quarta-feira, 29 de abril de 2026

Parque Nacional Povos Indígenas do rio Tanaru

O filme Corumbiara (2009) de Vincent Carelli (nosso Adrian Cowell), começa em 1986, na gleba Corumbiara, fazenda Ivipytã, em que havia acontecido um massacre de povo indígena. Apesar dos vestígios identificados por Marcelo Santos (Funai), e Polícia Federal, a Funai (Sidney Possuelo) desinterditou a área interditada judicialmente e Marcelo foi proibido de retornar à região. Mas Marcelo Santos e Vincent Carelli insistiram. Uma vez Chefe dos Índios Isolados em Rondônia, Marcelo Santos ganhou autonomia para retornar a Corumbiara - dessa vez com o assistente Altair Algayer.

Em 1995, foram à fazenda de Antenor Duarte acompanhados por dois jornalistas do Estadão. Acontece então o contato com dois Kanoê, a Justiça interdita a Terra e logo depois membros do MST são massacrados no que ficou conhecido como o Massacre de Corumbiara. Faroeste. 

Havia um falante de Kanoê em Guajará-Mirim, levado pra lá nos anos 50 pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) pra liberar o espaço para os seringalistas. Faroeste com suporte do Estado. Esses dois Kanoê que Marcelo contactou provavelmente tinham ficado pra trás nesse movimento do Estado de remover indígenas como se fossem animais. 

Os Kanoê condiziram a equipe da Funai aos Akuntsu: um grupo isolado leva a outro e ambos seguem sendo de recente contato até hoje. Daí veio, em 1996, a notícia (contada por funcionário de serraria) de uma maloca de índio a 40km de onde estavam. Os Kanoê (tanto os recém-contactados como o senhor idoso de Guajará-Mirim) toparam fazer essa expedição. Encontraram vestígios na madeira das árvores (cortes), um buraco fundo com estrepes dentro e a maloca abandonada - com um buraco dentro. Os vestígios confirmam a existência de um (grupo? povo?) isolado, mas as interdições eram temporárias, era preciso comprovar periodicamente que os vestígios apontam para pessoas.

Em 1998 (1h33' no filme) Altair Algayer faz uma parada na frente da palhoça e diz: "ele tá dentro da casa". Marcelo, Vincent e Purá Kanoê esperam do lado de fora e acompanham os movimentos da ponta de uma flecha que mira neles de dentro. Eles oferecem comida, fazem fogo, esperam, mas durante as 6 horas que rodearam a palhoça, o "índio do buraco" não emitiu um som sequer, nem se deu a ver. Perante a Justiça, o "índio do buraco" só passou a existir quando sua imagem foi divulgada. Interdições judiciais garantiram que não houvesse tentativas de contato por parte de fazendeiros, peões ou jagunços, mas elas caducavam.

Nos anos seguintes, o pessoal da Funai percebeu que o "índio do buraco" abandonava a sua palhoça toda vez que percebia que estava sendo monitorado e fazia uma nova morada (com buraco dentro) mais adiante. Depois do primeiro avistamento, passaram-se 4 anos até que o "índio do buraco" fez sua primeira roça, tal a desconfiança. Quando a Funai entendeu que ele se fixaria no território, uma conjunção inusitada se deu: para não entregar as terras da fazenda ao MST, o fazendeiro fez um acordo com a FUNAI e em 2006 saiu a primeira Portaria da Restrição de Uso.  

Gosto desse mapa (da autoria de Altair Algayer) que está no Relatório de Fundamentação da Destinação da Terra Indígena Tanaru apresentado ao STF no âmbito da ADPF 991, cujo relator é Edson Fachin. O mapa mostra em vermelho a área que foi interditada judicialmente entre 1988 e 2006. A primeira palhoça (representada por um triângulo) estava fora dessa área. Nem com a lupa eu consegui ler todos os números de habitação, mas sei que foram 53 no total. A área em verde representa a área de mais ou menos 8 mil hectares abrangida pela Portaria de Restrição de Uso da Funai. Caducou e foi renovada em 2009, 2012, 2015 e a última foi válida por dez anos, ou seja, o impedimento de acesso à área foi até 2025 (Tanaru faleceu em 2022). Essa área verde é floresta. Ao redor, a fazenda é pasto e monocultura.

Perceba que o território da TI Tanaru sofreu alterações: o que era o lote 37 da Fazenda Modelo passou a incluir os lotes 36 e 46 da Fazenda Sorcel. Trocando em miúdos, a TI Tanaru era composta de partes de fazendas. Essas terras trocaram de dono ao longo dos anos. E como esse território correspondia à reserva de floresta das fazendas e não continha imóveis, não houve "vantagem" para os fazendeiros.

Após o falecimento do indígena, constatado em 2022, dois processos judiciais relativos à regularização fundiária da TI Tanaru começaram a correr em paralelo: de um lado, a ADPF 991, na qual a APIB acionou o STF contra a União Federal em razão da não regularização fundiária das TIs ocupadas por povos indígenas isolados; de outro, a Ação  Civil Pública movida pelo MPF pela Justiça Federal de Vilhena-Rondônia. No caso da ACP, em audiência de conciliação realizada em 2024, o juiz de Vilhena - RO determinou sua suspensão em função da tramitação da ADPF 991, que versa sobre o mesmo tema e corre em instância superior. (Relatório Tanaru, 2025, p. 17)

Pois é. Temos apenas duas TIs homologadas para uso exclusivo de povos isolados: Massaco (RO), a primeira, e Hi-Merimã (AM). Kawahiva do Rio Pardo (MT) só foi declarada, ao passo que Pirititi (RR), Piripkura (MT), Ituna-Itatá (PA), Jacareuba-Katawixi (AM), Mamoriá Grande (AM), Mashko Piro do rio Chandless (AC) e Igarapé Taboca do Alto Tarauacá (AC) são interditadas por Portarias de Restrição de Uso. A ADPF 991 determina (1) a reestruturação da FUNAI para melhor atender aos povos isolados e (2) que todas as Portarias de Restrição de Uso sigam vigentes até a demarcação (homologação) ou até que se descarte a existência de indígena isolado na terra. 

E por que existem essas Portarias de Restrição de Uso? Porque o rito demarcatório tem, em sua primeira fase, um Relatório Antropológico que comprove ocupação indígena tradicional. Como etnografar um povo isolado? O que Altair e Cangussu (suponho que tenham trabalhado nisso) fizeram pra que Massaco e Hi-Merimã fossem demarcadas é entender, pelos vestígios dos isolados, qual é a área que eles ocupam permanentemente, usam para suas atividades produtivas, para preservar os recursos ambientais e para a reprodução física e cultural (lugares sagrados e cemitérios inclusos). 

A Lei 14.701, já com o Marco Temporal incluso, que regulamenta o artigo 321 da Constituição e explica o rito demarcatório, determina que: 

Art. 4º São terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas brasileiros aquelas que, na data da promulgação da Constituição Federal, eram, simultaneamente:       (Promulgação partes vetadas)

I - habitadas por eles em caráter permanente;

II - utilizadas para suas atividades produtivas;

III - imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar;

IV - necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.

A reprodução física do "índio do buraco" não era possível desde 1996, quando se entendeu que ele era o último sobrevivente de um povo. No caso dos Piripkura - são dois homens, tio e sobrinho - essa reprodução física também não vai acontecer. E talvez esse tenha sido um argumento pra que a TI Tanaru não tenha sido declarada Terra Indígena depois da morte do "índio do buraco". O outro argumento é que se trataria de uma terra indígena sem indígena.

Teve uma reviravolta - que provavelmente não seguirá adiante, mas enfim. Quando o "índio do buraco" foi encontrado sem vida por Altair, o MPF de Vilhena solicitou a coleta de material genético para determinar a etnia do "índio do buraco". Ora, cultura não se classifica a partir da biologia. Na notícia que saiu domingo passado no Globo, o MPF Vilhena defende que há um outro povo que se autodenomina Guaratira/Tanaru que reivindica o território da TI Tanaru como seu território ancestral. Pena que não habitavam a TI Tanaru em caráter permanente, né.

A TI Tanaru é fruto de um acordo com fazendeiros - que contavam com a finitude do povo Tanaru. Com a criação do Parque Nacional, uma Unidade de Conservação Integral, está prevista a indenização aos fazendeiros pelas terras. Quando é criada uma Terra Indígena, reconhece-se o direito originário ao território, o que torna nulos todos os títulos de propriedade particular, porque a TI é terra da União. Assim sendo, quando é demarcada uma Terra Indígena, a indenização recai não sobre a terra, mas sobre as benfeitorias se for comprovada boa fé de quem ocupou terras indígenas. Ou seja, a criação do Parque Nacional gera indenização de terras (muito dinheiro) aos fazendeiros, a criação de Terra Indígena gera indenização apenas das benfeitorias - que não existem, porque a TI incide sobre a reserva de floresta das fazendas. É claro que o interesse na criação do Parque é maior - mesmo porque o que se quer é preservar a memória dos povos indígenas do rio Tanaru e sua resistência para sobreviver.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Aniversário conjunto

No ano passado, não conseguimos organizar a festa de aniversário da Agnes porque os finais de semana coincidiam com feriados ou com outras festas dos colegas de turma. Estivemos diante do dilema de fazer festa no dia 18, correndo risco de o pessoal viajar por causa do feriadão de Tiradentes, e fazer festa antes do aniversário dela, dia 11. Resolvemos alugar uma casa e a primeira que visitamos só tinha dia 11. A gente gostou da vibe da casa, cheia de frutíferas, plantadas por um agrônomo que logo se entendeu com a Agnes. Entre o meu aniversário (completei 48!) e o da Agnes (10 anos), o dia 11 pareceu um compromisso bacana. A festa com as crianças começaria às 14h. Como teve sábado letivo, o pessoal da escola dela chegou essa hora mesmo.

Fiz algumas viagens entre a casa da festa e a nossa casa pra buscar coisas e fiquei matutando como lidar com um arco enorme que a proprietária tinha dito que tinha. Se a festa fosse temática (sei lá, 10 anos ainda tem tema?), daria pra lugar capinhas, mas ninguém foi atrás disso. Numa das pendulações entre casa da festa e casa, passei numa loja de festa, pra ver se tinham as tais das capinhas. Não trabalhavam com isso há anos, mas a moça desenhou um arco e ficou pensando como preencher o vazio com coisas pendentes: balões, plantas, tecido. Lembrei de um lençol amarelo que eu tinha aposentado por ser muito justo na cama queen, peguei canetinhas e aproveitei o arco. 

O churrasco foi feito para os adultos - Altaci, Alessandra + Réverson e Rose. Conforme o pessoal foi chegando, alguns pais foram ficando.
Quando as crianças chegaram, se espalharam pela piscina, quadra, foram conhecer o pomar e os animais (patos e galinhas). Quase todas as crianças perguntaram se Agnes morava ali. A mãe do Milton ainda lembrava onde era o banheiro e me contou que tinha passado o Réveillon naquela casa. 
Tivemos ajuda de outras mães pra dispor os brigadeiros e o bolo. Luis ainda perguntou se acendia as velas antes ou depois de cantar parabéns e fomos tachados de pais que não sabem como funcionam festas de aniversário infantis (em Brasília), mas deu certo. Agnes curtiu a festa, não houve crise alguma, as pessoas saíram felizes e contentes, me dando parabéns. Aceitei os parabéns.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Momento histórico do passado

A reunião na manhã do dia 07 de abril, bem na hora da Marcha do ATL, era com lideranças Manchineri e Jaminawa e representantes da Coiab sobre a ausência da FUNAI na TI Cabeceira do Rio Acre e a presença incômoda, ao lado, da Estação Ecológica gerida pelo ICMBio. Na Unidade de Conservação, os indígenas não podem caçar, nem coletar a castanha que cai no chão. A maior preocupação era que o Parque está bem no meio da rota dos Mashko Piro, um grupo grande de indígenas isolados peruanos. Os Manchineri e os isolados são Yine e falam a mesma língua. 

Clica na imagem pra ver melhor

Reconheci Carlos Travassos, que se apresentou como consultor - mas já foi Coordenador Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato da Funai. No final da reunião, fui dizer a ele que eu lembrava dele da SBPC de 2014 que aconteceu no Acre, na UFAC. Eu tinha feito uma pergunta pra ele sobre povos isolados na área de impacto das usinas do Madeira. Luis e eu estávamos coletando material pro nosso filme e a resposta da Funai de que havia povos isolados ali perto de onde queriam construir a UHE Santo Antônio segurou o licenciamento até trocarem o chefe da Coordenação Regional (ou equivalente) que depois assinou uma certidão negativa.

Localizei o vídeo que eu fiz do Travassos falando do princípio da precaução e dos tempos tanto do empreendimento como da Funai para comprovar a presença de isolados.
 

Em julho de 2014 aconteceu o primeiro contato depois de 20 anos sem eventos de contato. Foi lá no Acre, no rio Xinane. Desconfio que Carlos Travassos e Txai Terry estavam ali na SBPC pra narrar esse contato.

domingo, 5 de abril de 2026

Páscoa no Cerrado

Depois de Agnes encontrar os ovos de Páscoa escondidos, nos preparamos para fazer uma trilha no Parque da Água Mineral.

Como as piscinas não estavam abertas, havia bem pouco público no Parque e nas trilhas. 

Esse foi o primeiro presente: a tranquilidade. O segundo foram os tesouros escondidos. Agnes e eu revezamos a máquina fotográfica e já não sei mais quem fez qual foto.





No total, fizemos 10km de trilha, um grande feito pra Agnes que ainda não completou 10 anos.