Luis reclamava de dores no ombro direito e no joelho esquerdo. Imagens mostravam rompimentos e foi solicitada cirurgia. Ele ainda ficou calculando o que seria melhor fazer primeiro, já que precisaria de muletas para se recuperar da cirurgia no joelho - e pra isso o ombro tinha que estar bom. Mas a recuperação da cirurgia do ombro era mais longa, o procedimento mais complexo e os riscos maiores.
Pediu joelho primeiro. A Unimed não deferiu alguns procedimentos, o médico disse que faria mesmo assim, Luis entrou com recurso contra a decisão da Unimed duas vezes, o médico também. Havia um prazo pra marcar a data da cirurgia (22 set), mas com as disputas com o seguro de saúde, a cirurgia foi marcada para 29 out.
As instruções eram contraditórias: ou era pra cirurgia acontecer de manhã cedo e Luis deveria dormir no hospital para garantir o jejum, ou a cirurgia seria de noite e o jejum de 8h deveria ser mantido de dia. Acabou que cancelaram a cirurgia no dia. O fornecedor não havia entregado os materiais e o médico já não tinha mais agenda livre em 2025.
Desolados, ficamos procurando outro seguro de saúde, traçando estratégias estrambóticas e adiando qualquer adesão. Luis solicitou a cirurgia no ombro, a Unimed passou a analisar. Foi aprovando os procedimentos, até que o médico do joelho agendou a cirurgia do joelho pra 13 de dezembro.
A cirurgia seria às 8h da manhã, Luis precisaria manter jejum até lá e de um acompanhante (eu). Agnes não ficaria em casa sozinha. Naquela semana, Agnes tinha ido almoçar na casa de uma amiga da escola - que em algum momento do dia virou pra Agnes e disse: seria legal se você pudesse dormir aqui, né? Foi a solução que encontramos. Eu buscaria Agnes depois da cirurgia.
No dia 13, Luis foi de jejum, eu comi as duas frutas que tinha em casa. Chegamos às 6h, conforme as instruções, nos identificamos, recebemos orientações sobre onde preencher os termos, fomos informados que a cirurgia começaria 10h, reclamamos, conferimos a documentação, entendemos que o sujeito havia se confundido, aguardamos a equipe médica chegar, fomos convocados pela enfermeira - cujo nome é Nínive! - e Luis vestiu o avental de hospital, uma touca na cabeça e duas toucas nos pés. O médico chegou, cumprimentou, perguntou qual era o joelho, voltou com uma caneta, desenhou uma bola no joelho esquerdo e pediu pro Luis desenhar um círculo em volta da bola dele. Disseram que a cirurgia iria até 10h, depois disso Luis demoraria um tempo pra acordar da anestesia, seria observado e encaminhado para o quarto.
Depois de levar Luis pra sala de operação, Nínive me levou ao apartamento em que Luis ficaria. Guardei as roupas dele no armário, o celular também. Esperei dar o tempo da cirurgia. Como eu não tinha sido convocada, assumi que estava tudo bem e fui fazer compras. Depois que guardei as frutas e verduras, tocou o telefone. Era o médico, dizendo que tudo tinha corrido bem, que Luis estava acordado e foi me descrevendo os medicamentos, fisioterapia, banho, retorno. Agnes ligou em seguida, pedindo pra eu demorar pra buscá-la. Em seguida, recebi mensagem do Luis no whatsapp. Entendi que ele estava no quarto e tinha encontrado o celular.
Atravessei o Plano Piloto e fui ver Luis. Tava ótimo. Eu lembro que eu acordei me sentindo atropelada depois da cirurgia do meu pé. Atravessei o Plano Piloto de novo pra buscar Agnes e fomos juntas ao hospital, já levando as muletas.
Estava previsto que Luis teria alta assim que conseguisse fazer xixi. A bexiga tava cheia, doendo, mas não saía nada. Os enfermeiros tiraram quase um litro com a sonda, mas ele teria que conseguir urinar sozinho. Sentou, andou de muleta, bebeu muita água, tentou duas vezes ao som de água da torneira e pediu mais sonda. A enfermeira veio com uma luva de plástico cheia de água aquecida no microondas. Compressa quente pra estimular. Não funcionou. Trouxeram uma cadeira que encaixa no vaso sanitário, mas ela só resolvia a parte da mobilidade. Dormir uma noite no hospital se aproximava. Daí ele conseguiu. Quando fui informar, o pessoal enfermeiro já tinha trocado. Conseguimos alta e fomos pra casa cansados.
Acordei todas as vezes que Luis acordou - ou porque ia ao banheiro de muletas, ou porque soluçava. Lembramos do pai dele que também tinha crises de soluço - e do Bolsonaro. Muito remédio...
Se o sábado foi de pouca movimentação, o domingo foi o dia de entrar no novo ritmo. Além de todos os meus papéis, eu assumi o de jardineira (da praça), cozinheira e enfermeira. Luis tinha crises de soluço. Lembrou que coisas pastosas ajudavam. Fiz mingau de aveia. Depois, fiz mingau de tapioca. Depois do mingau de banana, Luis preferiu que eu fosse na farmácia comprar remédio. Comprei Bromoprida, que me dava muito sono durante a gravidez. Mas ele não dormia: seguia soluçando.
Hoje, segunda-feira, fomos na fisioterapia. A perna estava ficando roxa por causa das bandagens. A fisioterapeuta tirou aquilo tudo, botou gelo e agendou fisioterapia todos os dias. Aos poucos, Luis vai experimentando novos jeitos de subir escada, entrar no carro, levantar da cadeira.
E quando vier a cirurgia do ombro, Luis disse que vai preferir adiar.