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| Agnes e o sol |
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| A dentista |
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| Papai e Agnes bebê |
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| Alberto, o fantasminha camarada |
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| Borboleta temerosa |
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| Agnes brava |
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| Todo mundo brigando com Agnes |
A novidade é que agora ela desenha os sentimentos dela.
2 anos atrás eu fui no oftalmologista reclamando que o celular me dava tontura, mal-estar, que a minha visão embaçava e que - especialmente de noite - eu não conseguia ler. O diagnóstico foi elaborado com base em elementos externos à minha visão: minha idade, vista cansada. Quando ele examinou meus olhos, disse que eu não precisava de óculos, mas deveria ajustar o celular para melhor acessibilidade (aumentar a letra, fundo escuro etc.).
Voltei no mesmo oftalmologista agora, porque não conseguia mais cortar as unhas sem sentir a agonia da imprecisão ou ler sentindo o foco sumir e voltar. Ler no papel para escrever no computador representava um esforço de ajuste de tamanho de fonte que me dava dor de cabeça. Como editora, sou leitora profissional. Como ler com a vista cansada?
Passei a usar os óculos de farmácia que o Luis tem espalhados pela casa - e o incrível é que a visão melhorava. Mas como eu desconfiava da qualidade dos óculos de farmácia (não precisa, eles são basicamente lupas), fui no oftalmologista que me encaminhou para a ótica onde encomendei um par de óculos na cor, peso e tamanho certos.
No meu Departamento, temos dois professores que sabem latim: Valdir e Cristina (ambos ex-orientandos do Jean-Pierre Angenot). Oswaldo dava aula de latim, mas já aposentou. Há anos o Valdir anuncia que agora é idoso e já faz inúmeras reuniões que Cristina anuncia sua aposentadoria.
Eu fiz a minha graduação na USP e tive aulas de Latim (1 ano com Chellini), Linguística Histórica (1 semestre) e Filologia Românica (1 ano com Bruno Bassetto). Não estudei nenhuma das línguas românicas (mas acompanhei 4 aulas de romeno com o Mário Viaro e não me lembro por que parei). Apesar dessa formação (distante no tempo), não me considero apta a dar o curso de Filologia Românica.
A Escola de Verão do GEL estava oferecendo cursos no formato à distância. Me inscrevi no curso sobre sinais de pontuação (porque é isso que me ocupa agora) e no curso de Linguística Românica com o Ilari - pra medir o tamanho de uma possível disciplina de Filologia na UNIR. Antes de começarmos o curso, Ilari enviou tarefas: um questionário que avançava em páginas e complicava e que mostrou que o meu desempenho assim, a frio, era de 60% de respostas corretas.
Aí começou o curso e Ilari falava em latim, francês, espanhol, alemão, sueco, italiano e piemontês. Aí eu fui vendo que, por mais que eu leia o livro dele, assumir essa disciplina seria um projeto de vida. Assim que der, vou fazer ainda a segunda tarefa do curso, que consiste em escolher (e responder) 2 questões de uma lista de 52 questões relacionadas ao livro do Ilari.
Foi Luis quem descobriu a costureira ali embaixo num dos passeios a pé que dá no bairro com a Agnes. Já encomendou muitas máscaras com ela. Aí eu resolvi encomendar umas coisas também. Ela fez duas fronhas de almofada de sofá e uma fantasia de dinossauro pra Agnes.
A fantasia de dinossauro que chegou da China tinha ficado um tanto grande na Agnes e ela pisou em cima do rabo. A costureira usou essa como modelo pra fazer outra, em malha. Agnes escolheu o tecido e levou um livro de dinossauros pra costureira saber como é o estegossauro - pra máscara e pras placas nas costas. Só que, pra máscara, a costureira preferiu procurar moldes na internet e achou um tricerátopo. Agnes notou a diferença.
Quando as fronhas e a fantasia ficaram prontas, fomos lá e Agnes experimentou as duas fantasias: a da China ajustada e a nova. Ambas ficaram apertadas e a costureira usou giz pra marcar o lugar onde o fecho devia ficar.
Hoje de tarde começou a ventar e o céu ficou escuro logo depois que a costureira mandou recado avisando que as fantasias estavam prontas. Apesar de serem só duas quadras de distância, Agnes e eu fomos de carro, por causa da chuva iminente. O ateliê de costura é o que deve ter sido a garagem da casa. Pra virar ateliê, imagino que a garagem tenha ganhado uma parede com janela e porta. A janela estava aberta quando chegamos e ela estava sentada à máquina. Cumprimentei. Ao ouvir o segundo oi, a costureira piscou pra mim e disse que tinham levado a fantasia de dinossauro embora, mas que ela tinha feito outra, parecida. Agnes ficou curiosa, bateu na porta e pediu pra ver essa fantasia de que ela falava.
Abriu a porta, Agnes entrou. Vamos testar? Ih, vou ter que mudar o fecho. Sentou de novo na máquina. Agnes já tinha entrado e passou a explorar o ateliê de costura. Achou o molde de tricerátopo que a costureira tinha imprimido. Queria colorir. Pode levar. A costureira levantou pra pegar um carretel de fio azul. Foi cortando o fio na mão e inserindo na máquina. A agulha estava ao contrário. Trocou a agulha.
Começou a jorrar água. Na maior tranquilidade, a costureira tomou nota de que a água tinha voltado e que tinham deixado a torneira aberta. Não levantou da cadeira pra fechar a torneira, porque os joelhos doíam muito. Vai ter que operar.
Ei, por que tem giz no chão?
Porque eu não dou conta de arrumar tudo. Tu não quer sentar?
Eu não: eu não moro aqui!
A costureira terminou de pregar o velcro no lugar certo. Faltava cortar o fio que liga a máquina ao tecido.
Agnes, vê se tu acha uma tesoura por aí. Ontem meu filho levou todas as minhas tesouras pra cortar material de campanha. Ele faz adesivo, essas coisas. Acho que ficou só uma aqui. Onde foi parar?
Achou a tesoura embaixo da outra fantasia da Agnes.
Agnes gritou tchau correndo de braços abertos. Brincava que voava ao vento. E nem choveu.
Duas fantasias, duas experiências: a da China foi comprada por aplicativo. A de estegossauro com máscara de tricerátopo foi manufaturada por uma pessoa que passamos a conhecer.
Eu falo muito pouco alemão com a Agnes. Aí a comunicação em alemão não é natural, é só não-português, não-minha-língua. Ela entende bastante coisa, só não entende por que eu insisto em falar alemão com ela.
Ela tem tido, até agora, duas posturas em relação a isso: ou adivinhar o que eu estou querendo dizer (você falou que é pra eu pular na cama?) levando as coisas um pouco pro absurdo; ou respondendo numa língua inventada.
Ontem, pela primeira vez, ela me respondeu em alemão.
Eu: Agnes, du bist barfuß. Zieh dir was an die Füße. Schlappen oder Socken.
Ela: Schlappen.
Ela entendeu que eu falei alguma coisa relacionada a pés. Ela entendeu que eu estava brava e que ela tinha que fazer alguma coisa. Por fim, ela entendeu que eu ofereci uma opção a ela: chinelos ou meias. E ela respondeu em alemão. A língua virou instrumento de comunicação, não apenas objeto de conhecimento.
- Agnes, qual é o contrário de colorir? (Eu esperava 'descolorir' como resposta)
- Não colorir.
- Qual é o contrário de feliz? (Eu esperava 'infeliz' como resposta)
- Triste.
Me parece que os prefixos ainda não são muito produtivos na linguagem da Agnes. Entendo que sejam deveras abstratos, já que estabelecem uma relação de negação (que tem várias facetas) com o radical.
Em 1984 (George Orwell), no capítulo 5, Winston conversa com o dicionarista do regime autoritário. Syme explica que a atividade lexicográfica dele consiste em destruir palavras. A ideia central é que com poucas palavras, poucos pensamentos são possíveis. Restringir o vocabulário equivaleria a restringir a capacidade de pensamento. Quando há duas palavras com sentidos opostos, escolhe-se uma e aplica-se a ela um prefixo que expressa o seu contrário, eliminando assim a segunda palavra. Exemplo: bom e mau são duas palavras. Se ao invés de mau for usado um prefixo negativo com bom, como em imbom, a palavra mau pode ser eliminada.
- O que você achou disso, menina?
- Isso é nem acreditável!
Glauco era um dedicado bibliotecário. Gostava mais de trabalhar no atendimento, auxiliando as pessoas a encontrarem o que buscavam. Todos buscavam informação, mas cada um tinha um jeito de perguntar, explicar o que queria, anotar e pesquisar. Depois de anos pensando sobre a informação, Glauco se deu conta de que ela não está simplesmente lá: ela proporciona a interação da pessoa com as ferramentas de busca, da pessoa com outra pessoa, da pessoa com o espaço. A palavra informação carregava, então, mais informação que se encontra no dicionário. Intuitivamente, entendeu que informação podia ser um conceito.
Decidiu retomar os estudos e ingressar no mestrado. Como tinha experiência profissional na área, participava com gosto das discussões em sala de aula e ficava maravilhado com o que os autores afirmavam sobre o que ele conhecia na prática. Ficou espantado com o fato dos filósofos gregos já terem pensado sobre os mesmos problemas que lhe interessavam agora.
Chegou a hora de escrever o seu texto. Buscou informação, copiou trechos e os ordenou meticulosamente. Cada frase que escrevia era acompanhada, no final, por parênteses que continham o nome do autor e o ano da obra de onde Glauco tinha extraído a informação. As páginas iniciais ficaram povoadas de (ARISTÓTELES, 2003), porque a edição que Glauco encontrou na biblioteca era da Martin Claret (editora que ganhou fama por plagiar textos). Para Glauco, Aristóteles não era Aristóteles. Para Glauco, Aristóteles só existia naquele livro de 2003.
Glauco até escrevia com suas próprias palavras, não era tudo citação, não, mas ele não pensava nada daquilo, só reproduzia. Ele conseguia resumir e articular diferentes autores, mas não conseguia se distanciar deles, perceber que eles lidavam com conceitos, não com coisas; e que conceituar é uma forma de entender um problema, não necessariamente "a verdade" sobre aquilo. Se cinco autores elencavam categorias diferentes para o mesmo objeto, Glauco copiava todas e citava a fonte. Não importava que houvesse sobreposição nas categorias, não importava que uns autores avançavam a partir do pensamento de outros. Glauco reproduzia fielmente o que cada um tinha escrito.
O orientador elogiou o trabalho de coleta de informações no extenso trabalho de Glauco, percebeu a técnica de escrita dele, exaltou o volume de fontes consultadas, mas não percebeu que nem metade dos autores citados no texto constavam nas referências bibliográficas. Os membros da banca não leram a dissertação com olhos de revisor, nem exigiram que Glauco fosse original ou desenvolvesse pensamento próprio. Consideraram que a dissertação era um ótimo catálogo sobre informação.
O primeiro leitor da dissertação do Glauco não conseguiu localizar, na biblioteca, nem metade dos autores que Glauco usou no texto (e não informou nas referências). Não conseguiu entender o que Glauco aprendeu sobre informação nesse processo de fichamento - era isso que parecia a dissertação.
Agnes adora fotografar, mas grande parte do que ela captura é repetido. Ela grava inúmeros vídeos de si e tira zilhões de fotos do chão, da cama, da parede. Um dia eu reclamei dessa legião de fotos pra imobiliária e mostrei pro Luis uma longa sequência de fotos que Agnes fez de mim (sem que eu percebesse).
Quando chegou nessa foto, ela comentou: aqui você está presa.
Entendi, nesse momento, que ela entendeu que fotografia vai além do registro.