segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Yoshitaka Amano no CCBB

 Agnes e eu fomos ver a obra da vida de Yoshitaka Amano no Centro Cultural do Banco do Brasil.

Agnes ficou tentando imitar as posturas dos heróis enquanto eu ficava intrigada com a variedade de personagens e dificuldade para determinar (a partir da curadoria) um elemento comum e característico do artista.

Passamos a tarde entre monstros, anjos, donzelas e guerreiros. Em casa, Luis perguntou se havia conexão com Hayao Miyazaki. Acho que são duas linhas que não se cruzam... a fonte de inspiração para Amano é Osamu Tezuka.


domingo, 23 de agosto de 2026

Vacinação em dia

Rolou nos grupos da escola da Agnes um aviso de que sábado era dia de colocar a vacinação em dia. Fomos os três para o posto. Agnes estava com a vacinação em dia, só deram a vacina da dengue pra ela. Nós adultos tomamos muito mais vacinas que ela. Quando eu disse que trabalho com povos indígenas, me deram o pacote completo: gripe, covid, tríplice viral, hepatite b e tétano. Duas picadas em cada braço e uma na perna! Me senti doente depois dessas cinco vacinas...

domingo, 16 de agosto de 2026

Cagaiteira

 

Quase parece um ipê branco, mas as flores são pompons, os galhos caem e a casca do tronco é mais parecida com as outras árvores do cerrado que aguentam essa seca longa.

Todas as folhas verdes caíram num dia e no dia seguinte apareceram os botões das flores que foram se abrindo. Muitos pássaros entram na cagaiteira que parece um vestido de noiva.
As novas folhas serão vermelho-marrons e depois virão os frutos.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Pass

Quando a gente morava em São Paulo, fazia o passaporte alemão no consulado. Quando foi preciso fazer nova documentação pro Harro, fomos ao consulado em Porto Alegre.

Agora que moramos em Brasília, estamos sob a jurisdição do Rio de Janeiro. Brasília, como capital do país, concentra todas as embaixadas, mas quem emite passaporte continua sendo o consulado - e a alocação de consulados tem mais a ver com a concentração de população originária/descendente do que com a organização política do país sede.
Eu tenho dupla cidadania por causa do Harro (minha mãe nasceu em Porto Alegre, ao passo que todos os seus irmãos nasceram na Alemanha) que nasceu na Alemanha. Minha filha pode ter dupla cidadania com base na cidadania alemã do avô. Penso que os filhos dela (se os tiver) já não terão esse direito com base na cidadania do Harro.
Um dos documentos exigidos para solicitar a renovação do passaporte é o desregistro na Alemanha (quando fui na prefeitura de Bassum em 2004 pra avisar que a minha nova moradia estava no Brasil). Eu não lembrava se eu tinha feito isso, então minha mãe foi lá, perguntar. O funcionário lá, notando que tinha inclusive expedido o meu último passaporte (não ele, exatamente, mas a instituição), orientou que eu fosse na embaixada de Brasília pra solicitar que Bassum renovasse o meu passaporte. 

Mesmo sabendo que a embaixada não captura digitais nem faz os trâmites pra emissão de passaporte, liguei lá e confirmei o que eu já sabia. A novidade era que Anápolis foi mencionada como uma unidade que "às vezes" faz passaporte. Achei tudo muito confuso e marquei horário de atendimento no consulado geral do Rio de Janeiro, comprei passagem e reservei hotel que fica equidistante do consulado e aeroporto Santos Dumont. Fiz tudo a pé.
Depois de todos os documentos conferidos, assinaturas firmadas e digitais confirmadas, escrevi meu endereço no envelope que me trará o passaporte, paguei a taxa e perguntei qual seria a documentação necessária para a minha filha solicitar a cidadania alemã. O funcionário respondeu com uma pergunta: você veio ao Rio só pra fazer seu passaporte? Sim. Então, para o da sua filha, vá ao consulado honorário de Anápolis. Eles não emitem passaporte, mas encaminham a sua documentação para cá. Os custos dos Sedex serão menores que os custos da viagem...

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Circo Caramba

Sales mandou um card avisando que estaria em Brasília no fim de semana com o espetáculo Jerônimo Show. Ele já tinha vindo ano passado pelo SESC e eu tinha chamado os amigos da Agnes (Ana Luiza e Antônio) e os pais dos dois colegas dela foram parar no palco. Daí o Sales me mandou a programação do Fest Clown - evento em que o espetáculo estava inserido - e eu compartilhei a programação com a turma da escola da Agnes. 

A apresuntação foi sucesso total, com o maior e mais empolgado público, cheio de gente conhecida (vizinhos, pessoal da FUNAI e IPHAN). Pra minha surpresa, conseguimos reunir 3 tapioquenses: Lívia (que mora em Brasília, mas eu nunca tinha visto aqui), Sales e eu.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

E quem é?

 

No segundo dia, Harro me reconheceu e cumprimentou com jovialidade. 

- Eu vou pra lá. Você vem junto? 

E nessa brincadeira caminhamos por todo o lar. 

- Tá frio aqui. Eu vou pra lá. Você vem junto? 

O pessoal que trabalha lá era outro, parece que há um revezamento, então quase ninguém me conhecia. Perguntavam pra ele: e quem é essa?

- É minha mulher. 

Ninguém acreditou. 

Tenho cá pra mim que ele não se vê. Ou não se reconhece como sendo ele mesmo. Já foi assim quando tentei fazer o reconhecimento facial pelo aplicativo do banco. Ele perguntava quem era aquela pessoa. Quando tirei foto de nós dois, ele também ficou intrigado com a pessoa na foto. Mais que isso, ele não tem ideia da idade dele - tanto é que ano passado teve medo que Agnes fosse sua filha.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Barbaridade

 

Vim para Estância Velha para atualizar o cadastro do Harro no CRAS (consegui!). A luz piscou, a energia caiu e voltou, e tudo que a funcionária tinha digitado não estava mais na tela. Ela respirou e fez tudo de novo. A impressora não quis imprimir, mas tinha a outra e assim pude assinar pelo Harro que todos os documentos dele estão em ordem.

Harro está caminhando com ajuda (tiraram a bengala dele, porque ele ameaçava as pessoas), ensaia movimentos de sentar e levantar antes de executá-los num impulso, dorme bem e come bem. O que me chamou atenção dessa vez é que só falou uma palavra: barbaridade. Todo o resto da comunicação foi gestual.

Quase todos que trabalham no Lar me perguntaram se ele me reconhecia. Não como filha, mas como pessoa conhecida. Só falei alemão com ele, o que deve ter reforçado o sentimento de familiaridade.

Perguntei pra minha mãe qual compositor ele gostava de ouvir. Baixei Tchaikovsky e Smetana no Spotify, pra não depender de sinal lá no Morro Agudo e levei os fones pra ele. Ouviu, fechou os olhos, se recostou na cadeira e logo depois tirou os fones com cara de desdém. Era hora do lanche.

A vida no asilo é espera. Barbaridade... 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Lupas nos olhos

Fui no oftalmologista pra fazer exames periódicos (que, como servidores, fazemos) e ele disse que eu precisava encomendar novos óculos, porque tinha aumentado o meu grau. Eu tenho umas 3 dificuldades óticas, mas o óculos é pra perto.

Quando o grau era 1,5, eu conseguia ver até mais ou menos um metro de distância com os óculos. Mais longe que isso, embaçava tudo. Agora eu precisava de 2,75. Deixei um óculos em casa e levei o outro na ótica, pra aproveitar a armação. Como demoraria uma semana pra ficar pronto, eu precisava garantir um óculos, já que não consigo mais ler nada no celular sem óculos.

Fui na ótica, escolhi entre muitas armações, modelos, cores, e quando o desempate caiu entre dois, nenhum dos dois estava na faixa de preço que eu achava razoável. Acabei escolhendo um que eu tinha testado e que não era assustadoramente caro. 

Os óculos novos me dão dor de cabeça... o grau é muito forte, preciso movimentar o objeto que vou ler ou a minha cabeça pra acertar a distância perfeita pra atingir a nitidez. Poucos centímetros pra frente ou pra trás significam a opacidade devastadora. São lupas, os meus novos óculos.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Poda drástica

 

Brasília tem uma grande quantidade de áreas verdes e a prefeitura conta com um serviço de jardinagem bastante ativo: replantam flores nos canteiros, regam com caminhão pipa, fazem poda, recolhem galhos e folhas deixados nas calçadas.

Quando a sibipiruna na ponta de lá da praça perdeu galhos (arrastando outros, de outra árvore), os homens vieram de caminhão e passaram mais de um dia trabalhando. Deixavam os galhos cortados caídos em cima dos cacti plantados pelo Luis, juntavam galhos em cima de canteiros feitos pelo Luis e derrubavam plantas plantadas pelo Luis quando arrastavam os galhos para a calçada, onde o caminhão os pegaria depois.

Quando foram embora, deixaram um lixão de acampamento: marmitas, copos e plásticos, além de fezes e cheiro de mijo. Além de limpar o lixo deles, Luis ainda reposicionou grande parte dos galhos para o outro lado da rua.

Dessa vez, a prefeitura foi acionada porque as árvores que cobrem o estacionamento estavam largando muito material em cima do telhado do bloco (de 2 andares). Pediram pra todo mundo tirar os carros (não temos garagem coberta) e podaram as árvores. Só que podaram também as árvores da praça que não ficam perto do prédio.

E essa poda foi radical. Desconfio que a placa que Luis colocou no tronco do abacateiro pedindo pros vizinhos recolherem as fezes de seus cachorros salvou a árvore - porque a outra metade foi cortada.

Essa outra árvore foi alvo de corte raso. Não entendemos por que fizeram isso. 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Chuvas de junho em Brasília

Semana passada choveu 4 dias seguidos. Foi chuva boa, que fez a grama voltar a se mostrar verde, não foi chuva de florada que dura só um dia. Nos dois primeiros dias, choveu na hora do almoço. No terceiro dia, choveu o dia todo e no último choveu à noite. 

Já estávamos há mais de 2 meses sem chuva, os ipês estavam começando pelos roxos e aí veio uma frente fria subindo do sul que colidiu com o calor vindo do Pacífico: El niño.


 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Memória e conexão

De trás pra frente, a semana passada encerrou com um evento na Funai sobre memória dos indigenistas mortos: Maxciel Pereira dos Santos (Vale do Javari), Rieli Franciscato (Uru Eu Wau Wau), Bruno Pereira (Vale do Javari) e Adonias Jaboti (Vale do Guaporé) e outros que Beto Marubo enumerou com a ajuda dos mais velhos (lembra, Sydney?). Estavam na plateia Wellington Figueiredo e Sydney Possuelo, formuladores da política de não-contato adotada pela FUNAI a partir de 1987. 

Wellington Figueiredo no microfone
Ambos foram convidados a falar. Sydney reclamou que, na reestruturação da FUNAI, a carreira de sertanista deixou de existir e Wellington olhou para a plateia colorida e disse estar feliz com essa nova geração que está aí. 


Sydney Possuelo

Agnes (que não tem contraturno de sexta-feira) me acompanhou nesse evento e em outro, no MPI, em que recebemos os certificados de conclusão de curso (3 meses!) sobre parcerias MROSC. O grupo de pessoas ligadas à mesma secretaria (no meu caso, a SEDAT), teve como tarefa trabalhar cenários e possibilidades de um estudo de caso (fictício) envolvendo vigilância territorial.

Grupo 1 (SEDAT) com professora no meio
Na noite anterior, teve o evento de premiação do concurso Dom Phillips e Bruno Pereira no Itamaraty. A memória de Bruno e Dom estava tão presente, que, na longa mesa de abertura, o primeiro a falar sobre o concurso de jornalismo investigativo foi Capobianco (MMA). Djuena Tikuna cantou o hino em ticuna e eu voltei pra 2024, quando ajudei a organizar o evento em memória de Bruno e Dom.
 
Sidônio (SECOM) fez a fala mais forte, inclusive atendendo ao pedido histórico dos peticionários da Medida Cautelar 449 de 2022: formulou um pedido de desculpas pela ausência do Estado. Ouvindo o Sidônio, entendi por que a SECOM tinha assumido o concurso e não o MPI.
As duas viúvas também falaram e a premiação propriamente dita trouxe a público reportagens de texto, fotojornalismo, audiovisual e iniciativas de povos tradicionais - tanto indígenas como de matriz africana bem instigantes. Fiquei particularmente curiosa em relação ao podcast "Dois Mundos", que trata de um caso de descompasso trágico pelo qual passaram pessoas pertencentes a um povo de recente contato.


E ao longo de três dias estive na Escola Superior do Ministério Público da União - com pessoas que reencontrei nos outros eventos - para um curso sobre populações indígenas de recente contato e isolados. O curso foi iniciativa do Daniel Dalberto do MPU, mas eu percebi (pelos suspiros e olhares pisados) que ele aprendeu mais que nós. 

Tivemos aulas com Carla Rodrigues sobre saúde Yanomami e o alcance dos braços da SESAI; com Janete (DPT/Funai) sobre a história da Funai e as demarcações de terras indígenas; com Dominique Gallois (Iepé) sobre políticas públicas para povos de recente contato, especificamente Waijampi e Zoé; com Daniel Cangussu (FPE Madeira) sobre vestígios de povos isolados Tupi; e com Awamirim Tupinambá (CGIIRC/Funai) sobre o reconhecimento que a Funai deve aos (mateiros) colaboradores indígenas nas Frentes de Proteção Etnoambiental. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Undine

Vi um filme alemão chamado Undine (2020) e fiquei intrigada: o livro que eu li tantos anos atrás - e que foi traduzido para o português com o título Ondina - conta a mesma história?


Botei o livrinho na fila de leitura e me surpreendi: a história de Undine se parece mais com a de Rusalka. Só que Undine tem uma homóloga que nem o filme nem a ópera mostram: Bertalda.
Undine foi criada por um casal de pescadores que vivia numa península. Eles haviam perdido a sua criança pequena para um ser das águas. E das águas veio Undine, com a mesma idade da criança perdida. Undine é um elemento da Natureza: os pais adotivos a amam muito, mas têm dificuldade de lidar com o seu humor variável, com as peças que prega, com a ausência de maturidade da pessoa que vai crescendo.
 
Quando Undine é adulta, chega um cavaleiro à casa da pequena família. Huldbrand von Ringstetten logo se encanta com Undine e vice-versa. Ele vinha de um torneio em que havia se interessado pela princesa Bertalda. Quando lhe pediu a luva (ele podia ter pedido outra coisa, mas pediu a luva), ela lhe impôs uma condição: só se atravessar a floresta escura. Ele foi, o tempo virou, as águas subiram e ele foi se refugiar numa casa de pescadores.
 
Logo em seguida, outro temporal traz para a casa do casal de pescadores um religioso que concorda em unir o casal Huldbrand e Undine.
Depois da noite de núpcias, Undine se transforma: é como se ela tivesse ganhado uma alma. Devota, obediente e centrada, Undine conta ao marido que é um ser da água. Huldbrand leva a esposa para o seu castelo e promove uma festa. Bertalda, que ficou esperando o cavaleiro retornar, foi na festa e se encantou com o casal. Durante a festa, um ser das águas veio contar um segredo a Undine. Ela revelou o grande segredo no aniversário de Bertalda: Bertalda era a criança que os pescadores haviam perdido para as águas. Bertalda, vendo o casal de pescadores, não gostou de ter pais tão pobres. Tinha sido adotada por rei e rainha, não se via como filha de pescadores. Os pais adotivos dela ficam chocados com a soberba dela, os pais verdadeiros ficam ofendidos e Bertalda acaba ficando com Undine e Huldbrand.
 
Eles vivem bem, mas Bertalda vai alimentando desejos pelo Hulbrand e ele gostaria de poder satisfazê-los. Os seres da água passam a atormentar tanto Huldrand como Bertalda. Undine é frequentemente visitada por um espírito da água que vem da fonte. Ela explica a Hulbrand que se ele perder a compostura com ela perto da água, ela será buscada pelos seres da água. Ele entende e ela pede para colocarem uma pedra enorme em cima da fonte, para que o espírito da água não possa mais incomodá-los. Escreve sinais na pedra que só ela entende para impedir que Kühleborn venha atormentá-los.

Bertalda entra em parafusos quando vê a fonte fechada: como vou manter a minha pele fresca e limpa sem essa água que tem poderes curativos? Sai do castelo transtornada e se embrenha na floresta escura. Huldbrand vai atrás dela, é enganado por uma miragem, se depara com Kühlebron e é salvo por Undine. Os três voltam ao castelo e seguem uma vida comportada até que um deles tem a ideia de fazer um passeio de barco no Danúbio.
 
As águas se agitam, as ondas ameaçam virar o barco e Hulbrand grita com os seres da água e por extensão com Undine. Os seres da água vêm buscar Undine que some na espuma das águas. Huldbrand não sabe se ela está viva ou não e retorna ao castelo com Bertalda. O pai dela, o pescador, não acha certo que seu genro viva com sua filha sendo casado com Undine e vai buscar Bertalda. Ela não quer ir e a solução é um segundo casamento de Huldbrand. 

Undine aparece nos sonhos do padre e de Huldbrand. O padre, convocado a casar Huldbrand com Bertalda, se nega a celebrar o matrimônio, mas fica nas redondezas porque intui que terá que fazer outro serviço. Huldbrand fica dividido, chora pelos cantos e aguarda o desenrolar dos fatos. Bertalda ordena que removam a pedra sobre a fonte, afinal, quer se preparar devidamente para o seu casamento.

Na noite do casamento, antes ainda do casal se encontrar para as núpcias, Undine sai da fonte e vai até Huldbrand. Ele aceita o beijo da morte que ela lhe dá e chamam o padre para enterrar do cavaleiro.

"Dann musst du sterben" é a única frase que identifico que aparece tanto no filme como no livro. Mas as condições para que Hulbrand morra são diversas - aliás, não saberia dizer quem é Huldbrand no filme, já que Undine fica entre dois homens. Uma coisa é certa: a morte. Se não fosse assim, não haveria herói nem tragédia.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Seminário Nacional de Vigilância Territorial Indígena

Participamos de muitas reuniões de preparação desse evento que tinha como objetivo reunir lideranças de uns 30 territórios indígenas que pudessem compartilhar suas experiências de vigilância territorial. Foi criado um grupo de zap para trocarmos informações entre nós e havia um link para todo o material (planilhas de quem vem, programação, material), mas parece que o link só funcionava para quem tinha email da Funai. O evento era da Funai, o MPI pagou diárias e passagens e acompanhou a preparação. 

O artista gráfico pegou uma imagem de rio e procurou um corpo hídrico que tivesse o formato de olho. Depois ele colocou essa pupila amendoada no meio, como se fosse olho de animal e espalhou cílios-pontas de flecha em formação de cocar. 

Reparou que só tem mulheres na foto dessa última reunião? 

Quando, numa das últimas reuniões, estávamos passando pela programação, havia um bloco com relato de experiências emblemáticas: Univaja que era Civaja (no Vale do Javari) que é pioneira e agora está oferecendo formação para outros povos; Urubu Branco e Munduruku (porque lá as mulheres é que tomam a frente). Mencionei que o MPI tinha acabado de encerrar um curso de formação em vigilância com os Yanomami - e que o curso tinha sido feito em parceria com a Univaja. Pagu decidiu que então, além das três experiências, ainda cabia essa e anotou: Yanomami.

Só que Yanomami é um universo. Ao ler o nome do povo que ocupa a maior terra indígena do Brasil, a Funai pensou na Hutukara, a associação fundada pelo Davi Kopenawa. E a gente pensava nos jaguares e kopariri que fizeram o curso de formação. Vieram todos - e fez sentido, porque os Yanomami são de recente contato, ou seja, não falam muito português. A Hutukara desenvolveu, com o ISA, um aplicativo de alerta em que o parente podia gravar um áudio em língua indígena e transmitir pra Hutukara que traduzia e passava a denúncia para a Casa de Governo instalada no contexto da emergência Yanomami. 

Eu estou atrás de um cocar 

No primeiro dia, a primeira mesa foi formada por autoridades tanto da Funai como do MPI. Quando nossa nova Secretária Nacional recém chegada na SEDAT subiu, foi muito aplaudida. Lúcia Alberta, satisfeita, disse que ela era só emprestada pro MPI e que ela ia voltar pra Funai. 

Quem conhece e cuida do território são os indígenas. A Funai tem poder de polícia administrativa, ou seja, não pode prender alguém por ilícitos, mas pode acionar as forças de segurança pública. Fiscalização (controle e apreensão/destruição de materiais) é o que as forças de segurança pública fazem, os indígenas fazem vigilância - que não é reconhecida nem regulamentada. Então o seminário era um convite para os parentes dizerem pra Funai como fazem a vigilância, o que precisam e como o pessoal que faz a fiscalização deveria se comportar. Teve feira de experiências com fotos, mapas e relatos.

No primeiro dia, as quatro experiências apresentaram fotos e relatos para a plenária. Teve gente que achou estranho ver três pessoas do mesmo povo (Yanomami) apresentando e a solução foi iniciar o segundo dia com experiências extra: Xingu e Xukuru. O pessoal da facilitação tinha contratado uma equipe que faz esses desenhos. Tanto o desenhista como a colega dele estavam na plenária, ouvindo e vendo tudo, mas ela anotava conceitos e palavras-chave em post-its.
No último dia, todos os painéis que ele tinha desenhado foram apresentados na tela grande com zoom, pra todo mundo lembrar e ver o que tinha sido dito ao longo do seminário.
Aliás, essa parte da metodologia foi bastante elogiada. No primeiro dia, ainda na fila pro cadastro, cada um pode escolher um entre quatro GTs: tecnologia, financiamento, monitoramento e comunicação. Escolhido o GT, a pessoa ganhava um adesivo que era colado no crachá com o nome do participante. Do segundo dia em diante, nos reunimos em quatro salas separadas para debater sobre avanços, propostas, demandas e diretrizes para uma política de vigilância protagonizada pelos povos indígenas. Ideias eram anotadas em tarjetas pra que o que fora discutido permanecesse visível. E na hora de escolher prioridades, ganhamos 5 adesivos de bolinhas vermelhas pra colar nas tarjetas. 

Saindo no intervalo de uma discussão em GT, reparei que o meu departamento tava sentado ali fora com a Secretária. Sentei com o pessoal e fui acompanhando a conversa. Gostei de falar sobre Tanaru para a Secretária. 

Daqui pra lá: Beatriz Matos (diretora), Luciana (consultora), Samara (coordenadora), Edilena (Secretária) e Paulo (coordenador-geral)

Na plenária de encerramento, a facilitadora quis mostrar só as diretrizes pra Funai que tínhamos discutido nos GTs. A liderança do Xingu não gostou: conversamos tanto sobre tantas coisas nos grupos, eu queria ver essa discussão aqui. A liderança Krahô concordou: nós falamos de muito mais que vigilância, falamos sobre o cuidado com o território. No fim, avaliando a decisão de ter passado por todas as tarjetas que todos os grupos escreveram, veio a avaliação: fiquei contente de ver que os grupos falaram também de proteger os nossos parentes desconfiados (leia-se: isolados). 

No primeiro dia de GT, os Xerente quiseram encerrar os trabalhos com uma cantoria. Formamos o círculo, aprendemos os passos e até as palavras. Perguntei o que significava o canto e ele riu. É um canto de despedida: oh, meu povo, estamos indo embora, mas gostamos de vocês. Os parentes adoraram.

No momento da liderança Munduruku apresentar para a plenária o que tinha sido discutido no GT, ela preferiu cantar. 

O jaguar (em cima da mesa) cantou para a grande roda. 

E no fim, depois que algumas lideranças tinham escrito seu nome em tarjetas para serem considerados membros de um GT que vai monitorar as ações da Funai em relação à vigilância indígena e Janete ter anunciado que essas tarjetas seriam transformadas numa portaria, os Xerente voltaram com o canto de despedida. 

domingo, 24 de maio de 2026

Laternennacht

Minha luz acendeu,

O Sol agora sou eu!

Esse foi o refrão entoado com mais entusiasmo pelas crianças que apresentaram a peça sobre a garota que parte em busca de luz para a sua lamparina.

 

Essa foi a primeira festa da Lanterna na nova escola Moara. As crianças não tiveram que sair da escola com suas lanternas, puderam se reunir na quadra em volta da fogueira e não houve apreensão em relação às árvores e a fogueira. 
O vento anunciava uma estação do ano mais fria, as crianças cantavam sua autonomia.