Fui na Editora da Unicamp pra conhecer o pessoal que avaliou e produziu o meu livro,
Onze sinais em jogo, que iria pra gráfica no dia seguinte.
Antes de mandar o livro pra gráfica, a editora, Márcia Abreu, queria sugerir umas pequenas alterações na orelha do livro, que tava assim:
Os sinais de pontuação protagonizam grande parte dos "erros" de redação: são observados nas frases-parágrafo, nas aspas que penas pretendem sublinhar palavras, nas vírgulas que separam sujeito de predicado (não separando outras coisas), nos pontos que nem abreviam nem encerram sentenças etc.
Queria entender por que "erros" estava entre aspas. Expliquei que eu sou linguista e que nenhuma ciência trabalha com as categorias de certo e errado quando descreve seus dados e explica seus fenômenos. Este livro, sobre os sinais de pontuação, não é um manual ou guia, não tem o propósito de ensinar regras, erros e acertos. Além disso, minha trajetória pessoal na Linguística é de alguém que passou o mestrado analisando dados de fala de criança - em que não é possível falar de certo e errado, mas de efeito de sentido - e passou o doutorado analisando dados de fala de pessoas afásicas, que, por conta de uma lesão cerebral, tiveram sua linguagem alterada. Também não faz sentido pensar em certo e errado na fala afásica: o que procuramos fazer é acompanhar o processo de produção de significado, que muitas vezes é pouco convencional e exige um interlocutor atento e disposto a interpretar o que o sujeito afásico diz.
Mas se você corrigir uma redação em que aparece uma vírgula separando um sujeito do predicado, você corrige, você conserta, não é mesmo? Sim, muito mais por uma questão de legibilidade que de acerto. Uma vírgula separando o sujeito do predicado exige que o leitor procure o sentido dessa vírgula nesse lugar. Eu entendo que os sinais de pontuação guiam o leitor. Quando o escrevente não tem familiaridade com a escrita e os sinais de pontuação, pode ser que os sinais guiem o leitor para ruas sem saída, estradas esburacadas e outras dificuldades de percurso. Eu tiraria a vírgula, porque ela não exerce sua função ali, porque ela trava a leitura, porque, ao invés de organizar, ela bagunça o texto. Mas pode ser que o escrevente tenha tido a intenção de dificultar a leitura mesmo, então a vírgula ali cumpre bem o seu papel.
Dentro do livro, você pode até convencer o leitor de que não há erros, mas a orelha ainda não é o livro e pode ser decisiva se a pessoa lê ou não o livro, se compra ou devolve pra estante. A maior parte do público tem acesso à gramática, que claramente diz o que é certo e o que é errado. As pessoas estão acostumadas com erros de redação, não com interpretações dos efeitos que o escrevente talvez não tenha planejado. Podemos tirar as aspas dos erros?
*Suspiro*
Na aula de hoje, sobre como os sinais de pontuação estruturam o texto e a sentença, perguntaram se o ponto e vírgula (que graficamente separa duas sentenças autônomas, mas semanticamente as relaciona) poderia ser substituído pelo ponto. Sim, mas o efeito é outro.
Ele apresentou a decisão; estamos proibidos de viajar.
Ele apresentou a decisão. Estamos proibidos de viajar.
Qual que é o certo? Depende do que você quer dizer. E nessa sentença, pode substituir o ponto e vírgula pela vírgula? Ué, mas a vírgula não encerra sentenças, a vírgula só atua no interior da sentença. Se quiser juntar essas duas sentenças, uma conjunção seria mais adequada. Então é errado colocar a vírgula entre duas sentenças? A vírgula não funciona como conectora. A vírgula separa, delimita e marca. Precisaria de uma conjunção pra conectar as duas sentenças, e se fizer isso, você passa a ter uma principal e outra coordenada (ou subordinada).
Então tem regra! Sim, tem. Mas não seguir a regra não significa errar: veja na literatura, como Saramago escreve. Observe que valter hugo mãe só usa três sinais de pontuação: alínea, vírgula e ponto. Perguntas e diálogos você percebe, mas é um trabalho interpretativo. Repare como são marcados os diálogos nos livros. Alguns autores e editores optam por aspas, outros pelo travessão. Outros autores marcam a troca de turnos apenas com a alínea. Graficamente os diálogos são marcados, mas cada um encontra uma solução. O terreno mais fértil para experimentação com os sinais de pontuação é a literatura.
Seu livro é de literatura, professora?
*Sorriso*