as referências. Mas alguma coisa da conexão ficou: eu disse que Philip trabalha com crianças e ele logo respondeu que o menino tinha sido talhado pra isso mesmo, pro trabalho prático, que o estudo sistemático (universitário) pra ele não era importante.
Ele avisou que só ficaria ali, na casa de repouso, por mais três meses. Depois voltaria pra sua casa. "Onde fica a sua casa?" Pausa para digerir a surpresa: "Mas eu tinha uma casa, não tinha?" Ele disse que sua dieta é praticamente peixe e frutos do mar. Não consigo imaginar em que período da sua vida isso pode ter sido verdade. Contou que a visão piorou muito depois daquela explosão. "Fui misturando umas substâncias, um pouco disso, um pouco daquilo e BUM, fez-se um clarão que me deixou cego por um mês." Também não consigo atestar isso, ou seja, o discurso dele é cheio de devaneios aventurosos.

Enquanto conversávamos, uma senhora sentada perto da porta gritava de tempos em tempos pelo Sérgio. "Ele já foi?" Os funcionários que estavam na casa se alternavam para responder a ela: "O Sérgio foi trabalhar", ou "Ele foi na padaria, buscar o pão da janta." De vez em quando ela levantava da cadeira, fazia menção de andar, mas alguém ia lá e a acomodava de novo na poltrona. Quando ela foi ficando mais aflita, chamando pelo Sérgio e pela polícia, um dos funcionários foi lá, sentou do lado dela, deu a mão e disse que tinha chegado.
As poltronas foram reacomodadas e essa senhora foi alocada do meu lado, longe da porta. De repente todos os funcionários tinham saído e todas as atenções foram fisgadas: "Sérgio! Todos voltaram pra casa, menos ele. Vamos comigo ver o que está acontecendo? Me ajuda, por favor, eu preciso saber onde está o Sérgio. Meu Deus! Sérgio! Tu tá com a cabeça estourada, te fizeram mal? Eu não posso ir aí, estou com o pé machucado, também me fizeram mal. Polícia!"
Harro me perguntou o que estava acontecendo. Eu disse a ele que ela estava presa numa cena do passado. Ele entendeu perfeitamente e disse que isso pode acontecer com qualquer um.
Com o presente, Harro lida bem: faz piada, é esperto, conversa com qualquer um sobre qualquer coisa. Em relação ao passado, sinto que ele perdeu as referências: é como se visse vultos e o discurso fica vago.