Começando pelo começo, o IBGE faz o censo da população brasileira mais ou menos a cada dez anos. O primeiro censo, de 1872, pedia que a pessoa indicasse sua cor - e entre as opções branca, parda, preta e cabocla, apareceu "raça indígena" - que não apareceu em 1890, dando lugar (tanto pardos como indígenas) à categoria mestiça. Nos censos de 1940 e 1950, indígena não é uma categoria possível, e se a pessoa se declarasse indígena, seria categorizada como parda. Depois da Constituição de 1988, o Censo de 1991 incorpora a categoria indígena - que perdura até hoje, mas só em 2010 é que se abriam subespecificações da identidade indígena: etnia e língua falada.
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| Censo Demográfico 2022: Etnias e línguas indígenas, p. 20 |
De 2010 pra 2022, a população que se declara indígena duplicou, mas esse um milhão e quase setecentas mil pessoas representa apenas 0,83% da população nacional. Mais da metade das pessoas indígenas estão fora de territórios indígenas - e isso tem a ver com o fato de que ainda falta regularizar muita terra indígena.
Lendo sobre a metodologia do Censo 2022:
As áreas habitadas pelos povos indígenas isolados são as únicas consideradas não recenseáveis do território nacional. (Censo Demográfico 2022 Etnias e línguas indígenas: Principais características sociodemográficas: Resultados do universo p. 61)
Até aqui os dados eram conhecidos. A novidade era a tão aguardada desagregação de dados por etnia e língua. Sexta passada, no contexto da ANPOCS na Unicamp, foram divulgados os resultados referentes a línguas e etnias. A maior concentração de pessoas indígenas está no Amazonas, mas a Amazônia não abriga a maior diversidade de etnias e línguas, porque concentra grandes grupos (em grandes territórios).
Entendo que a maior diversidade de etnias é atraída pelo universo universitário - por isso São Paulo (Unicamp, USP e Unesp) conta 271 etnias diferentes e o DF (esse quadradinho no meio do país que tem UnB) concentra 167 etnias. Capitais atraindo...Das dez etnias mais populosas, chama atenção que os Kokama (que no Censo de 2010 estavam em 17 lugar), os Pataxó (em 10 lugar no Censo de 2010) e os Mura (em 13 lugar no Censo de 2010) são mais urbanos que aldeados. Representantes do Censo 2022 atribuem o crescimento à melhoria da coleta de dados no contexto urbano. Penso que, no caso dos Kokama e Pataxó, o movimento de retomada explica as declarações de pertencimento a um povo mesmo sem território garantido ou expressivo. Já para os Makuxi (no Censo de 2010, estavam em 4 posição), o que explicaria o aumento demográfico é a segurança que a demarcação territorial (Raposa Serra do Sol) traz.Se partirmos das dez línguas com maior número de falantes, chama atenção que a língua é mais comumente falada no território indígena - exceto nheengatu que é língua geral. Cruzando etnia e língua, inferimos que os Kokama, Makuxi, Terena, Pataxó, Potiguara e Mura falam predominantemente português.
De fato, menos de um terço da população indígena fala alguma língua indígena (e a língua indígena é mais falada na TI que na "área rural" - categoria do IBGE pra tudo que não é nem urbano nem TI, ou seja, pode ser terra em disputa ou em processo demarcatório; e mais na área rural que na área urbana). Minha conclusão particular é que o uso da língua está diretamente ligado à vida no território.
Nesse Censo de 2022, foram computadas 295 línguas indígenas (contra 274 do censo anterior). Acontece que a maior parte dessas línguas indígenas são paralelas ao português: 86% dos indígenas falam português (> contexto urbano> rural> TI), o que faz com que a população indígena seja predominantemente bilíngue. Línguas dominantes, como é o português no Brasil, acabam "engolindo" algumas línguas indígenas.![]() | |
| As bolas vermelhas indicam perda de língua indígena em detrimento do português nas TIs |
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| Avanço do português em TIs |
Warao passa a ser a língua mais falada nas unidades federativas com os quantitativos mais baixos de terras indígenas: Distrito Federal, Piauí e Rio Grande do Norte. Confesso que tenho dificuldade para interpretar os dados relativos a Sergipe (cuja população indígena predominante é Xocó), em que a língua tupinambá (?) foi ultrapassada pela língua yathê (dos Fulniô em Pernambuco). Enfim. O que o censo capta é o pertencimento étnico-linguístico da população entrevistada pelo IBGE. Movimentos migratórios dos Tupinambá/Fulniô para centros urbanos em Sergipe podem dar uma pista, já que os Xocó e Kariri-Xocó falam português...



















