sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Testar não é fácil

Agnes teve febres difíceis de baixar. Muita dipirona, banho e gelo foram administrados por muito tempo. Como Luis teve confirmação de covid através de dois testes e eu tive, um dia depois de testar negativo, garganta fechada num dia e dor no corpo de manhã por três dias seguidos (eu culpava o sofá), suspeitamos que Agnes também estivesse com covid.

Fomos no Hospital da Unimed. O pediatra disse que no segundo dia de sintomas ele não podia pedir teste de covid pra criança, mas pediu exame de sangue. Não deu pra fazer o exame naquele dia, porque a fila do laboratório estava imensa e estávamos de jejum havia muito tempo. No dia seguinte, Agnes coletou sangue.

Eu fui na farmácia, fazer o teste rápido. Como já estava sem sintomas, não adiantaria fazer o teste do cotonete e estudamos as possibilidades de saber se já tive covid. Igg e Igm eram as minhas siglas mágicas. Havia fila na farmácia e um cartaz informando que o teste tinha que ser pago antes de pegar a senha. Fui no caixa. Acabou o teste. Acabou de hoje? Acabou tudo.

Voltei no mesmo laboratório em que Agnes tinha coletado sangue e paguei por um teste que me desse como resultado as tais siglas. Pedi nota fiscal, pra depois declarar e quem sabe restituir. Reparei que havia um protocolo rígido ali: suspeitos de covid são sempre acompanhados pelo atendente, fazem um caminho segregado e são atendidos num espaço específico - ao lado da ala pediátrica. E as duas enfermeiras que de manhã tinham coletado sangue da Agnes estavam lá coletando amostras de pessoas com suspeita de covid... A moça chegou com um cotonete pra mim e pediu que eu tirasse a máscara. Não! Igg, Igm! Ela teve um momento de estranhamento, dúvida e resolveu ler atentamente o rótulo do teste e o que estava escrito na minha pulseira. Chamou atenção da colega, explicando como era fácil de confundir os dois testes. 

De tarde saiu o resultado: Agnes com inflamação (PCR) e eu com Igg reagente e Igm não reagente, ou seja, tive covid, mas ela não está mais ativa. Voltamos ao Hospital da Unimed. Luis foi no médico para pedir pra fazer teste pelo seguro de saúde. Não conseguiu. Entendeu que havia uma política de não fazer teste em quem já tinha passado pela ômicron por mais de uma semana. Depois Luis acompanhou a Agnes na pediatra. A pediatra teve que ser convencida a indicar o teste pra Agnes: terceiro dia de sintomas, se ela estiver com covid, não pode vacinar já, precisamos poder proteger os outros. Sabendo que ela está com covid, não a enviaremos a lugar algum. 

Agnes chorou muito por causa dos cotonetes (um em cada narina). Teríamos que esperar 15 min pelo resultado. A pediatra ainda estava na expectativa de rever a Agnes, porque tinha localizado uma faringite que precisava ser tratada. A própria pediatra saiu do seu consultório e foi na farmácia ver se o teste já estava pronto. Não localizou o enfermeiro, entrou na sala em que o teste havia sido realizado e me disse que o teste que estava lá, sem identificação, tinha dado positivo. O enfermeiro tinha saído pra jantar. As outras enfermeiras diziam que só o enfermeiro é que podia nos dar o resultado. Depois de um tempo, passaram a ligar pra ele e preparar a papelada que eu tive que preencher. 

Tivemos todos covid aqui em casa. Cada um a seu tempo, em períodos diferentes. Luis pegou primeiro, sofreu mais e teve sintomas por mais tempo. Eu peguei quatro dias depois que o isolamento dele começou. Passei a dormir com Agnes na sala e ela começou a ter febre três dias depois que eu apresentei sintomas. Agora ela tem arsenal de remédios pra faringite. A covid o corpo dela vai ter que combater sozinho.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Em volta do umbigo

Dormir no sofá foi (pra mim) a pior parte da covid. Ontem, quando olhei pra fora da janela da sala, vi a avenida vazia. Nenhum carro estacionado na frente do Banco do Brasil. Meu primeiro pensamento foi: vixe, é domingo de novo?

Quando contei pro Luis que lá fora parecia feriado, ele concluiu: tá todo mundo com covid...

Pois é, duas explicações que se voltam pro próprio umbigo. 24 de Janeiro é feriado em Porto Velho: da padroeira, Nossa Senhora Auxiliadora. Você não sabia disso?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Covid em casa

Luis testou positivo pra covid. Fez dois testes: na farmácia, o teste de furar o dedo e no laboratório fez o teste do cotonete. Ele teve um dia de forte dor de garganta, dia seguinte de coriza e prostração e agora já soa como ele mesmo, mas ainda está em isolamento. O quarto mudou bastante depois que ele se instalou lá (o banheiro do meio também, depois que eu passei a usar).

Agnes e eu estamos dormindo na sala. Tivemos que aprender a fazer isso, porque criança se mexe muito e a primeira noite eu não dormi. Em uma semana, hoje saí sozinha de casa pela primeira vez - pra ir na farmácia, fazer o teste. Deu negativo. Pra mim é sinal de esperança: é possível cuidar de alguém com covid em casa sem pegar o vírus.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Onde estamos?

Quando um de nós sai com Agnes e demora pra voltar ou vai buscar e demora a voltar, quem está com ela envia uma foto dela para o outro; e quem ficou em casa se põe a tentar adivinhar onde estão. Hoje de tarde Agnes e eu fomos levar a nossa composteira no sítio. Ela queria caminhar, então avisei que estávamos em outro lugar que o sítio:

Luis arriscou o palpite de que estaríamos na Vila da Eletronorte. Pra mostrar que estava errado, mandei essa foto que talvez ninguém entenda mesmo:

É que eu queria mostrar o que Agnes estava juntando na sacola: sementes de seringueira, que abundam no Parque Circuito. 

Demos a volta toda, naquele caminho que imita o curso dos rios amazônicos, olhando para o chão. As pessoas que passavam por nós sorriam, ajudavam, abaixavam para pegar um desses ovos de dinossauro pra si. Passamos por uma mãe sentada num banco cheio de sementes e de uma criança alegre que gritava "achei!" Era como uma caça aos ovos de Páscoa.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Banho de chuva

Meu despertador continua tocando muito mais cedo do que consigo acordar, mas mesmo assim eu sigo sendo a primeira a sair da cama. Sei que fecham uma das pistas do aeroporto de manhã e de tarde. Passei a caminhar lá (quando dá) no aeroportoparque de manhã porque tem sol, mata, vento na cara, pouca gente, superfície previsível e carros bem longe.

Ontem de tarde-noite choveu forte, daquelas chuvas de vento uivando, janela batendo e mundo branco lá fora. Como hoje de manhã apareceu um sol simpático e brisa fresca, me animei pra ir caminhar.

Caminhei olhando pro céu, lembrando da praia. Não sei se é a imensidão do céu na praia, se eram as cores das nuvens, ou se era o olhar vigilante no céu quando se está na praia: chuva nas férias é meio frustrante. O pressentimento de que choveria dali a pouco me veio como lembrança da praia. Ou era frustração por ter cancelado mais uma viagem? Que nada, ômicron taí.

Quando eu estava quase chegando na outra ponta, onde faço meia-volta e retorno, eu ouvi a chuva caindo. Antes de sentir na pele, percebi o som. Virei a direção, apressei o passo, tentei correr, mas logo perdi o fôlego. O cheiro de chuva me invadiu. Os cabelos, antes soltos, passaram a grudar uns nos outros, senti a água escorrendo pelos braços, senti que as meias estavam molhadas e vi que minhas roupas tinham mudado de cor. Quando foi o último banho de chuva? Lembrei de vários, memoráveis, bem remotos.

Melhor que cumprir uma meta de caminhar pelo menos duas vezes por semana de manhã foi esse banho de chuva que me transportou para um passado mais leve e aventuroso.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Voltando de lá

Voltando do sítio pela estrada do 4,5. Eu sei que esse sofá foi descartado aí. O que surpreende é o local (a bem 10km da rodovia) e a forma. Ele não foi simplesmente jogado na beira da estrada: foi colocado aí. Há montes de entulhos lá na cascalheira, a poucos metros da BR 319. Esse sofá está sozinho (por enquanto).
 
Heliconia na mata.

Judite tentando organizar essa galera.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Tauro + Judite = filhotes

Tauro, o cachorro do Damián, tinha sumido por uns dias porque, nas redondezas, tinha uma cadela no cio. Quando considerou que a fome de Tauro deveria estar maior que ele, Damián se pôs à procura de seu companheiro. Achou o cachorro magro e ferido - e acompanhado. Entendeu que Tauro só voltaria pra casa se fosse com a Judite (a 'amante', nas palavras de Damián).

A barriga dela foi crescendo, crescendo, até ela desistir de andar. Comia sentada. Nesse dia, estivemos lá de tarde. Assim que saímos, ela entrou em trabalho de parto. Damián deixou recado: o que eu faço? Como ajudo? Daí ele entendeu que Judite não precisava de ajuda, que ela sabia o que fazer com cordão umbilical, placenta e filhote. Ele mandou uma foto em que contamos 8 filhotes.

7 sobreviveram. Enquanto ela amamentava, ia secando. Virou pele e ossos, toda angulosa, produzindo leite com muita dedicação. Fomos lá, assar uma carne e toda a gordura foi pra Judite (Tauro, um gentleman, não disputava comida com ela, não). Aí entendi que ela precisava de ração especial (pra todo dia) e na semana seguinte levamos ração para filhotes e mãe.

O primeiro que nasceu é mais escuro que os outros. Agnes tem preferência por ele - assim como a Judite, que o separa pra amamentar só ele. Entendendo esse movimento, Damián decidiu doar os outros 6 quando desmamarem, e ficar com o primogênito.
Agnes adora ir visitar os filhotes. Carrega pra cá, pra lá, leva pra mamar, pra dormir, puxa os membros, quase deixa cair etc.