segunda-feira, 29 de março de 2021

I me mine

 

As crianças estavam cantando parabéns na escolinha online e Agnes perguntou: "É meu aniversário?"

* * *

A atividade era: desenhe de olhos fechados. Muitas crianças receberam vendas nos olhos, Agnes inclusive. Mas eu reparei que ela acertava as linhas de continuidade, o que me fez desconfiar que ela estava espiando. Tentei baixar a venda e começou a briga. Não só aqui: outras crianças igualmente se recusavam a desenhar de olhos vendados. As mães (o audio estava ligado, acompanhamos tudo...) tentavam convencer a criança que não precisava ficar perfeito, que podia ficar engraçado. 

Algumas crianças choraram. Porque desenhar é pro outro, tem que ficar bonito, colorido. Desenhar é uma das poucas coisas que o adulto confia que a criança faz bem, por isso estimula tanto o desenho. Agnes não tem medo de desenhar, mas se recusou a desenhar sem ter controle sobre o resultado.

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All I can hear I me mine, I me mine, I me mine
Even those tears I me mine, I me mine, I me mine

sábado, 27 de março de 2021

Nome estrangeiro é mais legal

Fui na agência dos Correios só com o pacote da mercadoria que eu queria devolver e um código de postagem reversa. O atendente inseriu o código no sistema, mandou as etiquetas pra impressora e voltou lendo em voz alta - pausadamente - o meu nome. 

É isso mesmo? Esse é seu nome?

Sim, esse é o meu nome. Não fui eu que escolhi. 

É estrangeiro, é?

Não, é inventado.

Ah, mas parece estrangeiro. O meu também é inventado, mas o seu mais é mais legal. Apontou para o crachá: olha aí, ó. JESURÔNIO. Ninguém acerta o meu nome.

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Quando Agnes inventa de dar nomes às coisas, sai sempre um nome cheio de R retroflexo e schwa (algo como [ã]) e grupos consonantais que não temos em português. Quando Agnes inventa nomes, eles são nomes inventados em inglês - uma língua que ela não conhece.

Numa das aulas online da Agnes (ela precisa de assistência, por isso participamos das aulas da criança, não é uma escolha), um coleguinha inventou nome para um personagem no livro e curiosamente também saiu uma coisa que soava mais inglês que português.

Nome estrangeiro é mais legal...

quinta-feira, 25 de março de 2021

A identidade secreta dos periquitos

 

Quando Luis e Agnes foram comprar os periquitos, pediram uma fêmea branca e azul e um macho verde-amarelo. Os periquitos não receberam nomes próprios (nem de gente, nem de pássaro), eram chamados simplesmente de "macho" e "fêmea". E assim viveram por dois meses. 

O sonho de acordar com os passarinhos foi realizado tanto de manhã como de tarde, na hora da soneca. Em alguns momentos, eles faziam muita algazarra, em outros, mais raros, pareciam emitir sons de satisfação tranquila.

Aí a cabeça do periquito branco-azul começou a apresentar falhas na penugem e as penas começaram a aparecer pela casa. Nossa tradução antropo-cultural resultou em: a fêmea está apanhando do macho. Luis ainda desconfiava de outra coisa: que o verde-amarelo fosse fêmea, porque entrava na casinha. 

Lá vai a tratadora dos periquitos (que não esteve presente no momento da aquisição) na loja, perguntar quem é macho e quem é fêmea e se não dá pra trocar ou devolver o verde-amarelo. Ficaríamos com a vítima, não com o agressor.

Chovia quando estacionei o carro longe da calçada. Estiquei o pé pra fora, firmei na calçada alta, peguei a gaiola, me impulsionei pra fora do carro e pra dentro da chuva, depositei a gaiola embaixo do toldo e voltei pra fechar a porta. Na loja, os periquitos se esconderam dentro da caixa. Pelo buraco da abertura da caixa, a moça viu que o macho era o branco-azul e que a fêmea era verde-amarelo. 

Eu achava que ela tinha que pegar o animal na mão, virar do contrário e inspecionar os órgãos reprodutores. Ela respondeu que via pelo bico (azul: macho; marrom: fêmea). Eu entendi que então tudo estava ao contrário e que era o macho que estava perdendo as penas da cabeça. A moça disse que não troca nem aceita devolução. Ligou pro veterinário e confirmou que nem troca, nem aceita devolução. Ainda fiquei um tempo lá, suspirando. Luis estava certo (verde-amarelo era mesmo fêmea), mas também estava errado (eles eram um casal). A solução de troca se aplicava no caso de os dois serem do mesmo sexo. Resignada, peguei a gaiola e fiz a ginástica pra entrar no carro. 

Quando girei a chave na ignição, o veterinário bateu no vidro do carro. Vamos trocar, sim! Saí de novo do carro e uma outra moça ficou encarregada de pegar os periquitos. Dos seis periquitos, havia duas fêmeas verde-amarelas na gaiola deles. Pegou primeiro a minha, na minha gaiola e colocou na gaiola maior. E agora? E se pegar a minha de novo? Pegou uma aleatória, que conseguiu pegar, tirou da gaiola grande e colocou na minha. Me pediu pra conferir, mas eu não tive certeza. Tirou esse periquito da minha gaiola, devolveu pro coletivo e mirou numa periquita de cabeça bem amarela.

Chegando em casa, consultei o grande oráculo cibernético como se identifica o sexo dos periquitos. Conferi se a periquita da cabeça amarela tinha bico azul e não tinha. Ufa. Agora preciso me acostumar que "fêmea" e "macho" não são mais bons nomes pra eles.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Bolo de macaxeira

Iris fazia o bolo de macaxeira que eu levava pra feira do MAB. O primeiro que ela fez estava espetacular.


Conforme eu ia buscar o bolo na Iris pra Cleide vender na feira, eu descobria como era feito: macaxeira crua ralada, nada de (farinha de) trigo. Pra não sentir o gosto de margarina, eu levava manteiga. Pra ficar mais natureba, eu levava açúcar demerara. Ela acrescentava ainda erva doce, cravos e castanha do pará. Os bolos da Iris foram mudando: um saiu muito gorduroso, outro saiu queimado, outro saiu super doce.

Aí o fogão esculhambou a válvula, as minhas aulas voltaram justo nos dias de feira e paramos com o bolo de macaxeira. Muito tempo depois, o marido da Iris perguntou se não queríamos bolo de macaxeira feito por outra mulher. Encomendei.

No dia marcado, ele me passou o contato whatsapp da boleira. Achei estranho, porque imaginava que o bolo estivesse me esperando na casa da Iris. O combinado era que fôssemos depois das 14h. Mas não conseguimos nos desvencilhar dos compromissos e foi ficando tarde. Como eu também tinha que comprar e levar ração pro Rompe-Mato, fiz questão de ir ao sítio ainda naquele dia, não deixar pro futuro incerto. Agnes e eu chegamos na pet shop 15 minutos antes da loja fechar. Nossa casa ficava no caminho entre a pet shop e a ponte sobre o Madeira. Liguei pra casa, perguntando se Luis queria nos acompanhar. Não. Ele lembrou que devíamos passar repelente, porque era hora do rush dos mosquitos. Não tinha repelente no carro nem na bolsa. Paramos em casa pra pegar repelente. 

Assim, vendo a gente, e vendo o dia escurecer, Luis decidiu nos acompanhar. Tinha chovido muito mais no Maravilha que na cidade (ou não percebemos que choveu tanto, é uma possibilidade também) e a estrada estava uma gelatina. Percebia-se que a lama é que guiava o carro, não a motorista. Chegamos na casa da Iris no escuro e entregamos a ração. O bolo não estava lá.

- Depois do Delmiro, segunda casa, de frente pra igreja. 

Era o desconhecido, porque a casa do Delmiro fica bem na curva e a gente nunca seguia reto pra Niterói. Ainda paramos no Damián, que perguntou mais de uma vez se íamos mesmo na casa da mulher àquela hora. Fomos.

A igreja estava acesa e tinha gente dentro. Luis desconfiou que a mulher estaria no culto. Desceu do carro e bateu palmas na casa em frente. Nada se moveu. Da igreja saiu uma moça segurando um bebê: 

- Hein, o senhor quer o quê? 

- Vim buscar um bolo. 

- É com a minha mãe.

Saiu um homem da igreja, atravessou a rua e voltou com o bolo. Pedimos muitas desculpas pelo horário e voltamos pra casa. Chegamos tarde da noite, sem vontade de fazer janta e acabamos comendo o bolo. Que saudades do bolo da Iris... Provavelmente tinha farinha de trigo no bolo, morder nos cravos era castigo, não tinha erva doce, em vez de castanha acho que tinha coco e a consistência era de pamonha.

Resolvi fazer bolo de macaxeira eu mesma, com o que tinha em casa. Ralei a macaxeira crua, ralei coco, misturei manteiga, açúcar de coco e fermento, deixei menos de 1h no forno. Resultado: errei na medida de manteiga (ficou pingando óleo) e entendi que fazer bolo de macaxeira com pouca macaxeira não vale a pena.

sábado, 20 de março de 2021

Edital 2021 EDUFRO

 

Arte: Leidijane Rolim
 

Sim, novo edital de publicação! Dessa vez, a prioridade é para temas amazônicos. O edital está no site da EDUFRO.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Inquilinos

Somos os únicos inquilinos no prédio: todos os outros são proprietários. Alugamos um apartamento, mas alugamos também o porteiro, o portão, o muro, a segurança. Alugamos a vista, o vento, a piscina. 

Na casa anterior, a maior diferença era entre nós e o que havia atrás do muro do condomínio. Aqui, a diferença se dá na vertical.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Campus

Agnes e eu fomos ao campus, passear. Fomos seguindo o nariz e descobrimos esse besouro bisonho (enorme) na parede da biblioteca.

Tinha pitangas, uma parreira nova, muitos gatos e muitos caminhos.

Descemos a rampa que dá no prédio novo da engenharia e voltamos pela rampa íngreme do Tatuzão.
Essa escada me intrigou: não tem porta nem no pé da escada nem no topo. Tem uma porta desenhada na parede, mas não dá pra adivinhar se é um plano ou uma brincadeira o que se vê na imagem. No final das contas, acho que a escada só serve mesmo ao técnico que desmonta o ar condicionado pra levar pra manutenção.

domingo, 14 de março de 2021

Milkshake até

Algumas coisas as crianças aprendem sozinhas (tipo as senhas para desbloquear os celulares dos pais), outras coisas parece que não adianta ensinar. Agnes gostar de sair a pé, mas sempre sai um "vamo até"? Não adianta dizer que "a pé" tem a ver com "pé" que a gente usa pra andar ao invés de usar a bicicleta, o carro etc. Ela vai até.

Durante a pandemia, a cidade mudou: muitas lojas fecharam, outras abriram. Aí um dia resolvemos nos beneficiar do sistema drive thru do novo Bob's. Escolhemos o hamburger, o tamanho da batata e o sabor do sorvete. Ninguém no carro disse a palavra "milkshake", mas a atendente disse - e Agnes pescou. Agora ela pede milkshake até.

sábado, 13 de março de 2021

Golpe pelo celular

Muito tempo atrás, talvez uns dez anos ou mais, fui vítima de uma tentativa de golpe. Eu estava em Gramado, casa cheia, perto do Natal, quando recebi uma mensagem pelo celular que eu tinha sido sorteada e tinha ganhado uma casa. Era mensagem enviada da Paraíba (84) e continha erros ortográficos. Eu ganharia uma casa! Isso me pareceu mais relevante que os erros de ortografia. Entrei em contato e perguntei quem tinha me sorteado. O Caldeirão do Huck. Mas eu nem me inscrevi... Mas seu número é TIM e ele foi sorteado no programa - que está passando agora, enquanto conversamos. Estava mesmo. A voz com sotaque paraibano me disse que eu tinha que fazer uns procedimentos no caixa eletrônico, pra liberar o valor da casa na minha conta. Com o homem na linha, fui até o caixa eletrônico e fui seguindo instruções. No fim, eu disse a ele que se eu seguisse nos procedimentos, eu faria uma transferência. Ele repetia que era só um código. Eu olhava para a tela e repetia: cara, se eu der ok aqui, vou estar transferindo dinheiro para uma outra conta. Virou queda de braço: É assim mesmo, senhora. Não vou fazer isso, meu! CONFIA em DEUS!

Aí eu desliguei. Aí eu entendi que ele não tinha argumentos pra me convencer. Aí deu o click e eu entendi que estava sendo enganada. A família ganhou mais uma anedota pra contar.

*   *   *

Chegou mensagem de celular da esposa do irmão do Luis: ela tinha excedido o limite diário e precisava fazer uma transferência bancária naquele dia ainda. Me pedia pra pagar e prometia reembolsar no dia seguinte. Mostrei pro Luis. Roubaram o celular dela - foi a conclusão. Elisa nunca te pediria dinheiro. Liga pra ela, se está em dúvida. Liguei. Ruídos. Veio mensagem de que a internet estava ruim. E agora? Pela voz, eu teria oportunidade de reconhecer a Elisa. Como testar agora? Escrevi: mais tarde eu vou aí. 

E a conversa parou.


quarta-feira, 10 de março de 2021

O que é essencial

Foi no dia 17 de março de 2020 que foi decretado o lockdown aqui. Em abril, a escolinha em Agnes estava matriculada não ofereceu desconto nem aula, então decidimos rescindir o contrato.

Depois de um ano com a criança em fase de alfabetização em casa, recebemos com alegria a notícia de que as escolas voltariam a funcionar em fevereiro de 2021. A criança ficou encantada com a nova escola, o uniforme, mochila, material, coleguinhas. A rotina da casa mudou: dormir cedo, acordar com o despertador, preparar a lancheira, levar a criança para a escola, trabalhar de manhã e almoçar antes do meio-dia.

Na segunda semana, a menina já confessava que se comportava mal na escola, mas estreitava laços de amizade com os poucos colegas de sala. No último dia em que foi à escola, pouco antes de acabar a aula, Agnes rodopiou de olhos fechados, caiu de boca no chão e sangrou muito. Os dentes fizeram dois furos: um fora e outro dentro da boca. No dia seguinte, ela não foi à escola porque a ferida ainda não tinha fechado. Nesse dia, saiu o decreto de que a partir do dia 4 de março de 2021 voltávamos à Fase 1, ou seja, lockdown.

O rio Madeira inundou a estrada da beira e perdemos o acesso à casa do Jairo ou do Damián. 

Ao invés de deixar a criança na escola, agora temos que acompanhar as aulas da menina online (porque ela precisa de assistência para entender o que a tia pediu, para ligar e desligar o microfone, para localizar a atividade que está sendo feita etc.). Tem dias em que estamos todos em sala virtual ao mesmo tempo: reunião de departamento, aula da criança, reunião de grupo de pesquisa. Dois dias depois de publicado o decreto que restringe a circulação das pessoas, outro decreto é publicado, dessa vez liberando as escolinhas para filhos de pessoas que exercem atividades essenciais e para crianças com deficiência. 

Educação é serviço essencial? Nós não paramos, estamos dando aulas remotas e continuando nossas pesquisas, mas nossa atividade não é essencial: a vida de ninguém (a não ser a nossa) depende da nossa atividade. A qualidade de vida, sim, depende de nossa atuação, mas não a vida pura e simplesmente. 

Na pandemia, escolinha é essencial? Observamos que as crianças precisam de contato com outras crianças, precisam correr, brincar, sair de casa. Quando Agnes fica o dia todo em casa, atividades básicas como comer e dormir são tarefas enormes que geram briga com alto grau de probabilidade. Antes, uma ida ao sítio despertava apetite e dava bom sono. Agora estamos isolados no sétimo andar.

Ter a criança na escolinha geraria mais qualidade de vida para a criança e para os pais que trabalham enquanto a criança está na escolinha, mas pode ameaçar a vida da criança e das famílias em torno das crianças.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Isolar os sadios

Acabo de receber notícia da casa de repouso em que está Harro Kleppa. Depois da segunda dose da vacina (aplicada em 24 de fevereiro), um interno apresentou sintomas e a diretora pediu que todos fizessem exames. O resultado saiu hoje e 19 deram positivo (inclusive Harro). Num cenário em que quase todos estão infectados, os sadios é que foram isolados. Não vai ser fácil passar por isso.



quarta-feira, 3 de março de 2021

Quando isso passar

Como será o mundo quando a pandemia passar? Como se passa por isso tudo? Como atravessamos esses tempos difíceis, em que a pandemia já não é mais novidade? Só temos medo do desconhecido? A pandemia vai passar? O bolsonarismo (extremismo, negacionismo e outros -ismos) vai passar?

Não parece que Agnes está comunicando com alienígenas?

Já não há mais auxílio emergencial - e quem recebeu, tem que declarar no IR que recebeu e está sujeito a pagar imposto. Já não há mais redução de jornada custeada em parte pelo governo, mas empregadores são obrigados a manter empregos, mesmo que os decretos locais limitem a circulação das pessoas (ao posto de trabalho, por exemplo, se não for considerado essencial). O conceito de home-office já foi substituído por anywhere-office, já que não precisamos nos fixar a um lugar para trabalhar (e podemos participar de reuniões remotas pelo celular - em qualquer lugar que ofereça sinal).

Nas aulas remotas desse semestre, não tenho mais visto os alunos. Desligam as câmeras, demoram muito a responder quando pergunto. É estranho. Às vezes me sinto como se estivesse apenas emitindo sinais, tipo a menina na foto. Dar aula é isso?