domingo, 15 de junho de 2025

Colonialismo e servidão

"The settler colony is an enduring structure, not an event" (Haebich, 2016, p. 1, apud Woolombi Waters. Indigenous knowledge production, 2015 no Kindle).

O proprietário da casa que habitamos decidiu não mais renovar o contrato de aluguel, o que nos obrigou a procurar nova moradia. Vimos apartamentos piores e mais caros que o nosso, depois vimos uma casa fora do plano piloto. O plano piloto é planejado: os blocos têm quase todos o mesmo tamanho, a não ser que tenham passado por reforma. O que me surpreendeu - porque o apartamento em que vivemos não tem isso - são as dependências da empregada.

A arquitetura incorpora essa figura como parte agregada da família. Ela mora no plano piloto, mas o quartinho dela é o menor, dentro da área de serviço. Ela não usa o banheiro do patrão, nesse ela só entra pra limpar. O quartinho e o banheirinho ficam posicionados perto da saída de serviço que dá acesso ao elevador de serviço. Segregada na casa, a empregada não precisa viajar de ônibus até o local do trabalho. 

Agnes contou que na escola um menino a xingou de Águas Claras. Ela não entendeu e devolveu: água podre. Uma das cidades satélites é Águas Claras. Quem mora lá enfrenta trânsito todo dia pra vir pro plano piloto. Quem mora em Águas Claras não consegue pagar aluguel no plano piloto.

Fomos ver uma casa no Jardim Botânico. A casa tinha 4 quartos, mas dois deles eram esquisitos: um dividia a parede com o forno à lenha, portanto não faria sentido transformar esse cômodo em escritório, o outro era muito pequeno e tinha guarda-roupa. Não era um móvel planejado, como os outros, era um armário de mdf comprado. As paredes dos dois quartinhos tinham a mesma cor antiga e cheia de marcas de sujeira. Adivinhei que tinha sido o cantinho da empregada.

O corretor de imóveis mostrou um ponto de ônibus em frente à casa. O condomínio em que estávamos se encontra dentro de dois outros condomínios, ou seja, nem Uber não iria pra lá, então a saída encontrada pelo condomínio foi oferecer um ônibus circular que transporta as empregadas, os jardineiros e outros prestadores de serviço. O corretor explicava as vantagens desse sistema: assim você não terá que levar a sua secretária até a entrada do condomínio, onde passa ônibus de linha. Muita gente reclama de ter que levar a funcionária. Eu fiquei reparando como pra ele era difícil dar nome à empregada.

Veja e ouça o Safatle aqui.

Não há sociedade para todos. A racialização da violência colonial funciona como uma guerra civil contra uma população com a qual a elite não se identifica. As formas fascistas de violência pela desumanização de um tipo de gente podem ser aplicadas sempre, numa guerra infinita.

*

Acho curioso como o brasiliense no trânsito negocia a sua passagem/entrada. Ele mostra o polegar ou indicador e acha que está pedindo permissão pra passar, mas na verdade ele só está te avisando que vai entrar e que é melhor você ficar parado porque o carro dele é muito caro pra você pagar o conserto. Uma resposta negativa está fora de questão porque o brasiliense já está avançando. O gesto que ele faz só formaliza o movimento do carro.

E o morador de rua apela, levantando cartaz: tô com emoróida!

sábado, 7 de junho de 2025

Noite da Lanterna

Ich geh mit meiner Laterne
und meine Laterne mit mir.

Foto: mãe do Heitor

Dort oben leuchten die Sterne
und unten leuchten wir.

Foto: mãe do Heitor

Mein Licht ist aus,
wir geh'n nach Haus';
ra-bimmel, ra-bammel, ra-bumm.

 Foi muito legal acompanhar a apresentação de peça teatral das turmas do Fundamental 2 e depois acompanhar as crianças caminhando e cantando com suas lanternas - que elas mesmas fizeram. Não cantamos em alemão, mas uma versão em português. Só a Waldorf pra comemorar a Noite da Lanterna e guiar as crianças com tanta tranquilidade.