domingo, 11 de junho de 2017

Pra mim?!

Recentemente Luis desenvolveu uma compulsão por comprar livros online. Isso teve como consquência que o carteiro vem aqui pra casa no mínimo duas vezes por semana, sempre trazendo pacotes pesados para o Seu Luis. Em alguns pacotes vinham livros pra Agnes, pra mim, pro futuro, pra resolver anseios urgentes de leituras programadas há anos.

Uma vez o carteiro disse que logo precisaríamos de estantes novas. Eu lhe segredei que meu marido tinha gasto quase todo o salário em livros. Riu desacreditado.

Já aconteceu mais de uma vez de interceptarmos o carro amarelo dos Correios quando saíamos do condomínio. E tinha livro pro Luis e o carteiro nem pedia o RG porque já nos conhece.

Ontem o carteiro que vem de bicicleta me entregou um pacote. Li quem era o destinatário e me surpreendi: Pra mim?! O carteiro riu e disse que finalmente tinha chegado um livro que não era pro meu marido. Olhei o carimbo e vi que era da Holanda. Imaginei que fosse o livro organizado pela Esther Pascual e Sergeiy Sandler sobre interações fictivas em que Christine e eu temos um capítulo sobre interações fictivas na fala de sujeitos com afasia.

Quando abri o pacote, outra surpresa: era a tese da Christine.
No final do livro tem um currículo em que consta que ela começou o doutorado em 2003. Dentro do livro tem um convite pra defesa, que foi no dia do meu aniversário. Essa moça passou 14 anos fazendo doutorado: teve dois filhos no percurso, trabalhou como fonoterapeuta, lecionou na universidade e conseguiu publicar comigo aquele texto que começamos a escrever em 2006 ou 2007 (quando eu estive na Holanda, sob orientação do Kolk e ela também). Nos agradecimentos, estou eu lá, como alma gêmea da pesquisa. Que honra!

E achei curioso que ela tem uma sessão de capítulo sobre construções de tópico-comentário - que estão nos nossos dados do capítulo que escrevemos sobre interações fictivas, mas que só entraram na roda porque eu identifiquei essa construção nos meus dados, em 2006. Até então, Kolk, nosso orientador, descrevia uma ordem de palavras caótica. Christine ficou encantada com a possibilidade de ver sistematicidade onde ele via desordem. E passou a enxergar construções de tópico nos dados dela também.

Esses dias, Rosana, minha orientadora no doutorado, me mandou um texto do Kolk com uma leve suspeita: vocês divergem, não? Sim. Tanto eu como Christine nos aventuramos nas bordas da Teoria da Adaptação. Inclusive eu vou para um congresso no mês que vem, defender que se abandone o termo 'fala telegráfica' para descrever a fala afásica, porque, comparada a um telegrama, ela apresenta características próprias. Talvez esse rompimento intelectual com o orientador tenha dado a ela a sensação de que somos almas gêmeas da pesquisa.

Em todo caso, fico muito feliz por ela (nos correspondemos há mais de 10 anos). Esse belo livro encerra uma longa etapa da vida dela e é um ótimo presente pra mim.

Um comentário:

Ulla Sen Gupta disse...

Wie schön!! Werdet Ihr Euch treffen im August? Glückwunsch!