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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Escrever e coletar cogumelos

Li o Ensaio sobre o louco por cogumelos com muita agilidade: o livro é pequeno, a página tem dimensões menores que os livros acadêmicos, o texto é organizado em blocos. No começo, me diverti com a ideia de que esses blocos poderiam estar dispostos lado a lado - já que a linearidade do texto estava quebrada mesmo. Depois entendi que a ordenação dos blocos não é tão aleatória assim. A linguagem (é uma tradução - do alemão!!! Não fui eu quem comprou o livro, mas como eu tinha lido o Sheldrake, me animei a ler esse) é repetitiva, circular, se move em espiral.

O livro é narrado em terceira pessoa sobre um amigo de infância que saiu de um vilarejo em que, depois dos bombardeios, as pessoas se acostumaram a coletar cogumelos para vender. Sempre os mesmos cogumelos amarelos. Esse amigo vira gente grande, se destaca profissionalmente e um dia, caminhando na floresta, vê um cogumelo porcino na altura dos olhos. A partir desse momento, sua vida passa a girar mais e mais em torno dos cogumelos. Passa todo o tempo livre nas florestas: cavocando, procurando, revirando, seguindo pegadas, memórias, o instinto. Vira especialista em cogumelos e passa a participar de eventos acadêmicos sobre cogumelos. Não come nem vende, apenas coleciona cogumelos.

O que esse amigo não consegue fazer é escrever sobre aquilo que tanto lhe ocupa a mente e o corpo. Então o narrador assume essa tarefa e escreve o livro que o leitor tem nas mãos. A história é sobre cogumelos, mas a metáfora é sobre o próprio ato de escrever. A escrita convoca o escritor. Escrever é sair, entrar na floresta, se perder e encontrar pequenos tesouros. Revirar a terra, olhar onde outros deixaram rastros, acompanhar o tempo das estações, intuir onde e quando brotarão. Escrever é caminhar nas próprias pegadas, voltar aos mesmos lugares e encontrar ali novas possibilidades. Escrever é se aventurar. Tanto o personagem como o ato de escrever são solitários, mas o acúmulo, o resultado deve ser público: de que adianta guardar cogumelos?



 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dito e não dito

Umberto Eco trata, entre outros assuntos, do tempo da narrativa em Seis passeios pelo bosque da ficção. Algumas narrativas são rápidas e exigem do leitor o preenchimento das lacunas. Outras são lentas, preenchendo todas as lacunas que o leitor sequer enxerga. Para ilustrar uma narrativa absurdamente lenta, ele traz um exemplo de narrativa (não lembro de quem) em que um homem pede a um cocheiro que o leve a um lugar, mas não pode revelar que lugar é esse, pois está numa missão secreta. O cocheiro pressiona, ele revela o nome do lugar. Dada a hora, o cocheiro se recusa a levá-lo naquele dia, porque o destino é longe. Combinam de se encontrar na manhã do dia seguinte, no mesmo local. Ao se despedir, o homem lembra ao cocheiro de trazer a carroça. E o cavalo!

Dizer essas obviedades causa um efeito de absurdo (eu ri pacas lendo o trechinho). Mas se os personagens e o cenário fossem diferentes, dizer obviedades pode provocar ambiguidades. Eis o cenário que imaginei:

Joaquina bateu na porta do ateliê do artista plástico. Ouviu o som dos seus ossos batendo na madeira e sentiu a dor da expectativa. Do outro lado da porta, ouviu-se um ruído. A mulher não entendeu as palavras, mas concluiu que era um ruído humano. Forçou a maçaneta e entrou.

Durval estava sentado numa cadeira de balanço perto da janela, fumava cachimbo e se balançava. Joaquina identificou o artista e passeou os olhos pelo recinto. Havia quadros, tintas, telas, cavaletes, mesas, tecidos e cacarecos por toda parte. Tudo era colorido, misturado e desencontrado: parecia não haver qualquer possibilidade de ordem ali.

Sem demonstrar qualquer reação, o pintor encarou a mulher. Ela explicou o motivo de sua visita. Queria encomendar um quadro.

- Sim, mas que tipo de quadro?
- Não posso falar. 
- Como não?
- Tenho vergonha.
Durval reacendeu o cachimbo, deu duas baforadas e esperou. Como ela não levantava o olhar, arriscou:
- Entendo. Trata-se de um retrato da senhora?
- Sim.
- Muito bem. Sinta-se à vontade. Como vai ser?
- Mas não pode ser aqui. Não posso posar aqui para o senhor.
- Sem problema. Onde vai ser, então?
- No jardim japonês.
- Pois não. 
- Podemos combinar na ponte perto do sino amanhã às 9 da manhã?
Durval pensou um pouco sobre sua agenda livre e acenou.
- Combinado.
- Então nos vemos amanhã. E não se esqueça de trazer a tela, pincéis e tintas!

sábado, 14 de abril de 2012

Virtualmente

Posso assumir qualquer identidade:
posso me apresentar como homem ou mulher
posso me dar uma outra idade
posso me dar outro nome
posso me esconder no anonimato.

Virtualmente
posso me disfarçar através da linguagem.
Posso minimizar o uso dos sinais de pontuação
posso abreviar palavras de maneira pouco comum
posso subverter a ortografia das palavras
posso adotar estruturas frasais pouco ortodoxas.

Mas
quem não tiver domínio da língua escrita
não consegue esconder sua identidade na internet.
Porque a esmagadora maioria do que se faz nesse espaço
virtual
vem por escrito.
A escrita se aprende na escola
e se pratica ao longo da vida.

E aí a liberdade virtual
se choca com a realidade escolar.
No espaço virtual
só tem liberdade quem estiver bem ancorado na escrita.

(Lendo Marcuschi de dia e Flusser de noite)
Foto roubada de algum lugar da internet

segunda-feira, 12 de março de 2012

Abre aspas que eu quero passar

O ponto de interrogação foi logo perguntando que negócio era esse de dividir os sinais de pontuação entre aqueles que marcam pausas e aqueles que marcam melodia. Indignado, questionou a Gramática Tradicional se a única função dos sinais de pontuação era refletir a fala. O ponto de exclamação gritou lá de longe que o pessoal da Literatura já tinha superado há tempos esse papo de que a escrita representa a fala. Até fez um parênteses e lembrou que historicamente os sinais de pontuação tinham a função de ajudar a orientar a leitura em voz alta; mas hoje a escrita pode ser considerada um sistema autônomo de criação. Só não abriu aspas para citar alguém, porque não tinham nenhum livro à mão.

O ponto de interrogação quis colocar um ponto final na conversa com o argumento de que tanto pausa como melodia mudam de uma língua para outra - tanto é que alunos de língua estrangeira nunca "entendem" a curva entonacional das perguntas na língua que estão aprendendo - e que os sinais de pontuação igualmente variam de língua para língua. O melhor exemplo eram os sinais de interrogação e exclamação invertidos que os hispanohablantes usam na escrita para anunciar perguntas e exclamações. Além disso, algumas línguas que são escritas da direita para a esquerda usam o sinal de interrogação espelhado, não invertido.

Aflito com o argumento na ponta da língua, o ponto de exclamação atravessou a fala do outro:
- E uma pergunta não pode ser descrita apenas como uma questão de "melodia" da frase! Uma pergunta altera a estrutura de um diálogo. Se alguém faz uma pergunta, abre-se espaço para uma resposta. Outra pessoa/ personagem pode tomar a palavra e responder.

A Gramática Tradicional se mostrou reticente. Até então seus usuários tinham aceitado que as vírgulas servem para respirar, que o ponto final marca o fim de uma sentença e que os outros sinais servem sobretudo para marcar a melodia e portanto não eram vitais para o texto.

- Não são vitais, vírgula! - exasperou-se o ponto de exclamação. Sentou-se em cima do ponto e respirou fundo. Arregimentou os outros sinais de pontuação em volta de si e fez um discurso sobre o papel sintático, semântico e fonético dos sinais de pontuação.

:o)          ):0          ; )          ->          [ ]          "_"        

A Gramática Tradicional, conservadora como é, nem ficou pra ouvir. Foi saciar a ansiedade dos famintos por regras e exceções.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Apropriação

João ficou emprecionado quando percebeu que tinha sido polpado. Absolvido, ele se compromentia a fazer tudo direito, andar na linha em meio as diversidades. Sabia que não tinha altorização para deixar o estado, mais nem se preoculpou com isso. Estava apenas desconformado que seu saldoso companheiro não tivera a mesma sorte que ele. Nem teve a chance de agradecê-lo pela boa compania.

Todas as pérolas acima foram cuidadosamente coletadas das redações dos meus alunos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lendo o audiovisual

A primeira vez que isso me aconteceu, foi com a Cynthia. Eu tinha me certificado de que o filme tinha legendas, mas não tinha reparado que as legendas eram só para as partes em que se fala somali (?). As partes em inglês estavam sem legenda e minha amiga teve que procurar pistas além da linguagem verbal para interpretar o filme. Se fosse francês, teria acontecido o contrário: ela teria traduzido pra mim. Desse modo, construímos o filme enquanto ele se desenrolava.

E como o texto não estava no primeiro plano, Cynthia percebeu que a personagem que faz a amiga da heroina é muito mais interessante do que a estrela. Os gestos, o modo de andar, se pintar, falar, rir apontavam para uma personagem muito mais complexa e complexada do que aquela que foi vítima e vai denunciar a circuncisão feminina.

Hoje eu quis ver M de Fritz Lang (1931). Antes de chamar o Marcelo pra ver também, verifiquei se tinha legenda. Como a sopa de letrinhas tava demorando pra passar, acelerei o filme pra chegar nos diálogos. Achei o filme dinâmico, expressivo, com pseudo-falas e sem legendas. Chamei o Marcelo e rodei o filme. Era devagar e todos falavam alemão. Como o som estava ruim (o meu som bom fica na Unir), eu também não entendia nada.

Mas somos a prova viva de que o público não é passivo. Conversamos muito durante o filme: tentando descrever a cena, dublando as falas, adivinhando o que se discutia. Até que mudei de lugar e, ouvindo o filme, fui traduzindo o que dava (fazer tradução simultânea é muito difícil). Aparentemente Marcelo gostou mais do filme que leu (expressividade dos gestos, movimento de câmera, montagem de sequências, papeis caricatos) do que eu, que fiquei frustrada por não ter ouvido a primeira parte do filme.

Especialmente nesse filme, que é muito teatral, ficou claro pra mim como os filmes ocidentais são verborrágicos. Eu provavelmente não entenderia um filme francês sem legenda, porque a palavra é central.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Autoajuda e TV

Os livros de autoajuda surgiram depois do final da Segunda Guerra Mundial, ganharam terreno nos EUA e hoje estão no topo das vendas das livrarias brasileiras. Enquanto fenômeno da pós-modernidade, são objeto de estudo de uma tese de doutorado: Adail Sobral aposta na emergência de um novo gênero textual.

A televisão entrou devagar nos lares brasileiros na década de 50, mas hoje praticamente todas as casas estão equipadas com pelo menos uma televisão. Enquanto símbolo da modernidade, transformou processos cognitivos básicos como atenção, memória e captura pela imagem audiovisual.

* * *

O termo 'autoajuda' é paradoxal, porque os leitores desse tipo de textos procuram ajuda externa (no livro). A ideia de que o leitor vai achar em si mesmo todos os elementos para solucionar seus problemas e os problemas do mundo é ilusória.

A televisão não é um meio de comunicação, porque não existe interação entre quem está na TV e o público.



Os que sabem ler, mas não ligam para a Literatura, os que se importam com o conteúdo e não percebem a forma, os que consomem informação sem atentar para estilo leem autoajuda. No gênero autoajuda (já assumindo que seja mesmo um gênero) cabe muita coisa: manual para educar os filhos, receita para o sucesso, conselhos de como viver em harmonia com o cosmos, reflexão mística, cura para os males, confissões, pseudo-ciência e muita ficção.

Os que não sabem o que fazer com o tempo livre, os que acreditam que a televisão informa notícias, fatos e a verdade, os que buscam entretenimento passivo, os que se divertem com pouca arte assistem TV. Na televisão cabe muita coisa: além de cada canal oferecer uma programação diversificada, o número de canais cresce constantemente.

* * *

Livros de autoajuda custam menos que uma sessão de terapia. Sentar na cadeira não custa o esforço de deslocar-se ao local onde a ajuda é oferecida. Ler em silêncio não custa o desgaste emocional de pedir ajuda, explicar o problema, dialogar com outra pessoa.

Ver televisão custa menos que ir ao cinema. Trocar de canal custa menos que o esforço mental de inventar novas atividades ocupacionais. Sentar no sofá custa menos que o esforço físico de interagir com o meio ambiente.



No caso dos livros de autoajuda, quem alcança o sucesso são o escritor e a editora, não o leitor de fé pequena. Fé na ciência que é vestida da vagueza das inúmeras possibilidades da física quântica.

No caso da televisão, a informação é editada, manipulada e transformada em entretenimento. Aqui, a ciência se manifesta através da tecnologia e seus vários bens de consumo.

* * *

Segundo Sobral, os livros de autoajuda propõem "uma espécie de sujeito coletivo global-cósmico-subjetivo não muito definido". (p. 47).

Televisão é cultura de massa.


Os livros de autoajuda mais vendidos no Brasil são traduzidos principalmente do inglês. Segundo Sobral, os originais escritos no Brasil são simulacros de originais norteamericanos bem-sucedidos.

Os programas, formatos e esquemas da televisão brasileira são americanos. Tipicamente brasileiros são as novelas e os canais que ninguém assiste.

* * *

A tragédia alheia é o ponto de partida dos livros de autoajuda para mostrar ao leitor como os seus próprios problemas são insignificantes. Preparado para agir, o leitor é instruído pelo escritor a conformar-se. Desconfio que essa geração consumidora de autoajuda talvez nem tenha problemas facilmente identificáveis. Suponho que quando terminam o livro, contentam-se em perceber, conformados, que seu maior problema era o tédio.

A tragédia humana é a principal atração da televisão. Notícias de massacres, desastres, corrupção, violência, ignorância e guerra disputam a atenção do telespectador com a banalização da sexualidade, estupidificação da infância e exposição do ridículo.  A tragédia alheia lá longe cria no público a sensação de impotência. Depois de desligar a TV, os telespectadores não tomam as ruas nem o poder público, porque a TV lhes mostrou que o mundo é um lugar inseguro.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ler, escrever e memorizar

Durante muito tempo eu confiei na minha memória de longo prazo e fui inflexível à releitura: não relia nada, porque dizia a mim mesma que já tinha assimilado a obra. Daí reli Cem anos de solidão e passei por uma experiência completamente diferente do que da primeira vez. Além do texto ter outro sabor, percebi que a minha memória apagou muito mais informações do que reteve.

Um dos conundrums de um programa do Philosophy Talk era sobre a leitura e a memória. O ouvinte disse a Ken e John que não sabia mais o que fazer, porque assim que lia um livro, esquecia quase tudo. Cogitou a possibilidade de dar preferência a audiobooks, se a língua falada fosse mais facilmente armazenada na memória. John respondeu que o objetivo da leitura de obras literárias não pode ser a sua memorização, mas passar pela experiência prazerosa de ler/ ouvir literatura.

Eu já sei que não leio pra memorizar. Me acontece várias vezes de conversar com alguém sobre um romance e não lembrar do final da trama, por exemplo, ou perceber que a minha memória simplesmente não registrou passagens memoráveis para o outro. 

Condicionada pela cultura do bilhete, do caderno, da agenda, percebo que a minha estratégia para memorizar não é ler, mas escrever.

Agora que estou lecionando Linguística Geral (novidade pra quem estava dando aula de Texto), estou precisando reler um montão de coisa que li durante a minha graduação (very, very far away). Pra lembrar o que dizer em sala de aula, faço minhas anotações. E enquanto vou lendo, anotando e desenterrando mais textos, vou achando xeroxes ainda não lidos - sobre a memória.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Propaganda sincera

Num cartaz (não lembro nem do conteúdo do texto, mas ia numa direção "revolução anárquica") vimos, impresso no canto inferior direito, em letras miúdas, um anúncio.
Vende-se sapato usado [reparou no singular, né?]
Poucos quilômetros, como novo (exceptuando a sola). [O acordo ortográfico ainda tem um longo caminho pela frente...] Consumos de apenas 5 bifes aos 100km. [Peculiar, como se mede investimentos e rendimentos em terras portuguesas] O sapato em causa é para servir no pé esquerdo n.° 42; [viu como não era um par?!] considera-se a venda do sapato direito, n.° 39, [mas bah?] com meias incluídas, [é isso que chamam de "amor ao próximo"?] também elas usadas, [demorou] se por boa contrapartida [não é amor ao próximo, ainda estamos no $istema]. Tudo em bom estado de cheiros. [ligue djá... y la garantía soy jo!]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O gesto de escrever

Escher

Lendo as redações dos meus alunos, aprendo muita coisa, inclusive sobre o gesto de escrever. Quem fala em 'gestos' é Flusser. Eu só tenho um xerox do Gesten: Versuch einer Phänomenologie, que eu tirei na USP, muitos anos atrás. Fiquei com preguiça de traduzir, então procurei na internet qualquer coisa sobre o gesto de escrever e topei com uma página verdona em que estava pendurado um texto do Gustavo Bernardo sobre Os gestos de Flusser. Recortei um trecho do Flusser sobre o gesto de escrever:

É falso dizer que a escritura fixa o pensamento. Escrever é antes uma maneira de pensar. Não há nenhum pensamento que não se articule através de um gesto. Antes de sua articulação o pensamento é somente uma virtualidade, vale dizer, nada. E se realiza através do gesto. Falando com propriedade, não se pode pensar antes de fazer certos gestos. O gesto de escrever é um gesto do trabalho, graças ao qual as idéias se realizam em forma de textos. Ter idéias não escritas significa na realidade não ter nada. Quem afirma que não pode expressar seus pensamentos, o que está dizendo é que não pensa. O que importa é o ato de escrever; tudo o mais é puro mito. No gesto de escrever o chamado problema estilístico não é nenhum apêndice: é o problema por antonomásia. Meu estilo é a maneira pela qual escrevo; ou, o que é o mesmo, é o meu gesto de escrever. Le style, c'est l'homme.


Especialmente em textos argumentativos sobre algum assunto polêmico, tenho a sensação de perceber como a opinião do escrevente se forma durante o ato de escrita.

Por incrível que pareça, aqueles que já tinham uma opinião formada sobre o assunto, não organizaram seu texto de maneira linear. Apresentavam sua posição, mas logo embarcavam em digressões, embaralhavam argumentos e quase nunca ilustravam seus argumentos com exemplos.

Aqueles que tinham uma intuição de que posição assumir, fizeram seu trabalho de pesquisa, coletaram dados, organizaram seus dados, articularam informações e as usaram para justificar sua opinião. Nesses casos, tive a sensação de que o gesto de escrever organizava seus pensamentos e que o texto resultante era uma opinião muito mais formada do que a intuição que tinham antes de começarem a escrever.

Tive a sensação de que aqueles que já tinham uma opinião formada, não chegaram a ela caminhando sobre as próprias pernas. Seus textos eram pouco argumentativos: mais esperneantes.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sofrendo com os textos

Textos ruins me sugam a energia vital, me corroem as entranhas, violentam a minha inteligência e abusam da minha formação. Enfim, me desanimam profundamente. 
Textos ruins não são só aqueles escritos por pessoas que não dominam a ortografia de sua língua materna. 
Textos ruins não são só aqueles em que não existe qualquer forma de planejamento, escolha das palavras, lapidação de ideias ou qualquer indício de prazer de escrever.
Textos ruins são também aqueles escritos por pessoas que não têm vida interna (como já dizia o meu amigo Paulo Punk). Os textos de autores que não têm individualidade própria repetem o discurso da televisão, da igreja, dos filmes e seriados americanos.
Textos ruins são também aqueles que não acertam a medida do tom poético na prosa e transbordam o significante a ponto de as frases ficarem sem sujeito, os verbos sem ação e o leitor sem orientação.

Os textos que ando lendo são drogas pesadas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Contra-intuitivo

Meu chefe me ligou dizendo que tinha um "pepininho" pra mim. Nunca tinha ouvido essa palavra no diminutivo. No neutro (pepino), aumentativo (pepinão) e superlativo (pepinaço) eu já tinha visto, mas nunca no diminutivo. Minha intuição já me dizia que um pepino no diminutivo é uma coisa azeda e espinhuda.

Passei o dia no gabinete da reitoria, corrigindo redações de vestibular. Abacaxi! Não pepino.

O tema era sobre a devastação da Amazônia e a pecuária. Minha intuição de falante me dizia que pecuária se escreve com acento, mas no enunciado da prova ela estava sem. 

Minhas expectativas em relação às redações eram que escrevessem sobre a conscientização, a fumaça, o pulmão do planeta, gerações futuras e gado e pasto. Contra as minhas expectativas, li redações em tom panfletário sobre o progresso, desenvolvimento, giro da economia, atendimento às demandas de carne bovina, frigoríficos, trator derrubando árvore, tanques de peixes, estado do Amazonas e plantação de café.

As construções de palavras intuitivamente possíveis, no entanto não dicionarizadas, me divertiram: desmatação, planejação, reflorestação, tanto flora como fauna são ambamente ricas, garimpagem de ouro e agravação do problema.

As grafias pouco ortodoxas me assombraram: equitáres, habitate, abtati, desmaziadamente desastroza, extinsão, voraxidade, quaze, haja vista intão, cem nenhum controle. Mais uma prova de que as pessoas confiam na intuição de que a escrita reflete a fala.

As conclusões contra-intuivas chacoalharam nossas bases, crenças e fé na bondade humana:
Será que existiria pecuária sem a Amazônia?
Pecuarista tem visão do futuro. 
A pecuária se avança
A própria natureza, através de tempestade de raios, acaba queimando as matas.
Concluímos que o maior culpado do desmatamento é o homem.
O aquecimento global já está aqui.
Sem a Amazônia, o que será do nosso futuro?
Se acabarem as florestas, o que respiraremos?

Por fim, as formulações inusitadas foram uma aula de intuição e contra-intuição:
desmatamento das matas
exclusivamente quase toda
causa muitas consequências
legalizadas perante a lei
onde todos é muita gente
aumento populacional das pessoas
vem surgindo diariamnete, dia-a-dia

O tiro de misericórdia foi: vamos esperar e rezar para Deus, ele sim sabe o que fazer, porque nós somos apenas coadjuvantes aqui na terra.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Texto é trabalho

Se as pessoas que me entregam seus textos pra revisar soubessem como o seu produto descuidado me irrita, agride e ofende, talvez tivessem pena da revisora. Mas não é pena que eu quero, é respeito. Quando os textos são produzidos na Letras (não me refiro apenas aos alunos), a decepção se mistura com os desejos de morte.

Ortografias escandalosas, concordâncias orais, acentuação inexistente, excesso de gerúndios em sentenças inacabadas, espaçamentos duplos antes da vírgula, marcas de recortes e colas mal remendadas, plágios descarados e mal amarrados com o restante do texto, verbos engolidos e outras acrobacias da escrita me são entregues na maior tranquilidade. A pessoa que espera que eu revise o seu texto claramente não lê o seu texto antes de livrar-se dele. A pessoa acha que organizar as ideias no papel foi muito. Texto é trabalho. Quanto menos trabalho o leitor tiver para decifrar o texto, melhor. Quanto menos agredir o estômago e a paz interior da revisora, melhor.

Os químicos recebem um adicional por insalubridade. Eu não queria ganhar dinheiro pra revisar as porcarias que me dão, mas queria que as pessoas me tratassem menos como faxineira que limpa o que vomitaram no papel.

A pausa no fim do semestre será uma bênção. Reclamar da incompetência alheia cansa e faz mal.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Saquinho de vírgula

No filme Meu nome não é Johnny, o personagem principal expressa seu descontentamento com a verborragia de um interlocutor quando lhe promete dar de presente um saquinho de vírgula. Talvez assim, usando as vírgulas, a pessoa faça "pausas para respirar".

O saquinho de vírgulas das pessoas que escrevem os textos que eu leio na/ pra Unir é superlotado de vírgulas.

Sabe como eu sei que os meus alunos estão plagiando alguém? Quando não há erros de ortografia ou vírgula no texto que eles me entregam. Acho que começo a entender por que vírgula é um problema tão cabeludo. Os meus alunos ainda não se deram conta de que a escrita não representa a fala. Não se ligaram ainda que existe um abismo entre a fala e a escrita. O que prova que eles acham que podem escrever como falam são as legiões de frases feitas, as expressões idiomáticas e sabedorias populares funcionando como argumentos. Ou seja, usam as ferramentas que têm à disposição para escreverem suas dissertações: o que os outros disseram e dizem por aí. Outra prova que escrevem como falam é a própria estrutura da frase. Raramente usam a ordem direta de sujeito> verbo> objeto(s)> adjuntos (S V O + adjuntos). Para satisfazer questões de relevância, puxam pro início da frase ou as informações circunstanciais de espaço, tempo ou modo (os adjuntos), ou o tópico. Além disso, enfiam o máximo possível de informações entre o sujeito e o verbo. O resultado final são frases com milhares de vírgulas (muitas vezes mal colocadas), que ocupam um parágrafo.

Você quer exemplos? Pra preservar a anonimidade dos autores dos textos que leio (tô me sentindo super padre lidando com confissões, ou enfermeira limpando a bunda dos pacientes), vou inventar alguns exemplos análogos ao que ando corrigindo:

O João, para ele ser alguém na vida, ele precisa, assim como todos nós, saber que a vida é injusta, cruel e madrasta, portanto, para ser feliz, o João, que é um sujeito batalhador, honesto e boa gente, tem que estudar, porque, atualmente, só quem tem instrução nessa sociedade de informação, hoje, terá sucesso, e para ter sucesso é preciso estudar.

João, conhecia muitas pessoas, em universidades, grandes e pequenas, que gostariam de fazer um melhor uso do material didático, que, devido à sua rigidez, era muito pouco maleável, por isso, João desenvolveu, junto com sua secretária, um novo método, capaz de integrar várias competências e habilidades, para ser disponibilizado aos professores, e por conseqüência, aos alunos.

Rapadura é doce, mas não é mole, não.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Names hold the keys

Os títulos das coisas devem dizer muito sobre as obras que encabeçam. Devem sintetizar a obra, conduzindo ou quebrando as expectativas do público. Um exemplo de título que conduz o público a interpretar a obra é Dogville, pois o filme toma a cidade de Dogville quase como personagem. Um exemplo de título que intriga o observador é dado no romance de Salman Rushdie, O chão que ela pisa. Um dos personagens é fotógrafo, e um dia ele vai a uma competição de pipas. O céu está um festival de cores e formas. O fotógrafo aponta a sua lente para o céu quando o chão começa a tremer. Um terremoto assusta as pessoas, que saem correndo desorganizadamente, largando suas linhas, abandonando suas pipas. Ele bate a foto das pipas e chama a fotografia de O terremoto. Viu? Títulos desse naipe precisam da história, precisam ser contextualizados, porque tomam um acontecimento secundário de um processo como título da obra.

Existe uma outra categoria de títulos: aqueles que enfeitam a obra, que atraem atenção, que são engraçadinhos. Vamos do mundo das artes para o universo acadêmico, mais precisamente, os títulos de teses que ganharam o prêmio Capes ano passado. Na categoria Música/ Artes, ganhou a tese com o seguinte título: Poéticas líquidas: A água na arte contemporânea. Uau, poéticas líquidas, que pegajoso! Na categoria Letras/ Lingüística, ganhou a tese intitulada: A porosidade poética de Riobaldo, o cerzidor: ritmo, transcendência e experiência estética em Grande sertão: Veredas. Porosidade poética, que dureza...
Não quero discutir que Música e Artes, assim como Letras e Lingüística formam uma categoria, ao passo que há cinco categorias diferentes para Engenharia e quatro para Medicina. Vamos sair das humanas e dar um passo em direção às exatas, entrando no campo da Astronomia/ Física. O título da tese premiada é: Raman spetroscopy of Nanographites. Pela preposição, percebemos que o título não está em português, mas inglês. Será que, pra ganhar o prêmio Capes, uma tese das humanas precisa ter um título todo metaforizado e um título das exatas precisa estar em inglês?

A última categoria de títulos é aquela que toma uma frase que foi proferida ao longo de todo o texto, mas que não é representativa para a obra como um todo. A culpa é do Fidel! é um desses títulos. O filme é muito bom, o título também, mas um não é referência para o outro. O filme é contado através da perspectiva de uma guriazinha francesa de 9 anos que tenta entender aspectos da época politicamente conturbada que vivencia. Num dado momento, conclui que a causa da desgraça da babá cubana foi causada por Fidel. O diálogo das duas é muito pano de fundo. Muito mais recorrentes são as tentativas da pequena Anna de compreender o significado da palavra solidariedade. Mas o título ficou A culpa é do Fidel! Bom, voltemos ao mundinho acadêmico. A minha dissertação de mestrado também carrega no título uma frase proferida pela minha sujeita Raquel. Tem o título técnico, depois esse frase, que é pra quebrar a tensão prepositiva: Preposições ligadas a verbos na fala de uma criança em processo de aquisição de linguagem - ou - Vamo de a pé no carro do vovô? Esse título me rendeu uma entrevista pro Jornal da Unicamp.

E tem mais: o título deste post é parte do refrão de uma música do Morphine, chamada Souvenir. Mas é do tipo 1, resumindo o conteúdo do texto.