A carreira do magistério superior, como diz o nome, é uma carreira (em que a pessoa progride em termos de salário e títulos), mas a progressão na carreira não se dá de forma automática. Progredimos a cada dois anos, mas é preciso juntar uma papelada considerável toda vez. Quem já tem o título de doutor, por exemplo, tem 4 degraus pra subir na carreira como adjunto. Digamos que eu tenha entrado na carreira em 2010 e tenha feito minhas progressões como manda o figurino: a cada dois anos. Em 2012, eu seria Adjunto 2, em 2014, Adjunto 3 e em 2016, Adjunto 4. No interstício seguinte, eu subiria para a categoria de Associado, que tem 4 degraus também (2018: Associado 1; 2020: Associado 2; 2022: Associado 3; 2024: Associado 4) e depois vem a categoria de Titular (outro salto salarial, como é de adjunto para associado).
Além de precisar comprovar produção acadêmica (pela resolução vigente, é preciso juntar no mínimo 40 pontos dentre vários quesitos listados nas categorias de ensino, pesquisa, extensão e gestão), é preciso que alguém (colega de departamento) faça a avaliação da progressão, que o departamento aprove a progressão e que o setor financeiro seja informado. No caso especial da passagem para Associado, a reitoria nomeia uma comissão de avaliação da progressão e, além de comprovar no mínimo 40 pontos, é preciso comprovar atividades de pesquisa (publicação). Para professores que não publicam e concentram seus esforços em dar aula na graduação, esse degrau é mais alto que só juntar no mínimo 40 pontos. No caso mais especial que é a passagem para Titular, há um memorial a ser defendido, uma banca de avaliação e uma defesa.
Eu entrei na UNIR em 2009, saí em 2012 e voltei em 2014. Minhas progressões iniciais eram meio bagunçadas por conta dessa quebra de vínculo. Em 2015, regularizei a minha situação, fazendo duas progressões seguidas. Essa era a prática na UNIR, mesmo porque se contava efeito acadêmico separado de efeito financeiro. Em 2018 saiu uma nota proibindo progressões fora do interstício, mas ninguém ficou sabendo. Em 2019, atrasei a minha progressão pensando: se tivesse feito no tempo certo, teria recebido aumento antes. Em seguida, começou a caça às bruxas, mas como eu tinha entrado na categoria de Associado, nem percebi o que aconteceu com os outros colegas. Em 2021, quando pedi minha progressão, reescreveram a minha portaria de 2019.
Isso mesmo: em 2021 reescreveram o passado (2019) por causa de uma norma de 2018. Eu tinha atrasado um mês, mas mesmo assim eu discuti a carreira (efeito financeiro e efeito acadêmico tinham sido equiparados) através de despachos vários. No meu caso, a discrepância não era grande, mas os casos de perdas salariais e trapalhadas da administração superior foram se avolumando. Alguns judicializaram, outros não tiveram ânimo de lutar e só amargaram a aplicação retardatária da norma de 2018. A reitora virou alvo, mas como docente ela mesma, não defendeu a categoria e ficou politicamente isolada. Foi muito desgaste, mas sempre continuavam as promessas de reverter as revisões das progressões. Nas outras universidades, quando veio a norma de 2018, todos os docentes foram informados de que não podia mais atrasar progressão, a norma não foi aplicada à risca e a vida seguiu. Na UNIR, abriu-se um buraco negro.
Agora, em 2023, fiz a minha progressão no tempo correto, fui positivamente avaliada, aprovada e protocolada conforme o rito ... e o processo ficou parado por quase dois meses no setor financeiro que não me dava a portaria. Meu consorte fez progressão em 2021 na mesma época que eu, mas a portaria de 2019 dele não foi questionada em 2021. Agora, em 2023, fizemos progressão juntos de novo: ele ia para Associado. Teve mais de 150 pontos, teve comissão nomeada pela Reitoria, teve parecer, aprovação, despacho e tudo mais. Só que não teve progressão. As portarias de 2021 e de 2019 foram alteradas em 2023 e ainda por cima veio a conta de 10.000 reais para devolver à União! Perder dinheiro na progressão? Só na UNIR!
A mão que promete reverter a norma de 2018 pertence ao mesmo animal que, com a outra mão, reescreve o passado, recalcula os interstícios e cobra a conta. Hoje saiu a minha portaria de Associado 3 porque, vendo que a minha progressão não progredia, eu provoquei o setor com despachos desaforados. Hoje veio um despacho pro Luis avisando que, como não tinha agido de má fé, não precisaria devolver dinheiro. Hoje saiu notícia-convite anunciando a vinda do consultor da Procuradoria Geral Federal e AGU para conversar com os docentes no mesmo dia em que está marcada a manifestação dos docentes contra a reitoria.










