domingo, 16 de julho de 2017

Nós

Em tupi existem dois pronomes pessoais de segunda pessoa do plural que expressam o que traduziríamos como nós. Îandé é o "nós inclusivo", ou seja, refere a quem está falando, inclusive quem está ouvindo. Se eu dissesse, por exemplo, "nós temos reunião amanhã" a quem de fato vai se reunir comigo no dia seguinte, eu usaria a forma îandé. Oré é o "nós exclusivo", ou seja, refere a quem está falando e mais outra pessoa/ coletividade, excluindo o ouvinte. Se eu dissesse, por exemplo, "nós casamos primeiro no civil e depois na igreja" para uma amiga, essa amiga saberá que não está incluída no nós, e que nós refere a mim e meu marido. Em português tudo é nós, ao passo que em tupi é feita uma distinção - relativa ao ouvinte, que é incluído ou excluído no pronome - que nós entendemos com base no contexto.

Quando meu marido diz: "precisamos lavar/ limpar isso" ou "acho que a gente podia cozinhar isso", ele dá um significado próprio ao nós: exclui-se dele e fica o ouvinte apenas. Quando ele me pede ajuda para digitar/ preencher formulário/ transcrever ou traduzir qualquer coisa, ele espera que eu assuma a tarefa sozinha. Quando ele propõe que a gente leia um livro junto, ele lê o livro inteiro numa velocidade impressionante e fica me perguntando quando é que eu vou começar a ler o livro.

Tupi não é estranho quando diferencia îandé de oré.

Um comentário:

Natalie Rios disse...

Saudades de ler seus textos linguísticos.
Preciso voltar mais por aqui.