Dois livros me serviram de orientação para o desfralde da Agnes.
O primeiro conta a historinha de Samuel, irmão de mais três que precisa se adaptar à imposição de que agora a vida segue sem fralda. Agnes pedia pra ler essa história e acompanhava com simpatia os pequenos acidentes de Samuel. No fim da história, o menino ganha de presente cuecas e adora se olhar no espelho com essa nova vestimenta.
O segundo livro não serviu pra Agnes (ela não gostou da historinha), mas pra mim. Agnes gostou mesmo foi do bonequinho de feltro que acompanhava o livro. A fralda, cueca, chapéu e blusa eram removíveis e coláveis através de velcro. O que me ajudou - em contraposição ao outro - foi perceber que não adiantava tirar a fralda, avisar que tava sem fralda e depois lamentar o xixi na roupa, no chão, no tapete... Era preciso contar com um certo amadurecimento da criança em relação à precepção do próprio corpo.
Durante as férias (Agnes sempre dá saltos evolutivos nas férias), Agnes desenvolveu consciência corporal suficiente pro desfralde. Teve episódios de avisar que queria fazer xixi e simplesmente agachar pra já ir fazendo, mas foram raros.
O desfralde significa uma grande economia na farmácia!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Gramado: do artesanato ao shopping center
Quando eu era criança, eu lembro que os meus primos, que moravam em Gramado e passavam grande parte do dia na Casa da Juventude, de frente pro Lago Negro, descobriram uma bica. Água limpa e fresca que brota da terra. Me mostraram a trilha secreta que levava à bica.
Hoje o caminho até a bica está sinalizado e pavimentado, a bica tem nome e imagem de santa. A água que corria livremente até o Lago Negro está organizada e contida numa piscina cheia de moedas.
Harro foi a Gramado pela primeira vez numa grande exposição de arte e artesanato. Ficou impressionado com os trabalhos, quis expor o próprio trabalho e acabou ficando.
Os limites entre arte e artesanato logo se impuseram. Para o público, executava encomendas que lhe retornavam renda. Para si, fazia arte que não conseguia vender, porque não recebia o devido reconhecimento. No fim, parou de trabalhar. E de comer e de sair de casa. No fim, foi diagnosticado com Alzheimer.
Quando o Opa ainda era vivo e eu passava os Natais em Gramado, lembro que um programão era botar cadeiras de praia no porta-malas do carro e ir de noite até o Lago Joaquina Bier, onde os tenores (ou sopranos, sei lá) cantavam festivamente enquanto luzes e fogos de artifício acompanhavam as águas do chafariz no centro do lago. Naquela época os moradores de Gramado reclamavam dos fogos e da cantoria, zombando dos turistas.
Hoje não se vê o Lago. Construíram tantas arquibancadas e muros e categorias de preço de ingresso em volta do Lago Joaquina Bier, que nem de longe é mais possível avistar a água.
Xixo veio de uma cidadezinha do interior, lutou pelo reconhecimento do seu artesanato, se aproximou da Secretaria de Cultura, montou uma pousada em que não consegue trabalhar porque sempre tem hóspede querendo dormir e agora pretende criar um museu com réplicas de suas próprias peças.
Seu irmão veio a Rondônia, faz móveis rústicos em Porto Velho e atende pelo apelido de gaúcho. O palpite de Harro é que o gaúcho volte a Gramado, porque, por mais decadente que Gramado seja, sempre é um lugar que castiga e recompensa.
Meus avós me levaram ao Mini Mundo quando era novidade. A visita foi encantadora e eu tinha a impressão de que os donos eram amigos do Opa.
Desistimos de entrar no Mini Mundo com a Agnes porque a fila era enorme, o ingresso muito caro e o espaço tinha aumentado enormemente. No Zoológico, na Mina, no Museu do Gaúcho e tantos outros lugares tipo aeroporto, a saída (pra fora ou para o portão de embarque) é conduzida necessariamente por dentro de uma loja. Somos obrigados a passar por produtos em exposição, objetos à venda, se quisermos sair do recinto, não há escapatória. No Mini Mundo, a loja ficava na entrada.
Enio foi parceiro do Harro, até mesmo o acolheu em sua casa e na família. Trocaram bancadas, trabalhavam madeira, expunham seus trabalhos nas feiras e eventos. Quando Harro foi parar no asilo, Enio já não trabalhava mais em madeira. Fibra de vidro era o seu material e Florybal (marca de chocolate) seu patrão. Quando em 2015 levei Harro no Caracol e passamos na estrada pelo Mundo dos Dinossauros Florybal, Harro torceu o nariz praquele mau gosto colorido. Devia saber que era do Enio e reprovava as escolhas do ex-parceiro.
No caminho pra Canela, passamos por pelo menos 5 lojas Florybal. Agnes gostou de entrar na árvore de fibra de vidro, subir as escadas e escorregar pelo escorrega mega inclinado. Foi difícil desviar sua atenção a cada esquina que espalhafatosamente decorava o nome da marca de chocolate. Aliás, meus avós compravam retalhos de chocolate da fábrica Planalto. Hoje eu já não sei mais onde se vende chocolate em Gramado. A disneylândia de Florybal confunde.
Felix, hóspede da Denise, suíço, estava contando de uma garota que tinha ido visitar a Suíça e disse que sabia esquiar. Ele a levou para os Alpes, equipou a moça e viu que ela não tinha a mínima familiaridade com frio, roupas de frio, esquis e tal. O episódio foi perigoso e ao final, agradecendo aos céus que a moça não tinha se acidentado, ele perguntou a ela onde tinha aprendido a esquiar. Snowland, ela disse.
Snowland, como o nome diz, é uma arena resfriada que artificialmente reproduz um cenário com neve. Como os turistas não vão a Gramado nem mesmo preparados para o clima de Gramado, Snowland oferece aos visitantes os casacos, as calças, luvas, toucas e tudo mais - além de equipamentos esportivos como esquis ou snowboards. Para muitos, Snowland é o mais próximo da Europa que conseguem chegar.
Lembro de um Natal em que a árvore na rotatória da avenida principal acendia de noite e a espera silenciosa criava um clima de reverência e comunhão. Lembro do coral cantando, lembro da novidade que era o Natal Luz. Agora Natal Luz é um período (outubro a janeiro) que teve sua 33ésima edição. Tipo megaevento. Caminhar nas ruas de Gramado é como caminhar nos corredores de um shopping - mesmo de noite. As pessoas não percorrem um caminho de um lugar a outro, mas são constantemente fisgadas por anúncios, cheiros, produtos, preços.
Recentemente o Houaiss alterou sua definição de família - tão dispersa nesse Natal, em virtude da polarização política. Minha definição de Gramado - que sempre esteve ligado à família - também mudou.
Hoje o caminho até a bica está sinalizado e pavimentado, a bica tem nome e imagem de santa. A água que corria livremente até o Lago Negro está organizada e contida numa piscina cheia de moedas.
Harro foi a Gramado pela primeira vez numa grande exposição de arte e artesanato. Ficou impressionado com os trabalhos, quis expor o próprio trabalho e acabou ficando.
Os limites entre arte e artesanato logo se impuseram. Para o público, executava encomendas que lhe retornavam renda. Para si, fazia arte que não conseguia vender, porque não recebia o devido reconhecimento. No fim, parou de trabalhar. E de comer e de sair de casa. No fim, foi diagnosticado com Alzheimer.
Quando o Opa ainda era vivo e eu passava os Natais em Gramado, lembro que um programão era botar cadeiras de praia no porta-malas do carro e ir de noite até o Lago Joaquina Bier, onde os tenores (ou sopranos, sei lá) cantavam festivamente enquanto luzes e fogos de artifício acompanhavam as águas do chafariz no centro do lago. Naquela época os moradores de Gramado reclamavam dos fogos e da cantoria, zombando dos turistas.
Hoje não se vê o Lago. Construíram tantas arquibancadas e muros e categorias de preço de ingresso em volta do Lago Joaquina Bier, que nem de longe é mais possível avistar a água.
Xixo veio de uma cidadezinha do interior, lutou pelo reconhecimento do seu artesanato, se aproximou da Secretaria de Cultura, montou uma pousada em que não consegue trabalhar porque sempre tem hóspede querendo dormir e agora pretende criar um museu com réplicas de suas próprias peças.
Seu irmão veio a Rondônia, faz móveis rústicos em Porto Velho e atende pelo apelido de gaúcho. O palpite de Harro é que o gaúcho volte a Gramado, porque, por mais decadente que Gramado seja, sempre é um lugar que castiga e recompensa.
Meus avós me levaram ao Mini Mundo quando era novidade. A visita foi encantadora e eu tinha a impressão de que os donos eram amigos do Opa.
Desistimos de entrar no Mini Mundo com a Agnes porque a fila era enorme, o ingresso muito caro e o espaço tinha aumentado enormemente. No Zoológico, na Mina, no Museu do Gaúcho e tantos outros lugares tipo aeroporto, a saída (pra fora ou para o portão de embarque) é conduzida necessariamente por dentro de uma loja. Somos obrigados a passar por produtos em exposição, objetos à venda, se quisermos sair do recinto, não há escapatória. No Mini Mundo, a loja ficava na entrada.
Enio foi parceiro do Harro, até mesmo o acolheu em sua casa e na família. Trocaram bancadas, trabalhavam madeira, expunham seus trabalhos nas feiras e eventos. Quando Harro foi parar no asilo, Enio já não trabalhava mais em madeira. Fibra de vidro era o seu material e Florybal (marca de chocolate) seu patrão. Quando em 2015 levei Harro no Caracol e passamos na estrada pelo Mundo dos Dinossauros Florybal, Harro torceu o nariz praquele mau gosto colorido. Devia saber que era do Enio e reprovava as escolhas do ex-parceiro.
No caminho pra Canela, passamos por pelo menos 5 lojas Florybal. Agnes gostou de entrar na árvore de fibra de vidro, subir as escadas e escorregar pelo escorrega mega inclinado. Foi difícil desviar sua atenção a cada esquina que espalhafatosamente decorava o nome da marca de chocolate. Aliás, meus avós compravam retalhos de chocolate da fábrica Planalto. Hoje eu já não sei mais onde se vende chocolate em Gramado. A disneylândia de Florybal confunde.
Felix, hóspede da Denise, suíço, estava contando de uma garota que tinha ido visitar a Suíça e disse que sabia esquiar. Ele a levou para os Alpes, equipou a moça e viu que ela não tinha a mínima familiaridade com frio, roupas de frio, esquis e tal. O episódio foi perigoso e ao final, agradecendo aos céus que a moça não tinha se acidentado, ele perguntou a ela onde tinha aprendido a esquiar. Snowland, ela disse.
Snowland, como o nome diz, é uma arena resfriada que artificialmente reproduz um cenário com neve. Como os turistas não vão a Gramado nem mesmo preparados para o clima de Gramado, Snowland oferece aos visitantes os casacos, as calças, luvas, toucas e tudo mais - além de equipamentos esportivos como esquis ou snowboards. Para muitos, Snowland é o mais próximo da Europa que conseguem chegar.
Lembro de um Natal em que a árvore na rotatória da avenida principal acendia de noite e a espera silenciosa criava um clima de reverência e comunhão. Lembro do coral cantando, lembro da novidade que era o Natal Luz. Agora Natal Luz é um período (outubro a janeiro) que teve sua 33ésima edição. Tipo megaevento. Caminhar nas ruas de Gramado é como caminhar nos corredores de um shopping - mesmo de noite. As pessoas não percorrem um caminho de um lugar a outro, mas são constantemente fisgadas por anúncios, cheiros, produtos, preços.
Recentemente o Houaiss alterou sua definição de família - tão dispersa nesse Natal, em virtude da polarização política. Minha definição de Gramado - que sempre esteve ligado à família - também mudou.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
Harro agora é Opa
Buscamos Harro no asilo em São Leopoldo e o trouxemos pra Várzea. Agnes o chama de Opa ou de vovô. Fomos juntos ao Museu da Mina, uma réplica de uma mina. Harro ficou encantado com as formas, cores e tempo que os cristais levaram pra se formar. Agnes se divertiu com os fósseis, águas, a nossa curiosidade.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Gramado a partir da Várzea
Quando Gerhard morreu, Oma e Ruth ficaram sozinhas naquela casa. Dieter (meu primo), Denise e Helena (9 anos agora) ocuparam a casa, deixando a casa na Várzea vazia. Pensaram em alugar, mas depois desistiram. Quando perguntamos onde poderíamos ficar em Gramado, a casa na Várzea pareceu boa ideia. Aqui temos autonomia.
Agnes e Helena se deram bem e Agnes já aprendeu onde Oma guarda os chocolates-de-boa-noite.
Agnes e Helena se deram bem e Agnes já aprendeu onde Oma guarda os chocolates-de-boa-noite.
domingo, 6 de janeiro de 2019
Carro na praia
Fomos na Praia da Galheta (também chamado de corvo marinho). Agnes vira outra pessoa na praia. Não para um instante. Corre das ondas, atrás delas, constrói castelos de areia, derruba tudo, senta e deita na areia, vira à milanesa e nem se importa com a areia. Segundo Luis, ela se funde com a Natureza.
Quando a onda grande a derrubou com sua água gelada, Agnes foi rolando e se virando de cabeça pra cima, acompanhando o movimento, sem se desesperar ou sentir medo. Mas se ela corresse pra areia em direção às dunas, nós é que ficávamos com medo. Porque passava muito jipe, SUV e picape pela praia. Tudo quanto é carro grande, às vezes com crianças no volante.
Enquanto a Europa desmonta o esquema do automóvel individual, no Brasil as pessoas querem brincar com seus carrões na praia. Não basta ostentar o carro na cidade: "agora nóis vamo invadir sua praia!!!" Quando reclamamos na pousada do perigo que esses carros representam, contaram que uma pessoa morreu atropelada na Praia do Cardoso, pouco antes do Farol de Santa Marta. Em função desse sacrifício humano, o prefeito providenciou um estacionamento de frente pra praia e fechou o acesso aos veículos motorizados.
Quando fomos a Camacho, onde a Lagoa de Jaguaruna se conecta com o oceano, observei que o estacionamento de carros era margeado por um dique de areia. Não creio que seja uma duna natural, mas resultado de uma política de contenção de carros na praia.
Estamos entendendo que o turista sai de casa, viaja para o longe e não consegue se adaptar ao lugar em que ele chega. Ele continua querendo consumir paisagens, tirar fotos de si mesmo e dirigir o carro.
Quando a onda grande a derrubou com sua água gelada, Agnes foi rolando e se virando de cabeça pra cima, acompanhando o movimento, sem se desesperar ou sentir medo. Mas se ela corresse pra areia em direção às dunas, nós é que ficávamos com medo. Porque passava muito jipe, SUV e picape pela praia. Tudo quanto é carro grande, às vezes com crianças no volante.
Enquanto a Europa desmonta o esquema do automóvel individual, no Brasil as pessoas querem brincar com seus carrões na praia. Não basta ostentar o carro na cidade: "agora nóis vamo invadir sua praia!!!" Quando reclamamos na pousada do perigo que esses carros representam, contaram que uma pessoa morreu atropelada na Praia do Cardoso, pouco antes do Farol de Santa Marta. Em função desse sacrifício humano, o prefeito providenciou um estacionamento de frente pra praia e fechou o acesso aos veículos motorizados.
Quando fomos a Camacho, onde a Lagoa de Jaguaruna se conecta com o oceano, observei que o estacionamento de carros era margeado por um dique de areia. Não creio que seja uma duna natural, mas resultado de uma política de contenção de carros na praia.
| Lagoa de Jaguaruna |
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
To the Lighthouse
Há mais de 10 anos, estive com a Oma em Farol de Santa Marta. Agora alugamos uma casa sem TV no Canto da Lagoa. Tudo é perto e integrado. O mar de um lado, a lagoa do outro e as dunas no meio.
Quando perdemos a saída de Farol de Santa Marta e entramos numa pirambeira, é que tivemos uma grata surpresa: uma trilha cheia de plantinhas curiosas que levava aos fundos da casa em que estamos hospedados. Everything is connected!
Quando perdemos a saída de Farol de Santa Marta e entramos numa pirambeira, é que tivemos uma grata surpresa: uma trilha cheia de plantinhas curiosas que levava aos fundos da casa em que estamos hospedados. Everything is connected!
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| Farol no fundo |
| Oceano à direita, dunas no meio e lagoa na linha do horizonte |
Ano Novo
Dia 31 chegamos em Porto Alegre. Procuramos muito por restaurantes abertos pra jantar. O Google dizia que tava aberto, mas a realidade negava o fato. Rodamos pela cidade ouvindo a voz feminina e mecanizada do aplicativo de localização. Tudo fechado. Por fim, jantamos numa churrascaria 24h. Fechamos o ano chutando o balde!
Siomara (esposa do Jairo) estava em “Porto”, com a mãe, então levamos a Agnes pra ela conhecer. Agnes adorou a visita. De noite, Luis teve que nos acordar pra vermos os fogos no Guaíba. Foi bonito.
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| Foto: Siomara |
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