quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Segundo dia

O segundo dia foi uma transição entre o evento ocorrido no ano passado que desembocou nesse e os eventos futuros sobre saúde para povos de recente contato. 

Lucas Albertoni
Falou-se tanto de contatos passados (korubo, Mamoriá Grande, Xinane) como de avistamentos de povos isolados (Mashko Piro em Mamoadate, por exemplo) e salas de situação - especialmente da comunicação: antes, era rádio. Tinha vezes que, pra uma mensagem sair do Vale do Javari e chegar em Brasília, tinha que passar pelo Acre.

Luziane Lopez
Gradualmente fomos focando em pajés, plantas medicinais, xamanismo e cosmovisão indígena. Conhecemos iniciativas como a Associação Médicos da Floresta e o Projeto Redes de Cuidado.
André Baniwa
Casos específicos (tracoma entre os pirahã, por exemplo) foram nos mostrando os desafios de ações de saúde com povos de recente contato. 
Raquel Paz
Aliás, os pirahã foram tema no terceiro dia: a língua que só eles falam e assobiam, o costume de comer todo mundo junto, inclusive com os cachorros - e aí eu lembrei do livro do Daniel Everett, em que ele afirma que os pirahã "não acreditam em germes" - a não estocagem de nada porque eles não se fixam em lugar nenhum...
Marco Antonio Iusten
De tarde eu levei Agnes. Ela fez sucesso porque tinha um trabalho de ponto em cruz pra fazer pra escola e o pessoal ficou admirado da escola ensinar esse tipo de habilidade.

Wagner Gallo e Luiz Pereira

Celso Takashi, Vitor Bastos e Akemi Kamimura
Ela não aguentou nem ficar até a hora do coffee break... e eu perdi alguns conteúdos.
Maria Christina Barra

Mas eu entendi que a FUNAI foi aos poucos dando lugar a outras experiências, questões e abordagens. Essa abertura pra outros agentes falarem sobre os povos de recente contato foi percebida pelo público.
Antenor Vaz
Assim se pavimentou o terreno para o terceiro dia, sobre segurança alimentar e nutricional.

Idjarrury Kaingang

I Encontro de atenção à Saúde PIIRC

Foram alguns meses de reuniões preparatórias na segunda-feira de tarde com SESAI (Secretaria de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde), FUNAI e MPI. 

Maria Helena Ortolan 
Foram algumas dificuldades para trazer participantes (entre não respostas ao nosso convite, pendências no SCDP e conflitos de agenda).
Da direita pra esquerda: Clarisse Jabur, Raquel Paz e Tatiane Botelho
De repente virei um pólo de atração, concentrando um fluxo de informações sobre origem, destino, valor de diária, previsão de pagamento de diárias, lista de hotéis em Sobradinho (DF) e a van que não passaria nos hotéis.
Dr. Douglas
Entendi que seria mais seguro criar um grupo de whatsapp com todos os participantes que o MPI trouxe - achando que assim eles poderiam conversar entre si sobre caronas, onde jantar etc., mas o grupo teve outra serventia: juntar os bilhetes de viagem (pra prestação de contas).
Antenor Vaz
O Encontro é um desdobramento da Semana de Atualização dos Planos de Contingência em casos de risco de contato que aconteceu em setembro do ano passado. 
Liderança Yanomami
Dessa vez, o tema central não eram os povos isolados, mas os povos de recente contato. Pela nossa lista, são 25 povos que mantêm a língua materna e cultura e por isso deveriam ser sujeitos de políticas públicas diferenciadas. 
Kolareene Enawene
Por exemplo, um dos Enawene estava com pendência no SCDP. Pedimos pro DSEI (Distrito Sanitário Indígena) dar baixa no sistema pra podermos emitir a passagem dele pro Encontro. Quando resolveram lá em Cuiabá, já havia expirado o prazo de 15 dias antes da viagem. A moça que opera o nosso SCDP sugeriu que esse Enawene viajasse no dia 03, um dia depois de todos os outros enawene. Eu argumentei que não podíamos permitir que um indígena de recente contato viaje sozinho. De fato, no primeiro dia do Encontro, entendemos que ele sequer entende português.
Tatiane Botelho e Neli de Almeida
Aliás, o primeiro dia teve um tema de destaque: a barreira linguística que os povos de recente contato enfrentam. Antenor Vaz falava em "comunicação plena", os indígenas pediam intérprete, a FUNAI alertava que não bastava formar indígenas intérpretes. Espero que a SESAI tenha entendido que, se o Estado pretende oferecer atenção de saúde intercultural, diferenciada e específica, precisa aprender as línguas e concepções de corpo, saúde, doença, vida dos povos com os quais lida cotidianamente.
Lucinha Tremembé
Saúde não é só corpo, é preciso que os indígenas compreendam o diagnóstico, que sejam consultados sobre possíveis remoções pra tratamento em hospital - que costuma ser um local inóspito.
Mislene Tikuna
Quem tem a palavra inquestionada na nossa sociedade são o juiz, o padre e o médico. No sistema de Justiça, a pessoa tem o direito de se defender em sua língua materna e o sistema tem o ônus de arrumar um tradutor/intérprete. E no sistema de saúde, até onde vai a interculturalidade?
Rodolfo Ilário da Silva
Clarisse Jabur é, pra mim, o melhor exemplo do esforço intercultural. Falando metade em yanomami, metade em português, ela contou que aprendeu duas línguas yanomami.
Lucas Manchineri