domingo, 28 de abril de 2019

Cosme e Damião

 
Analisando em retrospecto, Agnes estava inapetente já fazia um tempo. Teve febre na quinta de noite e foi pra escolinha na sexta de manhã. Suspeitávamos que a febre voltasse, então pedimos pra ligar se tivesse febre. Ligaram 11h e fomos buscar. Disseram que tinha tido 39 de febre. Luis deu dipirona (antitérmico) no carro e voltamos pra casa. Agnes estava bem abatida e dormiu durante a viagem pra casa. Chegamos, trocamos a roupa dela, percebemos que a febre não tinha baixado, Luis deu mais dipirona e a deitamos na cama. Deitei junto dela, até ela pegar no sono. Depois fui almoçar.

Depois do almoço, Luis foi ao quarto e viu a Agnes deitada, contorcida e vomitando. Achando que era uma crise epiléptica, entrou com a Agnes debaixo do chuveiro e enfiou o dedo na boca dela. Tinha medo que ela mordesse a língua, mas o que aconteceu foi que ela mordeu o dedo dele. Tão forte, que vi sangue escorrendo. Depois vimos que um dente dela (embaixo) deslocou. Ela estava convulsionando. O olhar não via, o corpo não tinha consciência de si, tudo parecia rígido e ainda assim em moto contínuo. Entramos no carro com ela convulsionando. Estabilizou a uma curva do hospital.

Luis parou o carro como se fosse uma ambulância, entramos e nos guiaram adiante. Tinham pouca experiência com criança no João Paulo, mas todos se esforçaram muito pra ajudar a entender. Sim, tinha tido febre alta; sim, era a primeira vez que convulsionava; ela tem três anos. Já descartaram epilepsia, mas pediram tomografia, pra ter certeza. Agnes parou de bater os dentes e abriu os olhos, mas não parecia ver. Olhava fixamente para a direita. Uma enfermeira alertou que ela estava com "olho de boneca". Nós tentamos atrair a atenção dela pro outro lado, mas não funcionou. Tiraram a roupa molhada e vomitada dela e botaram o único tipo de fralda que tinha lá (geriátrica).

Luis foi chamado a remover o carro e não deixaram ele entrar mais. Seríamos encaminhados ao Cosme e Damião, o hospital pediátrico. Os operadores da máquina de tomografia tiveram receio: será que ela vai ficar paradinha? Os enfermeiros que me acompanharam e eu não tínhamos dúvida: ela vai colaborar. Ajeitamos a menina embalada num avental hospitalar e me pediram pra sair da sala. Quando voltei, ela estava dormindo.

As imagens foram rapidamente analisadas e não se percebeu nenhuma hemorragia ou qualquer outra lesão cerebral. Enquanto Agnes e eu esperávamos a papelada evoluir pra transferência, notei que ela não falava, só choramingava de tristeza e cansaço. Entramos na ambulância, Luis foi de carro. Quando chegamos no Cosme e Damião, já sabiam o nome da Agnes. Estava sendo aguardada porque Luis ligou pra Berenice que acionou a Marilene que apita alguma coisa lá dentro.

Dessa vez, eu fui barrada. Só pode entrar um acompanhante. Fiquei do lado de fora, com as minhas memórias do episódio, com medo de ela ter alguma sequela. Duas horas depois de esperar, pude entrar: era hora de visita. Agnes e Luis estavam numa poltrona reclinável no corredor. Ele mais vomitado, ela no soro. Sentei na cadeira, Agnes deitou em cima de mim (eu ainda estava com a roupa vomitada). Dormimos as duas enquanto Luis foi pra casa tomar banho. Não lembro do sonho, mas lembro de ter pensado que esse devia ser um sonho de Agnes.

Luis voltou e brigou por um leito num quarto. Conseguiu. A primeira palavra da Agnes foi "xixi". Depois disse "mamãe" muitas vezes. Mesmo estando de fralda, fazia questão de não usá-la. O quarto tinha dez berços, uma poltrona reclinável ao lado de cada berço, nenhum ar condicionado, três ventiladores dos próprios internos e um banheiro. Tudo bem parecido com a maternidade. Marilene sugeriu que pedíssemos transferência pro Hospital da Unimed, já que temos convênio, mas a nossa preocupação era o neurologista - que garantidamente viria na manhã seguinte ao Cosme e Damião e não está previsto no Hospital da Unimed.

Fui pra casa comer e tomar banho. Voltei às 19h, crente que era hora da visita. Depois fui entender que era hora da troca. Luis foi pra casa, eu passei a noite com Agnes. A luz foi desligada perto de meia-noite. Tinha enfermeiro entrando a cada hora pra trocar soro, injetar antibiótico, trazer máscara de nebulização. E quando entrava, ligava a luz e não desligava ao sair. Eu é que levantava e apertava o interruptor. Cheguei a deitar com a Agnes no berço, mas foi difícil dormir. Muito bebê chorando, muito entra e sai. Agnes não tinha serenidade e queria falar - e falava alto.

Às 5h da manhã perguntei pra enfermeira que veio administrar o antibiótico quando iam coletar exame da Agnes, porque tinha que ser em jejum. A médica tinha visto na tomografia uma infecção grande na garganta da Agnes. Essa infecção tinha causado a febre que foi o gatilho para a convulsão. A enfermeira me disse que eu tinha que ir no laboratório pra coletar exames. Achei estranhíssimo que o laboratório não vinha ao leito, mas fomos. Coleta de sangue, cotonete no nariz e na garganta.

Quando veio o café da manhã, Agnes só comeu a goiabada espalhada no pão. Luis chegou perto de 7h e ficou até 13h. Eu pude dormir nesse tempo. A casa foi ressignificada nesses dias. A casa era um lugar limpo, vazio, grande. Quando voltei ao hospital depois do almoço, Agnes finalmente dormia e seguiu dormindo apesar da atividade no quarto. As duas vizinhas tinham tido alta. Um leito permaneceu vazio, o outro foi ocupado por uma mãe que botava músicas de louvor no celular pra acalmar o bebê que chorava. Foi duro. Música de milagre naquele volume - e ela cantando junto - justo quando Agnes tinha finalmente conseguido dormir. Por volta das 16h entraram quatro senhoras evangelizadoras pregando a palavra de Jesus em alto e bom som. Não teve jeito. Agnes acordou, eu peguei ela no colo e saímos do quarto. Elas provavelmente acham que curam; eu achei a pregação extremamente desrespeitosa.

Luis ficou com o turno da noite e depois relatou que ela teve sono muito agitado. Se debatia, batia nas grades do berço, gritava, acordava chorando e voltava a dormir. O que ele não me contou foi que ela acordava fora de si. E foi isso que aconteceu quando cheguei de manhã. Ela acordou gritando feito bebê, me repelia com todas as forças, não falava, me batia e me arranhava. Fiquei completamente perdida diante desse espetáculo. As outras mães olhavam pra mim assustadas por eu não saber lidar com a criança assim. Um abraço e uma caminhada apaziguaram a menina e de novo a primeira palavra foi "xixi". Depois, tentando interpretar o ocorrido, chegamos à conclusão que ela passou por uma reinicialização. O primeiro sono dela tinha sido esse, na segunda noite. Os neurônios dela tiveram que se reorganizar. O neurologista tinha dito que convulsões febris em crianças de até 5 anos acontecem porque o sistema neuronal ainda não está formado.

A médica confirmou que Agnes teve uma forte infecção nas amídalas, que agora estava melhor, que ela precisaria continuar com o antibiótico por mais cinco dias. Explicou que dipirona provoca um pico de calor antes de baixar a temperatura da pessoa (o que explica a temperatura alta antes da convulsão) e disse que Agnes seria liberada amanhã. Pedi que fôssemos transferidos pro Hospital da Unimed, ela me explicou que eu precisava acionar a Unimed e deu detalhes do processo burocrático. Perguntou onde morávamos, se mais perto de lá que dali. Respondi que morávamos do lado do João Paulo, que foi pra onde fomos em primeiro lugar. Ponderou se podia nos dar alta. O antibiótico é vendido na farmácia. Depois de hoje, administrar de 12 em 12 horas. Se a febre voltar, dipirona e banho. Vou escrever a liberação de vocês.

Uma das mães suspirava alto que queria sair desse hotel de uma cama. Um menino mais velho, no primeiro berço, contou pra alguém no telefone que estava no hospital de animais. Nas janelas que não abrem havia adesivos com animais. Luis tinha prometido dar uma festa pra Agnes se conseguíssemos sair hoje do hospital. Agnes pediu bolo de girafa. Pro papai, bolo de rinoceronte e pra mamãe, bolo de leão. Por sorte, na confeitaria tinha um bolo decorado com physalis na pétala que parecia bem rústico e selvagem.

Como se chama esse hospital? ela perguntou. Cosme e Damião, respondi. Come Damián?

Mesmo sabendo que o que ela teve foi uma convulsão febril - e não epilepsia - temos medo de deixá-la sozinha. Temos medo de febre também. Somos gratos que ela não teve sequela e acumulamos mais essa experiência humana de SUS.

domingo, 21 de abril de 2019

Feliz Páscoa-Tiradentes

Nossos ovos são assim


Segunda festa

No sábado, Agnes teve a melhor festa de todos os tempos. Júlia, Mathias e os três mosqueteiros (Gabriel, Cecília e Augusto) brincaram a festa toda. A galinha, os porquinhos-da-índia e o hamster  promoveram a integração inicial entre as crianças e deram a elas uma noção do espaço da casa. Depois foram descobrindo as bicicletas, o trampolim, massinha, o quarto da Agnes, até o balão gigante com coisinhas dentro escondido no guarda-roupa.
Mais de uma vez Agnes exclamou: Que bagunça! no quarto dela, mas igualmente se entregou à produção de desordem. As seis crianças valiam por trinta.
Cecília com o coelhinho, Júlia com a calimba e Agnes tentando abrir uma bala
Agnes caiu muitas vezes, queimou os dedos na vela-fogos-de-artifício, trombou com os meninos, mas não perdeu a compostura nem a vontade de continuar brincando. Na véspera da festa, tínhamos passado a manhã com ela no hospital: diarreia e vômito e soro na veia. No sábado, ela era pura energia e alegria.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Festinha de aniversário na escolinha: 3!

Hoje teve 3 festas de aniversário acontecendo em paralelo no Mundo Encantado. A única que me importava era a de 3 anos da Agnes. Deixei Agnes na escolinha e fui até a banca de artesanato buscar as lembrancinhas dos colegas da Agnes: chocalhos suruí que eu tinha encomendado semana passada, pensando que o Dia do Índio cai perto do aniversário da Agnes. Dali fui buscar os salgados. Quando cheguei na escolinha, o telefone tava tocando: era o bolo que tinha chegado. Como todas as funcionárias da escola estavam envolvidas em alguma preparação de festa, tivemos que achar lugar na geladeira.
Depois de montada a mesa, o protocolo estipulava a sessão de fotos. O item seguinte era cantar o parabéns, mas tivemos que esperar pelas proprietárias da escola. Primeiro o suco, depois os salgados, por fim o bolo e brigadeiros. Tudo estava muito bom (mesmo!).

Quando fomos buscar a Agnes, teve a logística das sobras e dos presentes (todos, exceto o vestido, eram cor de rosa! Acho que os chocalhos indígenas foram um choque para os pais que escolheram os presentes da Agnes...).
De noite, antes de dormir, Agnes me disse que hoje eu fui na escola dela.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Oficina de cartonera

Semana passada fui na Arigóca pra conversar com Elizeu sobre uma participação dele num curso de extensão que quero oferecer sobre produção editorial. As meninas logo me convidaram pra oficina de cartonera (livros manualmente produzidos com capa de papelão) e garantiram que Agnes poderia participar.
Fomos hoje pra oficina. Quando vesti o avental na Agnes, Elizeu exclamou: você trouxe sua armadura! As meninas já conheciam a Agnes e se divertiram com ela. Percebi que Agnes propicia que algumas pessoas dêem asas à criança dentro delas.
Mais pro final, quando Agnes já não estava mais pintando papelão nem capa de livro de poesia, nem brincando de fazer barulhos pra dentro de um cano retorcido, ela pediu os ovos pro Elizeu. É, eu quero tocar na banda, ué. Todo mundo caiu na risada quando entendeu que ela se referia aos chocalhos em formato de ovo que ela tocou na nossa primeira visita.
 A Edufro estava lá: Leidijane e Vitoria (e eu), olhando para o livro enquanto objeto.