terça-feira, 30 de julho de 2024

Olimpíada de Linguística

Acompanhei Altaci e Eliel na cerimônia de encerramento da Olimpíada Internacional de Linguística sediada pelo Brasil (pela primeira vez).

Altaci e Eliel no canto esquerdo
Assim como nas Olimpíadas (de esporte), a Rússia não pode ser mencionada nem mostrar sua bandeira nacional. Como os times eram identificados pelos países que representavam, o nome Belka foi usado para referir ao país em guerra. E, assim como nas Olimpíadas de esporte, Israel não sofreu sanções na Olimpíada de conhecimento.

As delegações conviveram por uma semana e criaram laços de amizade e cumplicidade. As pessoas individuais que subiam ao palco eram surpreendentemente tímidas e espacialmente desorientadas. Achei curioso observar como aqueles 200 jovens de 16 anos eram muito diferentes entre si.

No domingo, Altaci e Eliel tinham ministrado oficinas de língua (kokama, nheengatu e guarani) e língua espírito. Hoje, no encerramento, se despediram dos participantes e lhes disseram da importância de salvar línguas, identidades, povos.

domingo, 28 de julho de 2024

Questão de lógica

Quando minha tia compra celular novo, o velho dela passa para a minha mãe. Quando ela ganha celular velho/novo da irmã, ela passa o dela para o meu pai. Eis que meu pai passou o mais velho dele pra Agnes. Só que ela tem 8 anos. 

Conversando na mesa do almoço sobre quando ela vai receber esse presente, surgiram duas alternativas: ou quando ela completar 11 anos, ou quando ela merecer ganhar qualquer coisa, porque passou a se comportar muito bem. Ela decidiu esperar completar 11 anos. Aí não precisa se comportar.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Tchau e até daqui a alguns anos

As férias acabaram e estamos de volta em casa (Brasília). A viagem de volta foi muito mais tranquila que a de ida, parece que Brasília é mais frio que na Alemanha e todos sentimos que foi muito bom ter passado esse tempo em Bruchhausen-Vilsen.

Agnes pode conhecer os avós e o tio, foi confrontada com línguas, comidas, costumes, culturas e bichos diferentes (foi mordida por um carrapato) e esperamos outro salto no desenvolvimento dela. Meus pais agora são Opa e Oma (até pra mim, já Philip tinha dúvidas a quem eu me refiro).

domingo, 21 de julho de 2024

Bremerhaven

Agnes foi a primeira a acordar, toda agitada com a perspectiva da viagem de um dia para uma cidade que prometia muitas atrações. Fomos de ônibus, trem, outro trem e ônibus para uma cidade que fica a 64 km de Bremen, mas pertence a Bremen: é o porto estendido na Weser. 

Depois da longa viagem (são poucos quilômetros, mas durou praticamente toda a manhã), não quisemos entrar no Klimahaus, o museu mais famoso da cidade. Preferimos entrar no zoológico marinho, a céu aberto, e depois almoçar.

Gostamos de ver focas, pinguins e outros animais marinhos nadando, sendo alimentados ou tomando sol. Depois, caminhando pelo centro, tivemos a impressão que as gaivotas são tipo os pombos de Bremerhaven - mas eles são grandes e imponentes se comparados com pombos.

O sol tava tão quente e nossa cara tão vermelha, que preferimos nos refugiar num lugar com ar condicionado. Primeiro passeamos de ônibus até o ponto final de uma linha aleatória, depois fomos no IKEA. Como Agnes tinha dormido nessa viagem de ônibus, percebemos que Klimahaus seria demasiado cansativo e corríamos o risco de não ter conexão (no sábado, os meios de transporte não são tão frequentes quanto durante a semana) de volta pra casa.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Übersee Museum Bremen

Fui sozinha no museu colonial de Bremen e tive tempo de ver, ouvir e explorar as coleções. Estou praticando o reconhecimento das narrativas dos museus. Este museu é organizado em três andares: Asien, Afrika e Amerika, mas os pesos e medidas são diferentes.

Na Ásia, percebe-se tanto a história dos povos asiáticos como a contemporaneidade: produtos de supermercado convivem com manequins cosplay e samurais. Achei bacana de ver como as peças são acessíveis para crianças, o caminho que se faz enquanto visitante é um tanto labiríntico e a pessoa vai descobrindo um trajeto dentro do museu escadas acima - não porque haja indicações, mas porque se vê outros visitantes lá em cima e se descobre um jeito de chegar lá também.

Na África, a história da humanidade é contada. Tudo bem que o berço da humanidade é aquele continente, mas se o propósito fosse mesmo marcar a cronologia, a África precisaria estar no primeiro andar. Gostei da maneira de mostrar informação sobre matérias-primas exploradas na África: lembra daqueles quadros que mudam de desenho conforme você muda seu ângulo? Ou você via a imagem do material (por exemplo pedras preciosas), ou lia a descrição. Num canto da exposição, havia uma coleção sobre mudanças climáticas e comunicação que me pareceu meio desconectada.

Na América estava a história do povoamento do continente - e pelo visto, o povo de Clóvis segue sendo referência para o Museu. Me surpreendi com artefatos canela que tinham destaque (porque todos os objetos na vitrine pertenciam ao mesmo povo, o que não é comum nesses museus coloniais em que o objetivo é mostrar o exótico e se mistura muita coisa).

A arte plumária - e os pássaros amazônicos - ganharam uma vitrine em que artefatos ka'apor, mundurucu e tapirapé (máscara) convivem. Repare que o curador desenhou um rosto - o colar exposto de maneira não convencional forma a boca na segunda foto abaixo.
 

Aí então me surpreendi com uma exposição sobre a história do próprio museu e as mudanças que ele sofreu ao longo do tempo: expedições de coleção e pesquisa (como as napoleônicas) era financiadas pela cidade portuária de Bremen; as colônias na África eram fonte certa de artefatos; depois veio a Guerra, as bombas destruíram parte do acervo, algumas peças foram enviadas para a Tchecoslováquia e nunca mais voltaram. Nos anos 70, quando os turcos começaram a vir pra Alemanha, uma revolução museal se deu: foi organizada uma exposição contemporânea sobre os modos de vida turcos com participação de cidadãos não especializados em museu. Nos anos 80, outro abalo sísmico: foi organizada uma exposição a partir de um movimento social japonês que se opunha à construção de um aeroporto. O museu virou espaço de debate político.

A última parte que visitei era meio que a oficina de restauro e preparação das peças. Um rapaz estava guardando uma bandeja de pássaros empalhados. Perguntei se esses pássaros iriam pra exposição, ao que ele respondeu que voltariam pra reserva técnica - que é infinitamente maior que a exposição e se estende pelo porão do prédio até o prédio vizinho. Como eu não tinha visto o que eu esperava encontrar - peças tupari trazidas por Franz Caspar - perguntei se na reserva técnica tinha mais artefatos indígenas brasileiros.

Ele me indicou o terceiro andar do prédio vizinho e lá fui eu, explorar a biblioteca de objetos que é a reserva técnica deles. Achei da hora andar sozinha pelos corredores e abrir gavetas de adornos indígenas. Ali eu entendi que os canela forneceram uma verdadeira coleção ao museu. Como será (e quando) que esse artefatos foram parar ali? Será que o povo canela sabe que sua cultura material está exposta nesse museu?


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Universum

Bremen fica logo ali, mas é preciso pegar ônibus e trem pra chegar lá. Como perdemos a hora do ônibus, meu pai nos levou de carro até a estação de trem na outra cidade, de onde pegamos o trem. Minha internet no celular só funciona dentro dos trens da Deutsche Bahn, então só consegui avisar o meu irmão em cima da hora de nossa chegada. Ele pediu pra passarmos da estação central e encontrá-lo na parada seguinte, que é mais perto da casa dele.

De lá seguimos então de ônibus e tram com uma bicicleta dobrável para a universidade, onde visitamos o museu de ciência chamado Universum. Agnes não lembra, mas ela já esteve nesse museu em 2017.

Achei legal ver ela interagindo com as outras crianças, mesmo sem falar a língua. Aliás, ela tem demonstrado que quer aprender alemão, o que me alegra, já que ela sempre pedia pra eu "falar normal" quando eu falava alemão com ela.

O Museu é organizado em três andares (técnica, humano, natureza), sendo o primeiro andar (técnica) provavelmente o mais extenso. Como da primeira vez, não conseguimos ler/ouvir/experimentar tudo, mas foi divertido.
Uma exposição temporária era sobre IA, que em alemão é KI.
Foi legal ver Agnes com o tio e ver Agnes se comunicando com outras crianças através de gestos.
Almoçamos tarde demais na cidade e na volta eu dei uma cochilada no ônibus que nos levava à cidade dos meus pais. Foi Agnes que reconheceu o nome da cidade pelo alto-falante e me acordou pra gente descer na parada certa. Aprendendo rápido - e por necessidade!

domingo, 14 de julho de 2024

Tio Phil

Fomos a Bremen pra visitar o meu irmão e sua esposa. Mas Philip ainda tinha um dia de trabalho a cumprir e nos ensinou o caminho para a creche onde trabalha.
Encontramos o tio da Agnes no playground e seguimos de ônibus e bonde pra onde ele estaciona o trailer dele. E lá tinha um trampolim coletivo.

E framboesas (tanto Himbeeren quanto Brombeeren). Agnes queria gastar os 2,5 euros que ela tinha ganhado e perguntou pro Philip o que ele poderia vender pra ela. Ele lembrou de um pequeno gravador que ainda precisava de alguns ajustes.
Os quatro parafusos foram rosqueados muitas vezes em ambas as direções, os buracos pros parafusos foram lixados, outros parafusos foram convocados. E finalmente Agnes tinha um gravador de voz que repetia o tinha sido gravado até que outra gravação fosse feita. Ela se divertiu bastante: cantou, gravou respostas prontas, deu risada.
Foto: Phil

quinta-feira, 11 de julho de 2024

A longa viagem

O voo da TAP era Brasília - Lisboa - Frankfurt e comemoramos que sairíamos de Brasília direto pro outro lado do oceano, mas não contávamos com a logística portuguesa. Em tese teríamos 4 horas em Lisboa, mas uma e meia foram gastas no atraso do voo, outra hora e meia foi gasta na fila da imigração e a última hora ficamos na fila do embarque. A parte da fila da imigração foi a pior, porque havia filas para passaportes europeus e outra para todos os passaportes. Éramos praticamente todos brasileiros naquela fila, parecia castigo - e não tinha guichê de atendimento às prioridades. Uma excursão de idosos que ia a Paris ficou se cansando na fila. Em Frankfurt ainda tivemos que mostrar nossos passaportes duas vezes para a polícia.

Saímos de Brasília de noite e chegamos em Frankfurt no dia seguinte de noite (fuso horário contribui nessa conta). Não estava escuro ainda (no verão, escurece tarde), mas preferimos não pegar o trem e encarar uma viagem de 5 horas depois dessa longa viagem de avião. Nos hospedamos num hotel e na manhã seguinte pegamos o trem.

Embarcamos no Fernbahnhof de Frankfurt, que é acessível pelo aeroporto e a primeira parada do ICE era a estação central de Frankfurt. Lá aconteceu o primeiro atraso: a rota original estava bloqueada e foi preciso reprogramar a rota por via alternativa; e o maquinista do trem de Frankfurt em diante não estava no trem, mas em outro - que estava atrasado.

Nossa passagem era para dois ICEs: a baldeação seria em Kassel-Wilhelmshöhe na plataforma 3 para Bremen. Com um atraso de 80 minutos, chegamos em Kassel-Wilhelmshöhe e desembarcamos (deveríamos ter seguido viagem naquele trem até Hannover). A companhia de trem já tinha enviado emails avisando que, devido ao atraso, eu estava desobrigada a tomar o trem que constava na passagem e podia pegar qualquer trem pra chegar no meu destino. Na real, nem conferiram mais nossas passagens. Na estação de Kassel-Wilhelmshöhe consultamos a tabela de horários e vimos que o trem a Bremen seguinte partiria em mais ou menos uma hora. Só que esse trem estava uma hora atrasado. 

Quando o trem entrou na plataforma, os vagões mais próximos de nós eram da primeira classe. Como eu sabia que a primeira classe fica na ponta do trem e estávamos na letra C, imaginei que a segunda classe estaria em direção às letras D, E etc. Caminhamos ao longo do trem e continuava o número 1 nos vagões. O trem acabou, começou outro trem e seguia o número 1. Cansados de puxar 3 malas pela plataforma e pressionados pelo tempo, entramos na primeira classe do segundo trem e seguimos pelo corredor até a segunda classe. Depois de acomodar as bagagens, notamos que estávamos no trem pra Hamburg. Perguntamos pros vizinhos onde estava o trem pra Bremen e responderam que precisaríamos sair desse trem e entrar no trem de trás. A estação seguinte era Göttingen, mas o trem só ficaria 2 minutos parado em Göttingen, então, com criança e bagagem, não era aconselhável fazer a mudança lá, mas em Hannover, onde os trens se separariam. 

Em Hannover saímos fazendo força e abrindo caminho pelos viajantes que entravam e saíam em cada porta de vagão. Não era perto e, com medo de ficar de fora, entramos no primeiro vagão do trem de trás, pela primeira classe - que tem corredores mais largos - e seguimos até a segunda classe. O painel indicava BREMEN e comemoramos. A voz no alto-falante anunciou que não tinha boas notícias. Ao separar os dois trens, o pessoal descobriu que nenhum deles tinha autonomia para seguir sozinho. Nem o trem pra Hamburg sairia, nem o trem pra Bremen. Era preciso sair do trem e pegar outro, que passaria dali a 20 minutos na plataforma 12. Praguejando, todos lotamos a plataforma 12 - que já tinha gente esperando. Eu não vi BREMEN escrito em lugar algum, mas entendi que precisava seguir com todo mundo. Entrou um trem na plataforma 11 e todo mundo se movimentou pra entrar. Perguntei pro antigo vizinho de assento do trem anterior se aquele era o trem pra Bremen. Ele respondeu que sim, ao que lembrei da informação "plataforma 12". Ele apontou pro painel e disse que tinham mudado a plataforma. Aí eu identifiquei BREMEN e entramos. Consegui wifi quando trem parou na primeira estação.

Enquanto isso, meus pais tinham saído do vilarejo em que moram pra nos buscar de carro em Bremen. Como a minha mãe não paga plano de celular pra internet (o celular dela é um telefone mesmo), as minhas mensagens enviadas pelo whats não estavam chegando pra ela. Por sorte, meu irmão (que não tem wifi em casa e precisa de plano com internet) recebia as minhas mensagens e também foi a Bremen, nos buscar. Ele conseguiu identificar que tipo de trem é o trem de dois andares em que estávamos e localizar esse trem na estação.

Depois de entrar no carro, ainda fizemos uma viagem de pouco menos de uma hora pra chegar na casa dos meus pais. No dia seguinte, a Deutsche Bahn mandou dois emails com pedidos de desculpas pelo transtorno e voucher de 10 euros que não é acumulável com nenhum preço promocional (tipo o bilhete pra viajar em família o dia todo em qualquer meio de transporte).

Adendo: no avião da TAP, Agnes escolheu um filme e escolheu o idioma (português). Depois de um tempo vendo o filme, ela me deu os fones dela rindo: tá na língua desse avião. Eu entendo tudo, mas é engraçado.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Férias

Deixei pronto o que eu consegui, encaminhei adiantado o que precisava e me despedi dos colegas de trabalho. Luis anunciou que na manhã seguinte precisaria que Agnes fosse para o contraturno, porque ele tinha reunião online importante. Eu respondi que eu podia sair com Agnes de manhã, afinal seria o meu primeiro dia de férias.

A primeira opção da Agnes não tinha sido o Parque de Água Mineral, mas foi pra lá que a voz do GPS nos levou. Claro que ela queria poder entrar na piscina, mas ainda tava frio.

Tínhamos feito a Trilha da Capivara outra vez, e eu tinha ficado curiosa em relação à Trilha Cristal Água. Imaginei uma cachoeira de águas cristalinas. Havia 3 opções de percurso, sendo o menor trajeto de 5km. Fizemos a trilha rosa.
Agnes caminhou bravamente, reclamando apenas de sede. Bebeu água aos poucos, coletou muitas flores, sementes e o que ela chama de "capim dourado". Sentimos muitos perfumes de flor, vimos borboletas e tivemos certeza de que faltava pouco pra chegar quando as moscas começaram a nos atazanar.
Caminhamos conversando sobre o Cerrado e a Amazônia, o céu e o tempo, quando Agnes notou que as pedras que pisávamos eram parecidas com cristais. Coletou amostras e Luis vai dar o veredito mais tarde sobre qual é o tipo das pedras.
Achamos a trilha bem sinalizada - o que dá certa tranquilidade, porque quanto mais lento se é, mais demora pra chegar informação de que se está no rumo certo.
Agnes fez 5km e em grande parte do trajeto andou de mãos dadas comigo. Dizia que tinha medo de bicho, mas só vimos passarinhos, lagartos, borboletas, moscas e formigas.