quarta-feira, 24 de junho de 2026

Poda drástica

 

Brasília tem uma grande quantidade de áreas verdes e a prefeitura conta com um serviço de jardinagem bastante ativo: replantam flores nos canteiros, regam com caminhão pipa, fazem poda, recolhem galhos e folhas deixados nas calçadas.

Quando a sibipiruna na ponta de lá da praça perdeu galhos (arrastando outros, de outra árvore), os homens vieram de caminhão e passaram mais de um dia trabalhando. Deixavam os galhos cortados caídos em cima dos cacti plantados pelo Luis, juntavam galhos em cima de canteiros feitos pelo Luis e derrubavam plantas plantadas pelo Luis quando arrastavam os galhos para a calçada, onde o caminhão os pegaria depois.

Quando foram embora, deixaram um lixão de acampamento: marmitas, copos e plásticos, além de fezes e cheiro de mijo. Além de limpar o lixo deles, Luis ainda reposicionou grande parte dos galhos para o outro lado da rua.

Dessa vez, a prefeitura foi acionada porque as árvores que cobrem o estacionamento estavam largando muito material em cima do telhado do bloco (de 2 andares). Pediram pra todo mundo tirar os carros (não temos garagem coberta) e podaram as árvores. Só que podaram também as árvores da praça que não ficam perto do prédio.

E essa poda foi radical. Desconfio que a placa que Luis colocou no tronco do abacateiro pedindo pros vizinhos recolherem as fezes de seus cachorros salvou a árvore - porque a outra metade foi cortada.

Essa outra árvore foi alvo de corte raso. Não entendemos por que fizeram isso. 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Chuvas de junho em Brasília

Semana passada choveu 4 dias seguidos. Foi chuva boa, que fez a grama voltar a se mostrar verde, não foi chuva de florada que dura só um dia. Nos dois primeiros dias, choveu na hora do almoço. No terceiro dia, choveu o dia todo e no último choveu à noite. 

Já estávamos há mais de 2 meses sem chuva, os ipês estavam começando pelos roxos e aí veio uma frente fria subindo do sul que colidiu com o calor vindo do Pacífico: El niño.


 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Memória e conexão

De trás pra frente, a semana passada encerrou com um evento na Funai sobre memória dos indigenistas mortos: Maxciel Pereira dos Santos (Vale do Javari), Rieli Franciscato (Uru Eu Wau Wau), Bruno Pereira (Vale do Javari) e Adonias Jaboti (Vale do Guaporé) e outros que Beto Marubo enumerou com a ajuda dos mais velhos (lembra, Sydney?). Estavam na plateia Wellington Figueiredo e Sydney Possuelo, formuladores da política de não-contato adotada pela FUNAI a partir de 1987. 

Wellington Figueiredo no microfone
Ambos foram convidados a falar. Sydney reclamou que, na reestruturação da FUNAI, a carreira de sertanista deixou de existir e Wellington olhou para a plateia colorida e disse estar feliz com essa nova geração que está aí. 


Sydney Possuelo

Agnes (que não tem contraturno de sexta-feira) me acompanhou nesse evento e em outro, no MPI, em que recebemos os certificados de conclusão de curso (3 meses!) sobre parcerias MROSC. O grupo de pessoas ligadas à mesma secretaria (no meu caso, a SEDAT), teve como tarefa trabalhar cenários e possibilidades de um estudo de caso (fictício) envolvendo vigilância territorial.

Grupo 1 (SEDAT) com professora no meio
Na noite anterior, teve o evento de premiação do concurso Dom Phillips e Bruno Pereira no Itamaraty. A memória de Bruno e Dom estava tão presente, que, na longa mesa de abertura, o primeiro a falar sobre o concurso de jornalismo investigativo foi Capobianco (MMA). Djuena Tikuna cantou o hino em ticuna e eu voltei pra 2024, quando ajudei a organizar o evento em memória de Bruno e Dom.
 
Sidônio (SECOM) fez a fala mais forte, inclusive atendendo ao pedido histórico dos peticionários da Medida Cautelar 449 de 2022: formulou um pedido de desculpas pela ausência do Estado. Ouvindo o Sidônio, entendi por que a SECOM tinha assumido o concurso e não o MPI.
As duas viúvas também falaram e a premiação propriamente dita trouxe a público reportagens de texto, fotojornalismo, audiovisual e iniciativas de povos tradicionais - tanto indígenas como de matriz africana bem instigantes. Fiquei particularmente curiosa em relação ao podcast "Dois Mundos", que trata de um caso de descompasso trágico pelo qual passaram pessoas pertencentes a um povo de recente contato.


E ao longo de três dias estive na Escola Superior do Ministério Público da União - com pessoas que reencontrei nos outros eventos - para um curso sobre populações indígenas de recente contato e isolados. O curso foi iniciativa do Daniel Dalberto do MPU, mas eu percebi (pelos suspiros e olhares pisados) que ele aprendeu mais que nós. 

Tivemos aulas com Carla Rodrigues sobre saúde Yanomami e o alcance dos braços da SESAI; com Janete (DPT/Funai) sobre a história da Funai e as demarcações de terras indígenas; com Dominique Gallois (Iepé) sobre políticas públicas para povos de recente contato, especificamente Waijampi e Zoé; com Daniel Cangussu (FPE Madeira) sobre vestígios de povos isolados Tupi; e com Awamirim Tupinambá (CGIIRC/Funai) sobre o reconhecimento que a Funai deve aos (mateiros) colaboradores indígenas nas Frentes de Proteção Etnoambiental. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Undine

Vi um filme alemão chamado Undine (2020) e fiquei intrigada: o livro que eu li tantos anos atrás - e que foi traduzido para o português com o título Ondina - conta a mesma história?


Botei o livrinho na fila de leitura e me surpreendi: a história de Undine se parece mais com a de Rusalka. Só que Undine tem uma homóloga que nem o filme nem a ópera mostram: Bertalda.
Undine foi criada por um casal de pescadores que vivia numa península. Eles haviam perdido a sua criança pequena para um ser das águas. E das águas veio Undine, com a mesma idade da criança perdida. Undine é um elemento da Natureza: os pais adotivos a amam muito, mas têm dificuldade de lidar com o seu humor variável, com as peças que prega, com a ausência de maturidade da pessoa que vai crescendo.
 
Quando Undine é adulta, chega um cavaleiro à casa da pequena família. Huldbrand von Ringstetten logo se encanta com Undine e vice-versa. Ele vinha de um torneio em que havia se interessado pela princesa Bertalda. Quando lhe pediu a luva (ele podia ter pedido outra coisa, mas pediu a luva), ela lhe impôs uma condição: só se atravessar a floresta escura. Ele foi, o tempo virou, as águas subiram e ele foi se refugiar numa casa de pescadores.
 
Logo em seguida, outro temporal traz para a casa do casal de pescadores um religioso que concorda em unir o casal Huldbrand e Undine.
Depois da noite de núpcias, Undine se transforma: é como se ela tivesse ganhado uma alma. Devota, obediente e centrada, Undine conta ao marido que é um ser da água. Huldbrand leva a esposa para o seu castelo e promove uma festa. Bertalda, que ficou esperando o cavaleiro retornar, foi na festa e se encantou com o casal. Durante a festa, um ser das águas veio contar um segredo a Undine. Ela revelou o grande segredo no aniversário de Bertalda: Bertalda era a criança que os pescadores haviam perdido para as águas. Bertalda, vendo o casal de pescadores, não gostou de ter pais tão pobres. Tinha sido adotada por rei e rainha, não se via como filha de pescadores. Os pais adotivos dela ficam chocados com a soberba dela, os pais verdadeiros ficam ofendidos e Bertalda acaba ficando com Undine e Huldbrand.
 
Eles vivem bem, mas Bertalda vai alimentando desejos pelo Hulbrand e ele gostaria de poder satisfazê-los. Os seres da água passam a atormentar tanto Huldrand como Bertalda. Undine é frequentemente visitada por um espírito da água que vem da fonte. Ela explica a Hulbrand que se ele perder a compostura com ela perto da água, ela será buscada pelos seres da água. Ele entende e ela pede para colocarem uma pedra enorme em cima da fonte, para que o espírito da água não possa mais incomodá-los. Escreve sinais na pedra que só ela entende para impedir que Kühleborn venha atormentá-los.

Bertalda entra em parafusos quando vê a fonte fechada: como vou manter a minha pele fresca e limpa sem essa água que tem poderes curativos? Sai do castelo transtornada e se embrenha na floresta escura. Huldbrand vai atrás dela, é enganado por uma miragem, se depara com Kühlebron e é salvo por Undine. Os três voltam ao castelo e seguem uma vida comportada até que um deles tem a ideia de fazer um passeio de barco no Danúbio.
 
As águas se agitam, as ondas ameaçam virar o barco e Hulbrand grita com os seres da água e por extensão com Undine. Os seres da água vêm buscar Undine que some na espuma das águas. Huldbrand não sabe se ela está viva ou não e retorna ao castelo com Bertalda. O pai dela, o pescador, não acha certo que seu genro viva com sua filha sendo casado com Undine e vai buscar Bertalda. Ela não quer ir e a solução é um segundo casamento de Huldbrand. 

Undine aparece nos sonhos do padre e de Huldbrand. O padre, convocado a casar Huldbrand com Bertalda, se nega a celebrar o matrimônio, mas fica nas redondezas porque intui que terá que fazer outro serviço. Huldbrand fica dividido, chora pelos cantos e aguarda o desenrolar dos fatos. Bertalda ordena que removam a pedra sobre a fonte, afinal, quer se preparar devidamente para o seu casamento.

Na noite do casamento, antes ainda do casal se encontrar para as núpcias, Undine sai da fonte e vai até Huldbrand. Ele aceita o beijo da morte que ela lhe dá e chamam o padre para enterrar do cavaleiro.

"Dann musst du sterben" é a única frase que identifico que aparece tanto no filme como no livro. Mas as condições para que Hulbrand morra são diversas - aliás, não saberia dizer quem é Huldbrand no filme, já que Undine fica entre dois homens. Uma coisa é certa: a morte. Se não fosse assim, não haveria herói nem tragédia.