quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A raia e o raio

 

A caminho da escola, Agnes quis me contar a história da raia que terá filhotes sem ter tido contato com macho da mesma espécie, já que divide o aquário com tubarões.

- A minha hipótese é que os donos do aquário tinham um ... um ... raio? Eles tinham uma raia macha. 

Nem deu pra formular a hipótese, porque eu quase morri de rir com o raio da arraia macha.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Restituição de artefatos museológicos

Até o século XVIII, as monarquias europeias ostentavam "gabinetes de curiosidades", "quartos de maravilhas" em que souvenires do império eram expostos em coleções de objetos extravagantes. Essas exposições de objetos exóticos trazidos das colônias, das guerras ou das viagens de exploração mais tarde foram convertidas nos Museus Nacionais. É por isso que a Mona Lisa está no Louvre, na França, e não na Itália; é por isso que a pedra de Rosetta está no British Museum e não no Egito; que o busto de Nefertiti está em Berlin e não em Tebas; e o manto tupinambá está em Copenhagen, Dinamarca. Esses "museus universais", como Françoise Vergès os chama (o livro pela editora Ubu está a caminho) se consideram guardiãos da cultura geral: mostram objetos culturais completamente diferentes da cultura em que o museu nacional está inserido. Em tempos decoloniais, tem-se questionado que poder é esse que os museus têm de mostrar o que roubaram, de mostrar o que não pertence ao povo local - e pode ser sagrado/segredo para as culturas que produziram os artefatos.

A minha história começa com a minha entrada no GT de repatriação do manto tupinambá do Museu Nacional da Dinamarca (Nationalmuseet) para o Museu Nacional (MN) no Rio de Janeiro. Como o meu chefe imediato é o coordenador do GT, eu passei a secretariar as reuniões. Foi através da fala do antropólogo e curador de etnologia do MN, João Pacheco de Oliveira, que eu entendi que o manto tupinambá tem aproximadamente 400 anos de idade, fica exposto em condições de umidade e temperatura do ar específicas e demanda muitos cuidados no transporte (não pode ser manipulado, precisa ficar na vertical). Foi pela fala da Glicéria Tupinambá que eu entendi o que significa o manto para os tupinambás, que estão em processo de retomada de sua cultura. Quando Glicéria viu o manto no Nationalmuseet, ela queria saber como ele é feito, já que os tupinambás não fazem mais mantos. Ela diz que o manto conversou com ela. Assim como o rio é um avô para Ailton Krenak, o manto é parente da Glicéria Tupinambá. Numa das reuniões do GT, Daiara Tukano falou de sua experiência e seus estudos: ela estima que 80% dos artefatos tukano em museus estão no exterior. Ano passado quase fomos ao Rio de Janeiro, fazer uma visita técnica ao Museu Nacional (lembra que ele pegou fogo em 2018), para ver como estão as condições do MN de receber essa peça. 

O Nationalmuseet expõe apenas um manto: esse da foto. Outros 4 mantos ficam armazenados em caixas metálicas na reserva técnica - o público não tem acesso. Além do Museu Nacional da Dinamarca, outros museus europeus possuem mantos tupinambás: Bruxelas (Bélgica); Florença e Milão (Itália); Basileia (Suíça) e Paris (França). No total, 11 mantos tupinambás estão espalhados em museus europeus, mas só um será repatriado: aquele que está exposto no Natoinalmuseet e que, em 2000, fez parte de uma exposição itinerante chamada Mostra do Redescobrimento: Brasil + 500. Essa Mostra rodou 13 capitais brasileiras, NY e Paris. 

Amotara Tupinambá viu o manto em São Paulo, no ano 2000. Reivindicou a repatriação do manto, mas não aconteceu nada. Em 2021, o Embaixador do Brasil na Dinamarca viu o manto no Nationalmuseet e como embaixador formalizou o pedido de repatriação. Ao pedido oficializado em 2022, juntou duas cartas: uma assinada pela Cacica Valdelice, filha de Amotara; a outra assinada pelo cacique Babau, irmão da Glicéria. O Nationalmuseet doou este um manto (manterá os outros quatro) ao Ministério da Cultura. Em maio de 2023, o Ministro da Cultura autorizou o retorno do manto ao Brasil. Como se trata de uma relíquia que envolve cuidados técnicos, o manto será recepcionado pelo Museu Nacional.

Os tupinambás não fazem questão de guardar/conservar o manto. Isso é diferente dos krahô, que pediram a restituição da machadinha que consideram sagrada. O Museu Paulista não devolveu a machadinha, mas assinou um termo de comodato com os krahô. O argumento do museu para não doar a machadinha era que isso mutilaria o acervo. Os krahô não têm a posse, mas usam e conservam a machadinha em rituais. E a machadinha não foi degradada por estar em território indígena.

Um dia tocou o meu telefone lá no MPI. Era a Embaixada do Japão querendo marcar reunião ainda naquela semana com o meu chefe porque ele coordena o GT de repatriação do manto. Tive que perguntar muito pra muitas pessoas até entender a história. Só depois que voltamos da Embaixada do Japão é que percebemos o que estava acontecendo (eles mandaram o link do museu japonês). Um milionário japonês esteve na Amazônia 40 anos atrás e montou um museu particular no Japão com artefatos indígenas. Esse museu fechou 10 anos atrás e os filhos desse milionário (talvez ele tenha morrido) estão interessados em doar o acervo indígena ao Brasil. Provavelmente vamos ter que criar outro GT para identificar as peças, contactar os povos que as fizeram, entender o significado que eles atribuem aos objetos. Na reunião com o secretário do Embaixador, a Chirley Pankará lembrou da repatriação do sangue yanomami. 

Em 2015, o sangue coletado nos anos 70 sem autorização foi repatriado dos Estados Unidos. Os yanomami fizeram um ritual e enterraram os frascos na aldeia. Eles não tinham interesse em expor ou usar o material repatriado. Chirley queria explicar, através desse exemplo, que os povos indígenas é que decidem o que é feito com os objetos expropriados no passado e repatriados anos depois. A restituição significa um reencontro do povo com sua ancestralidade.

O Brasil não devolveu ao Paraguay o canhão El Cristiano que entende como troféu de guerra. Os paraguaios o consideram como herói da Guerra do Paraguay e o reivindicam desde 1870.