sábado, 20 de julho de 2013

Schlafes Bruder

No filme de Joseph Vilsmaier, Schlafes Bruder (1995), Elias é tocado pela canção que a parteira canta e só então emite o aguardado sinal de vida. Antes desse sopro melódico entoado em desespero diante da criança inerte, só havia tensão. No momento do batismo, a criança chora ao escutar a voz do padre e só se acalma com o som do órgão desafinado.

Elias tem ouvido absoluto e se dá conta de que pode animar o mundo através dos sons. Deitado à beira de um rio numa pedra em forma de pegada humana, Elias entende que tem um dom musical. Nesse momento místico, seus olhos assumem outra cor. A testemunha que presencia o novo nascimento do menino é seu amigo, Peter, que se sente tocado por essa entrega e transformação.

Quando Elias canta, as pessoas do vilarejo perdido entre os Alpes não dormem. Quando recebe aulas, é reprimido pelo professor. Quando pretende anotar os sons que ouve dentro de si, desenha curvas porque não aprendeu as notas. Elias não se encaixa na vida funcional do vilarejo: não planta, não constrói, não mata, não colhe, não trabalha. Mas quando Elias conserta o órgão (depois de dedicado trabalho de restauração em parceria com Peter), o organista comete suicídio - e assim cede seu lugar a Elias.

Antes da irmã de Peter, Elsbeth, nascer, Elias sente seus batimentos cardíacos. O coração do menino e da menina que ainda não veio ao mundo tocam no mesmo compasso, com a mesma voz. É essa harmonia que prende Elias a Elsbeth. Peter se sente ligado a ele pela música que Elias levará ao mundo. Elsbeth se sente ligada a Elias, mas eles nunca se tocam. Outro triângulo se forma: Elsbeth é prometida a Lucas - que entende que a moça tem dois corações.

Elias leva Elsbeth à pedra no rio em que teve sua revelação, compartilha com ela o presente que lhe foi dado. Mas ela está numa vibração paralela. Ela não consegue absorver o significado daquilo que dá sentido à vida dele.

Peter chega a acariciar Elias, Elsbeth lhe cobra provas de amor, mas Elias não consegue dar outra expressão aos seus sentimentos a não ser na música. Cada um embarca, impermeável, no seu projeto, na sua bolha. As quatro pessoas que formam os dois triângulos se esforçam muito para alcançar o outro, mas estão demasiado preocupadas em satisfazer a si mesmas. Enquanto toca o órgão da igreja, Elias sente, pelas palpitações aceleradas, que perdeu a amada para Lucas. Vai, desencantado, até o louco do vilarejo e ouve dele uma sentença fatal: quem ama não dorme. Essa frase, pronunciada em meio a um fluxo de descrições de si mesmo (não se pode dizer que Michael dialoga com Elias: cada um está mergulhado no seu mundo interior) torna-se a tônica do resto da vida de Elias.

Peter, que detesta o vilarejo em que seu amor está aprisionado e não pode aflorar, incendeia o vilarejo. Elsbeth e Lucas partem com os outros para a cidade, Elias e Peter permanecem na igreja até que um inspetor de órgãos os leva para a cidade, para um torneio de organistas. Quando o desconhecido Elias começa a tocar a peça Schlafes Bruder, o público estranha. Peter e Elsbeth, no entanto, reconhecem e compreendem a sua música. Elias percebe a presença de Elsbeth, chega a ouvir sua voz, mas não a encontra na multidão.

Acompanhado de Peter, ele volta à pedra. Lá espera, sem dormir. A morte chega antes de Elsbeth e leva Elias e a pedra.

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