sábado, 29 de setembro de 2012

Escola e formação

O Cohab Floresta estava lotado, como é de costume ao anoitecer. Na altura do Classe A, escola que já denuncia seu status de elite no nome, subiram adolescentes uniformizados, bonitos, bem nutridos e muito à vontade. O único menino usava óculos Ray Ban - que não combinava muito bem com o uniforme escolar, mas combinava perfeitamente com sua classe social. No primeiro ponto da Jatuarana, subiu um senhor dos cabelos brancos, pele fina e voz esganiçada. Quando este senhor viu o uniforme da garotada, abriu um sorriso largo. Em retribuição, o menino de uniforme instou a colega sentada a dar lugar ao grisalho. Mais do que satisfeito - quase feliz - o senhorzinho se sentou no banco do ônibus lotado numa tarde de mais de 30 graus.

Puxou conversa com o menino de Ray Ban:
- Vocês são do Classe A, não é? Essa é uma escola boa! Nunca vi ninguém falar mal dessa escola. E todo mundo que estuda lá, passa no vestibular. Quanto tempo faz que você está nessa escola?
- Três anos.
- Ah, então você deve ter conhecido o meu neto. Caio Prado. Nesse ano agora ele passou no vestibular e está na universidade. Graças ao Classe A.
- Caio? Já ouvi falar, mas não conheci.
- Não conheceu porque ele estudava muito. Passou em primeiro lugar na universidade de Campina Grande e em segundo lugar em Manaus.

Lá pelas tantas, o senhorzinho perguntou pro menino:
- Qual foi o melhor livro que você já leu? Pode falar qualquer um, qual foi o melhor livro que você já leu?
O menino não soube responder. Eu também não saberia, porque eu provavelmente já esqueci dos melhores livros que li. Além do mais, eu não funciono com essas listas de Top 5 (melhor música, cor preferida, comida preferida, melhor livro, melhor filme).

Diante do silêncio encabulado do rapaz, o senhorzinho tentou ajudar:
- Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar, Graciliano Ramos, qual foi o melhor livro que você já leu? Você já leu Grande Sertão: Veredas, do Graciliano Ramos?
Não foi quando ele confundiu Graciliano com Guimarães Rosa, mas foi insistência numa resposta - qualquer que fosse - que me fez suspeitar que aquele senhor estava armando o cenário para uma resposta pronta. Ele não queria conversar com o menino de Ray Ban sobre literatura, sobre escritores, sobre o prazer da leitura e a aventura da escrita. A resposta veio logo - do senhorzinho:
- Pois o melhor livro que eu já li é a Bíblia Sagrada.

O menino, que tinha sido colocado no papel de mostrar serviço escolar, que se sentiu constrangido a provar que a escola dele era boa mesmo e o fazia ler os bons autores, que vislumbrou a possibilidade de uma discussão qualificada sobre literatura, soltou uma risada aliviada. Não precisava demonstrar maturidade, não precisava revelar que sua formação escolar era pra passar no vestibular e nada mais (e que portanto tinha lido os resumos e não as obras), não precisava refletir sobre essa escola que formata vencedores que escrevem, leem, aprendem e pensam por obrigação - para o simulado ou o vestibular. Aquele menino do Ray Ban não estava nem mesmo envolvido num diálogo.

5 comentários:

Anônimo disse...

uauu... que bela estória! Você conseguiu descrever e transmitir exatamente o que se passou na sua cabeça ao observar a cena no ônibus.
Mas como tudo que pensamos, falamos ou escrevemos é menos descrição objetiva de algo e mais interpretação ou descrição subjetiva, percebo que você descreveu a cena a partir do ponto de vista da professora que toma partido e se identifica por um momento com o rapaz. O senhor grisalho é descrito como uma autoridade absoluta que por sua vez se enfeita com outra autoridade absoluta, a Bíblia Sagrada! Isto se torna bem claro quando ele é rebaixado de senhor para senhorzinho.
Mas eu que sou uma senhora grisalha não vejo o senhor grisalho como uma autoridade absoluta. Vejo que ele se comporta como uma e que se enfeita com outra. Tento me colocar no seu lugar e percebo que ele está fazendo o papel que algum dia a sua família e a sociedade em que ele cresceu lhe impuseram: na comunicação com pessoas mais jovens ele deve ser a autoridade e deve ter a melhor ou a única resposta. Não pode haver nenhum diálogo com alguém mais jovem do que ele, senão quiser que a sua autoridade seja ameaçada.

iglou disse...

Mama,

obrigada pelo comentário que veio por e-mail e que colei aqui - já que por algum motivo obtuso você não está conseguindo postar comentários no meu blog. Eu tinha tirado a verificação de palavras, mas logo vieram vários spams, então botei de volta.

Gostei do seu comentário - e de fato você me pegou no pulo. Estou, neste momento, preparando um texto que quero apresentar num congresso. O texto é sobre os sinais de pontuação e como eles são mal ensinados/ interpretados nas escolas e gramáticas. Daí, envolta nessa aura de preocupação com o ensino de língua portuguesa, eu lembrei da cena de ontem e escrevi no blog.

Só me identifiquei com o rapaz no instante em que lhe foi feita a pergunta sobre o melhor livro. De resto, identifiquei o rapaz com os meus alunos que não leem, não escrevem, não estudam a não ser pra conseguir nota.

Que eu tenha "rebaixado" o senhor pra senhorzinho não foi uma escolha consciente. Acho que achei que eram sinônimos. Mas também acho que a sua análise do argumento de autoridade é boa. Obrigada!

Anônimo disse...

eu acho assim: eu estudei no classe a. Tem dessa mesmo, do resumo. E isso de elite. É como um mantra, pra vc acreditar que é o melhor. Pq o vestibular é pra isso, pra dizer quem é o melhor. E a escola, para eles, é pro vestibular. E essa lógica é bem cruel. Principalmente foi comigo, pq eu nunca acreditei nisso. E, assim, tinham os livros pra ler - da martin claret, diga-se. Vc poderia ler o resumo ou ler o livro. Em sempre lia o livro. E lia muito mais. E uma pá de gente não. Pq ainda da leitura o que se quer é um resultado. Algo como "pra q o livro"? Não é assim? Eu nunca achei isso, do ler pra alguma coisa. É claro que no final tem, mas... Eu tenho mts restrições sobre o livro na escola, da forma como ele aparece. Pq o problema, eu acho, é que não ensinam a ler. E, acho, do jeito que é, o resumo cumpre a função. É isso que tem q ser revisto, eu acho. O pq do resumo ser algo satisfatório. Pq é. Os alunos do classe a não passam no vestibular "por sorte". Até tem quem, mas... Quer dizer, não seria legal ter momentos para leitura na aula. Mas eu tenho uma dúvida, que é sobre como ensinar a ler, sobre como ensinar a leitura literária. Como fazer? Lendo? E aí eu acho que a questão fica: como, e pq, o texto é ensinado na sala de aula?

iglou disse...

Ei, Anônimo

obrigada pelo seu comentário! O ponto que você coloca - e que é novo pra mim (porque eu, assim como você, sempre lia as obras e nunca fui preparada para o vestibular: passei -raspando- porque tive boa formação) é sobre o resumo que funciona. Concordo que os objetivos da escola não são exatamente de formação e socialização do cidadão. E como o que conta são os resultados, o resumo proporciona os resultados desejados. E aí a pessoa alcança o resultado sem percorrer o caminho. É como chegar no topo do Everest de helicóptero e querer fincar a bandeira!

A pergunta que você coloca é complicada mesmo. Não sei se você já foi meu/minha aluno/a, mas o que eu tento fazer na universidade é fazer os alunos escreverem textos. Meio que conto com o pessoal da Literatura pra que façam os alunos lerem textos de maneira prazerosa.

fran disse...

Olhe... Contar com o pessoal da Literatura é meio como andar de helicóptero, hein?

hahahaha, tô brincando, obviamente.