quarta-feira, 19 de abril de 2017

Documento perdido

Num sábado desses, fui no mercado central levando no bolso da calça a carteira de motorista e o dinheiro necessário pras compras. Fiz as compras e voltei pra casa. Guardei as compras e o troco. Senti que faltava alguma coisa: a carteira de motorista. Depois do almoço, voltei no mercado pra perguntar se alguém (dentro do mercado) tinha visto a minha carteira de motorista. Nada.

Muito tempo depois, fui fazer B.O. da carteira perdida. Luis me explicou onde fica a delegacia mais próxima e fui lá. Só a carcaça da delegacia. Nem cadeira nem mesa dentro. Simplesmente abandonada. Lembrei da outra delegacia no Cohab e fui lá. Mesma coisa.

Liguei pra Polícia e a moça atendeu dizendo "flagrantes". Perguntei se eu podia fazer B.O. lá, onde ela estava. Não podia. Perguntei o que tinha acontecido com as duas delegacias em que eu tinha ido e ela me disse que houve uma mudança, mas ela não sabia dizer onde era a nova delegacia. Só tinha o número de telefone. Liguei e ficou chamando até eu entender que esse era o número antigo da delegacia desativada. Retornei pros flagrantes e ela lembrou que tinha uma UNISP atrás da Faculdade São Lucas.

Na fachada está escrito apenas UNISP central, sem explicação de que se trata de uma Unidade Integrada de Segurança Pública. Todas as polícias foram aglomeradas num prédio que, segundo o delegado que me atendeu, já está caindo aos pedaços. Eu só concordava, enquanto ele desfiava o rosário de reclamações. Porto Velho tinha 8 delegacias. Em vez de construir mais duas, que precisa, construíram quatro prédios mal planejados pra abrigar duas delegacias (em cada) mais todas as polícias (militar, civil, marinha, aérea). Aí fica cada um no seu quadrado e não tem integração nenhuma, só no nome. Quem fez isso aqui não pensou nas necessidades do servidor da Polícia. E não teve nenhuma consulta à população ou aos servidores. Simplesmente amontoaram a gente aqui nesse prédio que nem parece Polícia. Nós parecemos uma faculdade. Paulista ainda por cima... Olha essa sala, toda grande e aberta. A pessoa vem registrar um estupro e todo mundo que tá na fila fica ouvindo; daqui a pouco o sujeito tá dando opinião! Tinha que ter um lugar mais reservado pra fazer qualquer boletim de ocorrência.

Saí de lá com o coração pesado. No meu aniversário eu inventei de fazer B.O. Quando olhei no papel, mais um suspiro: metade das informações sobre mim constavam como "não informado" - porque ninguém me perguntou onde moro, qual a minha profissão etc. A vítima, inclusive, constava como "não presente". O parágrafo anterior prova que estive lá. O último golpe foi ver a minha idade: 38 anos. Era o dia do meu aniversário, ou seja, o dia em que eu completava 39 anos.

Mesmo não concordando bem com o B.O., resolvi andar com ele na carteira até tomar coragem de ir na auto escola. Daí o Luis foi no mercado. Ao sair, perguntou pro guardador de carros se ele tinha visto uma carteira de motorista perdida. Vi, sim. A carteira de motorista da minha mulher? É dela, sim, eu vou pegar. E não é que trouxe a minha carteira de motorista? Eu teria devolvido pra ela, mas ela nunca mais voltou aqui. Luis rapou todos os trocos de dentro da carteira. Nessa altura, todos os moradores de rua da região do mercado estavam em volta, agradecendo e comemorando que o documento perdido tinha sido recuperado e que o almoço de todos tava garantido.

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