sexta-feira, 30 de abril de 2021

A capa do livro

Não sei se em outras editoras é diferente, mas, na EDUFRO, desde que eu assumi a gestão, a questão das capas gera uma hipersensibilidade. Outras questões também, do tipo: "essa coletânea foi escrita por professores de alto gabarito, vai mesmo mandar para avaliadores?"

Antes, o editor da EDUFRO dava boas-vindas a capas sugeridas pelos autores, porque era o que tinha. Quando comecei a contratar estagiárias matriculadas no curso de Artes Visuais, fiz questão de criar e manter uma identidade visual para as capas dos livros. Só que foram 3 estagiárias fazendo capas, cada uma com seu estilo. 

Não chegamos ainda na tal identidade visual, mas chegamos a dois padrões: no painel, da esquerda pra direita, de cima pra baixo, as capas 1, 2, 3, 5 e 16 seguem o padrão faixa sólida no meio para informações textuais. Nesse padrão, o fundo é composto por uma imagem que tenta se aproximar de uma tradução do conteúdo do livro e o destaque é para o título. Já as capas 4, 6, 7, 8, 9, 11, 13 e 14 seguem o padrão em que a imagem tem mais destaque que o título. A imagem é única, enigmática, mas simboliza o conteúdo do livro. A capa 15 é uma fusão entre fundo e figura, a capa 12 era sugestão dos organizadores e foi aceita e as capas 10 e 18 são da Leidijane - que inspirou o padrão para as outras estagiárias, mas como esse padrão evoluiu, ela mesma não o seguiu.

Essa foi a primeira capa que Leidijane fez. A imagem é tão abstrata, que permite várias interpretações: rios que seguem cursos paralelos, diferentes linhas que seguem o mesmo caminho... Jôsy tentou imitar esse padrão na capa 6; na capa 8 surgiu a linha de contraste pra ressaltar o título, na capa 7 a linha foi quebrada, na capa 4 as linhas se juntaram e na capa 2 virou um bloco sólido. Vitória, que acompanhou essa evolução da Jôsy, fez dos dois padrões: 1, 3, 5, 9, 11 e 13 a 16. Por fim, capa 17 é do Edison, professor e mentor de todas as estagiárias que acompanhei.

No momento, estou sem estagiária. Porque, depois que a Leidaiane saiu, demorou até que se chegasse ao entendimento que a EDUFRO pode lançar edital de seleção de estagiário em separado da Reitoria, demorou porque a portaria que nomeia a comissão de seleção tardou a sair, porque os trâmites podem se arrastar, já que as contratações foram suspensas devido à descontinuidade do contrato de seguro de vida dos estagiários. Uma novela. 

Só que a editora recebeu 13 livros pra publicar fast-track. São livros produzidos no âmbito da Pós-Graduação da UNIR (só 1 não é coletânea) e advindos de programas que precisam melhorar sua nota de avaliação junto à CAPES. Como esses livros não entraram no fluxo normal, mas foram avaliados pela PROPESQ, o Conselho Editorial da EDUFRO decidiu criar uma coleção só para esses livros. Coleção Pós-Graduação da UNIR. Assim esses 13 se diferenciariam dos livros do catálogo. 

Algumas editoras criaram coleções que entraram pra história: da Coleção Primeiros Passos, por exemplo, eu nem lembro o nome da editora - mas lembro da coleção. A editora Perspectiva, por exemplo, tem uma Coleção Debates que se reconhece pela capa. Outra maneira de marcar a coleção é criando uma logo para a coleção, como a Unesp faz no caso da Coleção Arte e Educação. No caso da Unesp ainda, a curadoria da Coleção Biblioteca de Filosofia vai assinada por Marilena Chauí - na capa.

E a EDUFRO sem capista pra pensar as capas dessa coleção. Na imagem do painel acima, falta 1 capa, mas ela é similar à capa 6, só que em verde. A empresa terceirizada contratada pra diagramar os livros assumiu a tarefa de fazer as capas. Acho que só 3 propostas da gráfica foram aceitas de pronto pelos organizadores, todas as outras foram trocadas, daí que algumas parecem repetidas. E de repente alguém lembrou de uma regra da ABNT de escrever o nome de siglas por extenso na primeira vez que as siglas aparecem. Regra tão básica, deve servir para todos os contextos, inclusive nomes, certo? Eis que na folha de rosto e na ficha catalográfica constava Coleção Pós-Graduação da UNIR e na capa constava Coleção Pós-Graduação da Universidade Federal de Rondônia - sem a sigla: UNIR. 

Essa é a quarta vez que organizadoras de livros disputam capas com a editora. Mesmo depois de termos colocado no contrato de cessão de direitos autorais uma cláusula que estabelece que a capa é responsabilidade da editora. Nas outras vezes, era porque já tinham uma capa pronta que a EDUFRO rejeitava. Chegamos a oferecer mais de uma versão em alguns casos, mas sempre com muita tensão. Dessa vez o nó foi o nome da coleção que o Conselho Editorial criou - e que foi alterado na capa. 

Capas são importantes mesmo para livros que não são comercializados. O que uma editora pode fazer pelos autores (além de promover e distribuir o livro), é avaliar o livro (e não o currículo dos autores) e dar uma forma ao texto. O autor é responsável pelo texto; a editora normaliza o texto, coloca-o numa forma padronizada, e o embala numa capa, lombada, contracapa e orelhas.

domingo, 25 de abril de 2021

Do outro lado do rio

Estão anunciando uma friagem. Esse costuma ser o ponto da virada: o início do fim do isolamento do Maravilha. A estrada por trás já tem menos rios atravessando a via, as chuvas vão minguando e logo o Madeira começa a baixar. Aí a estrada da beira volta a ser trafegável e volta o movimento na beira.

Primeiro foi um tracajá filhote que saiu desse brejo. Depois vieram relatos de jacaré e sucuri. Enquanto eu ficava assustada, Luis e Damián ficavam satisfeitos: sinal que o brejo está vivo.

Enquanto ele oferecia minhocas num anzol que mais parecia um garfo, Agnes brincava com os gatos, cachorros, galinhas. Pediu água pra Íris e agradeceu pela água miReNal. Eu fui levar nossa compostagem pras galinhas e ver o que tinha nos ninhos.


Aqui foram jogadas as sementes de cupuaçu.
E aqui estão as cascas. As polpas estão no freezer ;]

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Amodeio

Acho que precisamos lavar as paredes. Devem ter absorvido tantos gritos e batidas de porta que devolvem ar de prisão.

Quando saímos com Agnes, nem que seja pra tomar a vacina da gripe, ela diz: te amo, mãe. Quando chegamos em casa, ela diz: eu te odeio!

Em casa, nós dois adultos nos fechamos na frente do computador, somos sugados pelo celular, pelas tarefas domésticas. Lá fora, toda a nossa atenção é dedicada à criança. 

A pandemia nos trouxe essa nova palavra, que Agnes anotou num papel (que eu perdi de vista num dos vários sambaquis de papel espalhados pela casa): AMODEIO.

terça-feira, 20 de abril de 2021

LingComm21

Estamos participando do LingComm21. "Nós" quer dizer umas 200 pessoas no total, sendo 5 brasileiros. Raquel Freitag, vice-presidente da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística) nos (os brasileiros) identificou nominalmente na fala de abertura dela. O evento é sobre comunicação linguística (science communication) que traduziríamos como divulgação científica (da Linguística) ou popularização da Linguística. As idealizadoras do evento, Gretchen McCulloch e Lauren Gawne, apresentam um podcast mensal de linguística chamado Lingthusiasm... desde 2016.

Raquel mencionou a iniciativa de maior sucesso da ABRALIN, a série de conferências Abralin Ao Vivo, a explosão de divulgadores da linguística durante a pandemia - principalmente no Instagram - e o fato de não termos grande repercussão internacional em português (nem no Instagram, porque os falantes de inglês são mais adeptos do Twitter).

A plataforma em que o evento online se desenrola é o Gather, que é uma aventura à parte. Parece um videogame: temos um avatar, nos movimentamos em 2D pra cima, baixo, esquerda e direita num cenário que imita um congresso: sala principal, salas menores, há mapas, cadeiras, sala de pôsteres, café. Quando nos aproximamos de outra figurinha (com nome), aparece o vídeo da pessoa e podemos conversar. O Gather suporta muitas conversas paralelas, mas não lida muito bem com mais de 5 pessoas conversando no mesmo lugar. 

No primeiro dia, sentei numa mesa vazia na sala principal. O pessoal foi chegando e lá estávamos Vitor, Luana e eu conversando em português. Chegou uma moça chamada Bri que faz a Encyclopedia Briannica e passamos a conversar em inglês. Acabei não conseguindo acompanhar as sessões seguintes por causa das demandas domésticas.

Hoje foi dia de apresentar poster. O meu era sobre o LingPop, uma iniciativa da ABRALIN de criar um site para expor peças multimídia de popularização linguística (podcasts, vídeos, imagens, infográficos etc.). Não se trata de produzir conteúdo de popularização, mas de organizar e expor, tipo uma curadoria. Me surpreendi com o número de pessoas que vieram saber o que era o LingPop e com as perguntas e comentários pertinentes, afinal, grande parte do público faz divulgação linguística. A cada visita nova, as conversas anteriores eram tecidas pra dentro da minha fala. Acho que saí da sessão de pôster enxergando melhor o LingPop que antes das conversas todas que tive. Achei super bacana que as duas organizadoras do evento vieram me ver também e quiseram saber o que eu tinha pra dizer. Eventos pequenos com público mais homogêneo são muito legais, lembro do CCO de 2018 em que me senti muito acolhida.

Mais uma vez não deu pra ficar até o final. A bicicletaria ligou informando que tinham montado a bicicleta que tinha vindo pelo correio. Agnes e eu fomos lá, buscar o presente de aniversário atrasado - e testar a bicicleta nova, claro!

sábado, 17 de abril de 2021

Retalhos

Andorinhas: se juntam e dispersam

There is no way out, only through

 

O ar-condicionado da sala começou a pingar dentro da sala. Sinal de que precisa mandar pra manutenção. O normal é que se faça limpeza a cada 6 meses. O ar da sala foi instalado há quase um ano e meio e não passou por manutenção ainda. Só que agora, com esses números de casos e óbitos, não vamos chamar o técnico. Vamos economizar energia.


Falta a nação acender seu candeeiro

 

Foi mais de uma vez que entrei de máscara na piscina. Foi Agnes que me chamou atenção. Uso máscara como quem usa óculos. Mas não é isso que eu observo nos outros, que usam a máscara no queixo.

 

O verdadeiro inimigo é a vulgaridade do coração humano

 

Recebi mensagem por whatsapp de alguém que repassava fake news do ano passado. Junto com essa, havia outra, sobre exigir tratamento precoce e tomar invermectina. Respondi sinalizando e destacando a data de 2020, achando que evidenciava que isso era notícia velha (além de falsa). A resposta foi a reafirmação da invermectina (remédio pra verme).

 

Se você se depara com algo ofensivo

você é obrigado a adotar postura defensiva.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

5 completos

 

5 anos! A bicicleta ainda não chegou pelos correios, mas teve balão gigante com balas e bolas dentro, muitos balões coloridos, bolo de morango e presentinhos atendendo a pedidos: mais importante que a bicicleta, foi ganhar o "cuco-lelê" (violãozim) que ela pediu e estourar o balão.

Da família, Agnes ganhou mensagens de texto, de voz, flores fotografadas e carinhas felizes. Na pandemia, essa foi a festa que deu pra fazer.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Livro-convite

 

Eu queria fazer colagens, então destacamos folhas coloridas de um bloco. Fui cortando ao meio, dobrando, recortando e colando. 

Ela entendia as folhas A5 como convites e foi desenhando, escrevendo histórias, colando papéis com durex. Pra ela, convites são muito importantes, porque culminam em festas. E o que ela mais quer é festa. Pra mim, a estrutura convidava para fazer um livro.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Análise da conversação

Era domingo, 15h ou 16h horas, sol forte. O som veio na frente, a carreata chegou depois, serpenteando pela avenida. Uma voz masculina gritava no microfone:

Acorda, Porto Velho! Viemos fazer muito barulho!!! Venham até as janelas, vamos buzinar!!

Carros com a bandeira do Brasil no teto, muita buzina e o fato de ser domingo já me posicionaram acerca da autoria da manifestação. Uma voz feminina ao microfone mencionou o decreto de ontem que proibia cultos. Bingo. Conforme a carreata avançava, entendi que havia dois carros de som: um aqui embaixo, outro lá na frente. A voz ao microfone lá na frente anunciava que faria uma oração. A voz daqui debaixo explicava:

Pessoal, o diretor avisou que vai fazer uma oração em frente ao CPA. 

O pastor no microfone em frente ao CPA esperou a voz no outro microfone se calar para iniciar a oração, mas o pastor do microfone aqui embaixo entrou numa corrente:

Vereador: foi Deus quem fez. Prefeito: foi Deus quem fez. Governador: foi Deus quem fez. E o presidente: foi Deus quem escolheu. 

Numa pausa de efeito, outra voz (que eu reconheci) saiu da janela e atravessou a oração iniciada lá na frente e o silêncio de milissegundos aqui em baixo:

GENOCIDA! BOLSONARO GENOCIDA!

E seguiram: um pastor ignorando solenemente a oração do outro, ambos ignorando o protesto. Não havia diálogo porque não havia escuta, não havia outro. Cada um emitia seus sinais.

domingo, 11 de abril de 2021

Pequena fotógrafa

As fotos que Agnes faz podem nos parecer aleatórias. Muitas são muito repetidas, algumas desfocadas. Mas os recortes que ela faz eu acho poéticos.









Eu assumo o papel de editora: escolho as melhores e publico.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Queijo suave

Agnes gosta de queijo em forma de bolinhas (pode ser mussarela) e em formato de tubo (queijo cavalo), mas ela gosta mesmo é do queijo coalho grelhado. 

Aí ela começou a pedir queijo suave. Como ela aceitava o que quer que a gente oferecesse, o queijo suave podiam ser muitos tipos de queijo. Só que ela especificou: 

Queijo SUAVE, mãe. 

Não é esse?

É com ALHO que eu quero.

Queijo suave com alho... É queijo coalho?

É queijo frito!

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Cupuaçu delivery

Jairo mandou fotos do freezer lotado de polpa de cupuaçu. Perguntou se não podíamos levar na feirinha do MAB, pra Cleide vender. Cleide respondeu que o freezer dela tava ruim, e que levar na feira correria o risco de não vender e perder.

Consultei os amigos. Dei o preço do Jairo. Cupuaçu orgânico, tirado na tesoura, sem água, 2 kg. Muitos pediram 1, outros já planejaram doces, cremes, sorvetes e pediram mais. Daqui a pouco eu tava traçando rotas de entrega na cidade. Eu já tinha ido uma vez na casa de todos, mas confesso que me perdi na zona leste. Voltei pra casa com o isopor vazio, contente de ter visto as pessoas, ganhado um livro e ter levado o melhor cupuaçu pros amigos. Aliviou um pouco o freezer e recompensou o trabalho da Iris.

Hoje eu ia de novo no sítio: tinha encomenda. Mas o Preto avisou que o rio Madeira invadiu a Estrada da Beira lá no quebra-pedra e não tinha como chegar no sítio (nem no cupuaçu) de carro. Amazônia é isso: uma adaptação ao tempo.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Segundo aniversário na pandemia

Meus aniversários costumavam ser festas. Quando fui morar na Oca, o meu aniversário foi o primeiro evento da república. E desde então muita gente lembra dessa data - mesmo que não recorde bem a que ela refere. Quando vim pra Porto Velho, meus aniversários continuaram a ser festas. Mais pessoas passaram a lembrar da data. Mas durante a quarentena, não dá pra festejar. Hoje faleceu o colega Tenório. A morte dele passa a fazer parte da minha contagem pessoal da passagem dos anos. Agora são 43.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Resumo

Nós, professores de Letras, damos aula de Língua Portuguesa em diversos cursos da universidade. Quando dei aula na Medicina, passei por uma experiência exemplar que - se não servir de exemplo, serve como anedota. 

Eu tinha pedido aos alunos que resumissem o texto do pintor daltônico de Oliver Sacks (capítulo de Um antropólogo em Marte). Era o caso clínico de um homem que tinha sofrido um acidente e que depois do episódio passou a ver o mundo em preto e branco (e tons de cinza). Esse homem pintava quadros abstratos, portanto estava acostumado a expressar-se através de cores e formas. O médico entendeu que o caso não era exatamente de daltonismo (uma deformação cromossômica), porque era adquirido (através de lesão) e fugia do padrão "confusão de cores". Além de estudar o sistema visual, o neurologista passou a estudar teoria das cores e experimentar óculos com lentes coloridas e outras soluções. 

Eu, que achava que receberia 50 resumos iguais ou parecidos, fui surpreendida com o seguinte padrão de respostas:

Um terço da turma se identificou com o sofrimento do paciente (em parte, talvez, por terem tido um histórico pessoal de internações hospitalares significativo). A dificuldade de exercer o ofício - nos quadros novos, as cores estavam todas fora de lugar -, o desânimo de comer e beber alimentos cinzas, que pareciam mortos, o abismo que a nova situação abria ganharam tal destaque nos resumos, que parecia que o texto tinha sido narrado do ponto de vista do paciente.

Outro terço da turma se identificou com o trabalho investigativo do médico, com a dinâmica exigida no processo e com os avanços e retrocessos do acompanhamento do paciente. O paciente aparecia como mero paciente nesses resumos, não como sujeito.

O terceiro terço da turma apresentou um resumo do texto do Oliver Sacks. Não uma miniatura do texto original, nem resumos de partes, mas uma recontagem equilibrada da história.

Se num fichamento podemos escolher recortar e colar trechos que nos são significativos, no resumo é preciso considerar o texto todo.