sábado, 1 de setembro de 2012

Diante do diferente

Estou lendo O último da tribo - a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia, de Monte Reel, traduzido por Marcos Bagno. Trata-se da tentativa da Frente de Contato da Funai (integrada basicamente por Marcelo, Vincent, Altair e os índios Purá e Owaimoro) para estabelecer contato com um único índio isolado e desconhecido, com o propósito de provar para a Funai em Brasília que o índio existe e tem direito à terra que habita. Nessa busca que se dá pelas florestas do sul do estado de Rondônia, acontecem vários confrontos com os fazendeiros, madeireiros, burocratas, advogados, senso comum etc. Recortei três passagens de confrontação com o diferente (choque entre o branco e o índio, o tradicional e o moderno após o contato; choque ao ver que o igual é diferente; choque ao entender o paradoxo que é fazer contato com um isolado para que ele possa viver isolado) que tiveram desdobramentos marcantes:

"Nas caçadas, enquanto todos os demais carregavam armas de fogo, Marcelo levava seu arco e flechas. Em vez do estouro retumbante de uma espingarda, queria ouvir a nota suave da corda do arco sendo puxada, o murmúrio sibilante da flecha, o súbito silêncio após o contato. É claro que, quando ele mirava um pássaro numa árvore, quase sempre ouvia um som menos poético: o baque da flecha quando ficava presa num galho alto. Mais uma flecha feita à mão, o que representava um dia inteiro de trabalho, se perdia nas alturas inacessíveis da floresta.

Os índios o consideravam um sonhador ingênuo, até que um dia, durante uma longa caçada, ficaram sem balas de espingarda. Quando caminhavam de volta à aldeia, viram um bando de caititus fuçando entre as folhas da pista adiante. Todos olharam para Marcelo e para seu arco e flechas.

[...]

Aquilo marcou para a tribo o início de uma espécie de retorno à tradição. Poucos meses antes, os Xavante do Mato Grosso entraram em conflito violento com madeireiros, e o governo começou a retirar suas armas, deixando-os à mercê da habilidade de arqueiros que tinham ficado enferrujadas à medida que a integração da tribo ao mundo moderno se tornava mais intensa. Os Negarote ouviram falar das dificuldades dos Xavante e decidiram que talvez Marcelo tivesse alguma razão: um retorno ao arco e à flecha podia ser sensato. Assim, por um ano e meio, eles abandonaram voluntariamente as armas de fogo e recomeçaram a entalhar flechas. O som das flechas no ar era uma vitória para Marcelo: o tradicional tinha derrotado o moderno.

Mas a alegria durou pouco.

No início dos anos 1990, a escalada da pressão sobre os Negarote para que vendessem madeira de suas terras tinha chegado à beira de uma guerra. Empresas madeireiras estavam negociando com tribos por toda a região, trocando alimento e armas pelo acesso ao mogno existente em suas reservas. Os Negarote, em parte por causa da insistência de Marcelo, se recusaram. Outro subgrupo dos Nambiquara - os Nambiquara do Campo - foi recrutado por madeireiros para pressionar os Negarote a entregar sua madeira. Madeireiros e garimpeiros começaram a contratar índios daquela tribo para servir de guias armados durante incursões no território dos Negarote. A ideia de arcos e flechas de repente pareceu estranha. Os Negarote pegaram suas armas." (p. 35 - 36)


"[O macaco-prego de Owaimoro] era uma criaturinha hiperativa, um novelo irrequieto em perpétuo movimento, ávido por agradar, empoleirado no ombro de Owaimoro. Certo dia, Owaimoro seguiu Altair para caçar macacos perto da aldeia Kanoê. O macaco-prego, como de hábito, estava no ombro dela. Em retrospecto, pode ter sido um engano.

Para atrair macacos, Altair imitou seus uivos assobiados. Ficou parado na floresta, soltou um chamado e então inspecionou a copa das árvores em busca de algum sinal de resposta. Mas naquele dia seus chamados não estavam funcionando. O macaco-prego de Owaimoro parecia divertir-se com as tentativas de imitação de Altair e o corrigiu, oferecendo um assobio genuíno, como se acreditasse que Altair precisava de uma referência para a coisa autêntica. Altair estimulou o macaco a prosseguir.

Em pouco tempo, um pequeno grupo de macacos respondeu ao chamado balançando-se através das copas das árvores na direção de Altair, Owaimoro e seu mascote. Altair esperou até que um deles se aproximasse o bastante, fez mira e puxou o gatilho. Um macaco caiu morto da árvore. O mascote de Owaimoro observou tudo se desenrolar com uma expressão que Altair só pôde interpretar como de atordoado horror.

A partir daquele instante, o macaco de Owaimoro não conseguia ficar de modo nenhum perto de uma arma. Se Altair ou Marcelo se aproximavam com suas espingardas, ele se escondia atrás de Owaimoro e cobria os olhos." (p. 109)


"Todos os que desejavam que a equipe fizesse contato - os antropólogos e linguistas que queriam estudar sua cultura, os diretores da Funai que precisavam de mais informação antes de poder demarcar sua terra -, nenhum de seus desejos importava tanto quanto os do índio. Estava claro para o pessoal da Frente de Contato que seu trabalho só estava tornando as coisas piores para o índio e que, a despeito do que tentassem, era improvável que ele cruzasse a fronteira [de isolamento] que tinha estabelecido. Se tivessem no lugar dele, todos achavam que também teriam resistido ao contato.

Marcelo precisava dizer aos chefes que não sabia mais sobre o índio do que sabia antes da expedição. Mas se perguntava por que a Funai precisava saber mais sobre o índio para lhe oferecer proteção. Era óbvio que se tratava de um índio isolado e, segundo a Constituição, bastava isso para lhe dar o direito sobre a terra e o direito de viver conforme seus costumes." (p. 140)

REEL, M. O último da tribo - a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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