Iris fazia o bolo de macaxeira que eu levava pra feira do MAB. O primeiro que ela fez estava espetacular.
Conforme eu ia buscar o bolo na Iris pra Cleide vender na feira, eu descobria como era feito: macaxeira crua ralada, nada de (farinha de) trigo. Pra não sentir o gosto de margarina, eu levava manteiga. Pra ficar mais natureba, eu levava açúcar demerara. Ela acrescentava ainda erva doce, cravos e castanha do pará. Os bolos da Iris foram mudando: um saiu muito gorduroso, outro saiu queimado, outro saiu super doce.
Aí o fogão esculhambou a válvula, as minhas aulas voltaram justo nos dias de feira e paramos com o bolo de macaxeira. Muito tempo depois, o marido da Iris perguntou se não queríamos bolo de macaxeira feito por outra mulher. Encomendei.
No dia marcado, ele me passou o contato whatsapp da boleira. Achei estranho, porque imaginava que o bolo estivesse me esperando na casa da Iris. O combinado era que fôssemos depois das 14h. Mas não conseguimos nos desvencilhar dos compromissos e foi ficando tarde. Como eu também tinha que comprar e levar ração pro Rompe-Mato, fiz questão de ir ao sítio ainda naquele dia, não deixar pro futuro incerto. Agnes e eu chegamos na pet shop 15 minutos antes da loja fechar. Nossa casa ficava no caminho entre a pet shop e a ponte sobre o Madeira. Liguei pra casa, perguntando se Luis queria nos acompanhar. Não. Ele lembrou que devíamos passar repelente, porque era hora do rush dos mosquitos. Não tinha repelente no carro nem na bolsa. Paramos em casa pra pegar repelente.
Assim, vendo a gente, e vendo o dia escurecer, Luis decidiu nos acompanhar. Tinha chovido muito mais no Maravilha que na cidade (ou não percebemos que choveu tanto, é uma possibilidade também) e a estrada estava uma gelatina. Percebia-se que a lama é que guiava o carro, não a motorista. Chegamos na casa da Iris no escuro e entregamos a ração. O bolo não estava lá.
- Depois do Delmiro, segunda casa, de frente pra igreja.
Era o desconhecido, porque a casa do Delmiro fica bem na curva e a gente nunca seguia reto pra Niterói. Ainda paramos no Damián, que perguntou mais de uma vez se íamos mesmo na casa da mulher àquela hora. Fomos.
A igreja estava acesa e tinha gente dentro. Luis desconfiou que a mulher estaria no culto. Desceu do carro e bateu palmas na casa em frente. Nada se moveu. Da igreja saiu uma moça segurando um bebê:
- Hein, o senhor quer o quê?
- Vim buscar um bolo.
- É com a minha mãe.
Saiu um homem da igreja, atravessou a rua e voltou com o bolo. Pedimos muitas desculpas pelo horário e voltamos pra casa. Chegamos tarde da noite, sem vontade de fazer janta e acabamos comendo o bolo. Que saudades do bolo da Iris... Provavelmente tinha farinha de trigo no bolo, morder nos cravos era castigo, não tinha erva doce, em vez de castanha acho que tinha coco e a consistência era de pamonha.
Resolvi fazer bolo de macaxeira eu mesma, com o que tinha em casa. Ralei a macaxeira crua, ralei coco, misturei manteiga, açúcar de coco e fermento, deixei menos de 1h no forno. Resultado: errei na medida de manteiga (ficou pingando óleo) e entendi que fazer bolo de macaxeira com pouca macaxeira não vale a pena.