Desde que assumi a editoria da Revista Roseta (a revista de popularização da Linguística da ABRALIN), eu quis saber mais sobre a pedra de Roseta e o que significou sua decifração. Fiquei encantada com a fala de Edward Dolnick para o Museu de Língua em Chicago, Planet Word, e resolvi ler seu romance histórico.
Como se pode ver, a pedra não é imensa como o resto dos monumentos egípcios. Já em 1799 começaram as primeiras tentativas de decifrar as inscrições em hieróglifo, demótico e grego. A única língua familiar aos savants era grego e o texto referia a Ptolomaios V, um faraó grego.
Só que Napoleão foi atacado pelos britânicos, fugiu do Egito e enviou tropas de reforço que foram vencidas em Alexandria. Todo o espólio de guerra foi confiscado pelos ingleses e assim a pedra de Roseta foi parar no British Museum. Não consigo me libertar do ponto de vista próximo aos atores que Dolnick adota em seu livro. É quase uma novela - que ele conta muito bem.
Por anos, os estudiosos que se debruçaram sobre o enigma não conseguiram desenvolver um método de leitura dos hieróglifos. Na parte superior (quebrada), as inscrições são hieróglifos, na parte do meio, em demótico e na parte inferior o texto elogiando Ptolomeu está em grego.
Somente em 1814 Thomas Young (inglês) conseguiu sacar que demótico não era uma língua diferente das outras, apenas uma notação diferente dos hieróglifos - que eram, em grande parte, desenhos elaborados representando águias, leões, cobras, íbis etc. Demótico seria, então, por analogia, como que uma estenografia dos hieróglifos.
Já havia sido notado que o nome do regente PTOLOMAIOS vinha grafado nos hieróglifos dentro de limites que os franceses chamavam de cartouche - porque o contexto era militar e só conseguiram pensar em munição.
A segunda grande contribuição de Young foi um insight que ele teve acerca do chinês: como se escreveria um nome estrangeiro, tipo Napoleão, em chinês, que não tem um sistema de escrita alfabético? Eles inventariam um ideograma para cada nome estrangeiro ou eles tentariam soletrar o nome: Nectar-Alfa-Papa-Oscar-Lima-Echo-Alfa-Oscar? Apostando que os cartouches continham o nome de Ptolomeu soletrado, Young escreveu um verbete para a Encyclopedia Britannica em 1819.
Para Young, os cartouches eram especiais porque continham nomes de regentes estrangeiros soletrados. O resto era indecifrável, e como eram imagens, a conclusão era que representassem ideias, como no caso do chinês. O desenho de um urubu representaria 'mãe' (que está acima e vê tudo), a águia representaria 'o regente' (porque consegue alçar voo sem precisar correr), um ganso representaria 'filho' porque os gansos andam em família.
Mas Thomas Young não era o único empenhado em decifrar os hieróglifos. Jean-François Champollion chegou a escrever uma carta que, por engano, caiu nas mãos de Young, pedindo que lhe fosse enviada uma cópia fiel das inscrições na pedra (em gesso), porque as cópias que tinha eram diferentes entre si.
Para a sorte de ambos, William Bankes havia trazido para a sua casa na Inglaterra um obelisco egípcio cheio de inscrições em hieróglifos. Nos cartouches, estavam os nomes de PTOLOMAIOS VIII e CLEOPATRA III. Cópias dessas inscrições chegaram às mãos de Young e Champollion. As letras contidas nos dois nomes: T, L, P, A eram as mesmas, o que confirmava a hipótese de que nomes estrangeiros (Cleópatra também é grego) seriam soletrados em egípcio.
Mais tarde, outra expedição de Bankes registrou inscrições referentes a RAMESSES e TUTHMOSES e somente Champollion recebeu cópias. Champollion pode então comparar os cartouches e percebeu que para Ramesses havia três hieróglifos: um sol - ra - MS e S. Foi aí que ele entendeu que os cartouches não eram só para regentes estrangeiros, mas para todos os faraós, que também os faraós egípcios tinham os seus nomes soletrados, mas não só.
Assim como podemos desenhar um sol e um dado para que o leitor entenda 'soldado', os hieróglifos podiam representar sons, palavras ou ideias. Trava-se de um sistema de escrita híbrido. O segmento MS, que também compunha Tuthmoses (eu li o livro em inglês, não sei até que ponto estou errando a grafia) aparecia como 'nascimento' em copta, que Champollion estudou para mergulhar na língua aparentada com o egípcio: 'mise'. Estudar copta era equivalente a estudar italiano para imaginar como era o latim. Em outro lugar, Champollion pode confirmar suas hipóteses, quando leu que tal monumento comemorava o dia do nascimento (MS) de tal faraó. Ramses é então nascido de Ra; Tuthmoses é nascido de Tuth.
"Reading and writing were specialized skills in ancient Egypt, and those who had mastered those arts saw no reason to hand down a ladder so that others might climb to the same heights." (p. 244)
Tanto copta como egípcio eram línguas mortas. Em egípcio, assim como em hebraico, aramaico e árabe, as vogais não eram escritas, o que dificultava o trabalho de decifração. Contudo, Champollion tinha agora um método de ler hieróglifos - todos, não só aqueles dentro dos cartouches. Fez uma fala pública em Paris em 1822, à qual Young compareceu. Young já não estava mais preocupado em decifrar hieróglifos, tinha se voltado a outros problemas. Dolnick descreve Young como alguém movido por enigmas e Champollion como alguém movido pelo mistério que era o Egito.
Em 1824, Champollion publicou sua gramática do egípcio. Ele tinha notado que ao final de verbos e nomes, principalmente, havia hieróglifos que confirmavam a leitura. Por exemplo, depois de soletrar 'gato' com alguns hieróglifos, vinha o hieróglifo de um gato. Sim, era redundante nesse caso do gato, mas útil para o leitor: Ramses, o rei. Foram esses "determinativos" que propiciaram a Champollion uma última descoberta importante, quando finalmente foi ao Egito e se deparou com templos destroçados dedicados a Hatshepsut - com determinativo de feminino no final. Sempre houve esposas (Berenice, Nefertiti, Cleopatra) ou preenchedoras do trono enquanto o faraó criança crescia. Mas até então uma mulher regente sem marido não tinha sido registrada. Suas imagens e seu nome foram encontrados vandalizados - na tentativa de apagar sua memória. Naquela época, só Champollion podia ler os hieróglifos e descobrir essa regente cujo nome significa 'ela é a primeira entre nobres mulheres'.
"Though writing was invented independently several times - in China, the Middle East, and the New World [India?] - scholars believe that the alphabet was invented only once and then spread across the globe." (p. 243). A escrita alfabética nos parece mais democrática porque acessível através do som. Basta entender como algumas 20 letras representam os sons da língua, não é preciso decorar (saber de cor) um zilhão de caracteres, nem se importar com a decoração (hieróglifos são imagens cuidadosamente desenhadas).
Decifrar a pedra de Roseta (com a ajuda de muitos outros textos) significou desenterrar uma língua do esquecimento. Os egípcios já escreviam 3 mil anos antes de Cristo, mas ninguém nos séculos 18 e 19 sabia ler os hieróglifos.





















