segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Primeiro o joelho

Luis reclamava de dores no ombro direito e no joelho esquerdo. Imagens mostravam rompimentos e foi solicitada cirurgia. Ele ainda ficou calculando o que seria melhor fazer primeiro, já que precisaria de muletas para se recuperar da cirurgia no joelho - e pra isso o ombro tinha que estar bom. Mas a recuperação da cirurgia do ombro era mais longa, o procedimento mais complexo e os riscos maiores.

Pediu joelho primeiro. A Unimed não deferiu alguns procedimentos, o médico disse que faria mesmo assim, Luis entrou com recurso contra a decisão da Unimed duas vezes, o médico também. Havia um prazo pra marcar a data da cirurgia (22 set), mas com as disputas com o seguro de saúde, a cirurgia foi marcada para 29 out. 

As instruções eram contraditórias: ou era pra cirurgia acontecer de manhã cedo e Luis deveria dormir no hospital para garantir o jejum, ou a cirurgia seria de noite e o jejum de 8h deveria ser mantido de dia. Acabou que cancelaram a cirurgia no dia. O fornecedor não havia entregado os materiais e o médico já não tinha mais agenda livre em 2025.

Desolados, ficamos procurando outro seguro de saúde, traçando estratégias estrambóticas e adiando qualquer adesão. Luis solicitou a cirurgia no ombro, a Unimed passou a analisar. Foi aprovando os procedimentos, até que o médico do joelho agendou a cirurgia do joelho pra 13 de dezembro.

A cirurgia seria às 8h da manhã, Luis precisaria manter jejum até lá e de um acompanhante (eu). Agnes não ficaria em casa sozinha. Naquela semana, Agnes tinha ido almoçar na casa de uma amiga da escola - que em algum momento do dia virou pra Agnes e disse: seria legal se você pudesse dormir aqui, né? Foi a solução que encontramos. Eu buscaria Agnes depois da cirurgia.

No dia 13, Luis foi de jejum, eu comi as duas frutas que tinha em casa. Chegamos às 6h, conforme as instruções, nos identificamos, recebemos orientações sobre onde preencher os termos, fomos informados que a cirurgia começaria 10h, reclamamos, conferimos a documentação, entendemos que o sujeito havia se confundido, aguardamos a equipe médica chegar, fomos convocados pela enfermeira - cujo nome é Nínive! - e Luis vestiu o avental de hospital, uma touca na cabeça e duas toucas nos pés. O médico chegou, cumprimentou, perguntou qual era o joelho, voltou com uma caneta, desenhou uma bola no joelho esquerdo e pediu pro Luis desenhar um círculo em volta da bola dele. Disseram que a cirurgia iria até 10h, depois disso Luis demoraria um tempo pra acordar da anestesia, seria observado e encaminhado para o quarto.

Depois de levar Luis pra sala de operação, Nínive me levou ao apartamento em que Luis ficaria. Guardei as roupas dele no armário, o celular também. Esperei dar o tempo da cirurgia. Como eu não tinha sido convocada, assumi que estava tudo bem e fui fazer compras. Depois que guardei as frutas e verduras, tocou o telefone. Era o médico, dizendo que tudo tinha corrido bem, que Luis estava acordado e foi me descrevendo os medicamentos, fisioterapia, banho, retorno. Agnes ligou em seguida, pedindo pra eu demorar pra buscá-la. Em seguida, recebi mensagem do Luis no whatsapp. Entendi que ele estava no quarto e tinha encontrado o celular.

Atravessei o Plano Piloto e fui ver Luis. Tava ótimo. Eu lembro que eu acordei me sentindo atropelada depois da cirurgia do meu pé. Atravessei o Plano Piloto de novo pra buscar Agnes e fomos juntas ao hospital, já levando as muletas. 

Estava previsto que Luis teria alta assim que conseguisse fazer xixi. A bexiga tava cheia, doendo, mas não saía nada. Os enfermeiros tiraram quase um litro com a sonda, mas ele teria que conseguir urinar sozinho. Sentou, andou de muleta, bebeu muita água, tentou duas vezes ao som de água da torneira e pediu mais sonda. A enfermeira veio com uma luva de plástico cheia de água aquecida no microondas. Compressa quente pra estimular. Não funcionou. Trouxeram uma cadeira que encaixa no vaso sanitário, mas ela só resolvia a parte da mobilidade. Dormir uma noite no hospital se aproximava. Daí ele conseguiu. Quando fui informar, o pessoal enfermeiro já tinha trocado. Conseguimos alta e fomos pra casa cansados.

Acordei todas as vezes que Luis acordou - ou porque ia ao banheiro de muletas, ou porque soluçava. Lembramos do pai dele que também tinha crises de soluço - e do Bolsonaro. Muito remédio... 

Se o sábado foi de pouca movimentação, o domingo foi o dia de entrar no novo ritmo. Além de todos os meus papéis, eu assumi o de jardineira (da praça), cozinheira e enfermeira. Luis tinha crises de soluço. Lembrou que coisas pastosas ajudavam. Fiz mingau de aveia. Depois, fiz mingau de tapioca. Depois do mingau de banana, Luis preferiu que eu fosse na farmácia comprar remédio. Comprei Bromoprida, que me dava muito sono durante a gravidez. Mas ele não dormia: seguia soluçando.

Hoje, segunda-feira, fomos na fisioterapia. A perna estava ficando roxa por causa das bandagens. A fisioterapeuta tirou aquilo tudo, botou gelo e agendou fisioterapia todos os dias. Aos poucos, Luis vai experimentando novos jeitos de subir escada, entrar no carro, levantar da cadeira.

E quando vier a cirurgia do ombro, Luis disse que vai preferir adiar.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Bodas de seda

Quando fui lhe dar os parabéns pelos 12 anos de casamento, ele respondeu: foi sua mãe que te lembrou, né?

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Evacuação do prédio

Os computadores apagaram todos ao mesmo tempo, as luzes piscaram e o pessoal especulou que era trovão. Eu não ouvi a explosão. Os colegas de trabalho se entreolhavam com expressão de dúvida. Pela janela, vimos pessoas olhando em direção ao final do prédio. Entendi que o problema podia ser local. Os primeiros a saírem da sala logo retornaram, avisando: é fogo! Vamos evacuar o prédio.

Juntei minhas coisas, até o guarda-chuva que eu tinha deixado fora da sala aberto pra secar. A fumaça branca vinha do final do corredor da sobreloja. A nova sala em que estamos todos misturados (todas as secretarias enviaram pessoas aparentemente aleatórias para uma nova sala do MGI) é perto da saída de emergência, então nem tivemos que andar até o elevador. 

Com os dois braços esticados, um guarda do prédio segurava duas portas abertas com as pontas dos dedos. Cumprimentei com o olhar e segurei a segunda porta aberta por ele. "Pode seguir, moça", ele disse, mas eu só soltei a porta quando outra pessoa tomou o meu lugar, segurando aberta a porta de emergência.  

No térreo, as catracas estavam abertas e muita gente tossia enquanto se movimentava para fora. A nossa diretora queria fazer reunião de manhã, mas era provável que ainda não tivesse chegado. Avisei no grupo que estávamos evacuando o prédio. Nos grupos grandes de zap do MPI, os chefes e diretores (que ainda não tinham chegado) perguntavam se a equipe estava bem. Muita gente de seis ministérios se espalhou pelo estacionamento. O pessoal do MPI que trabalha no sétimo andar disse que tinha muita fumaça lá em cima, mas que ela era mais densa embaixo, na sobreloja. Chico, meu ex-chefe na assessoria internacional, perguntava pela Fran no zap. Fran tinha sido hospitalizada por causa da fumaça.

Minha vizinha de mesa, Samara Marubo, tinha deixado as coisas dela lá dentro. Quando ela viu o Mário de jaqueta, ela entendeu que ele tinha conseguido entrar - ou fazer com que alguém lhe trouxesse suas coisas. O pessoal do MIR e MMulheres dizia: ou vai pra marcha das mulheres negras, ou vai pra casa, vamos sair da frente do prédio.

Depois que eu saí, as notícias sobre o ocorrido começaram a circular. Entendi que não haveria expediente de tarde, que eu não precisava me preocupar em bater ponto hoje. Como o Congresso de Arqueologia está acontecendo na UnB, fui ver Eduardo Neves de tarde e o pessoal todo que trabalha no projeto Amazônia Revelada.

Não que eu não queira voltar ao trabalho, mas torço pra que amanhã também tenha Arqueologia.
 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O futuro dos povos indígenas isolados

Já caminhou por um labirinto?  

Aconteceu, na UFMT, entre os dias 03 e 5 de novembro, o Seminário Futuro dos Povos Indígenas Isolados. O evento foi idealizado dez anos atrás e se concretizou agora com mesas temáticas: (i) uma mesa com indígenas que atuam nas Frentes de Proteção Etnoambiental, (ii) uma mesa com pesquisadores de diferentes instituições que tratam do tema dos isolados, (iii) uma mesa com servidores da FUNAI coordenadores de Frentes de Proteção Etnoambiental, (iv) uma mesa com representantes de organizações da sociedade civil que lidam com isolados e (v) a última mesa com representantes do Estado (FUNAI, MPI, SESAI, e Ministério Público Federal - em especial a 6a Câmara).

Depois de convencida a entrar, Agnes e eu achamos muito divertido explorar o Labirinto Verde (em Nova Petrópolis/RS). 

Já na primeira mesa ficou evidente que o diálogo era mais produtivo que a mera exposição - que é mais característica no meio acadêmico, em que a pessoa apresenta por 20 minutos e são reservados 5 minutos para o debate/perguntas. Mandeí Juma, Adonias Djeoromitxi e Baíra Amondawa falaram mais e melhor em resposta a provocações e perguntas da plateia. Falas do tipo acadêmicas, em que a pessoa apresenta um discurso retilíneo, aconteceram na última mesa - em que as mulheres brilharam - tanto nas falas como no debate com o público. O meio foi um caminho em que muitas falas foram retomadas, alguns conceitos foram negociados, um caminho em que se avançava em círculos. A imagem que me veio quando ouvi a fala do Fabrício Amorim - e de novo a fala dele me inspira a espacializar um discurso - é a imagem de um labirinto. 

A imagem do labirinto só me veio enquanto eu escutava o Fabrício porque eu já caminhei dentro de um. Ele mostrava os slides e dizia: vou apresentar a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau - fazia brincadeiras - agora vou falar sobre os indígenas - quem quiser saber mais sobre o primeiro caso de genocídio julgado no Brasil, pode procurar saber sobre os Oro Win no rio Pacaás Novos - e já vou falar dos isolados. Seguindo aqui, o processo de contato com os Amondawa e os Jupaú é paralelo ao processo de demarcação - ih, aqui eu já falei antes, o processo de colonização de Rondônia, não vou prolongar. Também não vou adentrar esse caminho da violência toda que ocorreu na década de 80 em Rondônia (que persiste até hoje contra os povos indígenas). Agora eu vou falar sobre a FPE Uru Eu Wau Wau - que antes era a FPE Guaporé - e o nosso trabalho lá com as 6 referências de povos isolados (é sempre complicado falar de povo, porque a gente não sabe bem quem eles são - são todos sobreviventes de massacres, contato, contágios). Aí eu vou entrar no trabalho com os Amondawa - já já vou falar dessas cerâmicas que vocês estão vendo aqui - agora vou passar pelas medidas de proteção territorial - olha aqui os ilícitos (madeira, garimpo, caça e grilagem de terras) - lembra que o Baíra falou ontem da vigilância indígena, da conversa com quem vive no entorno, da fiscalização e a nossa presença constante nas Bases. Aqui eu chego no final com o acesso a acervos de imagens sobre a cultura material indígena dessa terra, porque a gente acredita que ver essas imagens é rememorar e a gente quer que os Amondawa e Jupaú possam ir até os museus que guardam artefatos de seus ancestrais pra qualificar - se relacionar com - esses objetos e memórias.

O labirinto era pequeno, parecia simples, era cheio de gente e tinha um centro a ser alcançado. Depois de atingido o centro, nos perguntamos como se sai do labirinto (era possível refazer/lembrar o caminho andado até ali?), chegamos mesmo a cogitar de pedir ajuda, mas percebemos que encontrávamos repetidas vezes com pessoas que estavam tão perdidas quanto nós. Tiramos resoluções (Agnes guia, agora eu sou a guia), lançamos hipóteses (vamos sair por onde entramos ou vamos sair do outro lado?) e caminhamos bastante.  

O futuro que começa no passado, caminhos repisados e caminhos novos, a terra e as pessoas que dela dependem, a busca e os desafios dos caminhos possíveis, o contato e o contágio, o respeito pela autodeterminação e recusa de diálogo dos grupos indígenas que a FUNAI tem por missão proteger. Como lidar respeitosamente com essa alteridade radical? Havia muitos temas e também muitas perguntas: vocês do Mapi estão revelando (para os fazendeiros, grileiros, jagunços) a localização geográfica dos povos mais vulneráveis que há nesse país? Qual é a diferença entre uma expedição de localização e uma expedição de monitoramento? Dos 116 registros de grupos isolados, só 29 foram confirmados; por que é que os 87 que ainda não foram confirmados não podem ter o território interditado com base no princípio da precaução para que estudos e expedições possam ser feitas com segurança? A sociedade civil pode ajudar na confirmação dos registros que a FUNAI não consegue confirmar? Será que eu vou me aposentar e não vou ver a demarcação da TI Kawahiva do Rio Pardo? - soltou Jair Candor.

A última mesa nos guiou com calma e firmeza para fora do labirinto. Janete Carvalho, Diretora da DPT na FUNAI falou pela primeira vez e mostrou com clareza o papel do Estado (no caso, da FUNAI) na proteção das terras indígenas, apresentou dados e perspectivas de solução. Falou muito do que há fora das terras indígenas e do trabalho que é combater esses inimigos que se mascaram de desenvolvimento. Beatriz Matos, Diretora do DEPIR no MPI, falou muito da relação dos indígenas (tanto os isolados como os de recente contato) com as Frentes de Proteção Etnoambiental. Gabriel Copetti, coordenador da COPISO na SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) mapeou a atuação da saúde indígena nesses contextos de contato. Márcia Zollingher do Ministério Público Federal narrou todas as ações/processos iniciadas pelo movimento indígena (APIB) que resultaram em decisões do Supremo Tribunal Federal (ADPF 709 sobre desintrusão em 8 Terras Indígenas e ADPF 991 sobre a estruturação da FUNAI para atuar na identificação/confirmação de isolados e proteção de seus territórios) que pautam as atuações da FUNAI e do MPI. Lembrou que, depois que a FUNAI havia confirmado a presença de isolados na TI Kawahiva do Rio Pardo e delimitado a área, vieram os fazendeiros reclamar e que o juiz determinou que fossem feitas mais duas perícias - uma delas coordenada pelo Aloir Pacini, conforme relatado na mesa da tarde do primeiro dia. 

Depois da fala dela, entendemos quem estava no centro desse labirinto: Kawahiva do Rio Pardo. E depois de tudo, com um sorriso satisfeito, Elias Bigio se revelou como o arquiteto do labirinto.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Censo 2022 - etnias e línguas indígenas

Começando pelo começo, o IBGE faz o censo da população brasileira mais ou menos a cada dez anos. O primeiro censo, de 1872, pedia que a pessoa indicasse sua cor - e entre as opções branca, parda, preta e cabocla, apareceu "raça indígena" - que não apareceu em 1890, dando lugar (tanto pardos como indígenas) à categoria mestiça. Nos censos de 1940 e 1950, indígena não é uma categoria possível, e se a pessoa se declarasse indígena, seria categorizada como parda. Depois da Constituição de 1988, o Censo de 1991 incorpora a categoria indígena - que perdura até hoje, mas só em 2010 é que se abriam subespecificações da identidade indígena: etnia e língua falada.

Censo Demográfico 2022: Etnias e línguas indígenas, p. 20

De 2010 pra 2022, a população que se declara indígena duplicou, mas esse um milhão e quase setecentas mil pessoas representa apenas 0,83% da população nacional. Mais da metade das pessoas indígenas estão fora de territórios indígenas - e isso tem a ver com o fato de que ainda falta regularizar muita terra indígena.

 


Lendo sobre a metodologia do Censo 2022:

As áreas habitadas pelos povos indígenas isolados são as únicas consideradas não recenseáveis do território nacional. (Censo Demográfico 2022 Etnias e línguas indígenas: Principais características sociodemográficas: Resultados do universo p. 61)

Até aqui os dados eram conhecidos. A novidade era a tão aguardada desagregação de dados por etnia e língua. Sexta passada, no contexto da ANPOCS na Unicamp, foram divulgados os resultados referentes a línguas e etnias. A maior concentração de pessoas indígenas está no Amazonas, mas a Amazônia não abriga a maior diversidade de etnias e línguas, porque concentra grandes grupos (em grandes territórios).

Entendo que a maior diversidade de etnias é atraída pelo universo universitário - por isso São Paulo (Unicamp, USP e Unesp) conta 271 etnias diferentes e o DF (esse quadradinho no meio do país que tem UnB) concentra 167 etnias. Capitais atraindo...
 
Das dez etnias mais populosas, chama atenção que os Kokama (que no Censo de 2010 estavam em 17 lugar), os Pataxó (em 10 lugar no Censo de 2010) e os Mura (em 13 lugar no Censo de 2010) são mais urbanos que aldeados. Representantes do Censo 2022 atribuem o crescimento à melhoria da coleta de dados no contexto urbano. Penso que, no caso dos Kokama e Pataxó, o movimento de retomada explica as declarações de pertencimento a um povo mesmo sem território garantido ou expressivo. Já para os Makuxi (no Censo de 2010, estavam em 4 posição), o que explicaria o aumento demográfico é a segurança que a demarcação territorial (Raposa Serra do Sol) traz.
Se partirmos das dez línguas com maior número de falantes, chama atenção que a língua é mais comumente falada no território indígena - exceto nheengatu que é língua geral. Cruzando etnia e língua, inferimos que os Kokama, Makuxi, Terena, Pataxó, Potiguara e Mura falam predominantemente português.

De fato, menos de um terço da população indígena fala alguma língua indígena (e a língua indígena é mais falada na TI que na "área rural" - categoria do IBGE pra tudo que não é nem urbano nem TI, ou seja, pode ser terra em disputa ou em processo demarcatório; e mais na área rural que na área urbana). Minha conclusão particular é que o uso da língua está diretamente ligado à vida no território.

Nesse Censo de 2022, foram computadas 295 línguas indígenas (contra 274 do censo anterior). Acontece que a maior parte dessas línguas indígenas são paralelas ao português: 86% dos indígenas falam português (> contexto urbano> rural> TI), o que faz com que a população indígena seja predominantemente bilíngue. Línguas dominantes, como é o português no Brasil, acabam "engolindo" algumas línguas indígenas.

As bolas vermelhas indicam perda de língua indígena em detrimento do português nas TIs 

 
Avanço do português em TIs
Percebe-se que os contextos de cada TI são específicos e não há um movimento homogêneo a ser observado em relação à dinâmica linguística. Achei curioso que o IBGE não considera bilíngue quem fala língua indígena + português, mas só quem fala duas línguas indígenas.

A boa notícia é que as línguas indígenas estão sendo mantidas pelas populações jovens (isso deve ter a ver com escolas indígenas específicas, diferenciadas e bilíngues).

Considerando que a esmagadora maioria dos brasileiros é de brasileiros natos, que o Piauí concentra o maior percentual de pessoas que nasceram no Brasil, chama atenção que a língua indígena mais falada no Piauí é warao. 


Warao passa a ser a língua mais falada nas unidades federativas com os quantitativos mais baixos de terras indígenas: Distrito Federal, Piauí e Rio Grande do Norte. Confesso que tenho dificuldade para interpretar os dados relativos a Sergipe (cuja população indígena predominante é Xocó), em que a língua tupinambá (?) foi ultrapassada pela língua yathê (dos Fulniô em Pernambuco). Enfim. O que o censo capta é o pertencimento étnico-linguístico da população entrevistada pelo IBGE. Movimentos migratórios dos Tupinambá/Fulniô para centros urbanos em Sergipe podem dar uma pista, já que os Xocó e Kariri-Xocó falam português...

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Passado-presente e pertencimento

Agnes e eu embarcamos num voo com conexão em Campinas. Em São Paulo estava chovendo, o piloto teve que contornar um conglomerado de nuvens densas, então pousamos na hora em que deveríamos embarcar na conexão pra Porto Alegre. Saindo do avião, tinha uma moça chamando quem fosse pra POA. Eu ouvi, fui pra perto dela, mas Agnes já estava subindo pela escada rolante. Mamãe! Ela gritava enquanto subia. Não tinha outro elevador à vista que descesse. A moça da companhia aérea explicou que Agnes tinha que descer de elevador. Sinalizei a direção do elevador. É tua? Ela perguntou. Sim, é minha filha. Quer subir atrás dela? Só se for de elevador. Apertei o botão, esperamos e quando a porta abriu, lá estava Agnes. Acho que ela teve um pequeno salto de amadurecimento aí.

Na manhã seguinte, Luis insistiu que não ficássemos em Porto Alegre esperando a chuva chegar, que deveríamos subir a serra enquanto o tempo estava bom. Tava tão bom que fomos por Nova Petrópolis, pela estrada antiga e sinuosa. Em Gramado, Ruth e Agnes se deram super bem e Agnes estava disposta a ajudar em tudo - quase fiquei com inveja. A chuva anunciada não caiu. Pudemos dar uma volta no Lago Negro e tentar nos aproximar dos gatos que Ruth alimenta.
A grande chuva estava prevista pra domingo, e como não tinha caído até o meio-dia, aproveitamos pra descer a serra - dessa vez por Taquara, menos emocionante. Chegando no pé da serra, já seguimos pra Estância Velha. Harro me reconheceu, mas ficou confuso com Agnes. Fazia muito tempo que eles não se viam. Todos no asilo pararam pra olhar pra nós. Tu é filha do Harro? Essa é a neta dele? Perguntavam os cuidadores que não me conheciam. 

Voltamos no Harro na manhã seguinte e ele tava da pá virada. O que vocês vieram fazer aqui? Quantos anos tem essa menina? Mas se ela tem nove, então essa história começou dez anos atrás. Eu não posso ser o pai dela porque dez anos atrás eu estava na Europa. Harro, ela é minha filha. Agnes é tua neta. Lembra do Theo Kleine? Sim, foi meu sogro. E da Karin? Não, essa eu não lembro. Lembra da Marie Agnes? Sim, lembro da minha sogra. Agnes tem o nome dela, da minha avó. Essa menina aí não é tua filha. Mas ela nasceu da minha barriga! Que nada, pode vender ela. Harro, vou te levar pro almoço. E quem é que vai pagar?

Achei que não ia conseguir fazer prova de vida e ir no cartório com ele desse jeito, querendo cortar laços. Conversei com os meus pais e depois com o meu marido. Todos me disseram que sim, segue com o plano, afinal de contas, com o passar do tempo, vai ficar cada vez mais difícil de conseguir a assinatura dele numa procuração. Pedi pra moça do asilo avisar o Harro que eu ia levar ele na cidade. Fui no cartório, levar a documentação que eu tinha trazido pra começarem a escrever a minuta. 

Quando chegamos no asilo, ele tava esperando. Topou ir na cidade, nem quis muita explicação sobre prova de vida, aposentadoria, deixa isso tudo pra depois. Caminhava sem bengala, quase não precisou de ajuda pra andar ou entrar e sair do carro. Fomos na confeitaria, comer Apfelstrudel e tomar café. Depois disso fomos no cartório, onde já éramos aguardados. Assinou com mão firme, deu risada, agradeceu e depois, no carro, ficou insistindo que eu desse um presentinho pro homem que trabalha no banco (leia-se cartório). Argumentou como os pequenos agrados eram importantes - que o homem que tinha feito os papeis que ele assinou não era alemão - mas saberia reconhecer um alemão gente boa se recebesse uma lembrancinha.

E assim terminamos uma family trip entre altos e baixos, serra e baixada, gente na casa dos oitenta e gente completando a primeira dezena de vida. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Uma história de grupo isolado

A Amazônia abriga o maior número de grupos indígenas refugiados em seus próprios territórios. Esses grupos isolados são de diferentes tamanhos (Tanaru viveu sozinho – recusando contato por mais de 25 anos; os Mashko Piro somam centenas de pessoas). Segundo o que consegui levantar, eles estão distribuídos em 54 Terras Indígenas, 24 Unidades de Conservação (sendo que APA conta como Unidade de Conservação) e 8 lugares no mapa não delimitados ou protegidos.

A história do indigenismo institucionalizado no Brasil começa em 1910, quando foi criado o Serviço de Proteção aos Índios (SPI):

Aprendemos, nesses anos todos de história do indigenismo oficial no Brasil, que a atração de índios isolados ocorre normalmente por dois fatores: primeiro, quando estes índios estão em territórios objeto da cobiça de algum empreendimento econômico privado, obstaculizando o seu pleno desenvolvimento e; segundo, quando ocupam áreas de interesse de empreendimentos governamentais. Tanto num caso como no outro, o SPI, e depois a FUNAI, envidaram esforços para alocar seus sertanistas com a finalidade de contatar esses índios tanto para livrá-los das ameaças das frentes de expansão, como para dar condições de desenvolvimento a projetos governamentais e privados sem este entrave. (Antenor VAZ, Política de Estado: da tutela para a política de direitos – uma questão resolvida? 2011, p. 12)

Vou contar aqui, seguindo a linha do tempo, a história dos Tapayuna, que habitavam um território às margens do rio Arinos, não muito longe de Cuiabá MT. Como se verá, os isolados Tapayuna – se ainda estiverem vivos – estão numa das 8 áreas não protegidas pelo Estado.

1940 – relatos de confrontos entre os Tapayuna e seringueiros (e outros invasores)

Os missionários tentaram “pacificar” os “beiço de pau”, mas em 1966 foram proibidos pelo SPI de manter contato com os indígenas, já que o contato era feito pelo Estado.

1967 – a FUNAI substitui o SPI

Em 1969, a FUNAI promoveu uma “expedição de atração” levando consigo jornalistas, aventureiros e missionários. 1 pessoa do grupo estava gripada. Centenas de Tapayuna morreram porque não tinham defesas próprias contra doenças virais respiratórias. 

A ausência total de anticorpos provoca manifestações mais graves das doenças entre os indígenas isolados ou de contato recente. Um resfriado comum pode levar à febre alta, grande produção de secreção e evolução rápida para pneumonia e morte. (Douglas RODRIGUES. Desafios da atenção à saúde dos povos isolados e de recente contato, 2019, p. 41)

Houve ainda um episódio de carne envenenada por seringueiros que matou mais outra parcela do povo que ganhou a mídia internacional na época.

1970 – remoção de 41 sobreviventes Tapayuna para o Parque Xingu

Nove homens, oito mulheres e 24 crianças sobreviventes foram transferidos para o Parque Xingu, para possibilitar a construção da BR 163. Os 41 Tapayuna, que fala(va)m uma língua da família Jê, foram alocados numa aldeia Kisêdjê porque a língua era parecida (tipo jogar um brasileiro na França, onde também se fala uma língua românica). Os Tapayuna falavam de parentes que tinham ficado pra trás.

Um ano depois da transferência, em 1971, a FUNAI organizou outra expedição no rio Arinos, dessa vez para localizar remanescentes no município de Diamantino (MT). Não encontraram sobreviventes Tapayuna (será que procuraram vestígios na floresta?)

1976 – Reserva Tapayuna foi extinta por meio do decreto 77.790, assinado por Ernesto Geisel

Nos anos 80, os Tapayuna no Parque do Xingu se dividiram: parte ficou com os Kisêdjê, parte foi morar com os Mebengokrê. Seguiam insistindo que parentes tinham ficado no Arinos em Mato Grosso.

1987 – a partir do I Encontro de Sertanistas, a FUNAI muda a sua política e passa a advogar pelo não contato. Quer dizer: a FUNAI não mais forçaria o contato – a não ser pra resgatar indígenas sob forte pressão.

1990 a 2007 – a classificação dos registros de povos isolados era:

  • contactado
  • confirmado
  • não confirmado – abrindo a possibilidade de interpretação de que não havia grupos isolados no território e que portanto o licenciamento ambiental para empreendimentos estava ok. 
Só em 2012 se chegou à classificação vigente atualmente: confirmado; em estudo; informação em qualificação. Atualmente, dos 114 registros de povos indígenas isolados, 60 estão em fase de qualificação (existe informação, falta fazer expedição para localizar vestígios); 26 estão em estudo (existe informação que bate com registros etnográficos, falta delimitar a área de uso do povo com base nos vestígios); e 28 estão confirmados (às vezes falta delimitar a área, mas algumas TIs já foram delimitadas por Portaria de Restrição de Uso, como é o caso de Ituna/Itatá, Tanaru, Piripkura etc.)

1998 – a TI Massaco foi a primeira terra indígena identificada e demarcada exclusivamente para indígenas isolados

Há relatos de dois massacres por fazendeiros aos isolados no rio Arinos: um na década de 90 e outro nos anos 2010. 

2009 - reestruturação da FUNAI que cria as Frentes de Proteção Etnoambiental (FPE) - voltadas para o estudo, monitoramento e proteção de grupos indígenas isolados. 

FPEs em roxo

A FUNAI organizou ainda duas expedições (2004 e 2016) e registrou apenas vestígios da presença indígena no rio Arinos. Esse povo isolado foi incorporado ao Sistema de Informações sobre Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato como registro 114 Arinos/Sangue.

2019 – o Ministério Público Federal instaurou inquérito civil, determinando que, no prazo de 60 dias, a FUNAI colhesse elementos indicativos da presença de isolados, investigasse a existência de remanescentes da remoção do povo Tapayuna (eram 41 pessoas, mais da metade criança) e reunisse subsídios técnicos para um Grupo Técnico de identificação e delimitação de território sob pena de multa.

2020 a 2023 – PANDEMIA

2025 – saiu a Sentença do caso em que as obrigações da FUNAI na ação de 2019 foram repetidas.

Tal quadro de mora prolongada [49 anos] fragiliza não apenas a utilidade prática da decisão judicial, mas também a proteção de um direito fundamental coletivo, de difícil reparação, cuja preservação dependia justamente da pronta atuação estatal. (Sentença, 24/09/2025).

Torço muito para que os vestígios sejam localizados e que a área de uso dos isolados Tapayuna seja delimitada e protegida. 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Vestígios da Floresta

 

A sobrecapa (luva) que cobre a capa do livro é tipo aquele papel manteiga (mas não é) que usávamos na escola nas aulas de Geografia pra desenhar mapas por cima de mapas existentes. Essa sobrecapa deixa adivinhar uma imagem na capa. Onde não tem letras impressas, a sobrecapa revela o vulto de uma criança. É como um avistamento. A capa mesmo, linda - mas escondida - é uma foto do Sebastião Salgado. Uma foto que coloca no centro o mateiro José Lopes dos Sales Apurinã. A segunda capa, verso da capa, é toda marrom – e a textura do papel escolhido pra ser a capa me lembra a casca de uma árvore. A terceira capa não abre porque forma um envelope que guarda um caderno fino impresso em papel verde intitulado “Notas botânicas”. A gramatura desse encarte e das folhas que compõem o livro todo é alta para um livro (uma Bíblia pode ser mais leve que esse livro de 180 páginas). A contracapa (quarta capa) exibe uma sinopse assinada por Manuela Carneiro da Cunha. E o prefácio é de Sebastião Salgado.

A paleta de cores que compõem o livro é vegetal: do marrom ao verde (claro, escuro, abacate), passando por algumas páginas azuis, roxas, bege e creme. A tinta é sempre preta. Nela, diferentes vozes são registradas por escrito sobre cores de papel variadas: os depoimentos de José Lopes dos Sales Apurinã, Mandeí Juma, Amanda Villa, Eduardo Góes Noves, Sueli Maxacali, Joana Cabral de Oliveira, Atxu Marimã e Karen Shiratori se diferenciam graficamente do miolo do texto, escrito por Daniel Cangussu em papel pólen. Outra diferenciação gráfica é que os textos dos coautores são dispostos em duas colunas, ao passo que o texto do miolo é disposto numa coluna, salpicado de imagens registradas em campo. O livro do Daniel Cangussu saiu em 2024 pela Edições Sesc.

Uma coisa é analisar o mapa, outra coisa é percorrer o caminho. O objeto livro já diz muito sobre si: uma criança não alfabetizada que folheasse o livro teria um vislumbre do seu conteúdo sem acessar suas palavras.

Lendo o prefácio do Sebastião Salgado, lembrei de ter visto a exposição “Amazônia” no Museu do Amanhã (RJ) em 2022 e ter ficado impressionada com os indígenas que preferiam o céu dos guerreiros fortes e jovens. Como eu li o livro em grande parte na frente do computador, passei a rever as fotos em preto e branco, os mapas, consultar dicionários online e ler artigos/textos citados. Era como se o livro físico fosse cheio de hiperlinks (galhos) que levam a lugares específicos na tela do computador. Quando cheguei no penúltimo capítulo, impresso sobre um papel do mesmo verde do encarte escondido no envelope, tive a sensação de que o livro era um móbile: além do livro levar para nove notas botânicas, ainda havia notas de rodapé (tanto no livro como no encarte). Não me surpreenderia se as páginas do livro se abrissem como num livro pop-up para formar uma árvore.

Ler “Vestígios da Floresta” passa por ganhar um novo ponto de vista, perceber relações de mão dupla, aprender a ler vestígios. Começa pela política de não contato que – até onde eu percebi – foi feita, gerida e descrita por não indígenas. A impressão que tinha ficado do livro de entrevistas com sertanistas organizado pelo Felipe Milanez é o discurso de um dos sertanistas (não lembro qual deles) que era bom evitar o contato porque, depois do contato, eles "caem". Era um desses "pais" de povo que depois de muitos contatos se depara com o índio nu e forte e compara com aqueles que ele tinha contactado que passaram a se vestir, falar português e beber cachaça. Esse discurso de que eles "caem em desgraça" depois do contato também está no filme Xingu (2012), em que os irmãos Villas Boas são protagonistas. Antes de ler “Vestígios da Floresta”, eu tinha a impressão de que a decisão de não mais fazer contato com os povos que se isolam na mata, que não mantêm contato com sociedades humanas (indígenas ou não) era derivada dos genocídios que aconteceram por doenças que reduziam populações a um terço do que eram (antes do contato). Agora tenho a percepção de que os violentos ataques indígenas à FUNAI, a constante recusa de “presentes” ou interação e, de certa forma, a fama de alguns grupos isolados (flecheiros, os da borduna que amassam cabeças de inimigos) culminou na decisão de não contato.

Achei legal que a questão de gênero nas Frentes de Proteção Ambiental foi tratada: Amanda Villa conta que, para que uma mulher acompanhasse uma expedição, os homens da FUNAI consideraram que era preciso que outra mulher a acompanhasse – por causa de momentos delicados, como o banho. Eu fiquei pensando que se uma expedição fosse composta por várias mulheres e um homem, esse homem não precisaria de acompanhamento em momentos de vulnerabilidade.

O livro me mostrou de perto o trabalho de estudo e monitoramento de povos isolados sob o olhar de um biólogo que lê vestígios de grupos humanos no corpo de árvores – porque as árvores têm outro tempo que o nosso e não “cicatrizam” como nós: 

“Hoje sabemos que parte fundamental da nossa história foi escrita pelo idioma vegetal das grandes árvores” (p. 140). 

O leitor é iniciado numa botânica forense e passa a reconhecer “quebradas” de galhos para marcar o caminho/local de caçada ou coleta em galhos retorcidos ou mesmo troncos de castanheira bifurcados. Para me apropriar do tema da minha coordenação no MPI, eu já tinha lido sobre essas quebradas, mas nunca tinha parado pra pensar que a árvore segue se desenvolvendo com um galho quebrado – e que esse galho quebrado faz parte da memória de um povo. Além das quebradas, ainda tem as derrubadas – tanto pra alcançar mel como para alcançar frutos. Conforme me embrenhava na leitura, fui entendendo que não é todo povo que coleta mel, nem todo povo que derruba patauá: 

“[...] cada circunstância etnográfica é revestida de singularidade fitofisionômica [...]” (p. 149)

Pensando nos paradigmas científicos de Thomas Kuhn que se substituem porque paradigmas antigos caem por terra, podemos concluir que os valores e crenças que compõem esses paradigmas são fechados, propensos à ultrapassagem. O que todas as vozes desse livro defendem é a interação entre a ciência mateira/indígena com a nossa ciência – seja ela qual for: 

“Estar na posição de aprendiz da floresta demarca a responsabilidade política e científica de produzir um saber sobre o outro quando este recusa o contato, e esse saber engajado da ciência mateira demonstra que a boa ecologia amazônica é, também, uma forma de etnografia.” (Karen Shiratori, p. 158).

domingo, 28 de setembro de 2025

Sapucaia

 

Antes que as sapucaias fiquem com todas as folhas verdes, Luis e eu fizemos uma expedição fotográfica no Eixão nesse domingo. Quando eu vi as tampas dos ouriços no chão, procurei também pelas castanhas, mas não achei. Só vi essas castanhas dentro do ouriço quando cheguei em casa e botei os óculos.

Algumas sapucaias estão com flores mais brancas e folhas mais vinho. Quando tem duas árvores juntas, dá pra notar a diferença.

Eu ainda não entendi bem essas flores, e de alguma maneira me lembram as flores de uma árvore que eu via no Rio de Janeiro cheia de bolas (ouriços) presas ao tronco.


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Nimuendaju

 

Tive notícia do FestCine Brasília pelo Agente Secreto do Kleber Mendonça - cuja estreia eu perdi. Vi que hoje de tarde tinha um filme chamado Nimuendajú e fui ver. Entrei numa sala de cinema lotada de público escolar e me surpreendi com o fato do filme ser uma animação.

Ver o filme com turmas de escolas teve seu efeito: na cena em que ele volta para a esposa depois de longa viagem, apesar das cenas serem entrecortadas e sutis, o rebuliço foi geral na sala. Outra peculiaridade dessa sessão foi que, apesar de ter sido anunciado um debate com a diretora Tania Anaya, não havia mais público na sala quando as luzes se acenderam. Eu fui a última a levantar da cadeira. 

Uma das coisas mais úteis e interessantes que Marcus Garcia me "deu" foi o mapa de povos e línguas indígenas que Curt Nimuendajú elaborou - e o IPHAN digitalizou com algumas parcerias. Kurt Unkel chegou no Brasil em 1903 e foi adotado pelos guarani. Foram eles que deram ao alemão o nome que passou a usar: "aquele que conquistou o seu lugar no mundo”. Eu sabia do mapa e que Nimuendaju tinha trabalhado no SPI, fundado em 1910, antecessor da FUNAI e com vocação para "pacificar" e "amansar" os índios, ou seja, forçar contato para removê-los para reservas e parques a fim de que grandes empreendimentos (estradas ou mesmo latifundiários) pudessem se instalar.

Me surpreendi ao ver os guarani de roupa e marcando os lugares dos mortos enterrados com cruzes, mas depois lembrei da antiguidade do contato dos missionários com os guarani. Acho que ultimamente minha mente está tão ocupada com povos indígenas isolados e de recente contato que essa parte da colonização ficou longe. 

Não me surpreendi com o fato de Nimuendaju acreditar que os povos indígenas estavam próximos da extinção - afinal, ele trabalhava para o SPI e viu de perto o genocídio. Não sabia (mas podia adivinhar) que ele tinha enviado grande quantidade de artefatos indígenas para museus alemães. Essa brincadeira de enviar coleções inteiras pelo oceano pra casa começa com Darwin, passa por Peter Lund, Roosevelt e não termina com Nimuendaju. Quando os museus pediram para ele fazer a curadoria dos materiais, a esposa perguntou se ele a levaria para conhecer sua terra natal. Ele estranhou: Alemanha não é minha casa. Mas enviou grande parte da cultura material dos apinajé, xipaia, tikuna, kanela e tantos outros povos indígenas para esse "lugar seguro". E não levou a esposa - que só era a esposa de Belém (ele teve algumas esposas indígenas). 

Pelos kanela, ele brigou pela demarcação do território de ocupação ancestral. Mas, diferente dos povos que ele apoiava, Nimuendaju era volante: passava pra outro povo, voltava pra esposa, não dependia visceralmente do território. Mesmo assim, foi marcado para morrer aos 62 anos entre os tikuna. 

A diretora tinha contado, antes da exibição do filme, que demorou 10 anos pro filme de 84 minutos ficar pronto. Achei massa que conseguiram recuperar e misturar imagens de arquivo com a animação. E gostei de conhecer mais de perto esse etnólogo por vocação e formação prática.

domingo, 14 de setembro de 2025

Semana de isolamento

FUNAI, SESAI e MPI passaram uma semana reunidos para discutir um padrão de reação institucional articulada em casos de contato ou iminência de contato com indígenas isolados. Eu, que só conhecia as histórias dos sertanistas e de interações com isolados pela via da escrita, fiz questão de ir lá todos os dias e acompanhar as discussões. Nossa estrela guia era Jair Candor pela experiência com os Piripkura e Kawahiva do Rio Pardo no MT.

Jair Candor
No primeiro dia, já fui reconhecida como "professora Lou" e me enturmei facinho com o pessoal da FUNAI. Uns dias depois, Clarisse Jabur narrou o primeiro contato que aconteceu no igarapé Xinane em 2014. Havia 20 anos que não se tinha notícias de contato com povos indígenas isolados no Brasil e de repente a confusão se instalou. 7 pessoas fizeram contato com os Ashaninka no dia 07/07/2014, dia em que o Brasil perdeu de 7 x 1. A palavra CONTATO tem 7 letras...

Leopoldo, Gustavo, Leandro, Cangussu e William. Foto: Washington Costa/MPI
O intuito da oficina era visualizarmos cenários de contato para estabelecer protocolos de resposta articulada entre FUNAI na ponta, SESAI na retaguarda e MPI na articulação. Havia tabelas e cálculo de risco, até um exercício de simulação estava previsto, mas as histórias de contato pressionavam.
Foto: Washington Costa/MPI
Numa manhã, esperando o pessoal chegar, Fabrício me perguntou de onde eu era. Universidade Federal de Rondônia. UNIR? Tô querendo que um biólogo vá lá estudar a biodiversidade da TI Uru Eu Wau Wau. Falei do Narcísio, filho do Elias Bigio - que todos conhecem na FUNAI. Mundo pequeno, não?
Leopoldo, Cangussu, Luiz e William atrás, Fabrício de boné e Marco Aurélio

Na manhã em que finalmente faríamos o simulado (guiados pelo Gustavo que atua em situações de emergência e desastre e pensou graus variados de tensionamento pra nós), Fabrício anunciou que tinha encontrado um vídeo do contato de 2014 com os Korubo. A manhã toda foi dedicada a esse episódio em que os Korubo contactados em 1996 ajudaram no contato de 2014. Uma mulher korubo tinha uma picada de cobra na perna e o núcleo familiar dela fez o contato com os Kanamari. Não foi possível evitar ou reverter o contato por causa dos Korubo de 1996 que, 18 anos depois, reencontraram parentes e tinham dificuldade de compreender a finalidade de uma quarentena (que idealmente dura 14 dias e zera toda vez que for quebrada). 

Foto: Washington Costa/MPI

Os Korubo fizeram contato em 1996, em 2014, depois em 2015 já com um grupo maior e envolvendo os Matis. Depois ainda teve o contato de 2019 em que um Korubo dado como morto (tinha perdido parte do crânio) reapareceu firme e forte. Beatriz, que é antropóloga, tinha explicações históricas pra nos mostrar a complexidade das relações entre os povos Korubo, Matis e Kanamari. Beto Marubo, que fez parte da expedição em 2015, apareceu pra falar da situação atual dos Korubo.

O Fabrício tem uma maneira não muito linear de contar história, o que abriu brechas para as pessoas sentadas no semicírculo contribuírem para a trama. Luiz, sentado lá atrás, interrompia pra explicar por que os Korubo quiseram se vingar dos Matis. Lucas da SESAI, sentado perto da porta, explicou que, na visão dos Korubo, criança não morre, muito menos de tosse - olha aí a transmissão viral. Quando chegou na parte em que Fabrício foi sequestrado pelos Matis pintados de preto e usando máscara com palhas espetadas, Luziane, atrás de mim, interrompia pra contar que, na canoa interceptada, disseram pra ela que nada aconteceria com ela, que eles queriam era o Fabrício. A história ia sendo costurada com contribuições vindas de diferentes ângulos e pontos de vista. Fabrício - que tinha medo da fama dos Korubo, não dos Matis - contava que era acusado de ser mentiroso, de dizer pra todo mundo que os Matis tinham quebrado o motor 40 e também quebrado uma antena. Nem motor 40 nem antena faziam sentido, mas Fabrício lembrou que tinha reclamado em alto e bom som que eles tinham quebrado a quarentena. O que era pra ser o desenlace - levar os Korubo em quarentena para um acampamento longe dos Matis - desembocou na captura do chefe da Frente da FUNAI por uma falha linguística.

Mudou a dinâmica da imersão. Entendemos que podíamos avaliar questões práticas - quem e quando abre sala de situação? Quais equipes são mobilizadas? Quais são os indicadores de risco e vulnerabilidade? - a partir dos casos concretos. Ouvimos os relatos de interação com grupos isolados em 2024 no Vale do Javari em que o contato não se concretizou e em Humaitá no Envira em que houve 2 eventos de interação com grupos isolados, um deles envolvendo provavelmente os mashko piro. No último dia, depois de ouvir o relato de Mamoriá Grande que aconteceu em fevereiro deste ano na jurisdição da Frente Madeira-Purus, fomos à simulação - que envolvia um monte de calamidade e catástrofe, mas não dava rosto aos isolados como os relatos deram.

Enquanto eu não participar de uma expedição, meu contato com indígenas em isolamento voluntário sempre será indireto. Interagir com esses caras durante essa semana foi muito mais vívido que qualquer livro pode ser.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A família diminuiu

Recebi mensagem da Elisa, a esposa do Ernesto, irmão do Luis. Informava que Ernesto tinha sido submetido a cirurgia do abdome, que a cirurgia foi longa e difícil, que Ernesto perdeu muito sangue e veio a falecer. Tive que ler essa última oração mais de uma vez. 

Luis levantou e começou a procurar passagem pra Campinas. Em seguida passou a juntar os parentes. O velório começou a se materializar, os primos deram retorno, as tias fizeram a notícia correr. Levei o Luis no aeroporto, mas antes passamos na escola, pra avisar Agnes. 

Pedro, Elisa, Ernesto e Rodrigo

Um anúncio foi publicado na Folha de S. Paulo e as pessoas vieram se despedir do Ernesto Garzon Novoa. Agora Luis é o último do seu núcleo familiar (mãe, irmã, pai, madrasta e agora irmão).


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Pequenos pontos de conexão

Meu chefe imediato se chama Rodolfo Ilário da Silva. O orientador do Renato e organizador de muitos livros e manuais de Linguística é o Rodolfo Ilari. Coincidência que os nomes sejam tão vizinhos...

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A chefe do meu chefe é Beatriz de Almeida Matos. Esse "de Almeida" do meio sempre ficou meio apagado, exceto quando li que o nome da mãe da Bia era Maria Inês de Almeida. Maria Inês foi orientadora da Cynthia Barra. Passei a ver Beatriz com outros olhos: deixou de ser a viúva do Bruno Pereira e passou a ser a filha da orientadora da minha amiga. Peguei o celular e escrevi pra Cynthia que me respondeu longamente explicando mais ou menos como vai a vida dela e quando pretende nos visitar. Um pequeno ponto biográfico reatou uma amizade antiga.

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Começou hoje uma Oficina de Planos de Contingenciamento organizada pela SESAI, FUNAI e MPI. Não consegui ir na parte da manhã, mas quando apareci de tarde, logo me pediram pra eu me apresentar. Eu disse que eu sou Lou - e que se escreve L - O - U. Em seguida passou a lista de presença em que devíamos escrever nossos dados em letra caprichada, pra nos inserirem em listas e grupos. A lista rodou pra direita e de repente o rapaz que segurava a lista de presença perguntou:

- Professora Lou? Eu fui seu aluno na UNIR em 2011! No curso de Arqueologia, você deu aula pra gente. 

Depois, no intervalo, William veio se apresentar (eu não lembrava dele, mas ele lembrava da professora que vinha de bicicleta). Agora trabalha na FUNAI com povos isolados. Ele me disse que tinha ficado muito impressionado com o texto do Isaac Asimov (o conto "A última pergunta") que lemos em sala e que tinha até passado esse texto pro chefe dele na Frente de Proteção Madeira-Purus. Cada vez mais eu me convenço que a minha atuação como professora de Linguística deixa suas marcas na vida dos alunos pela via cultural.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Projeto CASA

 

Desde o início do ano, as crianças da turma da Agnes estão envolvidas na construção de uma casa de pau a pique. Aos sábados e/ou domingos - mas não todos - grupos iam lá, trabalhar na casa.

Vendo essas fotos, percebo os saltos na construção que, na linha do tempo, percebi como uma evolução lenta e gradual.
Ainda bem que uma das mães das crianças é arquiteta e sabia o que precisa ser feito - e quando.
É certo que os pais e as mães trabalharam mais que as crianças nessa primeira parte dos fundamentos.

No dia da festa junina em julho, a casinha tava assim.

Hoje as crianças misturaram/pisaram a palha, areia e terra que compõe as paredes. Na foto de baixo, dá pra ver o resultado.
A casa tem um telhado verde (que está sendo regado na foto acima). Aí outro projeto paralelo era de fazer uma maquete. A professora explicou que não era pros pais ajudarem muito na maquete, que era pras crianças fazerem o máximo que conseguirem sozinhas. Muitas crianças fizeram maquetes de casa de pau a pique, saíram alguns iglus e Agnes resolveu fazer uma casa na árvore - e pra isso nos pediu um bonsai!

quarta-feira, 3 de setembro de 2025