domingo, 28 de abril de 2024

ATL e a pluriversidade

Eu não tinha conseguido ir no Acampamento Terra Livre em nenhum dia. Tinham até pedido pra trancarmos as nossas agendas pra podermos atender os parentes tanto lá no ATL como no Ministério, mas no final das contas o MPI não ganhou espaço lá para montar a sua tenda. O movimento separa governo de movimento. As agendas da Secretária foram atendidas pelo Diretor e algumas agendas dele ele não conseguiu cumprir e me mandou em seu lugar. Segunda e terça tivemos reunião no MEC, quarta eu fui no Senado e quinta a escola da Agnes iria no ATL.

Na manhã de quinta o MPI tinha convocado representantes do movimento e outras instituições que se voltam à educação escolar indígena para debater a universidade indígena. Era um dia em que a Esplanada tinha sido fechada porque de tarde haveria a marcha do ATL ao Congresso Nacional. Não consegui ficar até o final, porque o carro estava estacionado do outro lado da Esplanada e eu ainda tinha que buscar Agnes no contraturno. Pelo grupo do whatsapp, fiquei sabendo que a discussão em torno da universidade indígena resultou na constatação de que só mesmo uma pluriversidade daria conta das demandas dos povos.

De tarde, atravessei o estacionamento vazio e desci as escadas em direção aos anexos. Altaci mais dois estavam lá, esperando Uber. No caminho até a Torre de TV, descobri que uma das pessoas que acompanhava a Altaci era a irmã dela - que tinha ido na escola da Agnes pra contar histórias kokama. 

Agnes já tinha ido na Marcha das Mulheres Indígenas e já sabia o que esperar do ATL. Nem pediu para fazer pintura corporal que os colegas da turma fizeram (mas precisava de uma pulseira). Ouviu as diversas línguas indígenas, compartilhou o lanche com crianças indígenas e coletou penas soltas por aí.

Foi um dia de intensa alteridade.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Lei de cotas em concursos públicos

A Assessoria de Assuntos Parlamentares do MPI precisava uma indicação de alguém da SEART para acompanhar a votação do Projeto de Lei 1958/2021 na CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado. Meu chefe imediato tinha agenda no ATL (Acampamento Terra Livre), Edilson se queixou que o projeto de lei previa 20% de cotas para negros aprovados em concurso público - sem presença indígena, portanto - e eu aceitei ir. 

Victor Nunes e eu fomos caminhando do Bloco C até o Senado porque lá embaixo é ruim de estacionar. Como nem ele nem eu somos de alto escalão, havia a possibilidade de sermos barrados em alguma porta. Como eu já fui barrada na entrada uma vez, comemorei quando a moça da portaria me deu adesivo de visitante. Mas essa não era a barreira da vez. Na porta da sala havia seguranças e muita fila. Disseram que receberam muitas listas e que compuseram a lista filtrada deles. Nem Victor nem eu estávamos na lista impressa. Victor começou a acionar os contatos, até que reconheceu um segurança que disse que quando um ministério listava mais uma pessoa, eles colocavam na lista deles só o primeiro nome - e o nome do Victor tava lá. 

Se um podia entrar, talvez pudéssemos controlar quem entra. Victor me puxou pra fora da fila e explicou que o PL original, do senador Paulo Paim, era cota de 20% para negros e que, depois de diversas tentativas de estabelecer cotas para indígenas, foi redigido um substitutivo que determinava 30% de cotas para negros, quilombolas e indígenas. Esse substitutivo era da autoria de Humberto Costa. Não haveria espaço pra eu falar nada, mas se perguntassem se tinha alguém do MPI presente, que eu desse um alô. Como eu tinha que buscar Agnes no contraturno, combinamos com o segurança que eu entraria no início e que Victor trocaria comigo no fim.

Havia uma barreira e um segurança impedindo acesso às mesas. No curto espaço que restava, as cadeiras estavam ocupadas. Fui entendendo a dinâmica da coisa. Da outra vez eu sentei na mesa porque era uma audiência. Agora as mesas eram dos parlamentares. Reconheci primeiro o Sérgio Moro, depois um Bolsonaro mais jovem. Tive que conferir com a minha vizinha se eu estava enxergando certo. É o Flávio, ela disse. Em seguida entrou pela porta o ex-vice, Hamilton Mourão. Com esse pessoal na sala, será que o PL tem chance de ser aprovado?

Victor, do lado de fora, assistiria à sessão pela TV. Enquanto não começava, ele me mandou uma foto de uma moça do MGI que tinha elaborado a minuta do PL substitutivo. Pediu pra eu me apresentar a ela. Calculei que ter aliados nessa sala era importante. Localizei ela, fui lá me apresentar e senti convicção na fala dela: agora vai!

Mas as falas iniciais foram na direção contrária. Um tinha dúvidas se a votação seria do PL original ou do substitutivo, o outro ficou dizendo que somos todos humanos e que viemos todos da África, que as cotas são aceitáveis para ingressar na universidade, mas não no mundo do trabalho etc., etc., etc. O jovem Bolsonaro fez um discurso estarrecedor: deveria haver cotas para pobres, não para negros. E as universidades públicas deveriam ser só para quem não pudesse pagar. Fiquei chocada com a ignorância desse homem acerca da função social das universidades públicas (ensino, pesquisa e extensão) e das universidades privadas, em que o ensino é tratado como mercadoria. Como professora universitária, fiquei escandalizada com esse discurso que coloca as públicas em pé de igualdade com as privadas, como se a única diferença fosse o valor da mensalidade.

Quando saí, passei na Anna do MGI e comentei que os discursos eram terríveis e ela concordou. Eu tinha ouvido duas pessoas defendendo o PL e umas cinco pessoas proferindo seu discurso de ódio e medo dos negros. Na audiência, as defesas de posição eram intercaladas. Saí de lá percebendo um espaço vazio, ausente: ninguém falou dos indígenas. A contenda dizia respeito aos pretos e pardos. Victor entrou no meu lugar e só fiquei sabendo do resultado pelo noticiário.

Por 16 votos a 10, o PL foi aprovado.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Parabéns pra Agnes!

Agnes acordou ouvindo os pais dela cantando parabéns a você. Os meus pais sempre cantaram pra mim e pra Agnes, mas nunca imaginei que eu fosse fazer isso também.

Hoje eu gastei 8 horas do meu banco de horas e não fui pro MPI pra preparar a festinha de aniversário da Agnes na escola. De manhã, Olga e eu fizemos compras e assamos as esfirras. Aí já deu a hora de buscar Agnes no contraturno e almoçar com ela. Almoçamos na torre de TV.

Pra Agnes, encontrar peixinhos (que não existem) na fonte era muito importante.

Deixamos a criança na escola e fomos pra casa, fazer o bolo de laranja com glacê de limão que ela tinha pedido. Fiz também suco de cupuaçu com a polpa do Jairo. Chegamos na escola bem na hora do lanche. Achei bacana sentar com as crianças, conversar com os colegas dela, cortar bolo pra todo mundo.
Agora ela completou 8 anos. Espero que ela consiga agora obedecer os pais, tomar banho sozinha, comer enquanto nós comemos, não interromper quem fala, escovar dentes numa boa (eu acho que eu é que devia ter assoprado aquela vela, ó, ia tudo se realizar!!).

sábado, 13 de abril de 2024

Pessoal, essa é a Olga!

Olga chegaria na sexta-feira de manhã. Agnes não tinha conseguido acordar a tempo de ir no contraturno e tava em casa, me esperando. Eu saí de uma reunião no MPI, passei em casa pra pegar a criança e fomos no aeroporto. O painel que informava os horários das chegadas me deixou em dúvida, afinal, o horário informado pela Olga não constava lá. Agnes estava ansiosa, perguntando o tempo todo se aquela senhora lá longe era a Olga.

Enfim ela chegou, deixamos a mala em casa e fomos almoçar no Ministério, que é mais barato. Em seguida, subimos para a sala em que eu trabalho. Agnes abriu a porta e anunciou em alto bom som: "Pessoal, essa é a Olga!" Todos acharam graça e entenderam que Olga tinha sido muito aguardada pela Agnes. Aí Agnes lembrou que no início eu ficava no sétimo andar - onde a Maria tinha um pote de biscoitos - e pediu pra mostrar pra Olga a outra parte do  Ministério dos Povos Indígenas. Mesma coisa. Ela abriu a porta da sala e anunciou para os que estavam lá: "Pessoal, essa é a Olga!"

Fomos pra escola e Olga foi apresentada ao porteiro, à diretora e secretária. As educadoras já se anteciparam e perguntaram se essa era Olga. Porque Agnes tinha falado na turma que receberia visita e que brincaria muito com a Olga.

domingo, 7 de abril de 2024

Ensaio sobre o sol a realidade digital

Agnes e eu fomos no CCBB, ver a exposição "Luz Aeterna, ensaio sobre o sol". 

O texto que acompanha as instalações é importante para nós, adultos, fazermos as conexões mentais entre o que vemos/ouvimos e o que os artistas pensaram. Para as crianças, a experiência é sensorial.
Havia uma instalação sobre trazer a linha do horizonte pra perto que fez um estalo na cabeça da Agnes depois que eu li o texto pra ela, mas as outras coisas - luz como linguagem - ela entendeu sentindo.
Numa sala, nos demoramos mais, tanto que percebi que a sala foi enchendo de gente. As crianças ocuparam o centro da sala e se puseram a interagir com as imagens e o som. Umas corriam atrás de pontos de luz, Agnes dançava agachada.
Observei uma criança menor entrando na sala de braços abertos, completamente imersa em maravilhamento. Boquiaberta, a criança se comportava como se flutuasse. Essa mágica que capturava as crianças não fazia efeito nos adultos.

Contei 9 projetores presos no teto da sala. Os adultos saíam da sala assim que percebiam que a sequência de imagens repetia. As crianças, no entanto, criavam alianças entre si na caça aos vagalumes projetados.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A foto no whats

Somos algumas arianas na sala da SEART (Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas) do MPI, então tem abraços praticamente todo dia. Ontem era aniversário da Andressa Pataxó e de tarde apareceu um bolo na mesa central. Como o pessoal não tinha participado de vaquinha pra adquirir esse bolo e como não havia cheiro de kit festa no ar, o pessoal - mesmo convocado pra comer bolo - não levantava da cadeira, não desgrudava os olhos da tela do computador.

Quando a aniversariante mandou a foto do bolo no grupo de whats, o povo se reuniu em volta da mesa pra cantar parabéns e comer bolo.