quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Desaumentar

- Agnes, abaixa esse volume, tá muito alto isso daí!

- Peraí, não tô conseguindo desaumentar.

Precisei registrar esse uso inusitado de morfologia derivacional. Negação é mais complexa do que se imagina! Em primeiro lugar, porque muita coisa pode ser negada - e isso varia de uma língua pra outra. Depois, porque a negação sempre é linguisticamente marcada, já que estamos acostumados a lidar com o que existe, com o preenchimento - não com o vazio, a ausência, a negação. Na língua, aquilo que é, simplesmente, é. Aquilo que não é, é linguisticamente codificado como não sendo: através de palavras ou partes de palavras. Pelo visto, pra criança em questão, o que vale é aumentar o volume - e o contrário de aumentar, que seria apertar o botão na outra extremidade, só pode ser desaumentar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Word by word: the secret life of dictionaries

Quando participei do LingComm21 em abril, tive a oportunidade de conhecer mais de perto algumas pessoas que trabalham no sentido de popularizar a Linguística. O evento todo foi organizado pela dupla do Lingthusiam, Gretchen (Canadá) e Lauren (Australia). As duas mantêm um podcast sobre Linguística já faz uns 6 anos - que auxilia bastante na minha preparação de aulas de Linguística. Ou seja, elas conversam bem com quem já está dentro da Linguística.

Durante o evento, percebi que existem programas de rádio, podcasts, canais no Youtube e livros, muitos livros de popularização da Linguística (em língua inglesa) que eu desconhecia totalmente. Fui anotando nomes e fui procurando os livros desses autores em sebos internacionais. Aos poucos, os livros foram chegando. O da Kory Stamper foi o que eu mais identifiquei como sendo um projeto bem-sucedido de popularização da Linguística.

Kory é lexicógrafa, trabalha para o Merriam-Webster e escreveu um livro sobre o que ela faz. Porque quando ela diz pras pessoas que o trabalho dela é fazer dicionários (escrever as definições), a reação geral é de quem está diante de um ET. O legal do trabalho dela é que, além de revisar dicionários e definir palavras, ela precisa responder ao público - que tem paixões em relação à língua. Isso a força a pensar sobre a língua. Da palavra para a língua, do micro para o panorama. Esse movimento é extremamente importante na popularização da Linguística.

Como aqui no Brasil temos pouco contato com popularização da Linguística (divulgação científica, mas feita por nós mesmos, não por jornalistas que traduzem o que entenderam para uma linguagem mais acessível), preciso alertar que o livro não se propõem a traduzir em linguagem simples uma pesquisa. O livro não está escrito em plain language. Muitas vezes eu tive que consultar o meu dicionário aqui pra acompanhar a Kory (tá, não sou fluente em inglês, tem isso, mas eu navego mais tranquilamente no David Crystal ou na Arika Okrent). O trabalho de popularização não está no vocabulário (simples) nem nas construções sintáticas (diretas), mas no humor, no envolvimento pessoal com o tema.

A capa já dá a ideia de um dicionário, a organização dos capítulos também: cada título de capítulo é uma "entrada", a chamada de um verbete. O conteúdo do capítulo orbita em torno do trabalho de definir essa palavra ou palavras desse tipo (palavras funcionais, palavrões etc.). Com o desenrolar da leitura, conhecemos um pouco da rotina silenciosa e das divisões de trabalho dentro da editora: imaginamos as salas de filólogos, definidores, a pessoa responsável por anotar a pronúncia (esse cubículo tem um telefone). Conhecemos também um pouco do aprendizado da autora em relação ao ofício. O cuidado com a forma de apresentação do livro e o envolvimento pessoal que permeia a obra se aproximam do trabalho artístico. Somos fisgados pela estética. E popularização é o trabalho de seduzir, não de convencer.

Um exemplo é quando ela teve que responder a cartas de usuários reclamando da existência da entrada "irregardless" no Merriam-Webster. Como se trata de uma dupla negação no interior da mesma palavra (i- e -less), ela mesma concordava, a princípio, que a palavra não deveria estar no dicionário, já que o dicionário somente registra palavras atestadas na escrita e que tenham uma certa idade na língua (gírias, sempre novas e efêmeras, não entram). Até que alguém (também usuário) comentou que "irregardless" não costumava aparecer sozinho: era comum que alguns "regardless" culminassem num "irregardless" ao final. Como se "irregardless" funcionasse como superlativo. E olha só: do pré-conceito chegamos numa análise interessante.

A aventura que foi revisar a definição de "bitch" eu deixo pra ela contar:

Agora que estou ajudando a organizar o Abralin em Cena 16 (dias 17 a 19 de novembro de 2021) sobre popularização da Linguística, fico muito feliz que ela tenha topado ser uma das pessoas entrevistadas e possa assim mostrar ao público brasileiro um pouco do seu trabalho (inclusive o livro novo que está pra sair).

domingo, 26 de setembro de 2021

Interab12

Hoje, domingo, 7h horário local, apresentei meu trabalho sobre sinais de pontuação numa sessão intitulada "Prosódia". Pois é. Quem me conhece, sabe que a minha relação com Fonética e Fonologia é bastante limitada. Quando eu vi que dividiria a mesa com Pablo Arantes, fiquei feliz por um lado (moramos juntos por um tempo na Oca da Tapioca), mas apreensiva por outro: acho que não vou conseguir acompanhar as discussões da mesa. Então por que me colocaram nessa mesa? Porque havia ali outro trabalho sobre a relação entre prosódia e sinais de pontuação.

De fato, sinais de pontuação são meio difíceis de alocar em congresso. Quando submeti outro trabalho sobre sinais de pontuação no GEL, o Grupo de Trabalho de Ensino de Língua Materna rejeitou o meu trabalho, mas o de Gramática Funcional aceitou. Só que os trabalhos da mesa de Gramática Funcional eram completamente diversos do meu. No final, a maior parte das perguntas veio pra mim: eram curiosidades sinceras em relação aos sinais de pontuação. O que eu tinha a dizer (e disse) era muito diferente dos mistérios da Gramática Tradicional.

A organização do Interab 12 decidiu dar destaque aos sinais de pontuação colocando dois trabalhos seguidos. Quem nos achou, pode acompanhar duas abordagens bem diferentes. Talvez a compreensão do objeto não seja a mesma. Percebi que quem estuda as relações entre prosódia e sinais de pontuação tende a focar em um sinal (ou dois: vírgula e ponto). Júlio Galdino, que apresentou antes de mim, mencionou na fala dele um trabalho sobre parênteses. Schlechtweg (que sobrenome curioso: "mal caminho") estuda como as pessoas pronunciam aspas quando leem em voz alta (fazendo uma pausa). Eu entendo o sistema de sinais de pontuação como um sistema.

E sistema tem a ver com escolhas. Do conjunto de sinais de pontuação, é possível escolher um para separar, delimitar ou marcar unidades. Se é possível escolher, temos uma dimensão pragmática, semântica além das dimensões sintática e prosódica nos sinais de pontuação. Quem diria que esses sinais tipográficos guardam tantos segredos acerca de si...

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

sábado, 11 de setembro de 2021

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Revisão completa

Estávamos chegando aos 80 mil km, eu estava com dificuldades esporádicas de engatar a terceira marcha, o rádio não funcionava e pedia um código que não sabíamos qual era, pequenos consertos se faziam necessários. Marcamos uma revisão na concessionária: a revisão de 80 mil, que é específica por causa da correia dentada e outras coisas. Fui na locadora de carros e aluguei um carro por 5 dias, calculando que a revisão se estenderia de quinta a segunda.

No dia da revisão, o carro não ligou. Tive que acionar o seguro que (depois de uma hora de espera) mandou um cara que deu uma carga na bateria, que fez o carro funcionar. O homem pediu pra eu deixar o carro ligado por uns 15 minutos. Quando quis sair com o carro, botei a ré - e o carro morreu. Não ligou mais. O mesmo cara do seguro voltou (depois de uma hora de espera) e guinchou o carro. Desconfiamos que o rádio, que não desligava e pedia código, estava consumindo a energia da bateria.

Eu fui com o carro alugado, ele de guincho. Na concessionária, me deram 3 opções de revisão completa. Entendi que quanto mais completa a revisão, maior era o investimento no ar condicionado - que no nosso carro nunca foi lá essas coisas. Escolhi a revisão mais completa, ganhei um descontão e fiz uma lista de outros "reclames": o parachoque estava meio solto, a janela atrás do motorista estava travada, dois encaixes do cinto de segurança não funcionavam, e ocasionalmente acendia uma luz de alerta que deixava o carro fraco. Tudo foi anotado, foi prometido contato constante.

Enquanto isso, Agnes se animava com o carro emprestado: tem cheiro de novo. Quando expliquei a ela que poderíamos viajar com o nosso carro quando estivesse pronto, ela ficou triste: ela tinha gostado tanto do carro emprestado...

Só que a única comunicação que recebi da concessionária era que a bateria estava totalmente descarregada e que precisava trocar e custava tanto. Autorizei a troca, mesmo porque sem bateria, nada funciona. Luis e eu fomos de carro alugado pra concessionária, buscar o nosso. O mecânico mostrou todos os filtros e óleos e produtos que aplicou/trocou. Depois mostraram um orçamento. Demoramos a entender o que era aquilo: o valor era maior que a revisão completa e quase todos os itens vinham acompanhados de asterisco, o que significava que não tinham a peça em estoque. Em miúdos: fizeram a revisão completa, que é o pacote fechado deles, mas não consertaram nada do que pedimos - porque não tinham as peças. Se tivesse que pedir na montadora, podia demorar 20 dias úteis pra chegar. Concessionária que não tem peça... pode, isso?

Contrariados, pegamos nosso carro e devolvemos o carro emprestado. Dois dias depois, quando eu ia levar Agnes pra escola, a luz de alerta acendeu.

Luis ligou na Renault e perguntou que droga de "revisão completa" é essa que não revisa os problemas que tínhamos apontado. O mecânico veio aqui, levou o carro e se puseram a encomendar o módulo eletrônico (corpo de borboleta) e as bobinas. Como é concessionária, eles não podem comprar essas peças em qualquer loja de peças: tem que ser peça original.

Alugamos carro mais uma vez, mas vimos que o prejuízo seria grande se esperássemos essas peças chegarem. Ficamos pensando em quem poderia emprestar o carro pra nós e chegamos na Heloisa, que não está em Porto Velho (mas deixou o carro aqui). Na primeira semana, tive grandes dificuldades de acertar as marchas: a ré, primeira e terceira eram mais ou menos no mesmo lugar. A segunda entrava se vinha da primeira, mas se eu reduzia, não encontrava o lugar da segunda. Aconteceu de eu quase parar em lombadas, procurando a segunda. Sorte que não vinha ninguém atrás... A janela do passageiro abria e fechava aleatoriamente, o carro produzia sons esquisitos e parecia mais pesado que o nosso.

Ontem pegamos o nosso carro de volta. 21 dias o carro ficou lá. Passar pela experiência de dirigir outros 3 carros me faz pensar que o nosso é o melhor carro - ainda mais agora, que está quase completamente consertado e revisado.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Mesmo nome

Eu tinha levado duas caixas contendo livros para o malote interno da universidade redistribuir para os campi do interior. A diretora da seção me ligou dizendo que não podia mandar caixas, que tudo que vai pelo malote precisa estar em envelopes.

Agnes foi comigo no campus. Com uma sacola de envelopes embaixo do braço e gatos no encalço, fomos no protocolo. O rapaz lá disse que uma caixa, menorzinha, tava no jeito. Desfiz a outra caixa e fui tentando colocar os livros nos envelopes. Ele percebeu que eu gastaria muitos envelopes e sugeriu que eu dividisse os 40 livros em dois grandes blocos e embalasse cada bloco. Como eu tinha papel kraft na EDUFRO, avisei que ia lá, buscar o papel.

Agnes, eu e os gatos fomos até a biblioteca. No caminho, ela perguntou: 

- Pra onde a gente vai?

- Na editora, buscar papel.

- Quem é a editora? 

- Sou eu.

- A gente vai até você mesma????

- Não, é o mesmo nome: a editora é um lugar, mas também é uma pessoa.

A Biblioteca Central (dentro da qual fica localizada a editora) estava fechada. Eu tenho a chave da EDUFRO, mas não da Biblioteca. Voltamos. Antes de chegar no protocolo, cruzamos com o Luã.

- Oh, Luã, cê tá na Biblioteca?

- Sim, professora. Tá precisando ir na EDUFRO?

- Estou, sim. Pode abrir pra nós?

 

- Mamãe, mamãe, mamãe!!!! Como você chamou esse moço?

- Luã.

- E o seu nome, mamãe, não é Luan também?

- O meu nome também é Lou-Ann.

- Como pode, o mesmo nome pra homem e pra mulher?

- Os nomes são escritos de jeitos diferentes.

- Ah, tá...

domingo, 5 de setembro de 2021

Depois de agosto

 

Quando vamos no Damián e Agnes não quer acompanhar a conversa, ela vai no coqueiro, tira umas fibras e monta um "oninho". Desse daí vão nascer mangas!
O brejo secou, o rio baixou, as folhas estão caindo. Pra Agnes, folha seca vira cocar.
Café. Damián plantou. Tem um cheiro surpreendente de jasmin.
Buritis.
O ipê da casa do Preto está um espetáculo. Parece que as flores emanam um brilho próprio.
Flor de sapucaia. A sapucaia perdeu todas as folhas durante a seca, desenvolveu novas antes da chuva e, agora que choveu, deixou cair suas flores.
Luis pegou a enxada e começou a cavar um caminho no brejo seco. A ideia era guiar a água quando voltasse a encher. Logo topou com essa rã embaixo da terra esperando a próxima chuva.
Os pés de cupuaçu estão com flor.