domingo, 2 de setembro de 2012

Resenha em duo

No telefone:

Lou: Ontem, no cinesofá, vi um filme chamado 170 Hz. Não sei bem o que significa essa frequência sonora para o ouvido humano, mas os personagens principais do filme holandês são surdos.

Luis: Por que você não resenha esse filme no seu blog? Depois que você me conheceu, praticamente parou de escrever.

Lou: Hm, é verdade. Mas eu acho que não gostei do filme, inclusive já apaguei. A estória não é genial, o que vale ali é a forma de filmar, que é muito plástica. Os sons preenchem o silêncio do casal apaixonado, grande parte das cenas é em close, muitas cenas são lentas, uma cena em especial é em câmera lenta. E tudo tem a ver com água. Ou a moça está na banheira, ou ele está jogando pólo aquático, ou ela está nadando. Na Holanda tem muita água mesmo, e tem a parte em que eles fogem e vão viver num submarino encalhado.

Luis: Olha que interessante, a ligação entre água e surdez! Porque a surdez é um mergulho profundo no silêncio. E embaixo da água a gente não escuta o que acontece na superfície.

Lou: Tá vendo como eu não podia fazer essa resenha que tu me pedes? Você vê coisas que eu não vi, sendo que você nem viu o filme!

Luis: Mas conta a estória do filme.

Lou: Sim, então. Um casal de jovens surdos abastados se apaixona. Apesar de ser de família rica, o moço vive num ônibus abandonado perto de uma construção que parece uma usina atômica, aliás, ele é o rebeldezinho com sua moto, cigarro e Ray-Ban. Já a moça vive com os pais numa casa yuppie, estilo James Bond. Quando ele começa a trazer a namorada pra casa, o pai da moça encrenca com o namoro. O moço é convidado pra jantar na casa dela, mas não há empatia. Depois que ele vai embora, o pai briga com a filha e bate nela.

Luis: Olha Freud aí.

Lou: Nem vem com Psicologia pra cima de mim! Continuando, eles planejam sair dali a duas semanas, engravidar e voltar. Segundo esse plano, ninguém poderá separá-los se ela estiver grávida. Nesse meio tempo, três rapazes abordam o moço surdo no vestiário. Provocam batendo palmas, gritando, jogando uma bola na cabeça dele, esperando que o garoto surdo reaja. Ele reage durante o jogo de pólo: afunda o menino, segura a cabeça do rapaz embaixo da água com as pernas por quase um minuto e quase mata o outro. Essa seria uma explicação pro moço chamar a namorada surda pra partirem antes do tempo combinado. Quando ela pergunta por que eles estavam fugindo antes, ele parece que vai responder, mas a cena muda. Sabemos, mais tarde, que ele não explicou que tava com medo de ser perseguido na piscina por causa do bullying, porque ela pergunta de novo pelo motivo da partida antecipada.

Luis: Eles não conversam?

Lou: Cara, eles são surdos, mas isso não significa que sejam sem linguagem. Eles se comunicam - inclusive com os pais - em língua de sinais. Mas concordo, eles conversam pouco. Os olhares dela são muito intensos e comunicadores, mas ele não diz pra ela por quais tormentas está passando. Tem uma cena em que os dois estão justamente partindo de carro. Ele dirige, ela é a passageira. De repente, quem está sentado no banco do passageiro não é mais ela, e sim o pai dele. Dizendo (em holandês, não em língua de sinais) que o ama, perguntando se ele o ama e pedindo um beijo. E pai e filho se beijam!

Luis: Freud de novo.

Lou: Então, mas na cena seguinte ela está sentada do lado dele de novo. Daí eles passam a habitar um submarino parcialmente submerso. E tem uma cena em que eles estão mergulhando. Ela aparece totalmente sereia, de vestido branco e cabelos dançantes, convidando pra nadar pra outro lugar. Ele segue, mas olha pro lado e vê a figura do pai. Inchado. E, cortando algumas cenas paradas, o espectador percebe que o pai abusava do moço e que ele não podia mais voltar pra casa porque tinha matado o pai.

Luis: Totalmente Freud: o pai com ciúmes do namorado da filha, o filho que mata o pai, o trauma e a dificuldade de falar sobre o abuso.

Lou: Mas a sequência que mais me impressionou foi quando, no submarino, ele pergunta pra ela qual era a coisa mais linda que ela tinha visto na vida. Ela responde que não viu, mas que ouviu - apesar de ser surda. Vemos a cena em que ela era criança, iluminada, dançando com a bailarina de uma caixinha de música na beira de um lago. Do outro lado do lago há três meninas, uma penteando os cabelos longos da outra. A menor se levanta, pega alguma coisa que enfia no vestido da maior, que solta um grito de surpresa alegre. Aquele gritinho infantil tinha sido a coisa mais linda em sua vida. O namorado diz que a coisa mais linda que já viu foi ela, na noite anterior. Vemos a cena, em câmera lenta, de uma massa de tinta vermelha densa, reluzente, progredindo no ar até se chocar com o corpo nu dela. A cena dos dois jogando baldes de tinta vermelha um no outro é linda mesmo. É plástica.

Luis: Os gritos e gemidos de prazer que eles soltariam se não fossem surdos foram traduzidos em tinta vermelha. Passa esse filme pra mim?

Lou: Já apaguei. E não vou escrever resenha coisa nenhuma, porque eu me limitei aqui a te contar a estória. Uma resenha tem que ser mais que o resumo da coisa resenhada, e eu ainda nem cheguei na parte da interpretação, reflexão e tudo mais. Você que fez essa parte que me falta.

Luis: Tá vendo como a gente se complementa?


170 Hz
Ano: 2011
País: Holanda
Gênero: Romance, Drama
Realizador: 
Joost van Ginkel
Intérpretes: Gaite Jansen, Michael Muller, Eva van Heijningen 

Um comentário:

Leonardo disse...

parece interessante, li apenas a metade do texto (spoilers) e vou ler o resto depois de assistir o filme