sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Fechando o ano com publicações

Eu tinha submetido um texto parecido com outro em 2020. Hoje em dia não se fala mais em autoplágio, mas de reciclagem, porque existe uma lógica (manter a coerência consigo mesmo) nisso. Os dois textos compartilhavam o mesmo corpus, mas propunham análises diferentes. O corpus era formado de construções de tópico-comentário recolhidas no Jornal Nacional. No primeiro texto, publicado na CadLin, analisei principalmente as formas sintáticas das construções de tópico e vinculei cada forma a um tipo de falante no Jornal Nacional.

apresentadores - anacoluto

repórteres - topicalização e anacoluto

entrevistados - deslocamento à esquerda com pronome-cópia

Os apresentadores são aqueles que leem o teleprompter. Nessa fala lida, não foram encontradas construções de tópico, mas eles entrevistaram, por exemplo, os candidatos a presidente e conversaram entre si. Na fala deles, apareceram construções como (tópico em negrito):  

Pergunta. O senhor pretende levar para o Brasil inteiro esse modelo de concessão de estradas estaduais de São Paulo?

Os repórteres produziam muitos anacolutos, mas também topicalização, em que o tópico poderia ser inserido no comentário tranquilamente:  

Botar Messi na roda. Muita gente já tentou *, mas até agora o resultado foi esse (imagem de Messi comemorando).

Os entrevistados produziram, em sua maioria, deslocamentos (o sujeito sai da sentença, é movido pra posição de tópico e um pronome é gerado no lugar do sujeito - uma abordagem bem gerativista):  

A convenção de Haia, ela tem exceções.

O outro texto, que submeti em 2020 na Revista Investigações, pretendia fazer a relação entre as formas das construções de tópico (anacoluto, topicalização e deslocamento à esquerda) com as funções que o tópico estabelece em relação ao comentário. Quem faz esse tipo de coisa? Funcionalista acredita no pareamento entre forma e função.

O texto submetido na Investigações foi avaliado por pareceristas que leram o meu texto na CadLin e pediram que as partes iguais fossem alteradas. A editora da Revista Investigações me deu a chance de reformular o texto e então eu tomei o texto da CadLin como referência pra desdobrar a análise da forma e função. A nova versão, submetida em 2021, foi reavaliada e aceita pelos pareceristas. No final de 2021 a editora avisou que o texto não caberia mais na edição daquele ano, que o texto sairia em 2022. Saiu anteontem. 28 de dezembro.

* * *

Outra publicação no final de 2022 foi a entrevista com a Kory Stamper, que saiu hoje. Eu já tinha publicado a entrevista com a Arika Okrent na mesma revista, então o processo todo se deu de maneira muito mais acelerada (11 dias entre submissão e publicação, e isso com 3 avaliações!!!).

Uau, hein? Duas publicações na reta final do ano...

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Avatar 2

Vimos Avatar: o caminho da água dublado e em 2D (porque alguéns não curte os óculos de 3D). Quando o filme terminou, Agnes disse em alto e bom som no cinema lotado: "gostei mais do 1". 

Pois é...

A história do 1 era sobre a humanidade, sobre a ganância de uns poucos e a comunhão com Gaia pela maioria. Havia ali soluções inusitadas para o enredo. Nesse filme 2, a história é menos importante que a imersão nas imagens. E é imersão mesmo, por causa da tecnologia de filmar na água.

Isso é o que me surpreende: são 3 horas e 12 minutos de filme em que os nossos sentidos (visuais) são chamados à flor da pele. A história, em contraposição à do 1, recua do coletivo para o individual, familiar. Se antes era Pandora como um todo que estava em risco, agora o alvo é um indivíduo que é caçado por motivos pessoais (traição). Esse indivíduo (o protagonista do 1) agora tem uma família e decide fugir com os seus. O alvo se move, muda o cenário, mas Hollywood com sua violência estetizada segue no encalço. Flechas contra armas de fogo. Mira certeira contra tiros abundantes ao léu.

Cinema é tecnologia, sim, mas não só. Os temas da família e paternidade estão na moda, sim, mas tudo se dá dentro dos padrões. Moving pictures talvez seja uma definição justa: imagens que se movem. Avatar 2 parece um quadro em movimento. A história que o quadro conta é altamente previsível e americana (self-made man).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Amazonizar-se

Quando terminei de ler o último livro da Eliane Brum (2021),  apareceu outro dela (2014) na minha escrivaninha (Meus desacontecimentos). Agora preciso dar um tempo de tanta emoção à flor da página.

Eliane Brum, descendente de italianos, gaúcha e moradora de São Paulo se sente chamada pela Amazônia e resolve mudar-se pra Altamira. A cidade mais violenta, a cidade com estrias de expansão acelerada por causa das obras de Belo Monte, a cidade que devora a floresta. Quem mora em cidades consolidadas tem a impressão de que a cidade sempre foi assim, só mudam as lojas. Quem vai pra Altamira percebe que onde é cimento antes era floresta: "uma cidade moderna é, por definição, uma ruína da natureza" (p. 210). Onde havia indígenas, agora há pobres de periferia, refugiados em seu próprio país.

A partir do olhar de Greta Thunberg, Eliane Brum presta atenção nas crianças e nos jovens, filhos desses deflorestados, desterritorializados que perderam seu modo de vida e seu futuro. Que futuro terão os filhos desses adultos? 

Na análise da jornalista, Trump e Bolsonaro não têm um futuro para oferecer, porque o futuro é colapso climático - que eles se esforçam para negar, já que esse futuro é ruim. Vendem então um passado que nunca existiu.

"Òkòtó é um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pião. A cada revolução, amplia-se 'mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito'." (p. 338) Pois é, assim como no outro livro, a definição do título aparece lá pro final do livro...

Achei bom passar por essa imersão, mas não sei identificar a escritora. 

O texto é uma construção. Percebo na jornalista a compulsão pela escrita, mas não enxergo engenhosidade na forma do texto. É um jornalismo diferente, que contém a sensibilidade da escuta, a relação de quem escuta com quem lê e a mediação entre mundos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Curtinho

Cheguei no salão com o cabelo preso num coque. O cabeleireiro perguntou, com ar zombeteiro, se eu queria cortar curtinho. Eu disse que sim e mostrei uma foto de mim mesma com cabelo curto. Ele tirou a piranha do meu cabelo e teve dó de cortá-lo: seu cabelo é bonito, por que quer cortar?

Lavou o cabelo, secou, botou o pano em volta do meu pescoço e perguntou se eu não queria um corte chanel. Não. Mas eu vou só te mostrar como ficaria, ok? Não gostei. Resignado, cortou mais. Quase fiquei com medo que ficasse curto demais.

No fim, ele disse que tinha ficado melhor curto mesmo. Ficou curioso em relação às raízes brancas. Isso eu resolvo em casa. Mas o que você usa? Henna. Ficou chocado: ainda existe? Tem que pedir pelo correio, mas existe, uai.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Variantes regionais

Na prova de Morfologia desse ano, uma das questões envolvia perceber conjuntos. Vou mostrar:

casarão       livrinho           coxinha              boiada

salão           copinho          canetinha           macacada

roupão        golfinho          camisinha          bananada

cartão          moedinha       borrachinha       meninada

quentão       florzinha         quentinha          martelada

No primeiro conjunto, 'casarão' era a única palavra que estava simplesmente no aumentativo. É a única palavra em que a soma das partes (casa + aumentativo) resulta de uma lógica interna (casarão = casa grande). Salão não é necessariamente uma sala grande, remete antes a um lugar em que se corta cabelo, pinta unhas etc. O roupão também não é uma roupa grande, ou seja, é uma palavra nova (também ela remete a uma peça de vestuário). O cartão não é uma carta grande, mas um objeto talvez até menor que uma carta. Por fim, o quentão não é um quente grande (vai saber...), mas uma bebida. Ou seja, todos os elementos na lista (exceto casarão) são não composicionais (1+1 dá uma terceira coisa, uma nova palavra).

Na segunda coluna, o 'golfinho' não é diminutivo, como as outras palavras. Até aqui tudo bem. 

O drama começa com as competições entre variantes. Especialmente na coluna da 'coxinha', um monte de gente não sabia se a palavra que não se encaixava no padrão das demais (mais um caso de lexicalização, só que dessa vez a estratégia é o diminutivo não-composicional) era a 'borrachinha' (que parecia ser um nome de alguma coisa) ou a 'canetinha' (que é só uma caneta pequena). Eu perguntei pra eles como chama aquilo que vem na lista de papelaria (olha eu antecipando gastos no início do ano) que as escolas mandam. Silêncio. Aquilo que tem tinta e é colorido. Hidrocor, professora. Não é 'canetinha'? 

Lembrei imediatamente da minha defesa de tese, em que uma das arguidoras (Ester Scarpa, a mãe de R, a criança cuja fala estudei) apontou para uma transcrição de dado: Raquel não fala chiclé. No dialeto dela é chiclete. De onde surgiu esse chiclé? Nem sei... terei sido eu transportada pra minha infância?

Na última coluna, mais uma surpresa. Todas as palavras terminam com o mesmo sufixo, mas -ada não tem o mesmo valor em todas elas. Mais de uma pessoa marcou 'boiada' porque entendeu a palavra como adjetivo ou verbo no particípio: ela não entendeu nada, ficou boiada. Mas a pessoa não fica 'boiando'? Não, professora, fica 'rodada', 'boiada'. E eu achando que a 'martelada' era tão óbvia... não contava com essa variedade de expressões.

Conclusão: na hora da prova, tanto o professor como os alunos são postos à prova: o que é universal? O que posso testar? O que aprendi?

sábado, 17 de dezembro de 2022

Apresentação de teatro

Ontem teve ensaio geral. Decidiram que precisava de mais um ensaio, então hoje, no dia da apresentação, teve ensaio de manhã e apresentação de noite.

A peça era uma adaptação do filme Divertida Mente, em que as emoções de uma menina são personagens importantes. Agnes, a extrovertida, ficou com o papel de Tristeza e Luiza, tímida, ficou com o papel de Alegria. 

Em inglês, há uma associação entre blue e tristeza, então Agnes tinha que ficar Avatar (ou Smurfete).

A apresentação foi bem melhor que os ensaios (ufa!)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Pesadelo

Essa noite, os três tiveram pesadelos. Eu tive o meu, Agnes deu voz aos dela e Luis deu movimento aos dele. No meu sonho entrecortado por gritos que vinham de um lado e braçadas que desciam do outro lado, eu empilhava caixas vazias. Eu tinha medo que fossem derrubadas, eu sabia que eram só aparência, eu temia que as pilhas não fossem estáveis.

Ontem matriculamos Agnes no 1º ano do Fundamental numa escola tradicional. Mesmo que a escolinha em que ela está (que não continua para além do 1º ano) tenha dito que ela está apta para cursar o 2º ano, percebemos que a alfabetização foi um processo muito instável e entrecortado.

Mesmo convicta de que tomamos a melhor decisão pela educação escolar dela, meu inconsciente compara a formação que eu recebi à que eu estou conseguindo oferecer a ela.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Bodas de cerâmica

Meus pais é que lembraram que hoje Luis e eu completamos 9 anos de casados.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Inteligência prática

Quando quis sair do carro, depois de chegar na garagem de casa, a porta não abria. Apertei o botão das trancas do carro, tentei abrir de novo, apertei mais uma vez, mas não consegui abrir a porta de dentro. Como sair do carro? Com ginástica e contorcionismo, saí pela porta do passageiro. Dei a volta no carro, abri a porta do motorista, entrei, mas não abria por dentro. Mais contorcionismo pra sair pelo lado do passageiro.

Depois de conversar com o Luis, decidimos que esse problema tinha que ser resolvido prontamente. Fui na autoelétrica que resolve a maioria dos nossos problemas. Estacionei, fiz ginástica pra sair pela porta do passageiro e me disseram que não tinham essa peça. Indicou duas oficinas.

Fui na primeira, estacionei no fim da fila, contorcionei o corpo pro assento do passageiro e saí pela porta de lá. Tem, sim, mas só faz o favor de estacionar o carro na outra ponta ali. Entrei no carro, fiz o retorno na avenida, vi o rapaz acenando pra mim na esquina e estacionei. Até tentei abrir a porta por dentro, mas não funcionou. Os dois atendentes - que já sabiam que eu não conseguia abrir a porta - estavam do lado do motorista, esperando eu sair. E eu saí com agilidade adquirida pela porta do passageiro.

- Que ano que é o carro? Ih, não vai ter a peça igual, essa aqui é mais fosca, a tua é mais brilhosa. 

- Cara, eu quero poder sair por essa porta e não pela outra. Se essa for a única diferença, então pode trocar. 

- Tá, só vou colocar o carro um pouco mais pra frente. 

Ele entrou no carro, fechou a porta, subiu as rodas nos trilhos, avançou e parou. Eu fiquei esperando ele sair pela porta do passageiro, confesso. Só que ele abriu a janela, esticou a mão, abriu a porta por fora e saiu. 

Eu dei risada. Como é que eu não pensei nisso? Tava chovendo, a senhora ia molhar.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Eu - a língua - o outro

Rosa Attié Fiqgueira (2001) explora a fala da criança à luz da teorização de Claudia Lemos, de acordo com a qual a criança não "se apropria da língua", não a "domina", mas se relaciona com ela. Essa relação se dá de três maneiras diferentes, não cronologicamente determinadas: relação com a fala do outro, relação com a língua e relação com a própria fala. Nesse artigo, sobre marcas insólitas de gênero, Rosa analisa principalmente dados em que a criança reflete sobre a língua. Por exemplo, a mãe diz: "você é um barato!" e a menina corrige: "barata, mãe, barata." No outro dado, o apresentador na TV diz Bom dia, ao que a menina responde "Bom dio" - e a irmã explica: "Bom dia é pra mulher e bom dio é pra homem." Em outro, a mãe lamenta que formou um galo e a menina retruca: "não é galo, é galinha". Em todos esses episódios, a criança ajusta o gênero gramatical ao seu sexo: eu sou menina e pequena, então tudo que me descreve tem que terminar em -a ou -inha (e não importa que a barata e a galinha sejam outra coisa no mundo ou que dio não exista). A criança, em processo de subjetivação, ajusta a língua à sua identidade. Não surpreende que a língua não-binária pretende fazer esse ajuste identitário também.

*

O real é o que é. A verdade é o que dizemos do real, ou seja, um recorte do que conseguimos perceber. Nosso acesso ao real é mediado pela língua. Pós-verdade tem a ver com a percepção de que a verdade é construída. Para Cesarino,

[...] à medida que o storytelling começa a passar cada vez mais pela infraestrutura acelerada e não-linear das novas mídias e sua economia de atenção, a linearização das narrativas coletivas, propiciada pela estabilidade dos metaenquadramentos e da confiança social a ela associada [ciência, imprensa profissional], vai se desfazendo. Intensifica-se, com isso, o colapso de contextos entre fato e ficção e as pessoas passam a entender e explicar fenômenos da "vida real" cada vez mais por meio de narrativas absorvidas nessas mídias. [...] quem vende melhor suas estórias, consegue levar seus fatos mais longe." (Cesarino, 2022, p. 225)

*

Quando fui jurada do Prêmio ABEU 2022, me deram a tarefa de avaliar 38 livros e escolher os dois melhores. Eu e mais dois jurados concordamos em uníssono com o primeiro lugar, mas o outro teve que ser negociado (e a menção honrosa também). De todos os livros avaliados, o que mais me ocupou - segui lendo mesmo depois de termos definido os vencedores, era uma tese adaptada ao formato de livro sobre a escrita fantástica feminina (O fantástico e suas vertentes na Literatura de autoria feminina no Brasil e em Portugal). Poucas mulheres se aventuraram na escrita fantástica em português, pouco se entende (ou sou só eu?) sobre escrita feminina. A pesquisadora escolheu quatro autoras portuguesas e quatro autoras brasileiras. Como a escrita feminina se diferencia da escrita não-feminia? Não é pela linguagem, afirma Ana Paula Martins, mas pelas temáticas ligadas ao cotidiano, à casa. Além de adotarem a narrativa fantástica, todas as autoras estudadas se lamentam da parca fortuna crítica. Escritoras há anos, são pouco reconhecidas nacionalmente - o olhar do outro atribui valor, construindo identidade. Eu sou eu em função do outro.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Eles continuam lá

Os bolsonaristas seguem acampados na frente da Brigada Militar em Porto Velho. Os cheiros de picanha e banheiro químico se misturam.

Vamos tentar entender o fenômeno através de Letícia Cesarino (2022):

Enquanto fenônemo fractal, o bolsonarismo não imprimiu uma substância política unificada e programática às demandas de seus seguidores. Como o populismo, a plataformização e o "estalinismo de mercado" (Fischer, 2020), esse movimento é ao mesmo tempo vazio de conteúdo e altamente performativo. (p. 151)

Trata-se um líder digital, que atua(va) com alta assiduidade nas redes sociais e as usa(va) como instrumento de comunicação com seus seguidores. Os seguidores preenchem as palavras de ordem (liberdade, família, pátria) como podem: os significados não são dados por Bolsonaro. 

A autora faz uma analogia entre ritos de passagem - que são manifestações culturais que se dão em momentos específicos de forma sequenciada e controlada para superar uma crise na comunidade - com o movimento bolsonarista. Nos ritos de passagem, ocorre a suspensão de convenções (meninos são retirados da condição de meninos), identidades horizontais são produzidas (filhos do chefe e de mãe solteira passam a ter o mesmo valor), o núcleo cultural é discursivamente trabalhado (eles estão se preparando para serem homens), os sujeitos são colocados em estado de heteronomia (o mais velho guia o processo dos meninos que obedecem a ele) e prevalecem processos de mímese e inversão estrutural (todos os meninos fazem o mesmo - que é exceção para todos). Ao olhar para o movimento bolsonarista, a autora nota:

[...] não havia ali um indivíduo (oficiante) que orientasse diretamente os noviços, incutisse o núcleo cultural e galvanizasse sua entrega a uma força superior. Esse trabalho era feito pelo "todo" que se individuou entre usuários comuns, influenciadores (explícitos ou camuflados) e o próprio líder carismático (Cesarino, 2019). Além disso, diferente dos noviços ndembo, os usuários não reconheciam sua situação como sendo de heteronomia, ou entrega à influência oficiante. Pelo contrário, se apegavam obsessivamente a uma experiência de liberdade e escolha individual, rechaçando qualquer acusação de manipulação e devolvendo-a prontamente ao "inimigo". 

Nesse caso, a heteronomia não leva à reitegração dos "noviços" ao corpo social. Não havendo etapa de reintegração, ela produziu seu oposto: uma bifurcação similar à dos ecossistemas conspiratórios [...]. (p. 137)

Resumindo, os bolsonaristas ainda acampados em frente à Brigada Militar ultrapassaram um limiar e não conseguem voltar (pra casa, pro trabalho, pras suas funções rotineiras) porque aqueles comunicados de poucos minutos que Bolsonaro deu (e que foram recebidos via vídeo) não foram suficientes. O primeiro era confuso, o segundo mandava pra casa, mas não reconhecia a derrota nas urnas. 

Vazios de conteúdo, resta-lhes serem performáticos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O Território

Chegamos no Palácio das Artes um tanto impressionados com a quantidade de carros estacionados ao redor: todo mundo veio ver o filme O Território? Depois de passar pelas duas mulheres na porta, nos perguntando onde que era pra deixar os 2kg de alimento que tínhamos trazido, fomos chamados de volta: "vocês vieram ver o filme? É no outro teatro." O outro teatro é menor, mas estava cheio. 

O grupo Minhas Raízes fez a abertura do evento: eles cantam Nazaré, no Baixo Madeira. As comidas, as palavras e os instrumentos beradeiros nos prepararam para o universo dos uru-eu-wau-wau.
Como a Neidinha é daqui e a ONG Kanindé está aqui, Porto Velho foi um lugar de encontro: os parente vieram ver o filme em que atuaram, o camera-man que acompanhou a Neidinha viu o filme com plateia pela primeira vez, Bitaté estava no palco depois da exibição. Essa conversa depois do filme foi importante pra nós (público) entendermos o processo de filmagem. 

O território uru-eu-wau-wau está em disputa. Os indígenas lutam pela permanência no território (território é diferente de terra) e preservação da mata (terra está mais pra solo que pra floresta, caça, rio). Sob a liderança de Bitaté, os uru-eu defendem o território registrando em vídeo os ataques vindos de fora. O olhar indígena se faz presente no filme que não mostra apenas panorâmicas capturadas pelos drones, mas também foca nas formigas, folhas, água. Essa parte do filme - a da autoria indígena - a gente entende sem problema.

A questão é que o colono, o grileiro, as máquinas (motosserra, trator) também dão seu depoimento genuíno. Acompanhamos o colono que sempre foi empregado (trabalhando nas terras dos outros), montando uma associação, esperando os políticos (bolsonaristas) darem carta branca pra expandirem suas conquistas. Acompanhamos o grileiro que não acredita na associação, que afirma que aquilo que ele desmatou já é terra dele por direito, que - como erva daninha - está determinado a voltar toda vez que seu barraco for queimado. O interesse é pela terra. Ser proprietário de terra, expandir a fronteira. Ambos querem avançar sobre o território indígena justificando que nunca viram um índio sequer: "será que tem mesmo?"

Para o espectador, a complexidade da tarefa é destrinchar essa narrativa que se apresenta onisciente (se os uru-eu-wau-wau fizeram o filme, quem foi que filmou o grileiro?). Uma das perguntas do público dirigidas a Bitaté foi: se vocês sabiam onde eles estavam construindo a sede da associação, então por que vocês não foram lá? "Porque a gente não sabia". 

O grileiro não sabia que estava num filme idealizado pela Neidinha, nem Bitaté sabia que Neidinha tinha pedido ao diretor americano Alex Pritz que os dois lados fossem filmados sem o viés de uma narrativa. O filme mostra "a verdade" de cada lado dessa disputa - e isso precisa ser digerido pelo espectador que está acostumado a aderir (ou não) a uma única narrativa consolidada. Temos então dois filmes em um. E parte da disputa pela terra (a floresta, o rio, a fauna não importam) se dá pelo desconhecimento do outro: os povos originários são um empecilho, não humanos, não merecedores da terra porque não fazem com ela o que qualquer um (inserido no sistema capitalista) faria: gerar riqueza. 

Ao deixar as duas narrativas coexistindo, temos um retrato fiel da realidade. E é isso que dá grandeza ao filme.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dentes

 

Agnes ficou banguela aos 2 anos de idade, quando perdeu o dente da frente (na foto, o da esquerda) batendo a boca no banco em que eu estava sentada. A dentista disse que "avulsionou": saiu avulso, com raiz e tudo. Lembro que na época a vizinha tinha 4 anos e ficava espantada que a Agnes já estivesse banguela antes dela.

Foram 4 anos mordendo de lado, esperando alguém cortar a fruta em pedaços. Tinham nos dito que a gengiva daquele que saiu primeiro ficaria tão calejada, que esse dente seria o último a sair. Mas aí a dentista disse que um dente puxa o outro: arrancou o da direita antes da hora e agora estão saindo - pelo visto, os dois! E parece também que serão separados, como os da mãe.

Criança passa aperto com os dentes durante quase toda a infância: é dente nascendo, dente caindo, nascendo em lugares insuspeitos...

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Renovação de CNH

Como eu tenho uma carteira de motorista digital (a de papel estava na carteira que foi furtada em Peruíbe), o aplicativo me avisou primeiro que a carteira estava pra vencer em dezembro. Em seguida, as locadoras de automóveis que possuem registro da minha CNH enviaram emails com "comunicados importantes". 

Fui no site do Detran, agendei um horário pra coleta de biometria, paguei a taxa num boleto que informava o endereço do local que era pra fazer exame de vista e esperei o dia marcado chegar. Fui lá antes da hora, pedi pra alterar RG e endereço e tirei foto, impressão digital e esqueci de perguntar quando a minha carteira ficaria pronta.

Segui pra clínica que faz exame de vista, falei as letras e as cores que eu via, paguei outra taxa e fiquei pensando que talvez a carteira digital poderia chegar antes da física. Fui lá no aplicativo e reparei que tinha lá um histórico. A primeira carteira eu tirei em 1998, aos 20 anos de idade. Em 2000 teve outra, que teve validade até 2002, depois as seguintes tiveram validade de 5 anos. 

Algumas horas depois, ainda de manhã, chegou email avisando que a minha carteira digital estava disponível. Lamentei a minha cara na foto e fui checar a validade: 10 anos. Com essa foto...

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Manual do Minotauro

 

Estou lendo a biografia do Henfil e eis que o cartunista conhece, perto da data em que nasci, Lula e Laerte. Acaba que leio a biografia do Henfil e os quadrinhos de Laerte em paralelo, só pra embaralhar as memórias.

domingo, 13 de novembro de 2022

Conversa sobre o lugar do livro nas Ciências Sociais e Humanas

Quando o vídeo foi gravado, apareciam umas legendas bizarras, então o vídeo não ficou muito tempo no ar. O pessoal da ANPOCS conseguiu tirar as legendas da gravação e subiu de novo a primeira sessão do Fórum de editores do 46. Encontro ANPOCS.

sábado, 12 de novembro de 2022

Fim de tarde


 Castanheira
Flor de castanheira
Flor de biribá
Ouricuri
Açaí
Jaca

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Seminário PIBIC

Depois de um ano de pesquisa, chegou o dia de apresentar o que fizemos e como, a que resultados nossos dados nos trouxeram e por que ... e ruminar perguntas da avaliadora.

Gisele coletou 89 peças publicitárias impressas publicadas no jornal local Alto Madeira relativas aos anos 40 e 50. O estudo dela era pra ser paralelo ao meu, que investiguei peças publicitárias publicadas no primeiro ano da Revista Manchete, mas não foi tão simples assim. Na revista, eu não tinha dúvidas do que era uma propaganda e o que não. No jornal, os gêneros se misturavam: isso daí é anúncio? O que é uma propaganda? Tivemos que construir o nosso objeto: peças publicitárias em que há texto e imagem, sendo que a imagem não se limita à logomarca ou ilustração do produto, mas permite pensar uma narrativa.

Álany coletou 35 peças publicitárias impressas no mesmo jornal nos anos 2000. Por incrível que pareça, encontramos menos anos recentes do Alto Madeira (criado em 1917 e extinto em 2017) no Museu da Memória e nada digitalizado. Além de menor número de edições disponíveis, Álany encontrava muito mais anúncios que peças publicitárias (conforme nossa definição). 

Como os corpora não eram compatíveis em termos de volume de dados, tivemos que dar um tratamento estatístico aos dados: concentramos nos sinais finalizadores de sentença e dividimos o número de sinais pelo número de sentenças.

Nossas principais conclusões desse estudo diacrônico: sim, o modo de pontuar mudou ao longo do tempo porque as peças publicitárias mudaram. O volume de texto diminuiu, as sentenças são cada vez mais finalizadas com [nada] e a linha é, ela mesma, sinal de fim. 

As peças publicitárias passaram por mudanças no nível linguístico: nos anos 40 e 50, foram encontrados textos organizados em parágrafos. Isso mesmo, parágrafos. Ou seja, o texto linear é conjugado com uma imagem. Nos anos mais recentes, o espaço da peça (os centímetros quadrados adquiridos pelo anunciante) é mais explorado graficamente (por letras grandes) e o que era texto linear assume caráter de lista: uma lista de mercado arrola os itens sem separá-los por vírgula. Cada linha nova separa os itens. Mesmo que haja uma enumeração, se cada item estiver em linha nova, começa com letra maiúscula (que é indicadora de nova sentença). Ursula Bredel (2020) aponta para a própria linha como organizadora do texto que adquire formato de lista.

Parabéns às meninas que cresceram durante a pesquisa, se envolveram com o assunto e apresentaram o trabalho hoje!

domingo, 6 de novembro de 2022

Nunca más

 

Como se dorme depois de ver "Argentina, 1985"? É um filme argentino que retrata o processo de responsabilização da ditadura militar pelos seus crimes. Uma ditadura feroz, clandestina e covarde que torturou, separou, sequestrou, matou e desapareceu milhares de pessoas. Mas também é um filme que dialoga com qualquer processo de expurgo, de desfascistização, desnazificação. 

Como será a nossa vida até a posse do presidente eleito? E depois? Vamos esquecer?

Quando o promotor, Julio Strassera (interpretado por Darín), foi convocado pelo governo da redemocratização, ele tentou fugir da tarefa de investigar os crimes cometidos pelas forças militares. É uma tarefa assustadora, não se encontra parceiros para executá-la. O apoio vem dos jovens: tanto Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani) como o filho pequeno (em menor medida, claro) colaboram na condução e apresentação do processo e acusação.

Vamos conseguir explicar com clareza o que aconteceu nos últimos anos? As pessoas que ainda hoje andam na rua envoltas na bandeira do Brasil conseguirão processar o que fizeram? Por que a moral de alguns não parece racional para outros? 

É preciso coragem para fazer o que é certo e do interesse de todos. Se somos um coletivo, precisamos de dispositivos coletivos para dar sentido ao passado e planejar o futuro.

sábado, 5 de novembro de 2022

Antípodas

Estatísticas fabulosas continuavam brotando da teletela. Em comparação com o ano anterior, havia mais comida, mais roupas, mais casas, mais móveis, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais bebês - mais tudo, exceto enfermidade, crime e loucura. (1984 na nova tradução, de 2009, p. 76)
O orçamento de um ano é planejado e estimado no ano anterior. Ou seja, é o governo Bolsonaro que decidiu qual será o orçamento do ano que vem, em que Lula será presidente. O que consta lá no orçamento para a Cultura? Não existe mais o Ministério da Cultura.

Guerra é paz

Liberdade é escravidão

Ignorância é força

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Não pensem mal de mim

Esse vídeo saiu faz 13 minutos. Esse vídeo em que ele apela aos bolsonaristas bloqueadores de estradas para que desobstruam as estradas veio no quarto dia de bloqueios. Dia 1 foi o domingo, hoje é quarta. As PMs e as torcidas organizadas (Corinthians e Galoucura) já furaram e desmobilizaram muitos bloqueios. Pelo que entendi, a única pessoa presa foi o motorista que avançou sobre os bolsonaristas ferindo 7 pessoas. Um motorista morreu ao colidir de noite com o bloqueio que não estava sinalizado. Os golpistas não foram presos, mas receberam multas. Os bloqueios caíram pela metade, mas os estados do agro (que tiveram maior votação 22) ainda mantêm mais de 140 bloqueios. 

O líder deles não sabe ser presidente. O líder deles quer ser amado.

Letícia Cesarino

NA Pública



terça-feira, 1 de novembro de 2022

Análise do discurso de 2 minutos

Eu tava esperando essa análise de discurso. Afinal de contas, COMO nos comunicamos importa.

Definir pela negativa

Aprendi, no curso de Semântica, que não se define algo pelo que não é. Uma entrada de dicionário seria muito mais longa se fosse preciso dizer que aquilo não é um cadarço, nem um helicóptero, muito menos um sorvete de pistache ou de manga etc. e tal. 

 

Depois de 44 horas de silêncio do presidente em exercício após o resultado das eleições, centenas de bloqueios em estradas e muito barulho nas redes, ele leu um discurso em 2 minutos que eu não sei se entendi. Ele não reconheceu a derrota nas urnas, pelo contrário, agradeceu à mais expressiva votação que teve na vida. Ele não manda os bloqueadores de estrada de volta pra casa, mas explica que eles estão indignados com o desenvolvimento do processo eleitoral. O que foi que deu errado? É a atuação da PRF que está sendo criticada que, à revelia do TSE, resolveu fazer blitz em dia de eleição?

Ele não reconhece que esse tipo de manifestação (bloqueio de estradas) é descabida (Bolsonaro perdeu!) e criminosa, mas afirma que manifestações pacíficas são sempre bem-vindas. Ele (representante da direita), adverte que os métodos não podem ser os mesmos que os da esquerda, que sempre prejudicou a população. Ou seja, é pra voltar pra casa, pessoal? Não, ele falou de invasão de propriedade, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir. Certo, então acabou o bloqueio? Os métodos estão errados, mas o motivo é justo, é isso que eu entendi?

Peraí, ele continua: a direita surgiu de verdade (ele não tem memória, não? A ditadura foi de esquerda, é? Ou o "de verdade" se refere ao discurso de ódio chamado de liberdade?). Somos pela ordem e pelo progresso. Isso significa que é pra voltar pra casa, irmão? Véio, ele tá falando de censura das mídias e redes sociais. O que que é pra fazer? Ele falou mais alguma coisa? Liberdade, verde amarelo, muito obrigado.

E acabou???

Muito complicado entender o que ele disse, porque parece descolado da realidade. Mais fácil interpretar o que ele não disse: reconhecer a derrota, desbloquear as estradas, transição.

P.S.: Só achei esse vídeo no Youtube com só e somente o discurso.

Inimigo ou adversário?

Bolsonaro recebeu ligação telefônica do Ministro do Supremo Tribunal Eleitoral assim que a vitória de Lula tinha se confirmado matematicamente. Ele não contestou o resultado. Mas também não se pronunciou: nem deu os parabéns ao adversário, nem se comunicou com a outra metade da população que tinha depositado o seu voto nele. 

Caminhoneiros estacionados em frente à HAVAN (SC) anunciaram que "travou". Bloquearam estradas porque discordam do resultado da eleição. O número de bloqueios foi crescendo de domingo pra cá (terça-feira) e a Polícia Rodoviária Federal, que, no dia das eleições, trabalhou para retardar a chegada de eleitores de Lula aos seus locais de votação, se junta aos manifestantes em vez de mandá-los de volta pra casa. 

O aeroporto de Guarulhos, o maior que temos no Brasil, está inacessível pra quem vem de SP. Voos foram cancelados porque as pessoas não conseguem chegar ao aeroporto devido aos bloqueios. 

Os bolsonaristas pedem apoio. Bolsonaro segue em silêncio. Os bolsonaristas pedem intervenção militar. Bolsonaro, o mito deles, não se pronuncia. Aceita a derrota, mas não reconhece a vitória do outro. Prefere o silêncio que faz tanto barulho nas estradas. É isso que se espera de um presidente? O silêncio dele mantém e aumenta os bloqueios - e ele conta com isso. 

Manobrar metade da população para prejudicar a outra metade não é da política, mas da guerra.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Sem Bolsonaro

... mas com a extrema direita muito à vontade.


sábado, 29 de outubro de 2022

Não podemos perder essa estrela

Saímos da garagem com uma estrela vermelha (decoração natalina) presa na antena do carro. Desviei de uma caminhonete da companhia de energia que ocupava o meio da rua e vi pelo espelho retrovisor a estrela caindo no chão. Parei o carro, Luis desceu pra coletar a estrela. O funcionário da distribuidora de energia que estava na calçada também se movimentou em direção à estrela. 

- Não pode perder essa estrela - ele disse - vamos ganhar amanhã!

Hoje teve carreata em Porto Velho. A Polícia Rodoviária Federal veio, mas não pra dar apoio, como tinha sido nas passeatas. Pediram pra enrolar as bandeiras até metade e foram embora.

Nas avenidas de comércio (7 setembro e Jatuarana) sentimos apoio das pessoas. O pessoal na rua dançava, o pessoal no carro de som jogava bandeira, e mais uma bandeira dançava na rua. Sorrisos, o L desenhado com a mão e buzinas eram sinais de apoio. Em outros trajetos, fomos recebidos com dois dedos (inclusive a Polícia Militar fazendo 2), gritos de "ladrão"e "arrastão". No geral, tivemos a impressão de que a passeata mostrava às pessoas que em Porto Velho vai ter 13.

Um carro de som tocando música pedindo pra votar no 22 se intrometeu na carreata. Como seria a reação dos bolsonaristas se o contrário acontecesse? 

Amanhã depositaremos nossa esperança na urna. Amanhã acaba essa ansiedade. Amanhã o povo decide. Amanhã a estrela brilha.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Autoria e escrita

Para um editor, o autor é aquele que é responsável pelo texto: aquele que escreveu o texto e assina o contrato de cessão de direitos autorais. 

Entendo que nem toda pesquisa é realizada por indivíduos isolados e que existem laboratórios, grupos de pesquisa e redes que publicam seus textos em periódicos. Como a lista de autores (nesses casos) é grande, convencionou-se discriminar o papel que cada co-autor teve na elaboração daquela pesquisa realizada em caráter coletivo. A taxonomia CRediT estabelece como alternativas de autoria:

conceitualização (mais no plano das ideias e objetivos da pesquisa)

curadoria de dados (relacionado à anotação de corpora)

análise formal (aplicação de ferramentas estatísticas, matemáticas, computacionais etc.)

captação de recursos (apoio financeiro para a publicação)

investigação (condução de experimentos, composição de corpus)

metodologia (criação de modelos para lidar com os dados)

administração de projeto (planejamento e execução)

recursos (provimento de materiais, cobaias, reagentes, pacientes)

software (desenvolvido para a pesquisa)

supervisão (do projeto todo)

validação (verificação e garantia de reprodutibilidade)

visualização (formatação do material para apresentação)

escrita - primeira versão (preparação da publicação)

escrita - revisão e edição (revisão crítica, comentário)

Trocando em miúdos, parte-se do princípio de que a co-autoria extrapola o trabalho de escrita propriamente dito do texto a ser publicado. E o trabalho de escrita se desdobra no trabalho de escrever e no trabalho de ler o escrito para modificá-lo.

Acho que esses papéis valorizam o trabalho da equipe que se responsabiliza pelo texto publicado. Há critérios para o nome de alguém constar na lista dos co-autores (e não vale mais o apoio emocional, cafeínico etc.) e a contribuição de cada indivíduo é devidamente reconhecida.

Só que esses critérios não valem, a meu ver, para todos os tipos de autoria. Suponhamos uma entrevista. Alguém provocou uma pessoa a falar. Esse alguém organizou um roteiro de perguntas/questões. Esse alguém entrou em contato com a pessoa entrevistada, interagiu com ela, gravou a entrevista. Temos então uma dupla autoria: o entrevistador é responsável pela entrevista e o entrevistado é autor de sua fala. A taxonomia CRediT não prevê "entrevistador" e "entrevistado".

Agora a entrevista, que foi falada, é vertida para o papel. A escrita é uma técnica em que o corpo, tempo e espaço são removidos da cena. O escrito é uma mediação. O escrito permanece para além da existência da pessoa que o escreveu e pode circular em tempos e lugares não imaginados pelo redator.

Existem entrevistas ruins e entrevistas boas, mas isso tem mais a ver com as perguntas e a empatia entre as pessoas que interagem do que com a escrita propriamente da fala do entrevistado. 

Escrever uma entrevista não é a simples transcrição da fala, mas um trabalho tanto de apagamento de marcas ancoradas no eu-aqui-agora da entrevista face a face como o preenchimento de vazios que tinham ficado entendidos (telepaticamente) durante a interação. Escrever uma entrevista falada é mais próximo de editar do que de ser autor. O tradutor também não se vê como autor do texto que traduz. A taxonomia CRediT não prevê "editor" ou "tradutor" porque o trabalho de pesquisa é de outra natureza.

A contribuição do entrevistado encerra-se na entrevista. O entrevistador é que escreve a entrevista, submete a entrevista numa revista, espera o tempo dos dois avaliadores, ajusta o texto de acordo com os apontamentos dos pareceristas, registra pré-print e submete a versão final. 

Se o autor é quem escreveu o texto, então o autor da entrevista é...? O trabalho de escrita recai sobre o entrevistador. O entrevistado falou, não escreveu. Algumas revistas acadêmicas colocam o entrevistado como primeiro autor (a ideia, o conteúdo era dele) e o entrevistador como co-autor. Entendo que, na hierarquia da fama e prestígio, o entrevistado esteja no topo e o entrevistador pode ser um desconhecido. Mas o trabalho de escrita e a responsabilidade pela publicação da entrevista são do...? 

Como se aplica a taxonomia CRediT a uma entrevista? Como se atribui co-autoria aos dois envolvidos na entrevista usando esses critérios?

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Aliados confusos

Roberto Jefferson foi preso em 2021 por tumultuar o processo eleitoral, proferir discurso de ódio e atacar o STF - que são ações que Bolsonaro também executou. Como é uma pessoa muito doente, sua pena foi convertida em prisão domiciliar. Roberto Jefferson era o candidato inelegível que teve que recorrer ao Padre Kelmon em seu lugar. Kelmon fez dobradinha com Bolsonaro no debate em que atuou; e Lula perdeu pontos por atacar essa figura de padre no debate.


Perdoem a propaganda do conversor, tentei cortar o video pra ficar com o que importa aqui

Ontem Roberto Jefferson, em prisão domiciliar, divulgou vídeos dele mesmo xingando Carmen Lúcia, ministra do STF. Como preso, ele estava proibido de usar as redes sociais e dar entrevista. Ou seja, descumpriu ordens vinculadas à prisão. Chegou a polícia e ele, preso, disparou 50 tiros de fuzil e jogou três granadas contra a PF. Dois policiais foram feridos. Bolsonaristas foram convocados para se manifestar na frente da casa de Roberto Jefferson. Cantaram o hino nacional e um bolsonarista agrediu um cinegrafista que cobria o evento. Até aqui o bolsonarismo apoia Roberto Jefferson. A única emissora de TV que acompanhava o caso ao vivo era a Jovem Pan, declaradamente bolsonarista.

Discurso de ódio não pode ser confundido com "liberdade de expressão", porque a pessoa xingada é afetada. Atirar na polícia que vem cumprir ordem de prisão não pode ser confundido com legítima defesa. Mas essa é a estratégia da extrema direita: inverter a narrativa, vitimizar-se.

Roberto Jefferson anunciou que não se entregaria à polícia, só ao Ministro da Justiça. Bolsonaro mandou o Ministro lá. Ou seja, o presidente da República atende ao pedido descabido de um preso que atira contra policiais.

Como é que um preso tem armas em casa? Como é que ele não foi executado pela PF? Não era isso que ele queria? Suicide by cops, ou seja, provocar a polícia para executar um suicídio instrumentalizado e assim se tornar mártir. Quem é que entregou as armas usadas pelo Roberto Jefferson aos policiais? Padre Kelmon. O que esse homem estava fazendo lá? 

Depois que tudo acabou, depois de um domingo inteiro de tensão, Bolsonaro faz uma live em que chama Roberto Jefferson de bandido. Os aliados de Bolsonaro ficaram confusos: não era pra apoiar Roberto Jefferson?

Isso tudo aconteceu uma semana antes da eleição. Esse factóide era pra virar voto (lembremos que Lula tem mais votos que Bolsonaro) e funcionar como a facada em 2018? Os 50 tiros + 3 granadas saíram pela culatra: Roberto Jefferson foi preso de novo. E o dólar subiu hoje. E as estatais desvalorizaram hoje (porque o horizonte da privatização ficou distante de novo). Se os aliados de Bolsonaro estão confusos depois do episódio de ontem, os mercados já entenderam que Bolsonaro perdeu.

tumultuar o processo eleitoral e proferir discursos de ódio, além de atacar instituições democráticas... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/10/24/roberto-jefferson-presidio-benfica-rio-de-janeiro.htm?cmpid=copiaecola

domingo, 23 de outubro de 2022

Pesticida

Essa foi, pra mim, a melhor definição e explicação por que tanta gente embarca no apocalipse sorrindo. Bolsonaro é, nas palavras de Gabeira, "um homem sem virtudes". Ele não pretende construir nada, só destruir uma lista de fantasmas (a corrupção, banheiro unissex nas escolas, ideologia de gênero, o comunismo etc.). Michele, a esposa evangélica, diz nos cultos: "Não olhem para o meu marido. Olhem para mim." Ele é venenoso.

Onde tem plantação de soja, tem hospital do câncer. O pesticida não mata só as pragas. 

O pesticida é a peste. 

Basta não escolher o pesticida.


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Personalidades no FELIN

Esse é o (José Carlos) Azeredo, autor de gramáticas, dicionários e livros sobre ensino de língua.

Essa é a Maria Helena Moura Neves, autora também de gramáticas e dicionários e livros sobre ensino de gramática na escola. Fiquei bastante surpresa com a lucidez de sua fala, com o caminho do pensamento que sua trajetória demonstra e o seu senso de humor.

Esses são Magda Bahia Schlee e Ivo da Costa do Rosário. Conheci ambos no CCO, organizado pelo Ivo (cujo livro editei pela EDUFRO). Gosto muito da clareza e generosidade de ambos. Os objetos que eles estudam mostram didaticamente como os usos da linguagem são muito mais complexos que o nosso discurso sobre a linguagem. O discurso, claro, tem a ver com a postura teórica que adotamos. A postura funcionalista, centrada no uso, é menos categórica que a gramática tradicional e mais gradual. Não se observa caixas separadas, mas contínuos entre categorias.
Na sessão de hoje pela manhã haveria um intervalo entre a primeira mesa e a conferência da professora homenageada que estava atrasada. A coordenadora do evento anunciou ao microfone que ainda teríamos tempo para perguntas, porque, afinal de contas, a professora homenageada ainda não tinha nem chegado. Estava engarrafada. A imagem que veio à minha mente era de uma senhora dentro de uma garrafa - mas eu tenho certeza que ninguém mais pensou isso, porque os cariocas têm por convenção chamar o trânsito parado de engarrafamento.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Vidas passadas de motoristas

Quando mudei pra Porto Velho, eu tinha a impressão de que as pessoas tinham aprendido a dirigir trator, no campo, sem trânsito, antes de serem transplantadas para o carro na cidade. Especialmente na Av. Jatuarana, o trânsito na rua se assemelhava aos movimentos erráticos de um jogo de videogame. É sempre preciso adotar a postura defensiva diante desses agentes de trânsito que parecem alheios ao trânsito.

Aqui no Rio de Janeiro estou andando de Uber pra cima e pra baixo porque a cidade e os caminhos são pra mim um mistério. Não sei se é porque são profissionais do trânsito, mas percebo que os motoristas aceleram e freiam olimpicamente e se metem em brechas como se fosse um esporte. Parece até que antes de serem motoristas de carro, eram motoqueiros acostumados a calcular tempos, trajetórias e milímetros. 

Quando comentei esse trânsito louco com uma carioca, ela fez o contraponto com os paulistas. Acho que os paulistas são tão "comportados" no trânsito porque o enfrentam resignadamente o tempo todo.

Museu do Amanhã

Hoje é dia de jogo no Maracanã. Por que isso é relevante para quem está num congresso de Linguística? Porque a UERJ fica bem do lado do Maracanã que tem todas as ruas da redondeza interditadas em dia de jogo. A UERJ foi fechada às 16h por causa de um jogo de futebol que acontece de noite. Esse fato alterou a programação do evento - e a minha: fui conhecer o Museu do Amanhã.

A arquitetura é tão expressiva quanto as obras e instalações. A exposição itinerante era Amazônia do Sebastião Salgado. Achei a montagem da exposição bem legal, porque as fotografias são painéis de luz. Aprendi ontem que "grafos" e "foto" vêm do grego e significam, respectivamente, "escrever" e "luz". A curadoria apostou nesse "escrever com luz".


Fiquei observando os turistas vendo aquelas imagens de rios, nuvens, chuva, árvores e gente tão diferente. Isso é Brasil?
A exposição permanente tinha uma narrativa que convergia muito bem com os textos que acompanhavam as fotos do Sebastião Salgado. Não consegui seguir a linha proposta porque a monitora me mandou fazer o percurso de trás pra frente. Mas entendi que o itinerário é mais ou menos de onde viemos, quem somos, o que estamos fazendo com o planeta e como pode ser o futuro. O fim do percurso dá nessa paisagem meio nave, meio ficção.
Achei legal essa grande caixa-preta (aquilo que é o mistério, o não acessível) fantasiada de cérebro.


terça-feira, 18 de outubro de 2022

XIV Felin

A primeira vez que apresentei trabalho sobre sinais de pontuação foi no XI Felin. Agora retorno ao evento sediado pela UERJ depois de dez anos. As escadas e rampas continuam lá, as apresentações de trabalho foram novamente concentradas num dia só, mas dessa vez é diferente.

No CCO (Conectivos e conexão de orações) eu já tinha notado um certo acolhimento carioca. Os eventos e os grupos são pequenos, mas percebo solidariedade, entusiasmo por aprender (com o outro) e colaboração. Hoje apresentei num GT sobre texto e ensino da perspectiva de abordagens discursivo-enunciativas. Por mais diversos que fossem os trabalhos, todas (só mulheres apresentaram!) trabalhamos com o texto.

E isso foi o legal de perceber: cada trabalho apresentado no GT coordenado por Claudia Moura (UERJ) e Lucia Deborah Araújo (Colégio Pedro II) - e as duas fizeram questão de fazer uma fala que amarra todas as apresentações - é um elo na corrente que liga o texto às nossas práticas de ensino.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Jogo da memória coletiva da pontuação

Estou há um mês e meio dando aula de Metodologia da Pesquisa para o pessoal do primeiro período em Letras. A turma começou com mais ou menos 10 alunos e agora a lista de presença chegou nos 36, que é normal para ingressantes no curso. 

No começo do semestre, eu propus a eles de pensar sobre métodos e teorias - mas também botar a mão na massa e desenvolver uma pesquisa até o final do curso. Escolhi os sinais de pontuação como tema, já que não são lá muito estudados. Então a proposta era aprender a fazer fichamento, resumo e pesquisa lendo e pensando sobre sinais de pontuação. 

A primeira tarefa deles foi abrir duas ou três gramáticas e anotar a lista de sinais de pontuação que cada uma apresentava no capítulo da pontuação. Verificamos em sala de aula que não havia consenso entre as gramáticas consultadas, mas que havia um núcleo de 10 sinais que todas as gramáticas consideravam: [.], [,], [;], [:], [...], [!], [?], [( )], [" "], [-]. 

Apresentei dois estudos: um horizontal, examinando 115 redações de crianças dos anos iniciais de escolas públicas e particulares e outro estudo de caso, em que uma única criança é acompanhada ao longo tempo. Tiveram que fichar um texto teórico sobre pontuação, tiveram a tarefa de resumir outro texto teórico sobre pontuação. E a turma não parava de crescer e eu não podia garantir que todos sabiam o que são sinais de pontuação - nem por que.

Fiz um jogo da memória em que só os 11 sinais (aqueles 10 + alínea) tinham par. Os outros entravam como distração. Não cheguei a pensar como operacionalizar esse jogo numa turma de 30 e tantos. Escolhi a mesa do professor (que é a maior) e chamei todo mundo em volta. Fui colocando "as cartas na mesa" e anunciei: jogo da memória coletiva. Na segunda jogada, a turma estabeleceu que cada um apontava duas cartas que a professora desvirava.
Alguém da turma tirou essa foto e postou no grupo
Eles curtiram o jogo e espero que não esqueçam quais são os sinais de pontuação que estamos considerando.


sábado, 8 de outubro de 2022

Ideologia na escola

Os conservadores acusam os progressistas de doutrinar as crianças na escola, os jovens na universidade  etc. e tal. A ideologia do outro é reconhecida apenas quando não condiz com a própria. 

A escolinha da Agnes promoveu Jogos Internos na segunda semana de setembro. Logo depois do 7 de setembro, as crianças deveriam usar o uniforme dos jogos internos (e não o uniforme da escola) que é a camisa da seleção brasileira de futebol. Quando fomos gentilmente obrigados a pagar pelo uniforme da seleção brasileira, nos recusamos. Todo dia a escola inteira perguntava: Agnes, por que você não está usando a camisa do Brasil? Quando ela contou isso em casa, Luis deu a solução: você torce pra outro time. 

- Agnes, por que você não está usando a camisa do Brasil?

- Eu torço pra Alemanha, tia.

- Ah, tá. 

E acabou o bullying. O 7 a 1 ainda deve estar na memória das pessoas. Mas não se trata de times de futebol, bem sabemos. No dia da eleição, o que foi que as pessoas vestiram pra demonstrar sua posição política? Minha família vestiu vermelho. Éramos uma ilha vermelha atravessando a rua, entrando na escola, andando na calçada. O entorno vestiu a camisa da seleção brasileira.

*   *   *

Ontem veio bilhete na agenda da criança. Pedia autorização pra passeio. Nas outras escolas que Agnes frequentou, o passeio era em parques. Porto Velho não tem zoológico ou museu pensado para o público infantil, então a cidade não oferece tantas opções de passeio fora da escola, concordo. Mas esse passeio será na Base Aérea Militar - que não é um lugar de passeio para crianças, convenhamos. Por que esse destino foi escolhido pela escola? Por que agora?

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O lugar do livro acadêmico

 

Me sinto muito honrada de ter sido convidada pelo Gilberto Hochman (Editora Fiocruz) para participar do debate no Fórum de Editores da ANPOCS sobre o lugar do livro acadêmico nas Ciências Humanas e Sociais. Espero estar à altura dos colegas (e que no certificado não conste Kaplla, mas Kleppa mesmo).