sábado, 19 de maio de 2012

Aula de fitogeografia no campo

Balsa para Humaitá
Faz tempo pedi que Narcísio me chamasse quando fosse a campo. Visita guiada à vegetação amazônica já era um sonho antes mesmo de vir para a Amazônia. No começo da semana, meu nome passou a integrar a lista de pessoas que iriam a campo no sábado. E como trabalho em regime de DE (dedicação exclusiva), tive que pedir autorização para me deslocar a Humaitá. Narcísio mandou e-mail com recomendações e dois textos sobre fitogeografia. Li os textos e segui a recomendação de adquirir galochas.

Chegado o dia, nos encontramos cedo na frente da Reitoria. A neblina (indício de dia quente pacas) se dissipava na cidade, mas ainda cobria o horizonte do rio. Tivemos muita sorte com a balsa na ida e na volta.
A ponte de perto
O texto de um alemão, escrito em inglês, de 1986, com dados coletados em 1975, é a primeira e mais exaustiva descrição desse tipo de vegetação que o autor chama de savana. Não chama de cerrado, porque toma como parâmetro o cerrado central do Brasil. Narcísio (curador do herbário) chama de cerrado, Lafayette (que estuda árvores) chama de savana. O curioso é que essas savanas são ilhas na paisagem de floresta amazônica. Normalmente, o fator mais decisivo na diversidade de vegetação é o clima. Mas aqui há floresta e cerrado convivendo lado a lado.
Narcísio
A explicação para os diferentes biomas é o solo arenoso e argiloso, que impede a drenagem da água. Formam-se charcos (galochas são uma maravilha!) e lagoas em que o solo é pouco oxigenado. Outra explicação, também ligada ao solo, é a profundidade do solo.
Aula na savana
Aprendi que o fogo é parte integrante do cerrado. As cascas duras e grossas das árvores são uma proteção, o capim queima como combustível, deixando novos nutrientes para as sementes sobreviventes. E as sementes aprenderam a se proteger contra o fogo.
Borboleta no chapéu do Narcísio
As folhas das árvores e arbustos são bem diferentes. Ou são bicolores, tendo no verso uma coloração dourada, ou são peludinhas (para liberar calor mais facilmente) ou são duras a ponto de serem usadas para lixar unhas e panelas sujas.
Muitas folhas são bicolores
Pelo que entendi, todas as árvores e arbustos daquela savana que vimos têm flores (e frutos).
Não lembro dos nomes das plantas
Um dos alunos tinha o costume de se agachar quando parávamos para ouvir explicações. Encontrou essa carnívora, que nunca tinha sido documentada nessa região. De repente pisar no chão passou a ser um ato realizado com cerimônia e cuidado, porque logo entendemos que o solo úmido estava cheio delas.
A grande sensação foi essa carnívora (minúscula)
Narcísio costumava ficar pra trás, coletando, etiquetando e separando amostras de plantas.
Carregando o saco de coleta
As margens do cerrado têm charcos com pseudo-buritis (buriti mesmo é maior e não tem espinhos no tronco) e floresta (à esquerda).
Charco
As quaresmeiras de charco (Leandra?) são pequenas, nada comparáveis com as da Mata Atlântica.
Quaresmeira
Entramos no meio da floresta. Os principais diferenciadores entre a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica são epífitas (bromélias, orquídeas etc.) e formigas. Aqui há poucas epífitas e muitas formigas.
Floresta de terra firme
Narcísio riu quando usei a palavra biossocial, mas os biólogos falam em famílias, indivíduos e comunidades.
O caminho que nossos passos fizeram
Ao meio-dia, almoçamos no ônibus e seguimos para a sede da ESEC (Estação ecológica Cuniã) para descansar na sombra. Dali pegamos a estrada de volta, entramos três vezes à esquerda, à procura de outra savana. A segunda era mais encharcada (e viva as galochas!) e mais cheia de manchas. Eram visíveis áreas de capim alto, capim baixo, capim verde, capim amarelo. Novamente, o tipo de solo e sua profundidade determinavam a vegetação.
Outra zona de savana
O texto do alemão de 86 destacava duas árvores como dominantes na região. Não lembro da primeira, mas na nossa segunda savana, encontramos a Curatella, ausente na primeira, também chamada de lixeira (de lixa, não de lixo).
Curatella Americana, finalmente
Enfim, tenho a sensação de ter entrado num outro universo hoje.
Ignorus completamentis

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