quinta-feira, 31 de março de 2022

10 anos Scielo Books

Minha fala é de 7 minutos e começa depois do marco de 1h24min. Fui convidada a falar no painel porque represento a ABEU no Comitê Consultivo da Scielo Livros. A comemoração foi uma imersão no universo editorial: bem bacana.

Detalhe: quem me apresenta é Márcia Abreu, ex-editora da Editora Unicamp que publicou o meu livrinho sobre sinais de pontuação!

quarta-feira, 30 de março de 2022

domingo, 27 de março de 2022

Discurso na demência

Estou em Novo Hamburgo (RS) para visitar o meu pai.  Avisei o pessoal da casa de repouso que viria, então elas tiveram tempo para preparar o Harro pra surpresa.

Quando cheguei, ele logo me reconheceu: "como foi que você chegou aqui?" Mas será que ele sabia quem eu era? Em outras vezes, eu tinha a sensação de ele oscilar entre me classificar como filha ou esposa. Daniele chegou pra ele e perguntou à queima-roupa se ele sabia quem eu era: "claro que eu sei!" Insistiu: "Então quem é?" Ele deu olé: "Tu não sabe quem é ela? Como é que tu deixa gente estranha entrar aqui?" Daniele cresceu pra cima dele: "O que ela é tua?" Ele se espremeu: "Minha amiga, ela vem me visitar."

Se perguntasse pra ele o meu nome (Rumpelstilzchen!), ele não saberia dizer. "Filhos? Tenho alguns por aí..." Mostrei foto do Philip: longa pausa. "Ele tá diferente". Mostrei foto do Luis, que ele sempre reconhecia de imediato, mas não veio nada. Mostrei foto da Agnes e ele começou a calcular: "Quanto tempo estou aqui? Quantos anos eu tenho?" Ficou chocado com a idade. O salto, no entanto, não é aleatório: ele lembrou da Agnes de anos atrás e percebeu que agora ela cresceu - o tempo passou.

Reparei que ele tinha um discurso vago: "Agora estou trabalhando mais do que antes. Agora que cheguei na minha meta, estou conseguindo desenvolver bem. Antes eu precisava de muitas pausas, precisava caminhar para pensar em boas soluções, agora está tudo mais automático." Assim como sumiu o meu nome ou o tipo de vínculo que tenho com ele, sumiram a casa, o trabalho, as referências. Mas alguma coisa da conexão ficou: eu disse que Philip trabalha com crianças e ele logo respondeu que o menino tinha sido talhado pra isso mesmo, pro trabalho prático, que o estudo sistemático (universitário) pra ele não era importante.

Ele avisou que só ficaria ali, na casa de repouso, por mais três meses. Depois voltaria pra sua casa. "Onde fica a sua casa?" Pausa para digerir a surpresa: "Mas eu tinha uma casa, não tinha?" Ele disse que sua dieta é praticamente peixe e frutos do mar. Não consigo imaginar em que período da sua vida isso pode ter sido verdade. Contou que a visão piorou muito depois daquela explosão. "Fui misturando umas substâncias, um pouco disso, um pouco daquilo e BUM, fez-se um clarão que me deixou cego por um mês." Também não consigo atestar isso, ou seja, o discurso dele é cheio de devaneios aventurosos.

Enquanto conversávamos, uma senhora sentada perto da porta gritava de tempos em tempos pelo Sérgio. "Ele já foi?" Os funcionários que estavam na casa se alternavam para responder a ela: "O Sérgio foi trabalhar", ou "Ele foi na padaria, buscar o pão da janta." De vez em quando ela levantava da cadeira, fazia menção de andar, mas alguém ia lá e a acomodava de novo na poltrona. Quando ela foi ficando mais aflita, chamando pelo Sérgio e pela polícia, um dos funcionários foi lá, sentou do lado dela, deu a mão e disse que tinha chegado. 

As poltronas foram reacomodadas e essa senhora foi alocada do meu lado, longe da porta. De repente todos os funcionários tinham saído e todas as atenções foram fisgadas: "Sérgio! Todos voltaram pra casa, menos ele. Vamos comigo ver o que está acontecendo? Me ajuda, por favor, eu preciso saber onde está o Sérgio. Meu Deus! Sérgio! Tu tá com a cabeça estourada, te fizeram mal? Eu não posso ir aí, estou com o pé machucado, também me fizeram mal. Polícia!"

Harro me perguntou o que estava acontecendo. Eu disse a ele que ela estava presa numa cena do passado. Ele entendeu perfeitamente e disse que isso pode acontecer com qualquer um.

Com o presente, Harro lida bem: faz piada, é esperto, conversa com qualquer um sobre qualquer coisa. Em relação ao passado, sinto que ele perdeu as referências: é como se visse vultos e o discurso fica vago.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Dói DOI

A última coisa que se insere num livro é a ficha catalográfica, porque ela contém o número ISBN, o número de páginas do livro, ano de publicação etc. Depois de inserida a ficha catalográfica, o livro produzido digitalmente pode ser publicado ou ir pra impressão. É comum que a versão em PDF de um livro seja usada pra impressão - o que explica por que editoras universitárias ainda publicam seus livros digitais em PDF e não ePub, que é um formato mais elástico, que se adapta à tela (do celular, Kindle, tablet, computador). Pra quem só tem celular, livro em PDF é um tormento.

O DOI é um caminho digital que leva a um arquivo digital seguro. Muitas revistas eletrônicas atribuíram DOI retroativamente aos artigos publicados online antes da era DOI. Eu mesma notei que um artigo meu de 2010 ganhou DOI. Ou seja, virou praxe ter DOI. No Lattes, basta clicar no <doi> que se chega no artigo sem precisar buscar por ele no Google.

O que os bibliotecários que lidaram a vida toda com livros impressos não sabem é como se adquire o DOI. É preciso mandar uma planilha informando basicamente tudo que está na ficha catalográfica + orcid dos autores ou organizadores + link da publicação. Trocando em miúdos, só é possível pedir DOI para livros digitais já publicados. 

Mas como se insere o número DOI na ficha catalográfica de um arquivo já publicado? Tem um truque: o número DOI é previsível porque é composto por um prefixo + ISBN digital. Eu expliquei isso pra bibliotecária. Pra ela, prever um número que ainda não foi adquirido (sim, DOI custa - em dólar) é quase heresia e causa dor na consciência.

sábado, 19 de março de 2022

Túnel do tempo

A música está voltando. Durante a gravidez, ouvir música (qualquer que fosse) me fazia chorar. Depois passei muitos anos sem ouvir os meus CDs ou mp3 e irritada com a música que Luis ouvia ocasionalmente. Foi com Agnes que eu voltei a botar música pra ouvir, mas ela não gostava quando eu cantava junto (acho que é porque eu entrava por um túnel e ela não me via mais). Ocasionalmente, voltei a colocar música instrumental pra trabalhar no computador. Nos tempos de dissertação e tese, era Pandora que me movia. 

Agora que a escola da Agnes é do outro lado da cidade, decidi colocar música no pendrive e o pendrive no carro. Quando percebi que ela começou a cantar um refrão do Pato Fu, eliminei todas as músicas em inglês (e hindi) do pendrive e botei muita música em português.

Aí, quando eu atravesso a cidade pra buscar a menina na escola, sou transportada de volta para Oca da Tapioca, em que sempre se fez muita música:



O túnel do tempo me transporta para momentos vividos intensamente,

pessoas que me apresentaram músicas, bandas, sonoridades

e pra mim mesma.

Acho que eu descobri pouca música sozinha: ela veio por vários caminhos, várias pessoas.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Morfologia pop

Depois de passar pela experiência de organizar um evento sobre popularização de Linguística, coordenar a comissão de popularização da ABRALIN e expor trabalho num evento internacional sobre popularização de Linguística, mudei a minha forma de dar aula. 

Teve seminário, sim, mas não teve nem prova nem exercícios semanais. Teve projetos de popularização. Nos seminários, os alunos de Morfologia tiveram que apresentar um determinado texto aos colegas. Alguns textos eram capítulos de livros, outros eram artigos, outros eram palestras no Youtube. Eu chamo isso de seminário de texto, mas pode ser interpretado como uma mistura entre resumo e fichamento. Para os projetos de popularização, eu distribuí temas (negação, prefixo -inho, cruzamento vocabular, derivação não composicional etc.) e, na medida do possível, textos. Mas os textos não precisavam aparecer no produto de popularização.

Falei, nas aulas, sobre podcast, vídeo, edição de imagem, mas quando vi as apresentações dos alunos, percebi que não precisava ter instruído nada disso, porque eles manipulam muito mais ferramentas digitais que eu. Muitos alunos fizeram postagens seriadas (no Facebook e no Instagram), ou seja, uma sequência de quadros em que explicavam em linguagem acessível e bem-humorada o tema deles. Memes fizeram bastante sucesso! Teve gente que fez vídeos no Youtube, desenhou história em quadrinhos e colocou em sequência (moving pictures!) e fez animações com modelos pré-formatados. Uma moça inventou um jogo. Minhas competências digitais não alcançam o que eles fizeram. 

E o mais legal é que TODOS fizeram, publicaram (para os seus pares nas redes sociais, para os colegas e a professora) em lugares que extrapolam a sala de aula e aprenderam Morfologia usando suas habilidades digitais. Os nomes que deram aos perfis e páginas também foram morfologicamente talhados: "morfossurtados" e "cruzamento vocabuloso", por exemplo. 

Não sei se, em termos de conhecimento adquirido, o conjunto se beneficia dessa colcha de retalhos, mas o processo criativo (e a possibilidade de criar) foi muito válido e bem-vindo nesses tempos de ensino remoto.

sábado, 12 de março de 2022

A máquina e o tempo

Heloisa, minha colega de departamento, tinha deixado o carro dela na nossa garagem. Como o carro era velho, ela pedia que a gente ligasse o carro de tempos em tempos. Aos sábados, quando nossos caminhos se bifurcavam (eu me encontrava com minhas orientandas PIBIC e Agnes ia no ateliê), Luis levava Agnes com o carro da Heloisa. 

Com o tempo, os pneus iam perdendo ar. Uma vez eu tive que chamar o borracheiro pra vir aqui, tirar o pneu, consertar a válvula na borracharia e voltar pra instalar o pneu. Nas outras vezes, a gente levava o carro no posto de gasolina e calibrava os pneus.

O nosso carro acende uma luz de alerta de tempos em tempos. É sempre na primeira vez no dia que o carro é ligado e costuma ser comigo. Luis dá umas aceleradas e resolve. Ontem, às 15 pras 6h da manhã, a luz acendeu e não houve pisada no acelerador que fizesse apagar a luz de alerta. Fui assim, fuscando em baixa rotação até a rodoviária, buscar a Heloisa.


Quando colocamos a mala dela no carro e dei partida, o carro funcionou normalmente. Viemos pra casa, tomamos café e Agnes e Luis vieram pra mesa também. Lá pelas 8h, Heloisa e eu descemos, tiramos a mala dela do nosso carro e colocamos no carro dela e ela não conseguiu dar partida no carro dela. E agora? Entramos as duas no meu e fomos procurar um mecânico. Achamos um lava-jato pra caminhão que prometeu ajudar. Foi chegando gente de moto e arranjaram o cabo da chupeta. A moto com dois em cima nos seguiu até em casa. Cada um abriu um capô de carro e conectou os grampos. Eu dei partida no meu, Heloisa no dela, e funcionou. Ela saiu daqui seguindo a moto, pra calibrar os pneus com eles lá.

Depois de buscar a Agnes na escolinha, fomos tomar açaí. Quando fui dar ré pra sair da vaga, tive a sensação de que atropelava alguma coisa com as rodas de trás. Depois, manobrando, tive a sensação de que a roda de trás (lado do motorista) tinha caído ou estourado. Depois desse desconjuntamento sentido, mas não verificável pela visão, o carro seguiu até em casa sem dificuldades. 

Hoje de manhã cedo Luis levou o carro na mecânica e o rapaz lá mostrou que 3 suspensões estavam inoperantes e que era preciso trocar os 4 amortecedores. A máquina desgasta com o tempo: os dentes do uso mordem a máquina; os dentes do tempo ocioso mordem a máquina.


sábado, 5 de março de 2022

Empenho

Enquanto editora solitária da EDUFRO, sou eu mesmo quem precisa cuidar de toda a parte burocrática da contratação da empresa terceirizada que produz os nossos livros. Não temos revisor, diagramador, nem técnico administrativo, por isso é preciso pagar pelo serviço.

Assim que a terceirizada foi contratada, a moça do financeiro de lá me pediu o empenho. Eu tinha uma vaga ideia do que isso podia ser, então fui lá na Reitoria, procurar saber do tal do empenho. Quando, via processo, o empenho chegou, repassei o empenho para a terceirizada. O valor contratado era de aprox. 60 mil reais e o empenho estava no valor de 3 mil. O pessoal da terceirizada pediu explicações. Voltei na Reitoria e entendi que como o contrato tinha sido firmado perto do fim do ano, não havia como executar (gastar, pagar) todo o valor ainda naquele ano. Por isso só esse valor simbólico.

A partir daí entendi que o empenho era uma demonstração para a contratada de que a universidade garantia saldo, de que honraria o compromisso. O contrato foi renovado e no aditivo do contrato (cujo valor não foi alterado no segundo ano) constava o número de uma nota de empenho. A moça da terceirizada foi procurar esse empenho no Portal da Transparência e viu que o valor era só metade do valor total contratado. Não sei como, ela achou outra nota de empenho feita no dia seguinte, com a outra metade do valor. A dúvida dela era onde esse segundo empenho estava referido no aditivo do contrato.

Comecei a procurar no processo de contratação e achei o segundo aditivo (com valor reajustado a maior) que mencionava uma nota de empenho que discriminava certinho os serviços de revisão, diagramação e impressão tal como acertado no primeiro aditivo. Comecei a sentir as paredes do labirinto me apertando quando ela me mostrou o empenho que eu não consigo localizar no processo, mas que consta no Portal da Transparência, em que quase 30 mil reais são destinados ao serviço de revisão. Tá certo que revisão custa caro, mais que a diagramação, mas num livro em papel, a impressão é a parte mais cara: dois terços do valor total. Então, se a impressão custava 40 mil num contrato de 60 mil, a revisão não podia custar 30 mil. Nessa hora, ela perguntou: "posso te ligar?"

Expliquei que ela devia se orientar pelo contrato - o primeiro aditivo do contrato - e não pelos valores do empenho, porque o empenho era só uma garantia de que a universidade pagaria, não uma obrigação. Mesmo assim, eu fiquei de investigar essa questão no setor financeiro na Reitoria.

Disparei muitas mensagens com PDFs anexados no whatsapp do sujeito que responde pelo financeiro na universidade. As mensagens digitadas evoluíram pra audios, até que ele perguntou: "posso te ligar?"

Durante a conversa, ele aventou um monte de erros que pudessem explicar essas referências descruzadas e disse que a universidade tem autonomia de cancelar um empenho se entender que já passou muito tempo do prazo de execução. Em resumo, não é o EMPENHO que vale, é o CONTRATO que vale e ponto final. 

Eu dei risada, agradeci e lembrei que a palavra 'empenho' é polissêmica: está no penhor > empenhorar e no empenho > esforço. De minha parte, fiquei mentalmente esgotada depois de tanto empenho em descobrir o que eu já sabia.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Vacina pediátrica

Fui buscar Agnes na escola: vamos tomar vacina? Ela se encolheu toda e disse que estava com medo. Expliquei a ela que a vacina protege não só ela como todo mundo à sua volta e que tomar vacina é uma atitude política.

As vacinadoras foram muito gentis com ela: deram pirulito, elogiaram a coragem e tiveram paciência comigo que tentava tirar foto. Depois, no supermercado, uma menina ficou olhando pra Agnes que tava dentro do carrinho de compras.

- Qual seu nome?

- Agnes. E o seu, qual é?

- Isabelle.

- Eu tomei a vacina, olha só a picadinha.

- Você chorou? 

- Chorei, mas depois teve sorvete e pula-pula, aí eu parei de chorar.

terça-feira, 1 de março de 2022

Depois das chuvas

Na última vez que quisemos ir ao sítio, eu liguei pro Preto, pra saber das condições da estrada. Tudo melado, uma lama só, maninha, tá complicado.
Choveu muito, dia e noite. Quando o sol voltou a aparecer e os dias passaram a ser mais quentes do que molhados, voltamos a pensar em ir ao sítio. A estrada não alagou, mas a água do Maravilha está tão alta, que tem muito pescador em volta, no meio da estrada.
Acho que despolparam açaí. Aí começa a nascer mudinha.

E a novidade no Damián é que ele conseguiu doar 5 (dos 7) filhotes + a Judite e que Tauro voltou pra casa.