segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A pedra de Roseta

Desde que assumi a editoria da Revista Roseta (a revista de popularização da Linguística da ABRALIN), eu quis saber mais sobre a pedra de Roseta e o que significou sua decifração. Fiquei encantada com a fala de Edward Dolnick para o Museu de Língua em Chicago, Planet Word, e resolvi ler seu romance histórico.

A história começa com Napoleão Bonaparte conquistando o Egito. Juntamente com o exército, Napoleão tinha levado uma centena de savants, cuja função era descrever, desenhar, registrar tudo que fosse novidade. Em 1799 um soldado francês (e também savant) desenterrou uma pedra que tinha inscrições em três línguas. A cidade onde foi achada se chamava Rachid - Roseta para os franceses.

Como se pode ver, a pedra não é imensa como o resto dos monumentos egípcios. Já em 1799 começaram as primeiras tentativas de decifrar as inscrições em hieróglifo, demótico e grego. A única língua familiar aos savants era grego e o texto referia a Ptolomaios V, um faraó grego. 

Só que Napoleão foi atacado pelos britânicos, fugiu do Egito e enviou tropas de reforço que foram vencidas em Alexandria. Todo o espólio de guerra foi confiscado pelos ingleses e assim a pedra de Roseta foi parar no British Museum. Não consigo me libertar do ponto de vista próximo aos atores que Dolnick adota em seu livro. É quase uma novela - que ele conta muito bem.

Por anos, os estudiosos que se debruçaram sobre o enigma não conseguiram desenvolver um método de leitura dos hieróglifos. Na parte superior (quebrada), as inscrições são hieróglifos, na parte do meio, em demótico e na parte inferior o texto elogiando Ptolomeu está em grego.

Somente em 1814 Thomas Young (inglês) conseguiu sacar que demótico não era uma língua diferente das outras, apenas uma notação diferente dos hieróglifos - que eram, em grande parte, desenhos elaborados representando águias, leões, cobras, íbis etc. Demótico seria, então, por analogia, como que uma estenografia dos hieróglifos. 

Já havia sido notado que o nome do regente PTOLOMAIOS vinha grafado nos hieróglifos dentro de limites que os franceses chamavam de cartouche - porque o contexto era militar e só conseguiram pensar em munição.

A segunda grande contribuição de Young foi um insight que ele teve acerca do chinês: como se escreveria um nome estrangeiro, tipo Napoleão, em chinês, que não tem um sistema de escrita alfabético? Eles inventariam um ideograma para cada nome estrangeiro ou eles tentariam soletrar o nome: Nectar-Alfa-Papa-Oscar-Lima-Echo-Alfa-Oscar? Apostando que os cartouches continham o nome de Ptolomeu soletrado, Young escreveu um verbete para a Encyclopedia Britannica em 1819.

Para Young, os cartouches eram especiais porque continham nomes de regentes estrangeiros soletrados. O resto era indecifrável, e como eram imagens, a conclusão era que representassem ideias, como no caso do chinês. O desenho de um urubu representaria 'mãe' (que está acima e vê tudo), a águia representaria 'o regente' (porque consegue alçar voo sem precisar correr), um ganso representaria 'filho' porque os gansos andam em família. 

Mas Thomas Young não era o único empenhado em decifrar os hieróglifos. Jean-François Champollion chegou a escrever uma carta que, por engano, caiu nas mãos de Young, pedindo que lhe fosse enviada uma cópia fiel das inscrições na pedra (em gesso), porque as cópias que tinha eram diferentes entre si.

Para a sorte de ambos, William Bankes havia trazido para a sua casa na Inglaterra um obelisco egípcio cheio de inscrições em hieróglifos. Nos cartouches, estavam os nomes de PTOLOMAIOS VIII e CLEOPATRA III. Cópias dessas inscrições chegaram às mãos de Young e Champollion. As letras contidas nos dois nomes: T, L, P, A eram as mesmas, o que confirmava a hipótese de que nomes estrangeiros (Cleópatra também é grego) seriam soletrados em egípcio.

Mais tarde, outra expedição de Bankes registrou inscrições referentes a RAMESSES e TUTHMOSES e somente Champollion recebeu cópias. Champollion pode então comparar os cartouches e percebeu que para Ramesses havia três hieróglifos: um sol - ra - MS e S. Foi aí que ele entendeu que os cartouches não eram só para regentes estrangeiros, mas para todos os faraós, que também os faraós egípcios tinham os seus nomes soletrados, mas não só. 

Assim como podemos desenhar um sol e um dado para que o leitor entenda 'soldado', os hieróglifos podiam representar sons, palavras ou ideias. Trava-se de um sistema de escrita híbrido. O segmento MS, que também compunha Tuthmoses (eu li o livro em inglês, não sei até que ponto estou errando a grafia) aparecia como 'nascimento' em copta, que Champollion estudou para mergulhar na língua aparentada com o egípcio: 'mise'. Estudar copta era equivalente a estudar italiano para imaginar como era o latim. Em outro lugar, Champollion pode confirmar suas hipóteses, quando leu que tal monumento comemorava o dia do nascimento (MS) de tal faraó. Ramses é então nascido de Ra; Tuthmoses é nascido de Tuth. 

"Reading and writing were specialized skills in ancient Egypt, and those who had mastered those arts saw no reason to hand down a ladder so that others might climb to the same heights." (p. 244)

Tanto copta como egípcio eram línguas mortas. Em egípcio, assim como em hebraico, aramaico e árabe, as vogais não eram escritas, o que dificultava o trabalho de decifração. Contudo, Champollion tinha agora um método de ler hieróglifos - todos, não só aqueles dentro dos cartouches. Fez uma fala pública em Paris em 1822, à qual Young compareceu. Young já não estava mais preocupado em decifrar hieróglifos, tinha se voltado a outros problemas. Dolnick descreve Young como alguém movido por enigmas e Champollion como alguém movido pelo mistério que era o Egito.

Em 1824, Champollion publicou sua gramática do egípcio. Ele tinha notado que ao final de verbos e nomes, principalmente, havia hieróglifos que confirmavam a leitura. Por exemplo, depois de soletrar 'gato' com alguns hieróglifos, vinha o hieróglifo de um gato. Sim, era redundante nesse caso do gato, mas útil para o leitor: Ramses, o rei. Foram esses "determinativos" que propiciaram a Champollion uma última descoberta importante, quando finalmente foi ao Egito e se deparou com templos destroçados dedicados a Hatshepsut - com determinativo de feminino no final. Sempre houve esposas (Berenice, Nefertiti, Cleopatra) ou preenchedoras do trono enquanto o faraó criança crescia. Mas até então uma mulher regente sem marido não tinha sido registrada. Suas imagens e seu nome foram encontrados vandalizados - na tentativa de apagar sua memória. Naquela época, só Champollion podia ler os hieróglifos e descobrir essa regente cujo nome significa 'ela é a primeira entre nobres mulheres'.

"Though writing was invented independently several times - in China, the Middle East, and the New World [India?] - scholars believe that the alphabet was invented only once and then spread across the globe." (p. 243). A escrita alfabética nos parece mais democrática porque acessível através do som. Basta entender como algumas 20 letras representam os sons da língua, não é preciso decorar (saber de cor) um zilhão de caracteres, nem se importar com a decoração (hieróglifos são imagens cuidadosamente desenhadas).

Decifrar a pedra de Roseta (com a ajuda de muitos outros textos) significou desenterrar uma língua do esquecimento. Os egípcios já escreviam 3 mil anos antes de Cristo, mas ninguém nos séculos 18 e 19 sabia ler os hieróglifos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Em busca do sol

Estávamos em São Paulo, com as capas de chuva sempre à mão, sentindo o vento frio e contemplando o céu cinza. O nosso próximo destino seria Campinas. Luis consultou as imagens de satélite e percebeu uma mancha que cobria metade do estado. A mancha representava uma frente fria densa e discreta da qual pretendíamos sair. Comparando o mapa de satélite com o mapa das cidades, Luis escolheu uma cidade qualquer que estivesse fora dessa mancha e com promessa de sol.

O hotel em Campinas foi cancelado e outra reserva foi feita em Lençóis Paulista. E lá fomos nós, pagar infinitos pedágios. A biblioteca Orígenes Lessa (foto abaixo) estava fechada pra reforma, mas o zoológico de Bauru foi bem bacana (inclusive com chuvarada).
De Lençóis seguimos pra Ribeirão Preto, pra visitar Marcão e Kika. Eles declararam que trouxemos o sol, porque estavam há 15 dias com chuva.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Manifestantes, radicais, bolsonaristas, terroristas

Em 06 de janeiro de 2021, o Capitólio foi invadido e depredado por pessoas incitadas pelo candidato que tinha perdido as eleições. Forças de segurança facilitaram o acesso dos invasores e tiraram selfies com eles. Os invasores eram supremacistas brancos, conspiracionistas (QAnon), extrema direita, pessoal a favor de armas e replicadores de símbolos nazistas.

Em 08 de janeiro de 2023, o Palácio do Planalto, o STF e o Congresso Nacional foram invadidos e vandalizados. Quando Agnes entendeu o que são fascistas, sentenciou que os invasores vestidos com a camisa da Seleção ou enrolados na bandeira brasileira eram estupristas. Concordo com a interpretação dela de que a ânsia pela destruição violenta é comparável ao estupro. Os invasores não pareciam ter uma ideologia em comum, mas a ordem de causar terror.

Mercenários, os "patriotas" foram contratados, alugados, financiados não para defender coisa alguma, mas para violentar símbolos nacionais. A mídia demorou a classificá-los: de manifestantes apoiadores de Bolsonaro, passaram a radicais (separando os mais extremistas). No fim, eram terroristas: por que esfaquear obras de arte? Por que defecar em cima da mesa do STF? Por que todos os vidros foram quebrados? Quem esteve lá? Quem permitiu que entrassem? Quem pagou pra que atravessassem o país? Quem os motivou? Por que isso aconteceu?

O bolsonarismo existe para além de Bolsonaro. O ex-presidente não se manifesta desde que perdeu as eleições. Os pastores que interpretam suas palavras e ações fazem a mediação nas redes sociais. Qualquer um pode ser pastor, essa é a confluência com os evangélicos. Para Letícia Cesarino, o cerne da questão é a mediação: os bolsonaristas recebem notícias dos seus influenciadores, não do jornalismo profissional.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

8 de janeiro NUNCA MAIS

O ato na Paulista foi convocado logo depois da depredação das sedes dos Três Poderes que vimos pela TV. Haveria dois eventos de repúdio à baderna do dia 8 de janeiro em Brasília: um no Largo São Francisco ao meio-dia, outro no Masp, às 18h. Chegamos na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco quando tudo tinha acabado, mas vimos o carinho com que Suplicy era tratado pelas pessoas em volta dele.

Chegamos no vão do Masp uma hora antes da manifestação e dava pra sentar na calçada. O pessoal foi chegando, a polícia foi cercando, mas o volume de pessoas na rua só aumentava. Primeiro ganhamos uma faixa da Paulista, ocupada pelo carro de som. Depois mais uma, depois os policiais se enfileiraram no canteiro central, que é uma ciclovia. Por fim, toda a avenida foi tomada (nos dois sentidos) por gente. Gente que cantava, gritava palavras de ordem, gente que emanava energia e segurava cartazes.

Vimos muito poucas crianças no ato. Talvez por isso Agnes tenha despertado tanta atenção e ganhado tantos sorrisos. Muitos pediram pra tirar foto dela, muito mais fotógrafos a registraram porque nós, atrás dela, sorríamos com brilho nos olhos.
Foi muito bom participar da multidão, gritar SEM ANISTIA numa só voz, ver tanta gente unida e parecida com gente conhecida. Fiquei mesmo emocionada com as falas, a recepção da Agnes no público. Muitos vinham nos dizer que os pais deles também os traziam pras manifestações desde que eram crianças e que a família deles era como a nossa.
Também foi legal perceber os blocos, as bandeiras de cada grupo que vinha pra rua manifestar sua indignação. Em outros contextos seriam rivais, mas ali estávamos todos juntos - e hoje não choveu!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

São Paulo com garoa

Olga veio de Lafaiete  (MG) pra nos receber em sua casa em São Paulo. Agnes já a chama de vó, tal é o grau do grude com a Olga.

Fomos no Museu Zoológico lá no Ipiranga achando que poderíamos visitar também o Museu do Ipiranga, mas esse tava fechado. Foi uma viagem e tanto até lá.


Hoje a chuva continuou, então continuamos optando por programação em interiores: fomos ver a exposição do Monet lá no Parque Portinari (ao lado do Villa Lobos). Agnes gostou das partes interativas (por exemplo, tocar a tela para colori-la, dançar ao som da música que acompanhava as imagens das telas projetadas no "tanque de luz").
Em vez de andar no Museu e ver um quadro depois do outro, o público senta e espera as imagens serem projetadas em estilo mosaico. É uma outra experiência - que exige um outro trabalho da curadoria e montagem da exposição, porque as imagens eram (em parte) animadas.
Ali do lado tinha a roda gigante com cabines fechadas (com ar condicionado e insulfilm). Ainda bem que todas as três pagamos meia-entrada.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

O show

Como eu tinha feito a viagem Anápolis - Brasília e Brasília - Anápolis de manhã, decidimos que seria melhor ver a posse pela TV que correr até o local. Então vimos o primeiro discurso pelo Youtube no restaurante em que almoçamos e depois ouvimos o segundo discurso pelo rádio, já a caminho de Brasília.

Não foi simples chegar até algum lugar perto da festa e estacionável, porque havia muitos bloqueios. Uma vez pedestres, foi como se misturar com o mar de gente de vermelho. Era muito tranquilo caminhar entre as pessoas, mesmo na "pista" do show. Era a primeira vez que Agnes participava de um show a céu aberto e sem cadeira.
Agnes era só alegria, pulando e dançando. O público estava muito tranquilo, cantando junto as mais variadas canções que cada artista tocava.

Quando decidimos que tinha valido a experiência, fomos procurar comida. Tinha pouca coisa pra escolher, então me meti na fila do x-bacon. Enquanto esperava, fui mandando fotinhas pros contatos no Whats. Ruy Braz, meu irmão de Oca da Tapioca, ao ver a foto, perguntou se eu estava em Brasília. Respondi que tava na barraca do hamburguer. Vou aí, mas meu celular tá carregando e preciso pedir Uber. Ofereci carona e levamos o Ruy na casa em que estava hospedado. Feliz encontro!

A foto está horrorosa (Motorola não é uma boa câmera fotográfica), mas dá pra adivinhar a alegria.

domingo, 1 de janeiro de 2023

A caminho de Brasília

Era uma vez... (já viu que lá vem história, né). Pois é. Antes das eleições, Luis reservou uma casa pelo Airbnb em Brasília bem perto do Eixo Monumental em Brasília. O valor era razoável e ainda não se sabia quem seria o presidente do Brasil. Eis que Lula é eleito e a proprietária da casa avisou que a casa passaria por uma reforma e que nos acomodaria em outro local. Nosso entendimento era que ela tinha outra casa/apartamento e que seríamos realocados pra lá. Que nada! Ela procurou outra acomodação pelo Airbnb e nos disse que custaria quatro vezes mais que o valor já pago a ela. A pouco mais de 30 dias da reserva, ela cancelou a nossa reserva e não foi punida por isso. E nós voltamos a procurar acomodação, dessa vez com os preços todos (hotel, pousada, casa) inflacionados. 

Achamos um preço de hotel interessante em Anápolis, a 120 km de Brasília. O foco era a posse. A reserva do carro foi feita a partir do dia 01 e a reserva desse hotel também. Só que a passagem pra Brasília estava marcada pro dia 31 de dezembro. Nos demos conta desse lapso do dia 31 a poucos dias da viagem e procuramos estender a reserva do carro e do hotel. Preços proibitivos acenavam que hospedar-se em hotel de 31 pra 01 era comprar o pacote do Réveillon. E a reserva do carro pode ser prorrogada pra frente mantendo a taxa, uma vez que o carro estiver na posse da pessoa. Pendurar um dia antes significa perder a taxa pra toda a reserva e ver valores inflacionados. 

Com muita paciência e persistência, conseguimos alugar um carro em outra locadora e um quarto em outro hotel em Anápolis. Chegamos, então, 8h do dia 31 em Brasília, enfiamos todas as malas num Mobi e fomos tuc tuc pra Anápolis. Colocar a quinta marcha era uma ginástica, por causa da mala sentada no banco do passageiro. Ver o espelho da direita era uma aventura, por causa da mochila deitada em cima da mala. 

Como eu tinha que devolver esse carro no aeroporto de Brasília às 8h do dia 01, levantei de madrugada, atravessei muito nevoeiro, vi a alvorada, o sol na cara, devolvi o carro numa locadora, tomei café no aeroporto e fui na outra locadora, pegar outro carro. Voltei pra Anápolis e peguei o pessoal tomando café da manhã.

Voltar a Brasília pra posse não vai dar tempo: é muito chão até lá. Mas no show a gente vai!