segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Distopia

Robson explicava esse conceito, que lhe era muito caro, da seguinte maneira: na utopia, o tempo presente está ruim, mas se imagina um futuro melhor. Na distopia, o tempo presente está ruim e se imagina um futuro bem pior do que o presente. Um outro texto interessante sobre o tema pode ser lido aqui.

A utopia é a construção de uma sociedade perfeita. Já na distopia, observo a eliminação de algum elemento da nossa sociedade: a gasolina em Mad Max, os livros em Fahrenheit 451, o pensamento em Idiocracy, a memória em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, o desejo em Equilibrium, o incômodo em Admirável mundo novo, a morte em Aeon Flux, as crianças em Children of men, o tempo em Momo, a história em 1984, a democracia e o Estado em Animal Farm e V de Vingança etc. Nessa lista, há livros e filmes bons e medíocres, mas isso não importa. Importa perceber o padrão: algo foi cirurgicamente retirado da sociedade atual na sociedade distópica ambientada no futuro.

Por terem esse elemento (qualquer que seja) recortado do universo, essas obras distópicas beiram (quando não o são, declaradamente) o fantástico. E o fantástico é uma extrapolação da imaginação pra nos sacudir.

O filme norueguês The bothersome man (2006) não escolhe um elemento a ser recortado da sociedade distópica, mas mistura vários elementos de obras distópicas e fantásticas. A fotografia cinza, o foco total no personagem principal e os espaços vazios lembram muito a estética do fantástico filme português Embargo (2010). O fato de o personagem principal vir de fora para a sociedade distópica e ser praticamente o único a ter memórias de uma outra organização social/ sensorial é identificável em poucos filmes da lista acima, mas está em Idiocracy. A "ditadura da felicidade", expressão formulada no Cronicamente inviável em relação ao carnaval, se repete em praticamente metade dos filmes distópicos, mas me parece mais saliente em Admirável mundo novo. A ausência de sabor, música, prazer sexual, empatia e tantas outras sensações remete a Equilibrium. A ausência de crianças remete a tantas estórias, desde O Flautista de Hameln a Children of men. Os homens cinza (iguais entre si) que "removem a sujeira" são um cruzamento entre os "homens cinza" de Momo; os milhares de Mr. Smith de Matrix e os enfermeiros de Fahrenheit 451 que fazem a lavagem estomacal nos pacientes com overdose de pílulas. A tentativa fracassada de suicídio para escapar da sociedade totalitária (o bem-estar é o máximo absoluto aqui) que é encarada pelos outros com naturalidade igualmente não é uma ideia original.

Depois do pós-modernismo, em que tudo é fragmentário, The bothersome man se apresenta como uma colcha de retalhos, um patchwork de várias outras obras distópicas. Talvez a única novidade deste filme distópico em relação aos outros é a solução que a sociedade distópica dá para o elemento destoante. Nas outras obras distópicas, ou o personagem principal (que, ao longo da estória adquiriu consciência da estrutura que o cerca) se integra na sociedade, ou morre, ou consegue fugir. Neste filme, Andreas, por não conseguir ser feliz, é expelido, deportado pro que parece a Sibéria.

Na resenha do Robson sobre Mad Max II, é defendido que a distopia nos diz muito mais sobre o presente do que sobre o futuro. Se a expulsão do protagonista que não se enquadra na sociedade é o único elemento original do filme, talvez sua inteção seja denunciar a dinâmica atual em que vivemos: é preciso se conformar para não ser descartado. O rolo compressor do desenvolvimento e progresso não tolera as minorias nem os alternativos, porque se esforça para homogeneizar as diferenças.

Nenhum comentário: